sexta-feira, 29 de julho de 2011

Vida adulta / 12

MIL NOVECENTOS E OITENTA E QUATRO



Recolhemos o gato

na madrugada de sábado,

recém-nascido, ainda com os olhos fechados.



Como uma mãe a um filho,

vigiamos-lhe o sono,

compramos um biberão e leite em pó,

uma tetina,

uma manta de reduzidas dimensões,

branca,

com um desenho negro no dorso,

para lhe lembrar a raça.



Não tendo resistido,

morreu serenamente,

num súbito vagido

e o pêlo encharcado,

quem sabe se pelo esforço

da grande travessia.



Por última mortalha,

metemo-lo num sobrescrito,

para continuar a viagem.




(in Açogue, Corunha, Espiral Maior, 2009)





Foto: © de Amadeu Baptista

Sem comentários:

Enviar um comentário