terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Os Selos da Lituânia / 12


 12,
masturbo-me vai para três ou quatro anos
e estou só pele e osso.
na minha cara abriram-se crateras
que mais do que com a acne juvenil têm a ver
com o meu propósito lunar,
rebelde e deslumbrado,
por não querer conter a natureza
e, por ela, ultrapassar a última fronteira
de uma libido pertinaz, sem mais remédio
que ter que a exercer.
segundo creio, não tarda e estou cego.
é isso, pelo menos, o que prior avisa,
enquanto, com certeza, estou cego é dos ouvidos
para não ter que lhe ouvir a litania sonsa.
à noite, indo para a cama, não vou
para adormecer, mas para acordar
definitivamente, fazendo do desejo
isto que não sei porque me chama
mas se institui como uma celebração,
ora porque me morde e pica o sangue,
ora porque um rio
ambrosiano palpita entre os lençóis
em que me encontro nu, enérgico e pronto
a recomeçar a injunção premente
a que chamo oblação, por ser palavra rara,
passível de escutar-se nas aulas de moral,
a que, quando estou distraído, estou atento.
não sei se acabarei por me esgotar
nisto em que ando, ou se estou louco
por me terem marcado uma consulta
num psiquiatra, amigo desta casa,
sob o pretexto absurdo de que ando alheado
de tudo à minha volta e leio em demasia poesia.
não faço ideia do que dirá o médico,
que presumo ser parecido com o freud,
de bata branca e barba grisalha,
sempre a tomar notas e a pôr questões em tudo
sobre os sonhos que recorrentemente me acometem.
de ciência certa sei que nada
me apoquenta muito para além do que é normal
da minha idade, que tenho sem porquês,
e se injurio, como dizem, o corpo muitas vezes
é porque sou inocente e o fascismo
pôs os rapazes longe das meigas raparigas,
ou por má consciência, ou o absurdo
de impor aos costumes a premência
vital de um sacrifício sem sentido.
ah, eu mordo a almofada, eu faço
do prazer o que me estremece a alma e amplia
o fogo concreto de querer viver
sem qualquer censura ao corpo,
profícuo e viril, por mais cegueira que me atinja os olhos
por hoje não voltar a ver algumas das vizinhas
na correnteza intrépida
com os mamilos espetados debaixo das blusas,
as vulvas palpitantes sob as mini-saias,
as línguas lânguidas de fora da boca
a fazer-me caretas pela melancolia densa.


in Os Selos da Lituânia, Lisboa, & Etc, 2008

© do poema e da foto: Amadeu Baptista~





segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Os Selos da Lituânia / 11

11.
atrasei-me muito no caminho da escola
para casa porque o bosque
enfeitiçou os meus sentidos.
fiquei a olhar as pedras e as árvores
e a tocar o chão com as mãos para perceber
de que matéria a luz é feita ou como podem
certos pássaros voar, assim tão negros,
como se fossem o segredo que se encontra
entre o ágil e o fluido, a limpidez
e o abundantemente imponderável.
comigo ia a evanescência das coisas, o caminho
em que se decide tudo, a fonte de água
pura que os animais procuram, esse fumo
invisível que atravessa o coração
e nos há-de acompanhar durante a vida,
se à vida devolvermos claridade
pelo que vemos e ouvimos, esse frágil
rumor de mil cintilações à nossa volta.
caía a tarde célere e a noite próxima
fez-me despertar deste fascínio, o regresso
impunha-se e a inocência
poderia seguir num outro dia
o rastro que na tarde havia descoberto.
tinha que me apressar, ainda havia
uma longa distância a percorrer
entre as cintilações e a casa inatingível.
nunca tive uma relação pacífica
com a mulher que me criou. quando cheguei,
abriu-me a porta impacientemente,
pressenti-a nervosa e pude ler-lhe
uma infinita censura no rosto,
não bem pelo atraso com que vinha,
mas porque é mesmo assim a crueldade,
com aqueles traços finos de quem sabe
que há sempre castigo exemplar
para um miúdo de nove anos. em silêncio,
indicou-me a porta das traseiras e faz-me entrar
na garagem deserta àquela hora,
onde uma fila de garrafas e um monte de jornais
foram a fria testemunha de como pagaria
o facto de ter visto uma libélula
e perscrutado o vento. não me bateu
com as mãos, ou mesmo com um cinto,
mas com uma velha correia de borracha com arame dentro  
que estava ali abandonada de um arranjo
do carro, há já bastante tempo.
não verti uma lágrima.
nem disse uma palavra.
o bosque ainda hoje me extasia
e a esta mulher morta desejo
a terra leve.

in Os Selos da Lituânia, Lisboa, & Etc, 2008

© do poema e da foto: Amadeu Baptista~




sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Os Selos da Lituânia / 10

10.
primeiro dia de aulas, nunca vi
tantas crianças juntas. tenho medo
deste desconhecido, onde paira no ar
um cheiro grave a ameaça e giz.
em casa, tentaram convencer-me
de que é bom saber escrever e ler,
mas só a perspectiva de ter que sair cedo
e de ficar fechado numa sala,
durante tanto tempo, dá-me volta
ao estômago e vomito ali mesmo.
não compreendo a azáfama desta gente
que se aglomera num corredor sombrio,
decorado com uns desenhos tristes
de cores muito desbotadas e plantas
cinzentas, que há meses
não devem ser regadas. as mães
acotovelam-se no exíguo espaço
e incitam-me a que vá ver o recreio
onde uma árvore raquítica sobressai
e um anexo em ruínas contém
dois lavatórios, um urinol colectivo
e três latrinas, de onde vem um odor
nauseabundo e em que é preciso
ficar acocorado para fazer o que é preciso.
de novo agoniado, alheio-me dos rapazes
que correm sem destino e das meninas
vestidas de lavado, sentadas nas escadas
contíguas ao refeitório, e volto para dentro,
onde ainda dura aquela confusão, sem nenhum sentido.
de súbito entrevejo a sala onde
decorrerão as aulas, um latifúndio
de quarenta carteiras com tinteiros
de louça branca, esbotenados
e sujos e um estrado descomunal com uma secretária
castanha picada do caruncho e uma cadeira
em frente ao quadro negro, ladeado
por duas fotografias emolduradas
que dominam o espaço, representando
um militar algo embaciado e um civil
seráfico de nariz adunco. entre as molduras
um crucifixo ostenta uma teia de aranha
que vai até ao tecto e nas paredes
repetem-se os desenhos que vi no corredor,
além de vários mapas de portugal continental
e das províncias ultramarinas pintalgados
pelas moscas e a reprodução de um homem
que muito simplesmente me apavora,
porque o desenho mostra como ele
é por dentro, com as vísceras à mostra,
o coração, o pâncreas, os dentes amarelos,
o fígado, o abdómen, a cerviz,
as veias, a boca entreaberta, a garganta, os brônquios,
a traqueia e outras atrocidades indizíveis,
como, por exemplo, não ter sexo. compungido,
peço para sair dali para fora, mas logo avisam
de que se me ponho a chorar é bem provável
que piore o meu estado. a senhora
directora detesta seres mimados
e usa facilmente a palmatória.
alheio-me daquilo, sem saber
o que fazer para ter paz.
começo a ficar tonto, com a cabeça
a andar à roda, como se o chão se abrisse
debaixo dos meus pés e nem sequer voar
me fosse permitido. manhã, manhã,
que a tua luz tão nítida me proteja.


in Os Selos da Lituânia, Lisboa, & Etc, 2008

© do poema e da foto: Amadeu Baptista



quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Os Selos da Lituânia / 9

9.
a casa sobrepõe-se e confunde-se
com outras casas que já não conheço
ou conheço apenas se a memória
for de casa em casa procurar
alguns instantes que de todo se perderam.
aqui menti sobre o paradeiro
de um punhal que estava guardado
na gaveta de baixo do roupeiro.
ali apavorei-me pela sombra
que senti perseguir-me na cozinha,
onde numa tigela ainda fumega
o sangue de uma galinha degolada.
deste lado do muro reconheço
um homem louco mas apaziguado
pelas árvores em redor e o rio, ao fundo,
que corre pelo mundo até ao cabedelo.
além está uma cigana a ler a sina
e as criadas da casa assimilam
o oráculo das palavras como sendo
uma lei peremptória que se ergue.
nesta despensa obscura cheira a fruta
e há uma gata preta que fez ninho
sobre os sacos de cimento amontoados
entre toda a espécie de acessórios para a pesca
e latas de diluente e gasolina
e caixas com sementes e um ancinho.
pela janela aberta deste quarto
entrou a trepadeira florida
e deste lado da cama o enfermeiro
fez o curativo a uma criança
que rasgou os joelhos e passa aqui as tardes
enquanto a mãe não arranja trabalho
e o pai continua detido na polícia
política por actividades ditas subversivas.
a este espaço só vimos pela páscoa.
no centro desta sala há uma mesinha
com uma garrafa de vinho fino já aberta
e biscoitos sortidos que se guardam
numa caixa prateada forrada com um pano
bordado a fio de ouro, igual aos paramentos
que o senhor padre enverga.
a família reúne-se e ajoelha
muito compenetrada do momento
e eu fascino-me pela cruz e o menino jesus
que cada um de nós tem que beijar no pé.
aqui espreitei pela fechadura
e vi a mulher nua e o luís
esconder num lenço azul a hemoptise,
procurando refúgio na varanda
para que o não pudessem ver naquele estado.
ali abri um baú com meadas de renda cor de rosa
com um odor intenso a cânfora, que me extasia,
por aquele cheiro lembrar o cobertor
de lã em que dormi certa noite de grande tempestade
com trovões e relâmpagos formidáveis.
no patamar de paredes brancas
dei o meu primeiro beijo, pela primeira vez fumei
e vi o mar inamovível atravessar o inverno,
quando a terra tremia e toda a infância
enchia até ao tecto a casa
e um denso mistério ampliava
os recantos do sótão com os uivos indizíveis
dos cães da vizinhança. ah, as casas,
as casas sobrepõem-se e confundem-se,
as casas que habitei e que me habitam,
de onde olho fixamente para fora
para que a demolição se suspenda
ou tenha início.


in Os Selos da Lituânia, Lisboa, & Etc, 2008

© do poema e da foto: Amadeu Baptista



segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Vitor Silva Tavares


Morreu o meu amigo Vitor Silva Tavares e estou muito triste.






Vitor Silva Tavares, 1937 - 2015