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sexta-feira, 18 de dezembro de 2015
sábado, 3 de maio de 2014
Fragmentos Tunisinos
Com a
devida vénia, reproduz-se o texto de Henrique Manuel Bento Fialho, no blog ‘Antologia
do Esquecimento’, 27 de Abril de 2014, sobre o meu livro 'Fragmentos Tunisinos':
Uma leitura de ‘Fragmentos
Tunisinos’, por Henrique Manuel Bento Fialho:
Há quem diga que o título de um
livro é aquilo que o encerra, devendo o mesmo ser a página derradeira da obra
publicada. Mas tomemos de princípio o título da mais recente recolha de Amadeu
Baptista (n.1953), autor de uma das mais vastas obras da poesia portuguesa contemporânea
com reconhecimento comprovado nos múltiplos prémios de que vem sendo objecto. É
certo que no universo algo complexo da poesia portuguesa os prémios são, por
vezes, vistos com desinteresse e até algum desprezo, não sendo, porém, de
menosprezar a necessidade que impele o autor ao juízo dos júris. É assunto
sobre o qual teríamos muito a dizer, embora seja mais importante sublinhar
neste momento que, por ainda não terem sido premiados, estes ‘Fragmentos
Tunisinos’ ocupam um lugar especial na extensa produção de Amadeu Baptista.
O título aponta para um espaço
geográfico concreto, a Tunísia, outrora um dos mais importantes centros
comerciais do Mediterrâneo a partir da mítica cidade de Cartago. Desses tempos,
restam ruínas e vestígios. Ou seja, fragmentos. Que a este conjunto de poemas
se tenha dado o nome de fragmentos é uma feliz decisão, pois assim
interpretados os poemas surgem também como testemunho do contacto com uma
herança cultural da qual nos restam meros resquícios.
A poesia de Amadeu Baptista
mantém desde sempre um diálogo muito profícuo com a história e com a cultura,
estando pejada de interlocuções onde o legado civilizacional se vai
compreendendo a partir dos seus elementos mais consistentes: textos sagrados,
obras de arte, ruínas. No entanto, estas interlocuções não se processam com uma intenção epopeica. São, entes de mais, sublinhados de um tempo que passou
e nos ajuda a contextualizar a negra miséria em que nos encontramos. É
imaginando o grande edifício a partir das ruínas que dele restam que melhor
compreendemos o tempo e, com ele, a história, a nossa enquanto povo mas também
como indivíduos.
De resto, esta compreensão
estende-se à percepção que temos dos efeitos do tempo no nosso próprio corpo.
Elemento essencial nesta poesia, o corpo aparece emoldurado em ambientes
contrastantes. Se, por um lado, ele suscita a expressão de um forte erotismo,
por outro lado arrasta o verso para reflexões onde o que parece estar em causa
é a ameaça de uma vitalidade que o corpo, por múltiplas razões, já não exibe.
Sucede assim em livros anteriores, embora nos poemas de ‘Fragmentos Tunisinos’
tão contraste não esteja tão presente. A segunda pessoa a que frequentemente se
dirigem surge tanto presente como ausente, não sendo clara a sua definição.
E aqui cabe destacar a
dedicatória que abre o conjunto: memória para al-Um’tamid Ibn’ Abbâd. Poeta
luso-árabe, al-Um’tamid (Beja, 1040) personifica pela sua biografia a ruína de
um homem, tanto pela trágica e histórica amizade com Ibn ‘Ammar como pelos anos
do desterro, presídio e miséria. Cito Adalberto Alves: «Entre a memória de um
passado auspicioso e um amargurado presente vive al-Um’tamid o seu drama
pessoal, que exprime em versos de excepcional força lírica. Da adversidade faz
uma elegia. Das tristezas do quotidiano extrai poesia: um bando de aves
entrevisto das grades da cela; a grilheta que lhe rói o tornozelo…» (in O Meu
Coração é Árabe). Creio que os ‘Fragmentos Tunisinos’ de Amadeu Baptista,
asseguradas as devidas distâncias, reflectem um sentimento similar.
Ao lermos os 19 poemas, com
títulos que convocam locais diversos da Tunísia (cidades, oásis, ilhas…), acompanhamos
uma viagem que não ressoa apenas o deleite do turista embevecido com a paisagem
- «Levo na Nikon os teus pés descalços / - os caminhos do sagrado / são
insondáveis» (p.25) –, sublinhando antes
o sentimento ambivalente do nómada cuja errância é também uma profunda
experiência de solidão, pela ausência e pela distância que experimenta face ao
passado revisitado e ao presente vislumbrado. O léxico de alusões árabes
disseminado pelos poemas apela à nossa imaginação, na mesma medida em que
reconstrói paisagens das quais nos restam apenas fragmentos. Porque a viagem é
também a experiência onde o imaginário desce à realidade:
MEDENINE
Deito a cabeça na terra ocre sem fim
e sou um gigante,
troglodita.
Para que lhos compremos, as crianças atiram-nos aos pés
pequenos colares feitos de miolo de pão
– os passos da civilização jamais reconheceram os pequenos
troféus.
Entre as embalagens de película fotográfica
e o par de camaleões que a rapariga patenteia
passamos nós, como cordeiros degolados.
Nem para a turista alemã
a fascinação cessa
– contém o palmar a floresta negra.
Trinta dinares pediu Mohammed
à turista inglesa
– e ninguém regateou.
São ainda mais vastos
os grandes perigos do deserto
sem a tua presença.
Em nenhuma medina vi à venda
o azul
dos teus olhos.
(citações: in Fragmentos
Tunisinos, Volta d’Mar. Nazaré, 2014)
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Rui Almeida
OS LIVROS DOS MEUS AMIGOS MEUS AMIGOS SÃO
Leis da Separação é o novo livro de Rui Almeida,
que acaba de ser dado à estampa, com a chancela da Medula.
Fica o primeiro poema do livro:
Não digas a ninguém que estás contente,
Dorme, sossega,
Livra-te da vigilância
Dos que esperam demais de ti.
Não digas da alegria nem a ti próprio,
Amua, faz de conta
Que és mais rápido
Que a incoerência deles.
Dorme, pousa
A cabeça na incerteza
Do mundo e
Sossega a brandura das mãos.
Os que mandam são feitos
De papel reciclável.
(in Leis da Separação, s/l, Medula, 2013)
Foto: © Amadeu Baptista
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
sábado, 13 de julho de 2013
FESTIVAL DE POESIA DE LODÈVE
UM POEMA DE ' OS SELOS DA LITUÂNIA'
COM TRADUÇÃO FRANCESA DE FRANÇOIS-MICHAEL DURAZZO
écrire peut être, naturellement, avoir trois ans,
se trouver sur la plage un jour de grande chaleur
et sentir quelqu’un nous prendre par la taille
et nous plonger dans les flots violents
d’une mer déchaînée, en jetant un regard
sur la foule tout autour, les bonnets jaunes,
les bikinis colorés et le vendeur
de cookies, avec sa casquette ornée d’une ancre,
qui arpente la grève de long en large
depuis la roche jusqu’aux cabines de douches.
remonter dans la houle à la surface et de nouveau
plonger en étouffant un cri dans sa gorge
pour voir le fond marin, ces algues
menaçantes dans leur ballet aqueux
que les larmes rendent encore plus dense.
sinon, à part ça, ce peut être, précisément,
avoir une connaissance profonde du mot
laryngite, rester cloué au lit par la rougeole
derrière une fenêtre sur rue à l’abri
d’une toile rouge du sol au plafond,
mourant de soif sans même pouvoir
mouiller ses lèvres. ou bien passer l’après-midi
entier à entendre quelqu’un atteint
d’une sclérose multiple gémir, retomber
en enfance et peu à peu mourir
de dragées blanches. écrire peut être, précisément,
aller à l’école avec la peur au ventre, et souffrir
les terribles conséquences de la cruauté
des maîtres envers les enfants,
les pages de copie à la dérive entre bave et morve,
les jambes qui flageolent à force de paniquer,
les doigts endoloris et le cœur
battant. ou encore,
écrire peut être, probablement,
régler ses comptes avec son passé,
ou même le souvenir de cette nuit
où le vent fouetta notre chambre, fit voler
les tuiles des maisons environnantes, tuant
l’élégante dignité du chat qui traversa
la route et fut renversé par un seau
bosselé. sinon, ce peut être le cheval inquiet
parfois aperçu dans la prairie, ou des animaux
égorgés, aux viscères entrelacés
en écheveau sous l’appentis, près du linge
séchant sur l’étendoir. ou la nuit,
immense et perdurable, où quelqu’un
frappa à notre porte sans entrer, quand
à la lueur d’une lanterne nous tentions de distinguer
sous la pluie encore battante
les claies qui entouraient l’enclos,
la girouette en forme d’avion, les chardons
du terrain vague. sinon, à part ça, ce peut-être,
précisément, emprisonner son visage quelque part
pour ne pas céder, partir torse bombé en quête
du rythme des passions, les plus voraces,
celles capables de pousser au meurtre, de tourner
les têtes, irruption d’un ciel d’ombres
vraies, même s’il n’y a pas de ciel,
même s’il n’y a pas d’ombres
et que dans les lettres ne resplendisse
que peu de chose.
© François-Michael Durazzo et Amadeu Baptista
Mais informações sobre o Festival: http://www.voixdelamediterranee.com/
Mais informações sobre o Festival: http://www.voixdelamediterranee.com/
quinta-feira, 27 de junho de 2013
GREVE GERAL
SAÚDO O SOL, A INDIGNAÇÃO, A GREVE GERAL DOS TRABALHADORES PORTUGUESES!
CONTRA OS MENTECAPTOS QUE NOS GOVERNAM, CONTRA OS VERMES E OS ABUTRES QUE NOS QUEREM ESCRAVIZAR!!!
sábado, 25 de maio de 2013
Nuno Dempster, Uma Paisagem na Web
Os livros dos meus amigos meus amigos são:
(...)
Eis o país
de há dois mil e duzentos anos
que não sei se agoniza,
os pequenos países hoje são
paisagens na Web
isentas de sinais,
mas sinto a predação,
ameaça tocada pelo vento sul
que traz a chuva e as más novas
e alaga o susto,
muito depois de Galba ter passado
na serra ali defronte.
de há dois mil e duzentos anos
que não sei se agoniza,
os pequenos países hoje são
paisagens na Web
isentas de sinais,
mas sinto a predação,
ameaça tocada pelo vento sul
que traz a chuva e as más novas
e alaga o susto,
muito depois de Galba ter passado
na serra ali defronte.
(...)
Nuno Dempster
Uma Paisagem na Web
& Etc, 2013
segunda-feira, 20 de maio de 2013
domingo, 28 de abril de 2013
Alfredo Ferreiro escreve sobre dois dos meus livros
Sempre atento e generoso o meu amigo galego Alfredo Ferreiro escreve sobre dois dos meus livros, tal como a seguir se transcreve, por cortesia do blog http://olevantadordeminas.blogaliza.org/
ventrículo atormentado
A lectura dun novo libro de Amadeu Baptista sempre supón enfrontar unha experiencia que non me deixará impasíbel. Por iso cando comecei a ler O ano da morte de Xosé Saramago (2010) e os niveis da máquina estético-intelectual subían até máximos raramente atinxidos na lectura, nada me resultou estraño.
Posúe este libro un estilo que boga entre a tormenta da imaxe sorprendente e o mar en calma do discurso directo sobre os asuntos vitais máis vulgares. Non oculta, neste sentido, unha marcada ideoloxía naquelas cuestións da rúa que todos pisamos, nunha actitude de outsider tan habitual nel, sen obviar unha crítica mordaz das políticas ultraliberais que o pobo despoxan do que é en xustiza froito do seu suor; hai mesmo unha denuncia dos gobernos que levan a cabo o indigno espolio dunha sociedade non ben acabada de matar:
« A desgraça de um país mede-se na distância que vai das instâncias do poder
à esperança dos seus habitantes, o deserto especializa-se quando a crise
se amplia, chegam os usurpadores e o equilíbrio das emoções descontrola-se…»
«… o Nuno vem de Viseu, onde tão bem notou que é o crucifixo
um punhal que se usa à cintura,
e fazemos uma grande fogueira disto tudo,
lume puxado a tudo o que seja comburente,
com excepção, talvez, de L’Obsservatore Romano
que no Inferno arderá com maior jurisdição».
Ofrece, ademais, poderosas referencias a unha infancia obscura e de difícil asunción que xa percibimos noutras obras do autor, e que resaltan coa dureza daquilo que sempre nos doe e á vez nos impele a realizar un esforzo permanente na procura da felicidade, algo que no poeta se manifesta como unha caza pertinaz da beleza e a verdade, dúas faces da mesma moeda:
«… era eu criança e procurava em vão
a tumba de um irmão,
e uma pedra bastou para me serenar a angústia,
ainda que do meu irmão nunca mais soubesse,
nem de minha mãe,
a quem beijei pela última vez a notar-lhe um ferimento no rosto,
um ferimento que só a terra cicatrizará,
uma terra compacta para tantos cães,
uma cicatriz igual à que tenho na alma,
se alma é o que na minha cicatriz se incrustou».
Mais estas ramas, a crítica política e a áspera lembranza do pasado, son aspectos do poemario que acompañan un tronco principal, unha liña vertebral de contido que fai referencia á poesía mesma, ou mellor á arte escrita en sentido amplo. Esta é a razón pola que con frecuencia aparece a reflexión sobre a propia escrita, e pola que en varias ocasións se citan no poemario José Saramago (xa no título), Herberto Helder e Nuno Dempster. Porque a experiencia da escrita, sendo íntima e estando ligada a experiencias persoais, posúe no ámbito da publicación unha vinculación co alleo, sexa o lector, os outros autores, o mundo editorial ou en xeral o sistema literario.
A pesar de ter un tamaño máis reducido, quero tamén resaltar outra obra do autor, máis recente: Atlas das Circunstâncias (2012), que gañou o Prémio Literário Manuel Maria Barbosa du Bocage en 2009. Utilizando de forma moi libre o soneto, presenta Baptista a figura do poeta como un ser convulso, complexo e paradoxal, facto debido á súa función de espello do mundo, esa realidade que só pode ser representada mediante unha elocuente contradición de imaxes e sons:
« O poeta deseja a clareza e é afoito a perscrutar
o magma das palavras e os seus grumos.
Um enigma, ao fim da tarde, reitera-lhe o poder
indemonstrável das palavras…»
Presenta o libro tintes de gnosticismo laico, cunha perspectiva poética que resalta como instrumento útil para o coñecemento interior, para a perscrutación de todo aquilo que no ollar cotidiano non pode ser revelado.
E, como non podía deixar de ser na obra de Baptista, aparece a infancia retratada como un estadio de alta percepción do mundo nas súas grandezas e nos seus misterios, unha sabedoría natural que non debe ser esquecida para non caermos na soberbia de nos sentir o centro do universo.
E, como non podía deixar de ser na obra de Baptista, aparece a infancia retratada como un estadio de alta percepción do mundo nas súas grandezas e nos seus misterios, unha sabedoría natural que non debe ser esquecida para non caermos na soberbia de nos sentir o centro do universo.
Por todo o explicado atrévome a recomendar a lectura destas dúas extraordinarias obras. Mais hei de recoñecer que, se isto non fose unha actitude inxusta, contemplaría a hipótese de impoñer a súa inoculación por decreto poético a toda persoa afeccionada á poesía, convencido de que non habería moitas vacinas máis eficaces contra a falta de sentido artístico. E se cadra unha transfusión de urxencia para aquelas persoas que aseguran non entender o xénero.
Alfredo Ferreiro
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Nuno Dempster escreve a propósito de 'Açougue'
Açougue, de Amadeu Baptista
por Nuno Dempster
Em 2008, Açougue, livro de poemas de Amadeu Baptista, foi galardoado em La Coruña, Galiza, com o XIV Prémio de Poesia Espiral Maior. No mesmo ano, a obra é publicada pela editora que organiza esse concurso. Passados quatro anos da edição galega, foi editada este ano em Portugal pela & Etc.
Como os livros de poesia que conheço de Amadeu Baptista, uns com mais visibilidade que outros, Açougue obedeceu a um programa de concepção e montagem perfeitamente determinado: cada ano de vida do poeta, o seu poema, e cada poema tendo, como título, o ano em que se insere. Do poema Mil Novecentos e Cinquenta e Três, ano de nascimento do autor, ao Dois Mil e Oito, o ano do prémio e da edição galega, vão cinquenta e seis poemas; na edição portuguesa deste ano, o autor acrescentou quatro poemas, tantos quantos os anos que medeiam entre as duas edições. Portanto, Açougue saiu em Portugal com sessenta poemas.
Não tendo esta edição sofrido outras alterações que a junção desses poemas, é legítimo imaginar que Açougue poderia ser um livro em contínuo, digamos assim, os anos como marcos miliários da vida do poeta. Se viesse a ser reeditado novamente, não seria de rejeitar que essa edição fosse acrescentada de um poema por cada ano passado, se a anterior o foi. Esta particularidade faz-me pensar que, sob o mesmo título, poderíamos ter um livro que, em cada edição, se acrescentasse e, sendo o mesmo, não deixaria de ser diferente. Esta hipótese, a meu ver, resultaria num esquema original e numa surpresa, se tal fosse viável, quer por escolha do autor, quer pela realidade económica e editorial de hoje.
Amadeu Baptista reúne neste livro os temas que fundamentam a sua poesia. Pela estrutura concebida para a obra e da sua leitura, retira-se um claro sentido antológico, quer pelo espectro temático diria que total, quer sob o aspecto da forma, que vai da mancha leve do poema, de versos mais ou menos curtos (1) à mancha cerrada, de versos quase uniformemente longos (2) ou mesmo muito longos no caso do ultimo poema do livro, Doze Mil e Doze. Por outro lado, a forma vai do poema curto, ao médio, ao longo e ao muito longo, variantes que se encontram facilmente na vasta poesia de Amadeu Baptista. A estes aspectos soma-se o do discurso poético, alternando muito pontualmente com a norma, que é a poesia ser facilmente entendida, alternância sem mais significado do que uma variação própria da dita qualidade antológica, assumindo sentidos metafóricos a nível de poema (3), hermetismo tout court (4) e mesmo um caso de surrealismo (5). Curiosamente, estas excepções e variações encaixam com perfeição na ideia impossível do livro em contínuo, que ao longo da sucessão dos anos adquiriria forçosamente um carácter antológico.
Para lá destes aspectos formais da obra, menos interessantes para quem não se entretém – é o termo – a pensar nestas coisas com o teclado, temos a poesia de Amadeu Baptista, que Açougue representa amplamente
A infância com o seu cenário de lugares como origem primeira, Miragaia, o Norte, o cortejo dos seus mortos, o amor, o erotismo, o sonho, o dia-a-dia, o encontro consigo mesmo, as quedas decorrentes de se viver, a morte, por vezes um pendor metafísico, um pendor para o sonho do ser, para o inominado e o sentido da incompletude que suscita esse sonho. Uma poesia que é também mais da vida própria, mais do poeta e do seu entorno do que a relação com o mundo exterior, embora esta exista na poesia de Amadeu Baptista, mas pontualmente (6).
O olhar do poeta foca e retira ilações do que ou de quem lhe está próximo, o poeta incluído como sujeito, e, com frequência, exprime o sentir pensando em poesia, mais dedutiva que especulativamente, sobre os factos e circunstâncias que o poema apresenta, socorrendo-se por vezes do jogo da antítese nos seus versos, um dos modos de ampliar o sentido do poema.
Falar, pois, de Açougue é falar da poesia em geral de Amadeu Baptista, tão completamente estão os seus vectores de força neste livro, premiado num ano em que viu publicados mais cinco livros seus de poesia e em que arrecadou mais quatro prémios.
(1) pp. 10, 11, 12, 13, 14, etc
(2) pp. 53, 66, 75, 77, 78, 80, 85
(3) pp. 10, 43, 51
(4) p. 55, três últimas estrofes
(5) p. 87
(6) p. 77
Este texto também pode ser lido no blogue de Nuno Dempster, cujo endereço é: http://esquerda-da-virgula.blogspot.pt/
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Baptista-Bastos escreve a propósito de Açougue
Voz amiga, chamou-me a atenção para a crónica que Baptista-Bastos publica hoje no Jornal de Negócios, e que fecha assim:
«Um grande livro de um grande poeta
Façamos uma pausa neste turbilhão de causas e efeitos em que dolorosamente vamos vivendo. E leiamos, "Açougue", de Amadeu Baptista (edição & etc.), um dos grandes poetas portugueses, cujo recato, modéstia e discrição mais fazem aumentar a sua grandeza. Amadeu Baptista expõe, neste volume, uma vez mais, a qualidade incomum da sua poesia, jamais afastada do denso rumor da vida e das preocupações éticas (portanto estéticas) que constituem o edifício de uma obra. Amadeu Baptista pertence a essa rara estirpe de artistas que recusa o rataplã das estratégias de glória, e que representa um acto de liberdade e de protesto. Vale a pena seguir o poeta nesta aventura moral e intelectual muito própria e invulgar.»
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Arte Poética de Amadeu Baptista, por António Ferra
ARTE POÉTICA DE AMADEU BAPTISTA,
POR ANTÓNIO FERRA
Ficam-nos sempre alguns versos na memória e até os dizemos de cor, prontos a serem reavivados, quando encontramos em leituras algum eco dessas marcas.
The Child is father of the Man;
I could wish my days to be
Bound each to each by natural piety.
William Wordsworth (1)
Foram estes que emergiram e ganharam forma renovada ao ler «Atlas das Circunstâncias» (2), de Amadeu Baptista, amigo poeta que sigo de perto.
Na escrita de Amadeu assinala-se, antes de mais, um contraste entre os momentos de maior robustez da escrita e a delicadeza que coloca noutros momentos, cheios de afecto e infâncias mais ou menos codificadas (3), onde também se convive com a intensidade do texto poético feito na carne e no sofrimento - os seus “antecedentes criminais” (4), que incluem também amargurada denúncia da crueldade do homem sobre o homem e da degradação social, que de onde a onde vai assinalando. Quase sempre com o pão e os cereais presentes, e recorrentes, numa sacralização dos direitos mais básicos e preciosos da vida: O pão não é só migalhas, mas a força/ que põem as mulheres a amassá-lo/ e a perícia com que os homens/ nos campos o amansam.
Neste livro, com trinta e quatro poemas, logo nos coloca perante aquela ideia poética que me fez lembrar Wordsworth: O homem é, antes de mais criança./Tem olhos para ver e sabe ouvir/tudo o que se agiganta sobre as casas,/ A chama da candeia sobre a mesa/.
E a criança prossegue ao longo do livro: Rolam-se as palavras sob a língua, como seixos, /nesse tempo de débeis redenções. De calções/e crostas nos joelhos uma criança/sopesa-lhe a leveza, e intensifica-as/.
Até que chega à adolescência, numa ruptura, É quando a adolescência dispara pelos campos/ e colhe das origens sentidos sacros,/ ou numa indefinição transitória marcada por versos como estes: É anfíbia a adolescência do poeta./ Distinguem-se-lhe no torax barbatanas/ dorsais e pulsam-lhe , na garganta , pequenas brânquias…/ o que me faz lembrar o filme «Waterworld» com Kevin Costner a protagonizar essa adaptação aquática.
Depois, neste atlas das circunstâncias, chega-se à idade adulta, onde a cinza preenche o farto cabelo de Amadeu poeta e pessoa: Há palavras com que a cinza delimita/ a idade adulta do poeta, a sua serpe,/ a sua cítara, a sua asma/ que só um banho lustral há-de calar/.
Antes de terminar o livro, há um regresso à evocação da infância: Eis que o poeta vê, entre roseiras/ um cão preto e, assim, de súbito, remonta/ à sua infância e á infância do poema, / O pretexto foi o medo infantil do cão preto, fantasmas que nos podem sempre acompanhar. Mas para mim, neste contexto, a infância é também uma imagem do conhecimento. Não apenas na apropriação ingénua dos românticos, inspirados em Rouseau. Tal como na loucura e no sonho não existem neste estádio amarras racionais suficientemente fortes para travar os fulgores mortais, no último poema, onde escreve ainda a infância é boa conselheira se instiga /a que se desoculte o abismo…/
« I could wish my days to be bound each to each by natural piety.», posso eu terminar, inspirado pelo percurso ao longo deste atlas.
(1) William Wordsworth, - Oxford University Press, Selected Poems (Poems referring to the period of childhood).
(cf. http://funcionamento.blogspot.pt/2012/09/arte-poetica-de-amadeu-baptista.html)
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