terça-feira, 3 de maio de 2011

Paixão, 2003



APARECIMENTO DE CRISTO À VIRGEM

Não penses que morri por ter partido
ou que parti só por ter morrido.
Onde estive não estive e onde estou
não estive nunca. Não penses que me vês
só por me veres, ou que por não me veres
eu não existo. Nem penses que existo
se me vires, ou mesmo que existes
por me veres. Não penses que me amas
porque amas o que os teus sentidos
de mim sentem. Nem penses que me sentes
ou me amas só porque me sentiste e amaste.
Não somos nada e tudo somos sempre,
embora sempre eterna seja a eternidade
e a nossa eternidade não exista.



(in Paixão, Porto, Afrontamento, 2003)

Prémio Vítor Matos e Sá, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2001
Prémio Teixeira de Pascoaes, 2004

1 comentário:

  1. Um dos dez poemas mais bem escritos que alguma vez li.

    ResponderEliminar