quinta-feira, 26 de maio de 2011

Estrela de Bizâncio, 2010


(fragmento)

O tempo existe, eu conheço-o, tem apenas a ver com o que os olhos vêem mesmo, com essa parte corpórea que jamais se extingue dentro da cabeça e da alma, como um rastro de alta emoção marcado num mapa por milenares sinais de assombro e cristal. Nesse mapa páginas compactas fixam os dias e as noites que acontecem simultaneamente em mim, aqui vibra uma estrela, ali há um ramo de urze e de giesta, além há árvores, bicicletas, sacos de trigo, gente encarregada de recensear os habitantes da aldeia, gado, um ancião que procura provas irrefutáveis da existência de deus, um vedor de rosas, crianças que brincam às escondidas, um caçador furtivo que larga um furão à entrada de uma lura, um coelhinho branco, uma avioneta azul que sobrevoa a seara, uma nuvem com a forma de um dragão, uma andorinha no beiral do celeiro, uma urna aberta em frente à entrada lateral da capela nova, o cão a dormir na soleira da porta, o gato amarelo a lamber a pata, a primeira melancia, o primeiro melão, a debulhadora parada no final do lameiro, a ardósia partida em que a luz incide,  a lamparina acesa sob a sombra delida, o saco de batatas encostado ao taipal, a garrafa vazia que já ninguém procura, a foice pendurada sobre a porta, um violino e um arco guardados num estojo verde, o lençol branco acabado de passar, a tigela grená que à janela seca a marmelada, a tesoura de poda esquecida no alpendre, o candeeiro a petróleo que ninguém acende, um sapato a que falta o par, uma trança de mulher guardada numa renda, uma teia de aranha iridescente, os restos de uma fogueira, a sombra de uma espingarda, uma cesta com maçãs, um colchão em ruína, as contas de um rosário, a estampa de um leão, uma dentadura velha, um dedal e uma tesoura, uma meada de ráfia, um saquinho de sementes, um relógio sem ponteiros, um prato com moedas, um cinzeiro esbotenado, uma caneta sem tinta, a aba de uma mesa quebrada, a pega de um castiçal, um rebanho de pardais, o fuso, a lançadeira, uma coruja empalhada, um ramo de violetas, sete chaves ferrugentas, a opa do sacristão, um sino que ninguém toca, livros de deve e haver, grosas e grosas de lápis, ainda por afiar, um prato pintado à mão, pingos de tinta no chão, diversos frascos vazios, um lacrau sob uma pedra, duas gotas de água benta, a miniatura de um carro com um burrico a puxar, são josé e o menino numa gravura rasgada, folhas secas, uma panela furada, uma lata de sardinhas, a planta de uma casa, um selo da lituânia, cinco quilos de laranjas.


(in Estrela de Bizâncio, Torres Vedras, Ed. Livrododia, 2010)


Prémio de Poesia e Ficção de Almada, 2005

1 comentário:

  1. Gosto mesmo do que você escreve por vários motivos, mas gosto muito da narrativa.

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