sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Sistina, Juízo Final

Poema lido ontem, na sessão de entrega do Prémio Literário "António Cabral",
que ocorreu ontem no Auditório da Biblioteca Municipal Dr. Júlio Teixeira, em Vila Real:


JUÍZO FINAL

Eu entendo que a arte é um refinamento do choque,
vai-se a ver e tudo está no colapso da infância, esse sulco 
onde o corpo se fere pela primeira vez e os olhos,
restituídos à dimensão do escuro, navegam.

A infância é o fulcro de todas as artes, sejam as do ferro,
das cores, ou as do estanho, e persegui-las é interrogar
as nuvens ou o fluxo que se distende na música.

A minha boca amplia-se nesse processo rupestre de sedimentações
e sinto em mim os pigmentos necessários para compor
a intrincada rede de sortilégios onde o que fica dito
iguala o por dizer, em brancos e cádmios a que o fogo acosta,
reverberando para o devir e a recordação.

A minha arte conduz-me à palavra e faz de mim um homem
de alentos brutais: e ardo, e ardo –  não por cega arrogância,
ou escolha, mas por sede, por desabalada sede.

Pode Deus condenar-me por luxúria,
mas a minha sordidez e faltas são de outra acareação
e juízo –  trate-se de ingenuidade ou do teor
de raiva que me descomanda,
pago o preço e lacero os dedos na trama do destino.

Uma sílaba é uma emboscada, pertença ou não pertença à suavidade,
seja ou não seja a onda enigmática de um mar amorável.

Dessa certeza íntima recolho o assombroso e procedo ao regresso
do que já fui em menino, ao que vivi.

A essa pedreira abrupta confluem todas as preposições do meu código,
junto os lábios e sopro para ver Cristo na cruz e Maria Madalena
a afeiçoar-lhes os pés, a figueira maldita entre todas as árvores,
a sombra imensa dos meus apóstolos ancestrais, que me perseguem
e incitam à desfragmentação das coisas e à sua violação, acompanhados
pela chusma de antepassados que do fundo da sombra, ou dos sonhos,
contra mim vociferam e incitam ao ataque e ao talhe.

Escrever é intuir o pânico sobre a realidade,
ainda que esse pânico seja manso como a loucura da ninfa
que, oculta na ínsua, mudou em canavial para escapar
à sedução do jogo.

Eu vou a esse jogo, quero essa ninfa, tremo
velozmente em todas as incertezas e amplio a escultura
na prossecução de um lastro conclusivo sobre o absoluto.

Por puro desafio transfiguro a minha presença em seres
abomináveis, tiro demónios do corpo, cometo crimes horrendos
e instituo a vingança a que nada escapa pelo frenesim evidente
de uma pedra não poder escapar a ser pedra.

Crio Deus à minha imagem e semelhança e doto-o
de castigos exemplares e perplexidades blasfemas.

A palavra, o eterno veneno, é o bálsamo onde todos os receios se dominam
para que se intensifique o deslumbramento.

E aí, póstuma a si mesma, a luz azul do traço recria
a criação do universo com faíscas e áscuas de contentamento,
embora nada substitua o caos ou doa mais que saber
a maceração do barro,
a única e irrevogável bênção sobre a terra.

A arte é uma ambivalência abalroada, de um lado ficamos nós
e as marcas do sofrimento e do júbilo, do outro a presunção
da semelhança e da transposição, o rio que se amotina em rio,
a montanha que se transfigura em montanha, a barca de pedra
que flutua no largo oceano ou no pano vermelho que a noite
bordou: eis onde dormimos, a divindade e nós.

A infância atinge-nos com visões magníficas, terríveis, solta-nos
pelas ruas e praças como tigres de amianto, ávidos do fogo
que faz rebentar em lágrimas a madeira, enquanto a cogitação labora
o discricionário e o sonho se expande em constelações,
sem que nos seja consentido saber o suficiente
sobre esse hemisfério, essa corrupção, tal poder corrosivo.

Ardo, pela rasura da arte, e em densas caligrafias ataco o refrigério
e construo talhos e maldições para que todo o lirismo
reflua dilacerado pela vertigem excruciante e iniciática.

Os joelhos justapõem-se na cruz, a água e o vinagre
tingem a tela imorredoira, cai o fel na argila, ocre e negra,
e vejo em cima da cabeça todo o negrume de que sou capaz: faço
o que faço por redenção e amor, digo o que digo porque possuo
a crença inaudita de quem inscreveu nas dobras do lençol
a danação e a mágoa e sei, assim, como todo o apocalíptico é libertador.

 Minha é a música, a pintura, a escultura.

Minha é a dança e a nudez, meus são os acessórios da genialidade e do intenso,
minha é a escrita e a imagem – e sei que é do choque que tudo advém,
 hostil e profícuo, adversário e útil, conjurado e santo.

Não há como não arrastar pelo chão as incertezas do corpo, não há
como não rejubilar ao bater a cabeça nas pedras, não há como não ser
autêntico e arrancar os cabelos para ampliar na arte o mal que nos fizeram,
o mal que já fizemos, o bem que somos e acreditamos ser.

Vai-se a ver e o choque é uma queda e outra – e outra, ainda.

Mais do que metáfora, a queda arrasa, impõe-se ao temperamento,
fulmina.

Mais do que a morte, mais do que a mulher indizível,
mais do que a liturgia: choque e choque –  choque,
golpe a tocar a arte para a frente, sempre para a frente,
a prender com arames a geometria e o outono, a chuva e a fantasia,
a expandir na treva a possibilidade de treva, uma e outra vez.

Estive na infância como vítima e predador,
arrasei edifícios e dei-me ao assassínio, jurei
falso e cuspi esconjuros: quanto mais tenra a idade do suplício
mais perversa é a inocência, sendo que toda a inocência é perversa
porque jamais hesita sobre o deserto oculto, qualquer deserto.

A palavra engasta-se na criação perfeita e a crença
é o bem da imperfeição, que tortura e salva.

Tudo é rememoração: há casas inúmeras em que a solidão supera
a audácia dos golpes, mas parar é morrer, e de um tropel inequívoco
se faz a vida, com legiões degredadas e combates sangrentos
na extensão do afresco a refinarem em sangue o sentido da busca
e o ardil – imenso –  que nos sitia os olhos, as mãos, o sentimento.

Em volta despontam gritos que nos cosem o corpo
ao silêncio ilimitado das coisas, como o cântico
que alastra na multidão e sela uma solidão indefensável
e nos exaure a cada instante: porque nada mais dói
que nos sabermos a árvore que se prontifica para o abate.

O impacto do machado amplia os rumores que o vento conduz,
estrondos inaudíveis alastram na ausência que a floresta reverdece.

A arte é esquecimento atroz e nada salva a luz
quando o choque chega de outra intensidade e grandeza,
ou as mãos soletram a epifania das coisas:
a troca do prazer pela dor e a dor pelo prazer é infinita.

Vai-se a ver e o tempo é indócil, dói nos olhos como ameaça
e sequestro, mas o espanto subsiste no afã de criar,
arco e roda de oleiro, forja e excomunhão, harpa
e espátula a apurar a infernal ordem do poema
em todos os tons corrosivos, todos os sons que arpoam
num mar inédito a baleia do desejo.

Vai-se a ver e o sangue cai em corda como a chuva
numa desinência tropical.

A cama inunda-se desse nítido torpor, queimadura lenta, eficaz:
do homicídio ao acinte tudo é figura luminosa, tudo
surge de onde jamais esteve, tudo se cria e transforma,
tudo rebenta – e a frágil flor no desígnio da árvore
assegura o diamante e o açougue,
a primazia da morte, a regeneração, o fascínio constante.

Entendo a arte como um refinamento do choque porque o sangue
transborda e ao longo do caminho a sombra trespassa finalmente
a ânsia sigilosa.

Vai-se a ver e o ímpeto amotina os sentidos,
a memória: o corpo afligido, freme, o corpo sucumbido
pelo choque, cai para se erguer e voltar a cair – eis o abismo
em que batem os lábios e a língua reflui, definitiva e árdua.

Eis o abismo em que a cabeça progride e o coração se arrebata
e engendra milagres.

Eis o abismo em que a subversão acomete
e resgata o instinto, a procura, a voragem.

Eis o abismo brilhante, cortante, turbulento, uivante,
onde se sobrepõem os choques, vários, múltiplos, devastadores.

Digo o que digo neste silêncio cruel e sei que pago
por transgredir no espírito o que se alimenta de alma.

A noite adensa-se em colunas e aras, os corvos clamam,
buracos negros irrompem como girassóis gigantes
cuja rotação faz o chão tremer, numa dança sem fim, grácil e obscena,
despautério que desencadeia a graça e onde a graça é açoite, juízo,
espada, coroa de espinhos.

O choque arrasa, constrói,
vem ao peito como arremesso, seixo que devora a fonte
sequiosa, divindade excelsa e monstro terrífico, inefável.

Pelo assombro, conheço o mandamento. E ressuscito.


Poema: © de Amadeu Baptista


Juízo Final, afresco do  Michelangelo Buonarroti, 13,7 m x 12, 2 m, parede do altar da Capela Sistina.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Sistina, um poema



ARQUITECTURA

Estas paredes levantam-se para o céu
para que a casa de Deus tenha as medidas
da Sua omnipotência
e seja o templo alicerçado nas alturas,
entre as nuvens e o silêncio,
entre a pálpebra azul do firmamento,
e um rarefeito cômputo de passos,
porventura de homens, porventura
do que do divino aos homens
se aproxima, e os cinge
à Sua imagem e semelhança,
haja ou não haja remissão ou indulgência.

O céu é indiviso, e indivisas as luzes,
os seus enigmas, a sua arquitectura.
E monolíticos são os arcos que o suportam,
as suas sombras e anjos,
o seu farfalhar magnífico e aterrador,
sob o qual tudo arde, de repente,
sobrevindo ao infinito da casa,
na sempre eterna solidão salvífica
o princípio de tudo e o seu fim.

É esta casa ampla, como é amplo
Deus, e omnipotente, tal como serão
os homens que O olham desde o chão,
de súbito altíssimos, mas prenhes
de humildade e indefesos, inacabados,
assim que a Sua Voz lhes sulca
o coração, ou Deus prolonga o silêncio
no Seu verbo, que os calcina.

Felizes os cativos, felizes
os que se devotam aos rumores do templo,
felizes os que põem as mãos na sua ara,
os que confrontam a matéria
e pelo sonho aguardam, os que fendem
a terra e colocam pedras nos Seus furos,
e amassam nas mãos o Seu cimento,
a Sua argila cálida, a Sua água ardente,
o Seu fermento. Felizes os que levantam
andaimes nas paredes, os que usam
a roldana, a grua, o cabrestante, felizes
os que suam, os que usam vigas de cedro
na casa do Senhor, e Lhe propõem
um tecto e uma cama, e lhe dão uma porta
para que nunca parta.

É esta casa alta porque ao cimo
se constroem as casas onde Deus mora,
onde vivem os vivos que imploram
que ao seu templo se una outro templo
mais afeito à claridade que aos enigmas,
fulgente, porque nele embebe Deus
os homens em sabedoria, enquanto
ao seu redor as calamidades grassam
e os profetas erguem ao sol as suas mãos
secas como palha e escutam trombetas
no deserto, sangrando dos ouvidos,
e balbuciam a vinda do que há-de vir
e em Jerusalém, pressagiam, será o templo
caído e levantado num pestanejar.

Felizes os que sabem escutar os rumores
do templo, os que sobem escadas,
os que gizam esboços, os que preparam
as tábuas, e os que talham arestas,
os que abrem compassos e adestram réguas,
os que moldam o ferro, os que manejam
garlopas, e goivas, e espátulas,
os que afinam o gesso, os que limpam
as pedras, e os que carregam baldes,
e carros, e mosaicos,
e blocos de mármore, e gamelas
de reboco, e os que afagam soalhos,
e aplicam ladrilhos, e os que apertam os tornos,
os que puxam o fogo e instalam as águas,
os que estabelecem as cordas
e, no estaleiro, dormem ao relento,
os que debuxam, os que montam,
os que revestem, os que limpam,
os que vazam, os que cozinham, os que rebitam,
os que laminam, os que esculpem,
e os que rezam no fim, pela obra feita.

É esta casa o esplendor de Deus, lugar
de guardar as arcas e os mistérios,
e de recolher os homens
e os clarões que o escuro desvanece,
a casa onde as sombras iluminam
por intervenção divina,
e se abriga a paz que há-de reinar para todo o sempre,
porque é próprio da paz poder reinar,
mesmo que Sisto IV no templo se reveja
como Deus proibiu, tal como a David
proibiu Deus de construir na eira, porque
era esse um lugar sangrento
e só Deus sabe o preço que há no sangue,
o tanto que o sangue subverte,
o nosso sangue,
o sangue das ovelhas e dos pastores,
o sangue dos canteiros e dos pintores,
o sangue dos que sofrem e dos pacíficos.

Ah, felizes os que sabem escutar os rumores
do templo, sob a espessa pálpebra do firmamento.

Poema: © de Amadeu Baptista




Poema de abertura do livro ‘Sistina’, a que foi atribuído o Prémio Literário “António Cabral”.

A sessão de entrega deste prémio terá lugar no dia 29 de Setembro, pelas 21h00, no Auditório da Biblioteca Municipal Dr. Júlio Teixeira, em Vila Real.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Rosa Alice Branco


Rosa Alice Branco, poeta convidada


TRÊS POEMAS


CARÍCIA DIVINA

Cordeiro do Senhor nunca queiras escravo.
A lua como uma hóstia branca 
ilumina o meu corpo a deslizar no teu.
Porque deus é amor e nós fiéis.
Porque nos fez com uma carícia 
assim te acaricio e me cobres
de felicidade pela noite dentro. 
Bendito seja quem assim ama.
Livrai-nos Senhor de todos os cordeiros 
e dai-nos um ao outro cada dia.






SEM LIVRO DE RECLAMAÇÕES

No princípio era o verbo 
e agora ninguém responde. 
O marido, a amante, a família e os amigos,
todos alinhados sobre as campas.
Começam pela oração ou o correspondente laico
e logo passam às súplicas e aos subornos.
Os cemitérios são repartições públicas.
Por isso não há respostas.
Há noites mal dormidas pelas razões erradas.
Esta noite a cama tremeu três vezes. Os teus balbucios
na minha boca. A tua pele húmida. Sou o teu epitáfio?
A família e os demais continuam a acorrer aos balcões
sem os formulários preenchidos. 
Os mortos já não pertencem às respostas.
Qualquer adjectivo apodrece como as flores.
Qualquer frase se decompõe sem sujeito.
Sou apenas uma tatuagem na tua campa.
No princípio era o fim.





VIA SACRA

A semente estende os braços sob a terra
e nasces para a luz, o olhar atento 
até aos ramos. Doçura do verde
que o calor matura: é grávida de sede
que concebes fruto.
Imaculado seja o manto
da tua sombra. Que assim seja
enquanto o tronco espessa
ano a ano
contra o calor
contra o frio que te despoja 
das vestes 
e te fustiga nua.
Tremes na ignorância 
de que o teu corpo é a tua e nossa cruz
destinada antes de sempre 
para todo o sempre.
Quando o machado desfere o primeiro golpe
olhas ainda a casa plantada até ao tecto
a que deste sombra.
Vês o fogo aceso,
a mesa posta,
o vermelho do vinho em cada copo.
Tu, nascida da semente sem pecado,
alheia ao sacrifício,
inocente de todos os males,
temente ao sol e à chuva,
ao capricho do vento,
a tua seiva goteja para o chão
e no padecimento da carne murmuras: 
pai, afasta de mim este cálice.
Árvore santa dolorosa 
golpe a golpe se esvai o teu corpo,
a seiva alastra pelo solo
e gritas angustiada: Pai,
porque me abandonaste?
Mas ninguém responde,
ninguém te ressuscita. 
Tão pouco sabes que a alma é um luxo humano,
que não és tu sentada à direita
de deus pai e que o teu reino já teve fim. 
Como vês, a crença Nele é fervorosa e grande:
a medida exacta da nossa miséria.



Rosa Alice Branco (PHD em Filosofia Contemporânea) tem livros de poemas publicados no Brasil, Suíça, Luxemburgo, Canadá, Tunísia, Espanha, Venezuela (obra reunida),Córsega, Itália e Alemanha.  Em Portugal, publicou Soletrar o Dia – Obra Poética (1988-2002), pelas Quasi, em 2002, que integra o homónimo inédito e os livros anteriores. Além de outros títulos, publica em 2009 O Mundo não acaba no frio dos teus ossos, pelas Quasi edições e ganha o "Premio de Poesía Espiral Maior", com o livro Gado do Senhor que saiu em Espanha (Galiza), na língua original, ainda em 2009. Este mesmo livro sai pelas ed. & ETC, em 2011. Além de artigos e poemas em várias línguas, publicou livros de ensaio: A percepção visual em Berkeley e O que falta ao mundo para ser quadro, tendo saído em 2009, no Brasil, A condição secreta do visível – ensaio sobre a percepção na natureza e nas artes.


Fotos: © de Amadeu Baptista; Poemas: © Rosa Alice Branco (in Gado do Senhor, Lisboa, & Etc, 2011


domingo, 25 de setembro de 2011

Gratidão

Este blog retomará em breve a sua actividade habitual.

Entretanto, cumpre-me agradecer a todos os que se preocuparam com o meu estado de saúde e que, ao longo desta última semana, pelas mais diversas vias, mo manifestaram.

Deixo aqui registada uma palavra de apreço e gratidão à Unidade de Cuidados Intensivos, ao Serviço de Cardiologia e respectiva Enfermaria do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho (antigo Hospital Eduardo Santos Silva) por toda a atenção e dedicação que me prestaram. O meu reconhecimento a médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar, que tudo fizeram para me ajudar a ultrapassar este momento complicado, com um profissionalismo e uma humanidade absolutamente inexcedíveis.

sábado, 17 de setembro de 2011

Hannes Pétursson, três poemas




MARIA ANTONIETA


Como mar encrespado é a grande multidão
que vista da carroça se assemelha a um escolho.
Em silêncio, de pé, olha a multidão,
suave e fresca
é a brisa. Mais além espera
a lâmina afiada no alto do patíbulo
dominando o gentio. Escuta exausta
os gritos que lhe chegam distantes
abatida sob a sua amarga prisão.

Como vai compreender que toda essa exaltada
chusma impura, essa arma cruel
que brilha ensanguentada e implacável
como monstro maldito semeando horror e morte
seja o sonho alvo dos pensadores, o futuro,
a única opção, melhor e mais autêntica

que aquele que agora se deve erradicar:
que todo o corrupto e o maldito
seja ela que a plebe olha em silêncio
pura e pálida?

                                               (in; Kvaedasafn, 1955)



AS PALAVRAS CALADAS

As palavras caladas
do poema são calcadas
nas guerras - também
nos lugares arrebatados
da hora da mudança, em que os dias
andam à deriva como feno agitado.

As palavras caladas
do poema.
Mas renascem
na terra arrasada
pelo ferro e as vozes.

                                               (in Heimkynni vid sjó, 1980)



O ALAZÃO CONTEMPLA...

O alazão contempla
os reflexos brilhantes
do rio que submerge
as suas patas no vau.

E o cavalo crê
que voa, que a aurora
surge da sua garupa
com as suas asas de cisne.

Mas não levanta voo.
Próximo está
a árida orla
que alcança
vadeando.

Mordisca a erva.
Caem molhados
os raios
dos seus flancos sem asas.

                               ( in 36 ljód, 1983)


Versão minha; © de Amadeu Baptista



Hannes Pétursson nasceu em  Sauðárkrókur, no norte da Islândia, a 14 de Dezembro de 1931. Graduou-se na Universidade de Reykjavík, em 1952. Estudou alemão nas Universidades de Colónia e Heidelberg, de 1952 a 1954. Entre 1959 e 1976, geriu uma pequena editora, onde publicou livros sobre a história local da região de Skagafjörður.
O seu primeiro livro de poesia, Kvæðabók, foi publicado em 1955. Desde então publicou inúmeras recolhas de poesia, textos de ficção, ensaio e biografia. Traduziu para islandês, entre muitos outros, a Metamorfose, de Kafka, em 1960.  Foi eleito, em 1991, Membro Honorário da União de Escritores da Islândia. Entre as inúmeras distinções recebidas, ressalta o Grande Prémio Literário da Islândia, pelo seu livro de 1993, Eldhylur. Vive em Álftanes.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Vida adulta / 21

MIL NOVECENTOS E NOVENTA E QUATRO

Faz o juiz
intenção de lembrar
os filhos miúdos
e a justa medida da reconciliação,
em casos semelhantes,
aconselhável.

À volta é tudo negro,
até a luz,
até o seu mistério.

Dizemos
em uníssono
que não,
como se acabasse o inferno,
o limbo,
o paraíso.

À saída há felicitações,
abraços,
algumas lágrimas,
gente que vem e vai
pelo funeral dos outros,
ao preço do cardápio,
a encomendar o lavagante raro.

Lá fora,
chove,
tal como aqui dentro.


( in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)

Foto: © de Amadeu Baptista

Os livros dos meus amigos meus amigos são

Novo livro de Nuno Dempster, Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo



Um poema:



«Que bela está a lua cheia, Pedro»,
imaginemos que Inês lho disse assim,
sem saber, suponho eu, que a preia-mar
ascende pelo corpo das mulheres,
e por essa razão é que ama a Lua
e a sua gravidade poderosa.
Já Pedro a acaricia, e Inês o abraça,
e ali mesmo se deita e se desfaz
ao ritmo das ondas na maré,
e Pedro sem cansaço quer sorver
o mar inteiro dela, e a própria Lua,
e vão estar assim a noite toda,
pousando e batalhando face a face,
até o sol chegar com luz de cinza
às ruínas de Santa Clara-a-Velha
e sumir Pedro e Inês, extenuados.


(in Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo, Edições Sem em Pé, Porto, 2011 

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Bocage, 246 º. aniversário do nascimento


Manuel Maria Barbosa du Bocage, n. a 15 de Setembro de 1765



[AUTORETRACTO]
Magro, de olhos azues, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno.
 
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em niveas mãos por taça escura
De zelos infernaes letal veneno.
 
Devoto incensador de mil deidades,
(Digo de moças mil) num só momento
Inimigo de hypocritas, e frades.
 
Eis Bocage, em quem luz algum talento:
Sahiram delle mesmo estas verdades
Num dia, em que se achou cagando ao vento.

                                  

                                   (in Sonetos)

Vida adulta / 20

MIL NOVECENTOS E NOVENTA E TRÊS

Verdadeiro como uma serra
de recorte o estupor transita
pelo coração.

Fico na esquina
a ver passar o trânsito
ou vou a casa, para ver sorrir
os mortos na varanda.

À saída,
começa a adultez, com passagens
para o infinito e a imortalidade,
a desarrumação forrada
a luas fluorescentes e enigmas
inimagináveis.

Salva a ira,
a irritação na pele opõe-se
ao espírito,
premedita e age sob a acção
de um vento irrequieto,
esquizofrénico.

E a serra,
a serra de recorte omnipresente
e ágil, nada recupera.

Engole-me a seco,
para que possa ganir mais à vontade,
cão de avinagrada língua.

Se quero acreditar, não quero.

A ponte em seu balanço vespertino
em vão aguarda esse rodado,
a braçada em que a surpresa
se escondeu.

E o amor, o amor,
é como a igreja vazia nessa hora
em que o milagre não vem
e a assembleia desacredita em Deus.

Depois, a noite,
inúmera e vaga,
inunda tudo,
a cabeça inerte na almofada branca
ressuma pouco calor,
parcas navegações.

Se houve um sonho, a morte o levará
e não vai adiantar procurá-lo
atrás da máquina de lavar,
caído, como um trapo
ou o frasco da lixívia,
já vazio.


( in Açogue, Corunha, Espiral Maior, 2009)



Foto: © de Amadeu Baptista

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Gisela Ramos Rosa


Gisela Ramos Rosa, poeta convidada


TRÊS POEMAS


Quando nasci voltei a reaprender a traduzir o mundo maior em que nascia e aquele
primeiro mundo pele de minha mãe,
Era a luz voltando a entrar em relevo pelos olhos sem que
a memória anterior se tivesse extinguido
tradução e agenciamento, fluência e água amadurecendo a observação
reintegrei os gestos as formas e abri um aqueduto livre no coração
onde guardei em segredo imagens originais
compreendi que na folha em branco os espelhos se podem confundir
com a rigidez do olhar onde as pedras se fixam,
assentei o verbo na tradução das manhãs anteriores
da primeira pele descobrindo as camadas do Livro
com o brilho inquieto do real sobre as mãos

09-07-2011




E é assim que te vejo quando me olhas centrado e me dizes que já foste a infância e que nesse lugar havia crianças e fronteiras, esconderijos, bolas, abafadores e ...aquelas casas de madeira que idealizavas no cimo das árvores.....hoje, quando encontro os teus olhos percebo como são difíceis os esconderijos sem bússola... como destinos fora do lugar.... e não sei se te vejo ou me revejo lembrando a carta que escrevi a minha mãe insistindo para que ela compreendesse o modo como os meus olhos divisavam a paisagem.....agora, nesta minúcia em que me pego a ti, nesta proximidade dos olhos, da pele.....neste acolhimento tão fiel dos amigos, invento um círculo perfeito para os olhos que persistem irrequietos, fora do mapa, em busca de ramos para tornar esta folha num ninho improvável, que nos ligue como se uma flor nascesse por dentro de nós....

27-11-2010



As palavras mais vãs são aquelas que habitam o livre arbítrio dos dias, Afasto-as do poema com a Alma por haver um rio entre as muralhas
onde os olhos se misturam com uma pronúncia muda
invoco o oceano íntimo que trago no peito
percorrendo a lucidez das superfícies nuas
amo o princípio evidente das coisas, dos seres uma pedra, a boca, a baga desigual na saliva dos homens dissolvendo os dias
vou encontrando a luz, palavra ou barca atravessando o dia até ao lugar do visível
por detrás dos olhos onde todas as águas se diluem e encontram

2-07-2011


Gisela Ramos Rosa (1964, Maputo) é Perita em Documentos no Laboratório de Polícia Científica da Polícia Judiciária em Lisboa. Licenciou-se em Relações Internacionais e é Mestre em Relações Interculturais. Tem um livro publicado em conjunto com António Ramos Rosa - Vasos Comunicantes (diálogo poético) de 2006 e tem colaborado com poemas em várias Antologias e Revistas de poesia. 

Fotos: © de Amadeu Baptista; Poemas: © de Gisela Ramos Rosa

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Vida adulta / 19

MIL NOVECENTOS E NOVENTA E UM

Velhas coisas são as que guardamos
no sótão
e não queremos devolver à procedência,

uma vara de garrafas vazias,
revistas esfarrapadas,
cartões de visita,
um par de sapatos de verniz,
quase novos,
a que se junta
uma carteira gasta,
de senhora,
um manequim sem cabeça,
uma panela furada,
o berbequim.

Pena é que os furos possíveis
não caibam já no cinto,
e a dentadura
não nos caiba na boca.

Presa a língua à trave que suporta o telhado
e as palavras disponíveis
para abate,
teríamos, por fim,
acantonado o silêncio,

o desusado silêncio
do sótão imperturbado.


( in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)

Foto: © de Amadeu Baptista


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Vida adulta / 18

MIL NOVECENTOS E NOVENTA

Se soubesse o que procuro
saberia que água pedir neste momento
e a que árvore pertence
este rumor de folhas sob o vento.

De quanto quis saberia a entoação
a que o coração responde nos ardis
que a obscuridade entrega
quando o contágio da memória
me absolve do que nunca deveria
arrepender-me.

Quanto busco não só é indizível
como não tem refúgio certo
entre os ramos hostis do reencontro,

esse incêndio do acaso no ocaso.


( in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)



Foto: © de Amadeu Baptista
Scriabin, Sonata para Piano nº. 4



Antero de Quental

Foto: © de Amadeu Baptista

Banco onde se suicidou Antero de Quental, fez ontem 120 anos


NA MÃO DE DEUS, NA SUA MÃO DIREITA...

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depois do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada 
E atravessa, sorrindo vagamente,
Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

(in Sonetos)



Antero Tarquínio de Quental, Ponta Delgada, 18 de Abril de 1842 - 11 de Setembro de 1891


domingo, 11 de setembro de 2011

Ground Zero - 11 de Setembro de 1973


O Golpe de Estado de 11 de Setembro, ocorrido no Chile em 1973, consistiu na derrubada do regime democrático constitucional do Chile, e de seu presidente Salvador Allende, tendo sido articulado conjuntamente por oficiais sediciosos da marinha e do exército chileno, com apoio militar e financeiro do governo dos Estados Unidos e da CIA, bem como de organizações terroristas chilenas, de tendências nacionalistas-fascistas, tendo sido encabeçado pelo general Augusto Pinochet, que se proclamou presidente.

Fonte: Wikipédia



Pablo Neruda, Canto Geral:




Vida adulta / 17

MIL NOVECENTOS E OITENTA E NOVE

A balaustrada serve para olharmos para dentro.
Quanto mais olhamos para dentro mais é possível ver
a azáfama do mar nos élitros do vidro, os seus galões
suavemente ameaçados. Olhando mais, um passo
noutro passo, vislumbra-se o silêncio,
os vasos de flores que a hierarquia das coisas
permite observar, carvão, sandálias, lápis.
A sensação que fica é a de um rosto
que a si mesmo exorcisma, acrescentando
ao lume lume, água aos sedimentos. Quem quiser
pode vibrar nesse propósito de sal,
caso não esteja fechada a persiana,
embaciado o diálogo interior pelo vento recorrente.
Depois, é só ouvir, o erotismo conclama as luzes,
abre-se a cama, a vulva pulsa, o orgasmo
desencadeia na carne agitações, montanhas.
Sendo possível ver, sendo possível
de longe observar a derrapagem,
poder-se-á, então, recomeçar a morte, adivinhar
os negros filamentos da abordagem
que as mãos, incendiadas, encetaram
quando a sanguínea brotou à flor da pele
e a dimensão exacta do retrato
foi a evasão possível nos cálidos pulmões
que a varanda permitiu, por ser tão ampla a noite
e fino o ar em trânsito nas cortinas.


( in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)


Foto: © de Amadeu Baptista

sábado, 10 de setembro de 2011

Vida adulta / 16

MIL NOVECENTOS E OITENTA E OITO

A minha mãe morreu ontem à tarde.

Ontem à tarde fui-me pelas exéquias
à igreja de S. Pedro,
atordoado
pelo ínvio folclore daquilo tudo,
o algodão hidrófilo nas narinas,
as mãos justapostas por uma ligadura,
o cheiro enjoativo das flores,
o silêncio soturno,
entrecortado
por suspiros e gritos
e as pressurosas obscenidades do costume.

Devia-se morrer e desaparecer,
para que só uma certa luz
nos encontrasse.


( in Açogue, Corunha, Espiral Maior, 2009)


Foto: © de Amadeu Baptista