Mostrar mensagens com a etiqueta Tradução. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tradução. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Iannis Ritsos






HELENIDADE


I

Estas árvores não se acomodam senão ao céu,
estas pedras não se acomodam sob os passos estrangeiros,
estes rostos não se acomodam senão  ao sol,
estes corações não se acomodam mais do que à justiça.

    Esta paisagem é dura como o silêncio,
aperta no seu peito as suas pedras ardentes,
aperta à luz os seus órfãos olivais e vinhedos,
aperta as mandíbulas. Não há água. Apenas luz.
O caminho perde-se na luz, e a sombra da parede é de ferro,
petrificam-se as árvores, os rios e as vozes entre a cal do sol.
A raiz tropeça no mármore. Juncos pulverulentos.
A mula e a rocha. Ofegam. Não há água.
Todos têm sede. Há anos. Todos mastigam um bocado de céu
    acima da sua amargura.
Os seus olhos estão vermelhos pela insónia.
Uma profunda fenda encravada entre as suas sobrancelhas
como um cipreste entre dois montes no ocaso.

    A sua mão está presa ao fuzil,
o fuzil é a continuação da sua mão.
A sua mão é a continuação da sua alma –
têm nos lábios a ira
e têm a mágoa profunda – fundo nos seus olhos
como uma estrela numa cova de sal.
Quando apertam a mão, o sol vai seguro pelo mundo;
quando sorriem, uma jovem andorinha escapa das suas
    barbas selvagens;
quando dormem, doze estrelas caem pelos seus bolsos vazios;
quando se matam, a vida atira encosta acima bandeiras e tambores.
Tantos anos de fome, de sede, todos se matam acossados pela terra
    e o mar,
o mormaço comeu as suas terras e a água salobre regou as suas casas
o vento derrubou as suas portas e as escassas plantas da praça,
pelos buracos do seu abrigo entra e sai a morte
a sua língua é áspera como a pinha do cipreste,
morreram os seus cães envoltos nas suas sombras,
a chuva chocalha nos seus ossos.

Acima dos cumes fumegam petrificados o estrume a noite
vigiando o arquipélago enfurecido onde se afundou
o mastro quebrado da lua.

    Acabou-se o pão, acabaram-se as balas,
carregam agora os seus canhões apenas com o seu coração.
Tantos anos acossados por terra e por mar
todos têm fome, todos se matam e nenhum morreu –
nos cumes brilham os seus olhos.

Uma grande bandeira, uma grande fogueira toda vermelha
E a cada aurora milhares de pombas saem das suas mãos
Em direcção às quatro portas do horizonte.


II
Cada anoitecer com o chamuscado tomilho junto
    ao seio da pedra,
é uma gota de água que desde o passado escava o silêncio
    até à medula,
é um sino pendurado no velho carvalho que apregoa os anos.

Dormitam as chispas na cinza do deserto
e os telhados meditam no velo dourado sobre o lábio superior
    do mês da colheita
– velo amarelo como o grão de milho defumado pela pena do ocaso.

A virgem dorme sobre os mirtos com a sua saia larga
    manchada pelas uvas.
No caminho chora uma criança e responde-lhe do campo
    uma ovelha que perdeu os seus filhos.
Sombra na fonte. Gelado o barril.
A filha do ferreiro com os pés molhados.
Sobre a mesa o pão e a azeitona,
entre a parra o candil do luzeiro da tarde,
ali em cima, dando voltas no seu espeto, derrama perfume
a galáxia de gordura chamuscada, alho e pimenta.

    Ah! Que marco miliar de estrela fará todavia falta
para que bordem as agulhas de pinheiro sobre a parede
    tisnada do verão «e isto ocorrerá».

Quanto tem que verter ainda a mãe o seu coração
    sobre os sete valentes moços mortos
até que encontre a luz o seu caminho na encosta da alma!

    Este osso que sai da terra
está a medir com abraços a força, e as cordas do
    alaúde
e o alaúde desde o entardecer junto com o violino
    até à madrugada
cantam de pena em pena nos rosmaninhos e nos pinheiros
e tilintam as sogas nos barcos como cordas
e o marinheiro bebe amargo mar pelo copo de Ulisses.

    Ah! Quem fechará então esta entrada e que espada
    cortará o ânimo
e que chave te cerrará o coração que com as suas duas
    folhas abertas de par em par
olha para os pomares de Deus aspergidos de estrelas?

Grande momento como as tardes de sábado
    de maio na taberna marítima,
grande noite como bandeja na parede do funileiro,
grande canção como o pão na ceia do pescador de esponjas.
E vê como empreende o caminho pelas pedras
    a lua cretense
grap – grap com vinte filas de tachas nos grossos sapatos,
e vê aqueles que sobem e descem as escadarias de Anapli
enchendo o seu cachimbo de folhas de obscuridade cortadas
    toscamente
os seus bigodes de tomilho de Rumelia, orvalhado de estrelas
e os seus dentes raiz de pinheiro do penedo do Egeu e de sal.
Entraram no ferro e no fogo, falaram com as pedras
convidaram a morte a beber aguardente no crânio do seu avô,
sobre as próprias Eras encontraram-se com Digenis e puseram-se
    a jantar
partindo a meio a mágoa, tal como partiam sobre o joelho
    o seu pão de cevada.

Vem, Senhora, com as pestanas salgadas, com a mão
    branca enegrecida
da preocupação com o pobre e os longos anos –
o amor espera-te entre os matagais,
a gaivota no seu ninho sustem o teu negro ícone
e o amargo ouriço do mar beija a unha do teu pé.
Dentro da vulva negra do vinhedo muito vermelho
    coze o mosto,
coze o rododendro na mata incendiada,
dentro da terra a raiz do morto pede água
    para fazer brotar um abeto
e a mãe debaixo das suas rugas agarra fortemente
    a faca.
Vem, Senhora, que estás a incubar os ovos
     de ouro do trovão –
em que dia azul tirarás o véu e tomarás
    de novo as armas,
atingir-te-á forte o granizo de maio,
e explodirá como granada o sol sobre o teu avental
    de sarja,
e repartirás sol grão a grão aos teus doze órfãos,
e brilhará em volta o pântano como brilha o fio
    da espada e a neve de abril
e sairá da areia o caranguejo para apanhar sol
    e cruzar as suas pinças.


III

Neste lugar o céu não priva nem um instante o óleo
    do nosso olho
neste lugar o sol leva a metade da carga
    da pedra que levamos sobre os nossos ombros
partem-se as telhas sem queixa sob o joelho
    do meio-dia
os homens vão à frente das suas sombras como
    os delfins diante dos barcos de Skiatos
logo a sua sombra se converte em águia que tinge
    as suas asas de ocaso.
E mais tarde pousa nas suas cabeças e pensa nas estrelas
enquanto eles se estendem no descampado com a uva passa.

Neste lugar cada porta tem gravado um nome
    de uns três mil e outros tantos anos
cada pedra tem pintada um santo com olhos
    ferozes e cabelos de corda
cada homem tem gravada na sua mão
    de ponta a ponta uma sereia vermelha
cada rapariga tem um punhado de luz salgada sob a saia
e as crianças têm cinco e seis cruzinhas de amargura
    nos seus corações
como as pegadas das gaivotas sobre a areia
   à tarde.
Não é preciso recordar. Sabemo-lo.
Todos os caminhos conduzem às Altas Palestras.
    O ar é forte lá em cima.

Quando se desfia o mural minoico solitário do ocaso
e se apaga o incêndio  no palheiro da praia
as avós sobem até aqui pelos degraus talhados na rocha,
sentam-se na Grande Pedra fiando o mar com os olhos,
sentam-se e contam as estrelas como se
    contassem as facas, os garfos
e as colheres de prata herdadas dos seus antepassados
e mais tarde regressam para dar de comer aos netos
    a pólvora de Mesologui.

Sim, é verdade, Elcomeno tem duas mãos tristes
    entre o seu laço
mas a sua sobrancelha movimenta-se como a pedra que tenta
    soltar-se sobre o seu amargo olho.
Da profundida sobe esta onda que não sabe de rogos
do alto roda o vento com resina como veia
   e seiva como pulmão.

Ai! Soprará uma vez para arrastar as laranjas da recordação.
Ai! Soprará duas vezes para que saiam chispas
    da pedra de ferro como detonador.
Ai! Soprará três vezes e enlouquecerá os bosques
    de abetos de Liakoura.
Dará um murro para fazer saltar pelo ar a tirania
e retirará a argola da ursa nocturna e começará
    uma dança «tsámica» no meio do recinto,
e a lua a tocar pandeireta que se encham
    as varandas insulares
de crianças acordadas antes do tempo e de mães
    de Souli.

    Um mensageiro chega de Megali Langadia cada manhã
o seu rosto brilha a suar ao sol
sob o seu braço segura fortemente a helenidade
tal como um operário carrega o sobrolho dentro da igreja.
Chegou o momento, diz. Deveis estar preparados.
Cada momento é o nosso momento.


IV
Foram em frente pela madrugada com o desprezo
     do homem que tem fome,
dentro dos seus olhos imóveis caiu uma estrela,
levavam às costas o ferido Verão.
Por aqui passou um exército com bandeiras sobre a pele
com a obstinação presa entre os dentes como
     uma pera silvestre
com a areia da lua dentro das suas botas
e com o pó de carvão da noite colado dentro
    dos seus narizes e das suas orelhas.
De árvore em árvore, de pedra em pedra atravessaram o mundo,
com espinhos por almofada atravessaram o sonho.
Traziam a vida nas suas mãos secas como um rio.

    A cada passo ganhavam uma braçada de céu –  para o oferecer.
Nos cumes ficavam petrificados como árvores chamuscadas.
E quando dançavam na praça,
dentro das casas tremiam os tectos e telintavam os frascos
    nas prateleiras.

Ah! Que canção é está que estremeceu os picos dos montes –
nos seus joelhos estendiam as roupinhas da lua e jantavam,
e quebravam o ai entre as duas folhas do coração
como se esborrachassem uma pulga entre duas grossas unhas.
Quem te trará agora o pão quente pela noite para alimentar
    os sonhos?
Quem ficará à sombra da oliveira a acompanhar a cigarra
para que não se cale a cigarra,
agora que a cal do meio-dia está a iluminar a parede
    em volta do horizonte
apagando os seus sombrios nomes grandes?
Esta terra que exalava aroma pela madrugada
a terra que era deles e nossa – sangue deles –
    como cheirava a terra –
e agora de que modo fecharam a sua porta os nossos
    vinhedos
como se debilitou a luz sobre os telhados e das árvores
quem diria que se encontram metade debaixo
    da terra
e outra metade dentro das cadeias?

    Com tantas folhas o sol faz-te sinais, dá-te os bons-dias
Com tantos galhardetes brilhando ao céu
e estes nos cárceres e aqueles sob a terra.

   Cala-te, não tardarão, de súbito soarão os sinos.
Esta terra é sua e nossa.
Sob a terra, entre as suas mãos cruzadas
prendem a corda do sino – esperam o momento,
    não dormem,
esperam tocar a ressurreição.  Esta terra
é deles e nossa –ninguém no-la pode tirar.

V
Sentaram-se sob as oliveiras após o meio-dia
a peneirar  a luz cinzenta com os grossos dedos
retirando as cartucheiras e calculando quanto esforço
    pode caber no caminho da noite
quanta amargura no caule da malva silvestre,
quanto ânimo nos olhos do menino descalço que segurava
    a bandeira.

Ficou a destempo a última andorinha no campo,
equilibrava-se no ar como um negro cinturão na manga
    do Outono.
Nada restou. Apenas fumegavam as casas incendiadas.
Os demais deixaram-nos há tempo sob as pedras
com a sua camisa rota e o seu juramento escrito
    sobre a porta derrubada.
Ninguém chorou. Não havia tempo. Só o silêncio
    crescia muito.
E a luz no pântano estava organizada como a casa
    da morte.
Que será deles quando chegar a chuva dentro da terra
    com as folhas apodrecidas do carvalho
que será deles quando o sol ficar seco sobre a manta
   das nuvens como percevejos no leito camponês
quando estiver na chaminé do anoitecer embalsamada
    a cegonha da neve?
Deitam sal ao fogo as velhas mães, deitam terra
    nos seus cabelos
arrancam os seus vinhedos em Monemvasía não seja que
    adoce a boca do inimigo a vulva negra da uva,
puseram num saco os ossos dos seus antepassados
    juntamente com as colheres, os garfos e facas
e deambulam fora dos muros da sua terra a buscar
    lugar para deitar raízes na noite.

   Ser-nos-á difícil agora encontrar um idioma mais próximo
    do convite, menos forte, menos pétreo –
As mãos que ficaram nas terras ou sobre a montanha
    ou debaixo do mar, não esquecem –
ser-nos-á difícil esquecer as suas mãos
será difícil para as mãos que criaram calos por causa
    do gatilho do fuzil fazer perguntas a uma margarida
dizer obrigado sobre o seu joelho, sobre o livro
    ou dentro do mosto do céu estrelado.
Precisar-se-á de tempo. E temos que falar. Até que encontrem
    O seu pão e a sua justiça.
   
    Dois remos cravados na areia na madrugada
    com a tempestade. Onde está a barca?
Um arado cravado na terra, e o vento a soprar. Onde está
    o agricultor?
Cinza o olival, o vinhedo e a casa.
Noite cosida com cordel com as suas estrelas
   dentro de uma peúga.
Louro e orégão seco no armário embutido
    no muro. Não os tocou o fogo.
A onda esfumada no fogão – cozendo apenas a água
    dentro da casa fechada. Não lhes deu
    tempo de comer.
Na queimada folha da porta as veias do bosque –
    o sangue corre dentro das veias.
Eis aqui o conhecido passo. Quem é?
Conhecido passo com as tachas encosta acima.
O arrastar da raiz dentro da pedra. Alguém
   vem.
A senha, a contra-senha. Irmão. Bom-dia.
Encontrará, pois, a luz das suas árvores, encontrará
    também um dia a árvore o seu fruto.
O cantil do morto tem ainda água e luz.
Boa tarde, meu irmão. Sabe-lo. Boas tardes.
Na sua barraca vende bichos e sedalinas o velho ocaso.
Ninguém compra, partiram para cima.
É difícil que voltem.
Difícil também que digam os seus valores.

    Na era onde jantaram uma noite os moços
    valentes
restam os caroços de azeitona e o sangue seco da lua
e o decassílabo das suas armas.
No dia seguinte os pardais as migas do seu pão,
As crianças fizeram brinquedos com os fósforos
   com que acenderam os seus cigarros e com os espinhos
   das estrelas.
E da pedra onde se sentaram sob as oliveiras após
    o meio-dia em frente ao mar
amanhã far-se-á cal no forno.
E passado amanhã branquearemos as nossas casas
   e o escabelo de Haghia Sotira
e no dia seguinte plantaremos a semente alí
   onde dormiram
e de um grão de romã brotará o primeiro
    sorriso da criança
no seio do dia ensolarado.
E depois sentar-nos-emos na pedra para ler
    todo o seu coração
como se lêssemos pela primeira vez a história do mundo.


VI

Assim com o sol sobre o peito perante o mar
    encalhando a ladeira do dia.
Calcula-se em dobro e em triplo a reclusão
    e o martírio da sede
calcula-se desde o princípio a velha ferida
e o coração torra lentamente no calor
   como as telhas de Vatica diante das portas.
À distância as suas mãos assemelham-se cada vez
    mais à terra
à distância os seus olhos parecem-se mais com o céu.
Acabou o azeite na almotolia. Alguns passos
    pararam ao fundo. E o rato morreu.
Esgotou-se o ânimo da mãe junto com a barra
    de barro e da charca.
Desoladas as gengivas do deserto pela pólvora.

Aonde azeite agora para o candil de Santa Bárbara
aonde hortelã para incensar o ícone da tarde
aonde um pedaço de pão para passar a noite – mendiga
    a tocar o canto de estrelas com a lira.
No castelo do alto da ilha movimentaram-se as figueiras
    e os asfódelos.
A terra cavada pelos canhões e as tumbas.
O edifício do município derrubado remendado
    pelo céu. Não há já lugar
para mais mortos. Não tem lugar a tristeza
    para ficar a entrançar os seus cabelos.
Casas queimadas que olham com olhos vazios
    o mar petrificado
e as balas cravadas nos muros
como punhais nas costas do Santo que ataram ao cipreste.

    Todos os dias os mortos apanham sol de boca para cima.
E só ao anoitecer os soldados se arrastam com a beata
    entre as pedras enegrecidas
procurando respirar o ar fora da morte
procurando os sapatos da lua mastigando um pedaço
    de meia sola
golpeiam  com o punho a rocha não vá que a gota
    de água corra
mas do outro lado o muro está oco
e voltam a ouvir o golpe com as mesmas estrofes
que a bomba produz ao cair no mar
e ouvem uma vez mais o queixume dos feridos
   diante da entrada.
Para onde atirar? O teu irmão chama-te.
Em volta a noite erigida de sombras de barcos
    estrangeiros.
Fechando os caminhos pelas paredes.
Só para cima há ainda caminho.
E eles maldizem os barcos e apertam as mandíbulas
Para escutar a sua dor que não endureceu.
Nas ameias os capitães mortos permanecem de pé
    no castelo.
Sob a sua roupa a carne apodrece. Eh, irmão! Não
    te cansaste?
Floresceu a bala dentro do seu coração,
Cinco abrolhos brotaram nas axilas da árida rocha,
de fôlego em fôlego o perfume conta o conto –
    não te recordas?
dentada a dentada a ferida  conta-te a vida,
a camomila que cresce na sujidade da unha do dedo
    grande do teu pé
conta-te a beleza do mundo.

Agarras a mão. É tua. Empapada pelo salitre.
Teu o mar. Como se arrancasse um cabelo
    da cabeça do silêncio
goteja amargo o leite da figueira. Estejas onde
    estejas o céu observa-te.
Junta nos seus dedos a estrela da tarde a tua alma
    como um cigarro
para que a fumes deitado com a  boca para cima
molhando a tua mão esquerda no rio de estrelas
    a destra agarrada ao teu fuzil-noiva
para te lembrares que o céu nunca te esqueceu
enquanto vais retirando do bolso interior a sua velha
    carta
e vais desfraldando com os dedos a lua
lerás valor e glória.
Então subirás ao alto cume da tua ilha
e usando como munição uma estrela dispararás
    para o ar
por cima de muros e de mastros
por cima das montanhas que se inclinam como soldados
    feridos
assim simplesmente e só para gritar aos espectros
    que se escondem na manta da sombra –
disparas certeiro ao seio do céu para encontrar
    a pegada azul
como se encontrasses sobre a camisa o mamilo
que amanhã dará de mamar ao teu filho
como se encontrasses após anos o botão
    da entrada da casa dos teus pais.


VII

A casa, a rua, a figueira, as cascas do sol
    no pátio, as galinhas debicando-as.
Conhecemo-los, e conhecem-nos.  Aqui em baixo
    entre as silvas
deixou a serpente abandonada a sua camisa amarela.
Aqui em baixo está a cabana da formiga e a torre
    da esfinge com as inumeráveis ameias,
sobre a mesma oliveira a concha da cigarra
    do ano passado e a voz da cigarra deste ano,
os juncos e a tua sombra que te segue como um cão
     muito aflito e silencioso,
cão fiel – a todos os meios-dias senta-se ao lado
    do teu sonho da terra farejando as adelfas,
à noite enrola-se sobre os teus pés a olhar as estrelas.
É um silêncio de peras que crescem nas pernas
    do Verão
um sonho de água que observa as raízes da alfarrobeira
a Primavera tem três órfãos adormecidos no seu regaço
uma águia meio morta nos seus olhos
seca a ermida de Haghi-Ynni tou Nistefti
como excremento branco do gorrião numa larga
     folha de amoreira emurchecida pelo calor.
Este pastor envolto na sua peliça
tem em cada pêlo do seu corpo um rio seco
tem um bosque de carvalhos em cada buraco da sua flauta
 o seu cajado tem os mesmos nós que o remo
    que tocou pela primeira vez o azul do Helesponto.
Não é preciso que recordes. A veia do carvalho
    tem o teu sangue. E o asfódelo da ilha e a alcaparra.
O silencioso poço eleva depois do meio-dia
uma voz redonda de negro cristal e de vento branco
redonda com as velhas vasilhas – a mesma  voz ancestral.
A cada noite a lua dá a volta aos mortos
procura as suas caras com dedos gelados o seu filho
pelo forma do queixo e das sobrancelhas de pedra,
procura nos seus bolsos. Encontra sempre alguma coisa.
    Alguma coisa encontramos.
Uma chave, uma carta, um relógio parado nas sete.
    Damos corda
de novo ao relógio. Andam as horas.
Quando amanha se desfizerem as suas roupas e fiquem
    nus entre os seus botões militares,
como ficam os pedaços do céu entre as estrelas do Verão,
então poderemos encontrar o seu nome e gritar:
    Eu amo.
Então. Mas estas coisas são muito longínquas.
Estão como que muito próximas, como quando tomas
    na obscuridade uma mão e dizes boa tarde
com a amarga boa intenção da pessoa que faltou
    muito tempo fora da sua casa e volta à casa paterna,
e nem os seus o conhecem, porque conheceu a morte
e conheceu a vida antes da vida e por cima da morte
e as conhece. Não se zanga. Amanhã, diz. E está
    seguro
de que o caminho mais distante é o mais próximo
    do coração de Deus.
E no momento em que a lua lhe beija o pescoço
    com alguma tristeza,
sacudindo a cinza do seu cigarro  da grades
    da varanda, pode chorar com firmeza,
pode chorar pela firmeza das árvores e das estrelas
    e dos seus irmãos.

Atenas, 1945-1947



  Notas:
Digenis: Trata-se Digenis Akritis, herói do poema épico homónimo bizantino que remonta ao século XI ou XII.
Dança tsámica: dança tradicional grega, proveniente de e comum nas ilhas do sul do Peleponeso
Haghia Sotira: lugar da Argólida, célebre pela sua igreja arruinada.

Versão minha - © Amadeu Baptista








Iannos Ritsos nasceu na Grécia a 1 de Maio de 1909. Aderiu ao Partido Comunista Grego, em 1931. Publicou Tractor, em 1934, inspirado no futurismo de Maiakovski. Devido às suas ideias políticas, algumas das suas obras foram queimadas em público. Foi internado em vários campos de reabilitação. No entanto, a sua produção poética é imparável, com dezenas de títulos. Em 1956, é-lhe atribuído o prémio nacional de poesia pelo livro Sonata ao Luar. Conjuntamente com Giorgios Seferis e Odysseus Elytis, é considerado um dos mais importantes poetas gregos do século XX. Faleceu a 11 de Novembro de 1990.












quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Erik Knudsen





POEMAS DE ERIK KNUDSEN





ÂNSIAS

Caminho pelas resplandecentes ruas sob uma luz tropical
    numa noite nórdica
procurando os meus irmãos e as minhas irmãs
a todos os que anseiam na eterna inquietude aflita,
a todos os que sonham à margem do tempo (porque nós não
    que o tempo cure nada)
todos os que pediram gritos de crianças nas suas casas, mas só
    obtiveram silêncio.
Anseio encontrar pessoas que não levem penduradas frases
    reluzentes como colares de pérolas,
pessoas que tartamudeiem e utilizem as palavras mais humildes e no
    entanto tenham emoções como o vento do oeste.
Gostaria de aproximar-me da rapariga que está só na porta
    do cinema para comprar alguma companhia.
Dir-lhe-ia: Dá-me a mão, vamo-nos tu e eu juntos a Paris.

Muitos jovens rapazes têm actrizes de cinema nas suas paredes.
O que por último chega antes de se apagar a luz são brancos peitos e
    enigmáticos sorrisos.

Velhas solteironas falam sem parar pelo telefone para não ouvir a
    solidão nem o judicioso tic-tac do despertador na cómoda.

Os cinemas estão cheios de gente que quer esquecer quem é.
    Quando as luzes se apagam são felizes um segundo.

Há chefes de escritório que de repente têm ganas de tirar o
    pijama e deitar-se nus na cama.

Há velhos que afastam envergonhados o olhar ao tropeçarem com
    uma criança que canta. Há professores que escrevem
    poemas a raparigas que nunca conheceram. Há políticos hipotecam
    o espírito do homem durante o dia e aos que desperta a voz de
    Deus durante a noite.

Todos anseiam por alguma coisa, todos sentem a vida como algo grande dentro
    deles mesmos, um inocente condenado, um preso que faz ruído
    com os seus grilhões.

                Til en ukendt gud, 1947


FAZEMOS UM VISITA?

Fazemos uma visita
ao mercado das ideias
para assegurar um par de opiniões
para o resto da semana?

(Começaram já os grandes saldos.
por quatro coroas
podem-se conseguir verdades de primeira
e maduras convicções.)

Ou sentamo-nos
na esplanada de um café
e afogamos as nossas dúvidas
em duas cervejas bem geladas?

Til en ukendt gud, 1947


A FLOR E A ESPADA

Entramos no bosque? Não, não me atrevo a entrar
Onde crescem as verdes árvores de cobre do sonho
Escuta os pássaros! Não, eu não me atrevo a imaginar
Tons tão puros. A beleza põe-me louco
E a harmonia tilinta cruelmente no meu ouvido

Que quero eu num sombrio delito
Onde o sol aguça as suas brilhantes mentiras
E as flores dificilmente ocultam o seu desprezo?

Adeus trompa de caça, aspérula e água do manancial
Adeus nosso pequeno-almoço na erva

Nos campos ouvem-se gritos e estrépito de armas
Ali fora onde todo o dia é nu
Onde as espadas relampejam, as lanças trançam
A cobertura do céu
Onde ardem as bandeiras, os tambores afugentam
Os pássaros dos seus ninhos

Ali fora onde a aurora da vitória foge
E a negra majestade da derrota
Se mantém firme.

Blomsten og svœerdet, 1949


AMADA! NOSSA VIDA

Amada, devemos construir um templo no nosso coração
Devemos elevar-nos mais alto que as árvores do bosque
Devemos cantar uma canção mais forte
Que o órgão, mais forte que o vento
Mais forte que todas as coisas do mundo.


Este deserto que é a nossa casa
Devemos plantá-lo com flores de esperança
A essas estátuas de sal, nossos irmãos e irmãs
Devemos infundir-lhes o espírito da vida
Ensinar-lhes a chorar, ensinar-lhes a rir.

Como o pássaro abandona a sua sombra
Como a erva reinventa o húmus negro
Vamos vencer o invencível.

Amada, o dia que abre passo
Por campos e casas em chamas
É o último dia e o maior

Convertamo-lo em eternidade.

Blomsten og svœerdet, 1949



TODAVIA NÂO

Fraternidade, justiça
Sim, claro: palavras da calafetação central
Sonho e esperança
Perdemo-las num ai
Como os dentes de ouro e os anéis
Quando nos preparam
Para a câmara de gás

Oh ilusão
Quebradiça como eu
Dá-me a mão, agora somos dois
Vem, vamos chamar os demais
Todavia não alcançou a morte
A vitória definitiva

Brœndpunkt, 1953



OS REPRESENTANTES

Começam o dia a comer ovos
Têm fraqueza pelos filmes do oeste
Fazem colectas para deficientes
Conversam com o príncipe herdeiro
Põe penas de índio no cabelo
Assinam no livro dos convidados
Recomendam coalhada e iogurte
Deitam discurso no dia do rei Valdemar
Relaxam com um bom policial
Cantam cantiguinhas na televisão
Citam mortos famosos
Tomam uma cerveja
Suportam o incrível
Têm tempo para o carnaval e a campanha eleitoral
Vendem queijo danês
Compreendem os E.U.A.
Coroam rainhas de beleza
Recordam os caídos da época da ocupação
Competem saltando sobre balões de plástico
São, no fundo, profundamente religiosos
Acariciam os cães
Reprovam os jovens
que não queiram discutir com argumentos

Babylon marcherer, 1970



BURGUESES DUVITATIVOS
I

Sentes vergonha, estás farto
deste mundo rico branco teu
exploração, racismo, genocídio
«liberdade», «democracia»… tu detestas
tudo isso. Bem. A tua má consciência
é um sinal de vida. Não és um caso perdido
como os imperialistas e
os seus pequenos agentes de olhos cegos. Mas
que estás disposto a fazer com a tua vergonha?
em que a empregas?

II

O teu coração com os rebeldes
Os teus pés num chão rico
Playboy
da Revolução

III

Esquece que nasceste
branco e rico
Era Marx proletário?
Era-o Engels?
Lenine?
Brecht?
Tu também podes fazer alguma coisa
Tu também podes mostrar as tua solidariedade
com os oprimidos e os rebeldes
tens que ajustar contas contigo mesmo
Ttm que ajustar contas com a tua classe:
Deserta

Babylon marcherer, 1970



NA MORTE DE MINHA MÃE

Neste quarto
brincávamos às crianças
com barcos sobre
o chão de linóleo

Agora jazes aí
na tua estreita cama
pequena e pálida
com uma ligadura branca
segurando-te o queixo
E nós estamos
olhando-te
com olhos distantes
e não podemos compreender:
Era o quarto assim pequeno?
Foi o jogo tão breve?

Forsøg pä at gå, 1978


COM BANDEIRAS VERMELHAS NAS BICILETAS

Lá para os finais dos anos trinta
o meu amigo e eu andamos
durante umas férias de verão
pelas estradas dinamarquesas
com bandeiras vermelhas nas bicicletas
para manifestar o nosso carácter rebelde

Mais tarde aprendemos
que o que se rebela
acomoda-se na aparência da sociedade
Trata de ser
corrente
Sabe o que quer
Por isso não usa símbolo algum

O revolucionário é invisível.

Forsøg pä at gå, 1978



PEÇO-VOS COMPREENSÃO

Camaradas, perdoai que vos decepcione
                                   com a minha tagarelice
Sei muito bem o que queria dizer
mas passou-se-me. Eu
Perdi-me, encontro-me num mau
                                   momento
Tratei de concentrar as minhas forças
Mas a minha mulher disse-me: Relaxa
Tu não és Jesus Cristo nem Marx.
Terei pois que viver com essa ideia.

Forsøg pä at gå, 1978



DIA DE ABRIL. PARA LISE

Limpei a sala de estar e
                        tratei dos canteiros
Tu estás a trabalhar no teu livro
Agora estás a cozinhar
M.A. telefonou. Alegra-me
transmitir-te os seus cumprimentos.
Falou do importante que é
dizer uma palavra amável a destempo.


Forsøg pä at gå, 1978





Versão minha - © Amadeu Baptista









Erik Knudsen (1922). Nasceu em Slagelse. Professor universitário. Colaborador da revista Heretica e, depois, da revista socialista Dialog. Participou activamente nos debates das questões nacionais, com posições consequentes de esquerda. O seu tema central é o indivíduo contra a burocracia. Iniciador na Dinamarca da poesia comprometida. Escreveu peças de teatro, libretos e textos para a rádio e a televisão.



sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Olaf Bull




Poemas de Olaf Bull



Não se percebe sob este céu azulado
nem a menor respiração do seu peito.
Esse ar que uma vez com as suas suaves brisas
ascendia e descendia na recatada elevação do peito,
que brincava com ternura na doce curva do pescoço,
esse, ondeia agora em vão sobre o desejo da terra –!
Olha, as andorinhas sobem bailando, bailando descem –
e os meus pensamentos regressam a tempos passados,
quando ela também chamava andorinhas às andorinhas
e felizmente desfrutava chamando azul ao ar!

Escuta o rumor da primavera sobre as alturas do mundo!
Os campos reverdecem com vigor, até o quê, até o quê?
O júbilo dos rebentos não chega aos seus olhos
que já ninguém encontrará, por muito que os bosques, –
os mesmos abetos sussurram nos deliciosos lugares, –
onde ela, com o seu eterno encanto, os enchia de assombro –
 –  –  –  –
Nada mudou. Longínquo e vulnerável chega das fábricas
o som dos enérgicos sons de um dia normal –
não há coisa mais certa neste mundo
que isso, o que se converte em pó sob a tampa do ataúde!

Mas os campos reverdecem e o céu grita e azulece
como se o fragor e o azul quisessem tirar-te da tumba –
aromas que fluem de milhares de resplandecentes folhas,
lilases atrás da vala ao longo do passeio primaveril
longe, muito longe brilha o teu amado mar!

Hoje era um dia para ti, para ti meu amor, ali em cima,
onde o silêncio repousa em melancólicas rosas e plantas!
Ai, como amavas as tempestades no cume do teu jardim
e o alado relâmpago dos painhos pelos caminhos primaveris!

Ai, se eu pudesse, se somente pudesse esquecer –
e impulsionar-me a subir loucamente uma vez mais
aquelas escadas e perguntar se tu estavas em casa –
com fé nisso mesmo, e voz alegre voz e emocionada – –
–  –  –  –
No cemitério do Salvador soam tons dominicais  –  – 

Digte, 1909


A PEDRA
Eu estava na mais extrema eternidade,
atrás do incêndio do horizonte visível –
então sucedeu que alguém avançou para mim
sobre a bordadura de uma estrela desconhecida.

Alguém que se inclinava para diante e sorria
atrás de um véu, que lhe envolvia a cabeça,
e segurava uma pedra numa das suas garras
e sussurrava fria e suavemente:

«Deixo cair uma pedra na órbita do céu,
a pedra dourada, que agora te mostro;
no instante seguinte desaparecerá;
e nunca mais cessará de cair.

Entendes, miserável, o que faço?
Solto uma pedra em queda na tua alma,
semeio no teu ser desassossego,
uma inquietação que nunca morrerá.

Como quer que te queimes na morada da luz,
No amor de mulheres, entre arbustos de branco primaveril –
A pedra que ao mesmo tempo cai, cai
Nas trevas do destino, tens que lembrá-la – – –

* * *

E a imagem partiu-se, e eu afoguei-me,
afoguei-me minha cama – acordei a suar;
em ondas de gélido orvalho de estrelas
pulsava o meu coração, golpe a golpe –

Mas o sonho prosseguiu na noite do meu coração;
da juventude à idade madura
tentou em vão a milha alma colher
a pedra que cai incessantemente –
–  –  –  –  –  –  –  –

Digte, 1909


CLARA EUGENIE

E o pastor levantou a sua mão branca,
e deixou deslizar com melancolia    * 
uma onda de água bendita sobre o cabelo da menina.
«Baptizo-te com o o nome de Clara Eugenie!»
Mas nos olhos da mãe havia lágrimas
que baptizavam esta promessa de vida
com maior solenidade que a da força do pastor
no seu trabalho junto à pia baptismal de mármore!

* * *

A segunda vez que o pastor levantou a mão,
a pequena Clara Eugenie ia de branco – – – 
e as suas palavras nítidas de jovem rapariga
voaram tímidas e nítidas pelo coro da igreja.
E a mãe sonhava, com a face voltada
para o arco do frio muro da igreja,
em algo longínquo e luminoso que antes tinha ocorrido
em anos sorridentes, na verde natureza – –
Como se ela, jovem e vestida de branco, passa-se
diante da sua própria filha. Clara Eugenie,
para logo seguir caminho junto ao rio do prado,
só, até um mar distante e desconhecido – –
Nesse instante o sol entrou na igreja, resplandecente,
e a Mãe sussurrou, agitada e com pesar:
«Perdoa-me, filha, se foi egoísmo,
por tu seres jovem, eu mesma fui jovem.»

* * *


E o pastor levantou a mão pela última vez
a sua mão branca com palavras firmes, puras –
mas o que fluía para o chão escuro
não era água bendita, mas terra bendita!
E a mãe tremia como um animal, sofria
ao ouvir cair a terra, punhado após punhado –
mas de longe, dois metros abaixo do jardim do claustro
levantou-se a voz da terra, agitada e entrecortada:
«Clara Eugenie, filha minha
regressaste enfim à grande totalidade!
Floresce na oculta primavera,
nos verdes prados, em árvores
e nuvens felizes, no limpo azul do céu,
em formas mais eternas para os teus queridos – – – !

Nye Digte, 1913


IMPOTÊNCIA

Não batas com a cara contra a porta da morte –

Um mundo de terra
são todos os nossos mortos!

Sabes que agora as formas livres do seu corpo
transbordantes de estrelas e mar e sol,
são agora uma terra
vazia cinzenta
feita de angústia!

E sobre tudo aquilo
um cerro ermo
com flores débeis,
através de cujo perfume
uma borboleta viva
estende as suas asas ansiosas de vida.

E tu o sentes claramente,
quando divisas o bicho
a beber de um céu desalmado,
resplandecente, vazio, com seus olhares:
Isto, isto é a vida –  –

E ela, tua única amiga,
cujos intensos olhos te reflectem
a ti, ao teu amor,
ali na profundidade do mundo
é uma matéria cegamente atraiçoada –

Só uma parte dessa fé,
terra verde e muda
fazia com que o pequeno insecto
batesse as asas da sua dança vital
e frequentemente descansasse da sua fadiga.
 – – – – –
Não armes escândalo contra a porta da morte.
Isso já o sabias:
Um mundo de terra
são todos os nossos mortos.

Levanta-te do verdor e põe-te em pé.
O sol pôs-se, a noite levanta-se azul
contra as portas de bronze da morte.
Chora as tuas lágrimas, diz as tuas palavras –
palavra por palavra
és só tu o que ouves:
«Dorme docemente
o sonho da terra
na noite da tumba,
onde nunca há sol –,
ali onde o teu contorno pouco a pouco
cede à obscuridade do mundo –

Viva e paz eterna
que não se conhece a si mesma
e por isso é a paz mais profunda.
Adeus – oh tu – adeus
no jardim da tarde!
Encontrar-nos-emos na pá,
que é lançada na tumba do futuro.»

Digte og novelles, 1916



MÉTOPA

A ti quero embutir-te docemente ritmos.
A ti quero conservar-te profunda e duradouramente
no eterno e jovem alabastro do poema!
A ti sonhadora emocionada pelo sol! Com a juvenil
face voltada para o ouro pálido da tarde,
ficas suavemente um céu após outro,
luminoso e terno e enigmático!
Com gosto daria todos os versos do meu mundo,
se tivesse sido capaz de uma só coisa: talhar
na obstinada pedra da memória uma suave métopa
sobre o delicado e doce contorno da tua alma!

Caminhamos pela areia húmida da maresia! Tu escutas
os airosos salpicos das ondas do mar estival!
Sentimos piedosamente que o silêncio da tarde
traslada cada vez mais longe a sua fronteira sonora!
Ressoam sons apagados que retrocedem deslizando
atrás de bosquezinhos avermelhados, douradas agulhas de igrejas –
e as luminosas ondas de ar afundam-se debilmente
como torrentes de sol das montanhas que permanecem.

Azulecem as colinas. As estrelas estão próximas!
As últimas nuvens apressam-se a chegar a casa ao entardecer!
O prado afunda-se na oração –! da maré do ar levanta-se
Arcturus! Suavemente, detrás do muro de granito cinzento,
sopra um vento na prateada pelagem do centeio!
Através to teu olhar um cálido e profundo suspiro –
no meio da obscuridade azul o olho pode receber
um fugaz salpico, um húmido resplendor de mel,
e sereno pergunto-te:« Em que pensas, meu amor?»

«Penso em tardes como esta, em que não se permita viver –
em campos de pousio, que sussurram de trigo, sem mim!
Em bagatelas cativantes: Espigas que se quebram,
caminhos no mar, pálidas velas longínquas,
ondas que se acercam da praia sem mim!
No quotidiano, meu amor, que suavemente continua na tumba,
nisso penso, e em todas as profundas, azuis,
tardes vindouras aqui no jardim do verão,
sem a minha alma junto à tua, nisso penso!

Tudo isto me enche o olho como uma lágrima,
eu, só e angustiada e miserável, logo chorarei!
Todas as coisas que esta tarde são nossas
dentro de poucos anos ébrios terá chegado o momento,
quando desaparecerem as névoas e o olhos veja claro!
Oh, amor, olha que profunda e negra fica a baixa-mar!
Que estranha ficou o praia, quando se foi a água!
Acaso estará longe a noite quando nós formos
uma praia mais feia que esta, abandonados por tudo?

No entanto é um doce e sagrado milagre,
que estres prados com o seu trigo e arbustos e árvores
e montanhas atrás, tão distantes como alcança o olhar,
se humedeçam tão docemente dos nossos instantes – –
o mesmo abeto, que nosso é!
E a cerca de madeira! O velho carro das ferramentas
jaz imóvel  na erva e firmes se erguem
as enormes estacas dos feixes junto às sorveiras
e a vala é verde como antes, como todos os anos!

Oh meu amor, se a profundidade da tumba o permitisse
eu ficaria aqui transmudada em prado, como feno,
nesse abeto, com estrelas dentro, e a montanha,
só para assim, defender, de outro modo,
o nosso jardim, e por ele: morrer!
Abraça-me, meu amor, tem-me assim. Ser abraçada assim
de repente será o único clarão de esperança, sei-o –
despertar na minha outra eternidade!»

E eu, um homem vivo, sinto-me em casa na terra,
um homem bem determinado, de carne, dos pés à cabeça,
posso, aturdido e tímido, perceber no meu abraço
algo que só é olhar e alma e voz,
dissolvido em dolorosa angústia e pressentimento.
Tu, solitária! Eu só posso acariciar em silêncio
o teu perfumado cabelo, a tua mão na minha –
e assim, frente a frente, estão Pã e Psique
diante de um mar de trigo, à luz das estrelas.


Metope, 1927



Versão minha - © Amadeu Baptista





Olaf Bull (1883-1933), nasceu em Oslo. Filho do escritor Jacob Breda Bull. Estudos universitários de línguas e literatura. Viveu em Roma, Copenhague e Paris. É um dos grandes líricos noruegueses.