Amélia Vieira, poeta convidada
3 poemas inéditos
As coisas que respiram, a fornalha, os insectos, a mortalha….
A viva cor azul das águas, dos batráquios, das nortadas…
Ser o vento, a espuma, o ar.
A névoa e o iodo o fogo e o mar.
Todos os elementos concentrados no sossego, na fúria, na certeza de meu ser elementar.
Um turbilhão de lava quente, macia, incandescente, esguia…
O pranto das mães chamando, uivando nas montanhas
A chegada dos filhos em alcateia.
A caça luarenta de uma noite plena e quente de quente Lua-cheia.
Trazendo no ventre
Toda a natureza.
Depois cantar ao grande sol da manhã, chegando como um nardo
E morrer cantando um som sem sílabas
Percorrido pelo manto da imensidão já tida
E de todos os instantes que fui só por ser vida.
(inédito)
Em amor nos foram reduzindo num sopro finito
Que ele eu não grito.
Amor não padece nas ondas buscadas
E sempre seguindo, amor nos transforma, nos busca cantando.
As fontes do mito.
De sombras lembramos o andar entre lágrimas e a sós, tão nós, no assombro das naus
Veleiros que foram bastiões que velam
Um silêncio absorto
De um fero desgosto
De marés vazantes …..
No corpo.
Amor em terreiro de Horto, guiado, plasmado…
Renascido, cinzento, cinzelado…mais claro nos bosques, mais verde nas eras,
Mais feroz nas feras, porque fere as fomes, das caças sadias
Dos nomes.
Cada um ao nomear chama-lhe amor, de quem nomeia o dom e deixa a flor.
Todos da estação das rosas, amor, são os iodos das rochas….
Que abrem as sereias em roda, no círculo das coisas começadas.
Um cortejo de fadas e de luzes, precipitam o amor para um altar…
Entre nevoeiros e águas, amor se vai, depreendendo-se de nós….
Como um ilustre romeiro…caminhando na distância de um beijo
Depois adormece e amor que dorme gera sonhos. Os sonhos vão buscar o chão pisado
E crivado de astros.
O amor morre.
Sem nunca busca-lo em seu navio o doce mastro.
(inédito)
Num mês qualquer, que o Paraíso não tem solo, mas era verde, talvez Maio, talvez Agosto, talvez um tempo deposto…era naquele momento em que havia mais planetas, todos ao torno da Floresta verde.
Transversais aos oceanos ficaram pequenos continentes, verdes, antes de serem tão certos como o labirinto coberto de abetos.
Era uma árvore e não choveu, era sempre tarde…o Sol não nos venceu, tornámo-nos assim, queimados, quentes, em ebulição, e nada se fez sem a tórrida presença…os anjos cobriram-se de pelo, a minha pele ardeu, o meu ser de outro oxigénio carbonizou num local onde antes era céu.
Temos um corpo para queimar, uma forma que não há, um sangue que ferve, tem febre, inflama …somos fogo, somos chama.
Mas, eu era a Árvore e não choveu. Do bem… do mal….era só Deus, nem bem nem mal ali tivéramos, nem nenhuma divindade aqui nos colheu.
Só este calor e a frescura da Árvore que não era deste céu.
E Deus que não era este Deus.
Nem tu que sendo tu nunca exististes.
Nem eu que sendo eu ninguém me viu.
Pois que na Árvore onde não choveu deixámos os segredos
Os segredos que são memórias…
A terra que me tapa não tarda destapa
Frondosos frutos da Árvore ….
Que nos mata na entrada de
Um tempo que já não era o Meu.
(inédito)
Fotos (ilustração dos poemas): © de Amadeu Baptista
Poemas: © Amélia Vieira
Amélia Vieira. Nasceu em Lisboa, a 8 de Outubro de 1960. Dez livros editados, sendo o último título publicado Gabriel, de 2011. Estudos de Arte e Literatura Comparada. Inúmera colaboração em revistas nacionais e estrangeiras.
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