sábado, 31 de dezembro de 2011

Carlos Drummond de Andrade

RECEITA DE ANO NOVO


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade



Foto: © de Amadeu Baptista

DESEJO A TODOS QUE O ANO DE 2012 VENHA REPLETO
DE SAÚDE, SORTE E AMOR!!!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Sobre as imagens # 5

ADORAÇÃO

Ajoelham e adoram os que já se arrependeram
e na flámula inscreve-se o que há para dizer-se e repetir-se:
«paz na terra aos homens de boa-vontade». E eu,
com o incenso, a mirra e o oiro fico mais rico nesta pobreza
infinda, mordendo os lábios e arrepelando os cabelos,
embora disto se não saiba e isto se não veja,
porque não pode uma criança mais ser que ser criança,
mesmo humana e divina ao mesmo tempo.

Mas uma estrela guiou quem aqui está, e nós, pó de estrelas,
devemos atolar-nos na vasa tépida do rio, e, a vau, atravessá-lo
como se fosse um céu, um céu de magnificência e de prodígios,
a que os reis se confiam, porque há reinos absolutos sobre os reinos
onde o manjar alimenta o espírito e os seus estrépitos,
as suas desolações e as suas ruas festivas e felizes,
quer eu ria e sue sangue,
chore e ranja os dentes,
ou dê graças.

Pois é assim o meu reino, entre a fadiga e a fome da jornada,
porque quem chega e adora se sacia, ardendo o incenso, queimando-se a mirra
e incendiando-se o oiro, absorvendo-se tudo e tudo revertendo
para a libertação dos pobres, esses que se rojam sobre as pedras,
esses que Deus fulmina, esses, ainda, que batem com a cabeça
contra as pedras para que a adoração se prolongue e engrandeça.

Por mim, também ajoelho: há uma luz, fortíssima, que me ergue a cabeça
e ma abate, e sou um homem de boa-vontade,
e sou filho do homem,
e criatura de Deus, e abençoado,
pelo que assim adoro, para todo o sempre
– e este é o meu corpo e assim o entrego,
como uma palavra simples,
quotidiana,
imortal. 


(in Sobre as Imagens, Cosmorama, Maia, 2008)
 
 
 
Vasco Fernandes (Grão Vasco), 'Adoração dos Reis Magos', óleo s/ madeira, 1501/6

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

José Emílio-Nelson


José Emílio-Nelson, poeta convidado


2 Poemas inéditos:


5 MOVEMENTS op5 Webern [Boulez]

Abrupta rudeza, rude,
As pancadas rudes que descarnem os ossos,  rasgam a pauta.
Reinstala o mais exausto, o que raspa o eco fechado, insidioso, sustenido, e [a
Música] arrebata, descamba.
A orná-la, a rispidez da espiral baloiçante em derrocadas. 
Descai, por detrás, de lá de dentro, 
Ascende-se ao vazio, soa tão imperfeito, 
É incompreensível. [2,53]

Se vislumbram horizontes rejeitados, a deslizar
Ao longo das poeiras estendidas até ao regresso 
À imobilidade.
Entorpecem os delírios da euforia. Espaçada,
A afastar-se de si, 
O clarão afasta-se e emergem altos e baixos ofegantes, 
Desfraldados, [2,13]

A  finura sussurada. [0,43]

Desprende-se a ranger o que ilumina e espanta, retraça o
Divino. Resplandecente a escuridão que não se afasta da acalmia, fragiliza. [1,28]

Encosta o ouvido. Dedilha. A impaciência dispersa-se na profundidade
da quietude. Atrai
A mais densa inexactidão, ávida, sem afrouxar, altíssima,
O som primeiro, derrubado.
Esses movimentos oferecem uma indeterminável
Blasfémia a Deus. [3,19]





CORTESÃ, RIO OCEANO

Que bizarra cortesã. Rumorosa pérola,
Corpete enfunado, fustões (de crustáceo  & cetáceo). 
Cadências encrespadas. Cólera a arremessar espumas.
A cortesã encobre os céus de candelabros. 
Cortesã, cortesã luxuriante nas entranhas,
Galanteia, enreda-se, sulca e morde, acaricia, 
Arrasa prostíbulos, transborda, ribomba, assoma,
Zarpa  mórbida, estrondosamente, enfeita cadáveres.
Toca o vasto céu e revela-o jaspeado. 
Em cada braço o sal, descalça estremece  
(De amido, de escamas). Poço fundo, coral.
Altura de profunda  púrpura anil,
Violeta encordoada, espezinha o 
Paredão  afundado, a
Quebrada tristeza. Tapada  nudez, descarnada, 
Cegueira do instante.
Mutila a Terra  
(Falésia da água eterna).
Vem e enluta, vem e ensurdece o ar (a arrolar o naúfrago),
Glauca, alta, obstinada fundição do céu nocturno,
Ondas que o cobrem e se estendem
E cintilam no cimo de tudo. 
Bandeja de vagas, perfeito esperma, vingança
Uraniana, archote de ondas, na 
Castração em que ressoa , estorce, resplandece.
(Eu vi o céu estrelado do baleeiro 
Na quimérica, barroca barca de grafar.)




José Emílio-Nelson [Espinho, 1948]- Poeta, crítico literário e editor.
Reuniu a Obra Poética em dois volumes: A Alegria do Mal (1979-2004) e
Ameaçado Vivendo (2005-2009).


Foto de José Emílio-Nelson © de  Rui Sousa; fotos ilustração dos poemas © de Amadeu Baptista;  Poemas: ©  José Emílio-Nelson

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Sobre as imagens # 4

CIRCUNCISÃO

Com uma fina lâmina e uma agulha acerada
circuncidarão as voltas do meu corpo e nada mais farei
do que sorrir: o pintassilgo canta, ainda que o caminho
para a montanha seja só terra cá em baixo e luz sagrada
nas alturas. E em Magdala eu sei que há árvores que mudam
de lugar, sendo que as aldeias em volta permanecem,
com as suas casas de adobe e os seus jardins resplandecendo
na luz crepuscular, seja dia ou noite, ou partam
ou regressem os rebanhos das pastagens.

E sei que há carros de fogo que descrevem círculos
sobre os povos, e que para o amor é necessário paciência,
tal como é preciso paciência para que o fruto amadureça
e a maçã possa comer-se, ou o trigo, que precisa de tempo
e de calor para crescer, ou a águia, que em voos sucessivos,
sempre em volta da presa, há-de cumprir a missão
de alimentar os filhos, para que, de águia em águia,
progrida o mundo e se amplie a natureza.

Ah, correm os rios pelo meu corpo, e sei como
não permanecerão selados os meus lábios, e que no meu peito
fervilhará a azáfama dos homens, e que o sangue há-de correr,
e que assim me entrego, agora, desde já,
para que a extensão do sacrifício seja demolidor
e eu cerre e não cerre os punhos, e esta água
se verta para além do deserto da Jordânia e seja vinho,
e este vinho se expanda para além da discórdia,
para lá da vertigem,
para lá de Roma e de Alexandria,
para lá do inferno
e do paraíso.


(in Sobre as Imagens, Cosmorama, Maia, 2008)
 
 
 
Vasco Fernandes (Grão Vasco), 'Circuncisão', óleo s/ madeira

sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal



Votos de um excelente Natal!




Giovanni Bellini, 'A Virgem e o Menino entre Maria Madalena e Santa Úrsula', óleo s/ tela, 77 x 104 cm (1490), Museu do Prado, Madrid




 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Sobre as imagens # 3

NATIVIDADE

Assim nascemos, desconcertadamente desvalidos,
para triunfar da servidão e da pobreza. Caminha-se
toda a vida, mas o rudimentar momento da partida
indicia que a porta derradeira é a primeira e que, aqui chegados,
não somos mais que uma pedra nua onde pulsa um coração,
uma pedra que brilha, venham ou não os anjos acalentar
o templo, venham, ou não, outros pastores, de longe,
consolidar as nossas incertezas, trazendo uma medida de leite,
uma pele curtida, um bordão que possa florir.

Aqui estou, como se fosse orvalho sobre as palhas douradas
de uma manjedoura, e ouço na cabeça o clamor do universo,
esta angústia de tudo conhecer desconhecendo tudo, de que poder
vem a mim este poder, este tempo sem tempo
para o que foi semeado e à colheita chega já colhido
e os olhos do burro e o bafo da vaca docilmente adoçam
para que se não quebre nenhum osso e nenhuma promessa.

Assim se nasce, e nasce-se para morrer, mesmo que a estrela
brilhe e a ressurreição seja a insurreição prescrita para a morte
e a humildade avise que a vida é lobo e é cordeiro
e que quando se nasce a vigília principia, porque tudo é vital,
visível e invisível, e tudo está escrito e consumado,
e em Jerusalém não fique pedra sobre pedra
porque somos e não somos mais que uma pedra infinda.

 
(in Sobre as Imagens, Cosmorama, Maia, 2008)
 

Vasco Fernandes (Grão Vasco), 'Natividade', óleo s/ madeira, 131 x 81 cm (1506-11)
 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Sobre as imagens # 2



VISITAÇÃO

No fundo azul, sobre a paisagem que Deus
assombra, os cães da aldeia uivam, e a loucura
mansa da mãe ergue-se para o dia, como se a luz
absorvesse, compacta e radiante, as virtudes do medo
e da expectação. É preciso um sinal para dizer
quem sou e de onde venho, e é assim
que construo a viagem, pelo brilho destes olhos
que, tal como vêem, tudo ignoram, embora esteja
a noite cheia de murmúrios e o dia, espesso, adense
o sortilégio por que a divindade exulta.

Fremem relâmpagos sobre este olhar baixo
que uma outra mulher vem perscrutar,
conjecturando como pode o mundo destruir-se
pela ternura e os inconsoláveis possuírem,
desde o tempo dos tempos, uma insaciável fome
de infinito. E há, na claridade, os cerros nus, e os desgraçados,
os coxos e os cegos, e os malditos que, inquietos e ávidos,
aspiram a este regaço, onde me acolho porque é ainda cedo
para que as minhas asas sejam uma cruz.

Na placidez inquieta minha mãe deslumbra
a minha vinda e a vinda do profeta percursor,
a que Isabel dará misericórdia e nome,
porque o sangue de ambos aquece e ambos somos
chuva de fogo e redenção, tal como está escrito
e sobre a minha garganta se inscreveu
quando a ave planante sobrevoou o poço e o vivificou.

É preciso um sinal para dizer quem sou e de onde
venho, sempre que o sol se ergue para norte
e o monte Hermon se enche dessas sombras
que nos consumirão, enquanto a chuva inunda
a luz e o meu corpo é só consolação, o pão, o peixe, o mel
e o júbilo dos homens que ainda não nasceram,
mas hei-de fazer ouvir, para que se prolongue o chamamento.

(in Sobre as Imagens, Cosmorama, Maia, 2008)


Vasco Fernandes (Grão Vasco), 'Visitação', óleo s/ madeira, 177 x 93 cm (1506-11)


terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Sobre as Imagens # 1

ANUNCIAÇÃO

Minha mãe está atónita porque o chamamento
se irá cumprir. Ao que é chamada não há
como deixar de responder, nem tanta luz seria
suportável quando é por escuridão que o céu clama
e tudo, em volta, arde. Por isso, na imagem, está assim,
com o corpo estarrecido e o espírito suspenso por tanta graça
a irradiar desgraça sobre a amena tempestade
que em seu olhar flui, enquanto o anjo fala.

Não é tudo um equívoco, não há neste silêncio
senão esse propósito em que a transparência se faz opacidade,
porque não há como suportar sobre a cabeça tal leveza,
embora o anjo seja a sombra iluminada com que Deus se anuncia,
fazendo dessa súplica a ordem e a desordem onde o poder
perpassa com o alento de uma espada que busca o coração
para que o coração se expanda, em nome do mistério e do abismo.

Grandes estrelas alvoroçadas se entrelaçam.
E, imparável, vem o céu mostrar que em tudo
não somos mais que argila que um aroma contagia,
um caminho infinito entre as brumas da manhã e as areias da Betânia,
onde a água escasseia mas os poços
 são coisa viva a entretecer as dúvidas divinas
sobre as dívidas dos homens
para que a remissão nos possa possuir
e não se confunda a terra.

Eis a terrível claridade que há nas trevas, o sequestro fecundo
onde se escuta o choro mas as lágrimas se não vêem,
porque assim são os servos e assim tece o abismo
a sua oferenda a quem não pode mais do que acreditar que o sonho
é já muito diferente do que se observa em cada pesadelo,
por insondáveis que sejam os desígnios dos que não podem mais que obedecer
e nada haja mais a fazer do que saber que há-de um inocente aqui chegar
por via da inocência desta jovem mulher, minha mãe.

E eu, ainda por nascer, sendo quem sou, o bálsamo e a ferida,
sei que o meu nome será mais do que um nome para o céu
e que a terra há-de cumprir-se pelo clarão que a eternidade
emana, enquanto o sangue desta mulher perplexa
for o meu sangue, o sangue derramado neste dia
em que o anjo expressa a esta luz o que na luz
é lento e se expande como água.


(in Sobre as Imagens, Cosmorama, Maia, 2008)



Vasco Fernandes (Grão Vasco), 'Anunciação', óleo s/ madeira, 173 x 92 cm

domingo, 18 de dezembro de 2011

Rui Almeida


Rui Almeida, poeta convidado


TRÊS POEMAS:



ESBOÇO DE LENDA

Para a Inês Ramos

Todas as garças da ilha retomam
A cada fim de tarde aquela árvore –
Regressam e, como frutos, adormecem.

Recolhe-as a cadência das vagas,
O exemplo de lonjura que é o mar.

Assim o homem que se protege em sua casa
E se apercebe
De que há quase tanto de si nos outros
Como em si mesmo.

Assim os barcos que se assemelham
A asas brancas abertas.

Cidade da Praia, Fevereiro de 2011






A cor das minhas mãos,
Como a de papel áspero,
Dilui-se na força com que segredo
As notícias acumuladas pela inércia

O ruído das articulações
Sugere a ansiedade encontrada
Na textura do tampo da mesa

É uma sucessão de sinais
A acordar o frio e a vontade de sentir,
É um espelho a ressoar nos olhos
E a abrir sulcos de entendimento.






Sonhos Pop (Pop Dell’Arte)

I
Justapor ao espelho,
Com abundância, a tinta,
Retirar aos pormenores a força,
Suster, condensar, os brilhos
Em estratos de elisão, simples
Como tudo é, sem força.

II
Os delinquentes sorriem,
Atravessando as fossas que abriram;
Os que esperam abandonam os livros
E respira-se menos ar, agora,
Mas ainda há sonhos
A magoar uma ou outra ironia.




Rui Almeida nasceu em Lisboa, em 1972. Mantém, desde 2003, o blogue Poesia distribuída na rua. Publicou em 2009 o livro de poemas Lábio Cortado (Editora Livrododia), ao qual havia sido atribuído o Prémio Manuel Alegre, da Câmara Municipal de Águeda. Está incluído nas antologias Os Dias do Amor – Um poema para cada dia do ano (Ministério dos Livros, 2009), Divina Música (Conservatório Regional de Música de Viseu, 2009), Resumo – a poesia em 2009 (Assírio & Alvim, 2010) O prisma das muitas cores - Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira (Labirinto, 2010), Nada onde pousar o sonho (Desafio Miqueias, 2010) em delírio há vinte anos (non nova sed nove, 2011). Tem textos publicados nas revistas Saudade, Big Ode, Callema, Sítio, Inútil, Sulscrito e ainda nas revistas online Minguante e Diversos Afins.

 
Fotos: © de Rui Almeida, Sara A. Costa; fotos ilustração dos poemas © de Amadeu Baptista  Poemas: Rui Almeida

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Caravaggio / 6

CARAVAGGIO, UM ESBOÇO

Eu sei, há uma diferença indizível entre o que ergo
na luz das minhas telas e a vida, sob o fulgor
do anjo a transfiguração é mais surpreendente,
embora deste lado seja ainda mais sombrio
tudo o que dói, o coração,
o que deseja o corpo e o corpo impõe,
os sobressaltos do mar, o olhar
tão infinitamente cansado sobre as coisas. Mas o que faço,
Jerusaleme, é apenas seguir a intuição
de que alguma grandeza há nesta aventura,
uma dor insuportável por mais suportável que pareça,
um grito entre uma escolha e outra,
com a nítida certeza de que a um outro inferno
corresponde esta sombra sublime, este vermelho
brutal a que uma papoila moída deu lugar.
Neste lado do mundo pouco espero,
ou só aguardo um tempo em que do génio
possa subtrair outra palavra para poder ampliar
a noite com uma outra emboscada, um outro golpe
sobre o que advém da eternidade e se consuma enfim
na prega de um vestido, uma janela aberta, o intenso vigor
de um homem que passa carregado de pão e de tristeza.
Por isso, quando passo entre os esconsos lugares da minha vida
bem pouco mais do que ruínas me sitiam
na extenuação de que venho e de que sou,
embora haja ainda um sorriso a iluminar-me a face.
Depois de mim virá quem diga que a tristeza
dura sempre e sei que é no espírito
que um homem se absolve ou se condena
pelas acções que ousa, independentemente
de uma maior porção de negro na brancura
ou o brilho obscuro de um punhal. Ainda assim, Jerusaleme,
nessa lacuna esplêndida, nesse intervalo
entre o que pertence à treva e o sangue corrobora,
algo divino irá permanecer, maior que uma chama
que se extingue ou menor que uma cor
que se não sabe explicar. Desse mistério sou.
E nenhum outro nome hei-de inscrever
no ramo desta árvore que as aves invadiram
porque me nego a acreditar que não seja dessa árvore
a minha própria sombra e dessas aves
o sortilégio que alastra nos meus olhos
e abre o meu olhar à eternidade. Volúveis
e precários, ao acaso da vida nos entregam.
E bem maior que nós é o medo de aqui estarmos
ungidos por uma força que um fumo estabelece
sobre as nossas cabeças. Mas esse fumo é
sinal de uma fogueira que pertence a uma estrela
que é nossa testemunha e pode confirmar
quem somos e não somos nesta casa
e quantas dúvidas dissipam e concentram
as dúvidas de que a alma se reveste
para que a obra nasça e o enigma
reproduza além de nós um outro enigma.
Eu creio-me imortal, Jerusaleme. Por mais silêncio
que venha sobre mim e mais vazio se concentre
sobre as mãos que abandono à lassidão do mundo,
por miserável que seja o destemido amor
que sofregamente procuro entre o comércio de um moeda e outra,
perduro no que faço e perdurando venço
quem quer que se proponha assassinar
esta firme presença no universo, roubando tudo
a que um cadáver não mais é do que sagrado,
entre filhos e pátria e amor e ofício,
e tudo o que sempre está predestinado
aos predadores abutres da carniça humana.
A arte louvo, por tão difícil arte
ser o seu exercício entre os que redimem
a salvação por que jamais nos salvaremos.
E dessa arte eu sei que chegará,
mais do que a ressurreição dos mortos e dos vivos,
uma outra harmonia sobre o que deslumbra
e irrompe entre nós em benefício
de nos encontrarmos a sós perante o firmamento
e nessa solidão experimentarmos
o êxtase e a vertigem. Esse in anima,
Jerusaleme. Nunca nada, jamais,
foi impossível àqueles que acreditam
e que amam.


(in 'Desenho de Luzes', Amigos de Azdertuiop, Corunha, Espanha, 1997)


Caravaggio, 'O Jovem Baco Doente', Óleo s/ tela, 67 x 53 cm, Galleria Borghese, Roma, 1593

 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Homenagem a Pedro Tamen


Na Concha Azul, O Róseo Umbigo de Delfos
Poesia Mito e Arqueologia

Leituras: pelo homenageado, Pedro Tamen
Participação de: Nídia Santos, Maria do Sameiro Barroso, Isabel Wolmar

15 de Dezembro, 18 horas
no Museu Nacional de Arqueologia, Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa

30.000 Visualizações

Este blog atingiu hoje as 30.000 visualizações - motivo para celebração e contentamento.

Para todos os que por cá têm passado, amigos, colaboradores, seguidores, etc., o meu agradecimento
e as minhas mais cordiais saudações.






terça-feira, 13 de dezembro de 2011

APONTAMENTO, ENTRE AS PÁGINAS DE UM LIVRO DE JORGE DE SENA

Bem mais que a expressão do inefável
seja a expressão do amor a poesia.
Mais longe ainda que o silêncio denso
onde tudo se amplia e se concentra,
seja o amor a expressão mais simples
do que se escreve e passa para o mundo
como mais nítida transparência entre os sinais
que nos entregaram um dia e soubemos
guardar inexoravelmente. Pode o vazio
vir despedaçar-nos, encher-se o coração
de solidão, enegrecer-se a alma
de não haver sentido, desesperar-se
o espírito por não ouvir o anjo,
seja a expressão do amor a poesia.
Onde quer que estejamos há-de estar o indizível,
mas não menos insondável há-de ser o nosso nome
se entre o infinito em que estivermos
for a expressão do amor a poesia.
Bem mais que a expressão do inefável
seja a expressão do amor a poesia.


(in 'Desenho de Luzes', Amigos de Azdertuiop, Corunha, Espanha, 1997)



Foto: © de Amadeu Baptista



segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

SALA DOS ACTOS


usa a tua nudez acessórios mortais
para quem procura. a fita de veludo,
o cinto de fivela prateada,
a pintura guerreira, o golpe subtil

com que anuncias a ascensão
ao cume do carinho, exactamente
quando sobre o desvario
distendes os flancos e lanças sobre mim

o golpe intrépido
para que o êxtase estoure no meu corpo
esse mar de grata violência

que pressinto chegar em vagas sucessivas
sempre que gritas e, nesse grito,
desatas o meu grito.


(Arte de António Ferra)


trabalha com a língua, guarnece
de asas o vínculo precário
que nos prende à vida. o brilho
nos teus dentes sugere que a mágoa

pode vencer-se à míngua, acalentando-se
a transparência do sonho, a magnitude
da pele, o sobressalto
que perpassa no teu dorso

e responde à lascívia e ao denodo.
abraça nessa luz o alvoroço
de seres o animal que me conduza

à loba negra que em ti habita
e sob esta penumbra desoculta
a mancha branca que a cama oculta.


(Arte de António Ferra)


agora, vibra, vibra como vibro
ao saber a saliva e a alegria
com que é possível morrer nesta paixão
e ressurgir na graça do tumulto.

afunda no meu peito a energia
que vem sob a penumbra realçar
a tua silhueta de serpente.
no ardor da carícia podes tudo.

estou pronto para o infortúnio
e o assassínio, seja a luxúria esta
e o entendimento

do que nos pode poupar o sofrimento.
que a tua solidão seja na minha
o lume decisivo, a lura, o luto.


(Arte de António Ferra)

( in Umbigo, nº. 20, Lisboa, Março, 2007)

sábado, 10 de dezembro de 2011

Caravaggio / 5

CARAVAGGIO: DAVID COM A CABEÇA DE GOLIAS

(para Henrique Manuel Bento Fialho)

Esta cabeça, que David, com um olhar
piedoso, segura pelos cabelos,
é a minha, que decidi retratar-me
como Golias degolado,
após um combate sem tréguas,
mas já com um vencedor estabelecido
pelo céu, o destino, ou o que seja.

Os homens chegam à vida para viverem,
mas o que têm mais certo é que a vida,
ou alguém por ela,
se encarregue de, ou tarde ou cedo,
lhes mostrar o único caminho previsível,
permanecendo inimaginável
o exacto minuto do estertor,
o instante em que tudo se acaba
e a alma é entregue ao criador,
ou o criador a toma, sem mais,
ou só o vazio prevalente sobre tudo.

Era rapaz quando perdi meu pai.
Era um homem valente, que, dir-se-ia,
nada poderia derrubar,
apto para o trabalho duro, fosse a construir
casas ou a demoli-las, passando pelas estações
como um grosso castanheiro a recolher
do tempo somente o benefício, e das eras
robustez, e dos dias a alegria possível
de quem pouco mais tem que as mãos
com que se sustentar e uma casa pobre
em que abrigar-se.

Estava bem, o dia estava muito quente,
e sentou-se à mesa a refrescar-se
com uma malga de vinho e algumas azeitonas
até que o calor baixasse por alguma aragem
que amenizasse a tarde – e, de repente,
vi-o caído, como se tivesse sido fulminado
por um raio de que Deus não o tivesse protegido.

Perdi a minha mãe anos depois,
já eu estava longe da aldeia,
mas sei que a sua morte foi antecedida
por um longo período de doença
que a prostrou durante longo meses
e que se lhe meteu nos ossos
de um modo brutal, mirrando-lhe o corpo
e esvaziando-a do discernimento,
a ponto de não saber o próprio nome.

Não a vi no seu leito de morte
e, no fundo, prefiro que assim seja,
porque a posso recordar cheia de vida
às voltas pelo casebre onde vivíamos,
a arear os tachos e as panelas,
a tratar das galinhas e dos coelhos,
a pontear as meias,
a desmanchar as peças de carne
que o meu pai trazia como paga
do conserto de um telhado,
ou de um muro derrubado.

Havia nela, lembro-me,
uma ternura franca pelas coisas.
Mesmo se ralhava com as vizinhas,
que a não largavam a pedir um ovo,
um canado de leite,
ou um pé de salsa,
que nunca devolviam,
era doce e meiga,
sorrindo para todos e cuidando
de que fossem as zangas de curta duração
e as desavenças breves.

A ela devo a fascinação pela pintura.
Levava-me à igreja e apontava-me
a Via Crucis que, nas paredes do templo,
mostrava aos crentes o caminho
e, a mim, desvendava os traços do desenho,
a girândola das cores e os efeitos
que a luz fazia nos retratos,
a destacar o rosto de Pilatos a lavar
as mãos, as cabeças dos soldados
a jogar os dados, a silhueta de Cristo
a transportar a cruz, enquanto tropeçava
nas pedras e transpirava sangue,
e dor, e mágoa.

Ficava-me a olhar as estampas por tempos
infinitos, e a minha mãe deixava
que eu olhasse tudo aquilo o tempo que quisesse,
como se planeasse a aprendizagem dos meus olhos
e me adivinhasse o futuro
entre as tintas e as telas
com que expresso o tenebrismo
que cada coisa tem
quando é da vida que os contrastes chegam
e a arte é um movimento intolerável
para quem só pela arte se concebe.

Ando fugido há muito. Quer a justiça
que dê contas de um homem que matei,
mas um artista é sempre um perseguido,
senão pelos outros, pelo braço secular
que em si habita, e eu não me imagino
encarcerado, doente de malária,
longe dos meus pincéis, da minha pátria
pária, da arte a que o meu espírito se consagra
para que eu não morra nunca,
ou o temperamento com que me afirmo
perante os meus contemporâneos,
ou a memória que houver de mim.

À minha volta só vejo medíocres,
sem uma nesga de génio,
um gesto sublime que me espante
– defuntos já em vida,
maculam a essência de que vimos
e o teor vital de tudo quanto
deveriam amar e proteger
de modo a que nada se perdesse
e puro se entregasse
à procedência divina da nossa natureza.

É a minha cabeça que David
segura, pelos cabelos – no meu rosto,
o rosto de Michelangelo Merisi Caravaggio,
estão as marcas da luta
e os efeitos do combate desigual
que travo com a intransigência,
a castração e o medo,
em busca de um abrigo ou de um amigo
que saiba o que a luz faz quando nos entra
no peito e toma o coração
para que outra grandeza se estabeleça
na nossa condição

e a beleza estoure, à nossa volta,
e seja um festim, a vida,
e, por uma vez, levemos de vencida
a morte que não morre.


(in Poemas de Caravaggio, Maia, Cosmorama, 2008)







Caravaggio, 'David com a Cabeça de Golias, Óleo s/ tela, 125 x 101 cm, Galleria Borghese,  1610

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Caravaggio /4

CARAVAGGIO: A DEGOLAÇÃO DE S. JOÃO BAPTISTA

(para Rui Almeida)

Retenho do quadro uma mancha azul, opaca,
onde o silêncio paira como um agoiro de luz
– em tudo há um silêncio assim,
mas é deste rastro de ínvia escuridão
que o rescaldo do mundo se impregna,
como uma dor interminável,
um grito que tudo obscurece,
para que a cegueira dos homens nunca se interrompa.

Não é uma questão de saber onde está a mágoa,
ou se a mágoa existe.
Sempre se soube de que enigmas a tristeza se reveste
e como, pelos séculos, tudo é perturbação e desagravo,
e como não há bênção pelo esforço, e nada irá render-nos
pelo que, pelo horror e o enigma, distende as suas garras
em direcção aos homens.

Atrás há outra escuridão: preenche o quadro
como uma admoestação
para que o encontro e o desencontro dos olhares
proclamem no silêncio
o fragor da tristeza no rosto de quem olha
e se não pode redimir por tanta angústia.

Há, ainda, uma parede ocre,
travejamentos negros,
e dois vultos que perscrutam, sem surpresa,
o que se passa à sua esquerda,
numa atitude grave e carregada, com as mãos
presas às grades da janela,
ou nelas se sustendo.
De onde chegaram, ainda há muito pouco,
havia luz e ar,
mas o que vêem é de um domínio atroz
e insustentável,
de modo que respiram entrecortadamente,
como se um punhal lhes rasgasse a carne
e Deus não fosse o criador do mundo.

Estão, assim, parados porque sabem
que é pelo sangue que se lava o sangue
e é injusta a terra, e débil
para o poder de um rei,
a sua amante, e a miríade sumptuária de guerreiros
que os serve.

Estão à esquerda as cinco figuras que modulam o quadro
e explicam como a nossa humanidade se ressente
do que pesa:
em cada coisa há sempre um atropelo que se ergue
sobre a transcendência para que a cegueira
mais se expanda em nós
  e nós, sempre mais cegos, suportemos
qualquer atrocidade sem que a asfixia
nos esmague o crânio,
o coração.

Eis que o homem do centro do conjunto
ordena a que o abate tenha início:
o braço distendido e a tensão do corpo
demonstram como é altivez
a cobardia,
e o dedo indicador, que aponta a vítima,
atesta, decisivamente,
como pode ser precário o arbítrio de quem
só pode obedecer.
Enverga um casaco verde
sobre uma camisa clara, sem botões,
sendo que, pelas várias chaves que carrega na cintura,
se pressinta que se presta ao zelo de estabelecer a ordem
do que, nenhuma vez, terá ordenação:
era ainda manhã e já o indispunham os escravos,
e não estava quente o leite,
e azedava o vinho nos tonéis,
e descobria insuportável a algazarra na cozinha,
e os ratos saqueavam a despensa,
e não havia azeite para as lâmpadas,
e o rei não se cansava de o chamar,
a doerem-lhe as costas, os rins e a cabeça.

À esquerda deste homem está uma mulher velha
– dela se nota o pânico que antecipa pela degolação:
tapa os ouvidos com as mãos,
não para deixar de ouvir,
mas para não ver o que na extensão do silêncio fere os olhos.
Talvez pelo que fez,
talvez pelo que não fez,
esta mulher tem medo do que assiste,
sendo que há muito não sabe de si mesma:
ia na estrada, e subia a estrada,
e o seu cansaço era infinito,
e se voltava atrás era sempre em frente o seu caminho,
uma subida íngreme,
e rosnavam-lhe os cães,
e quando orava tinha visões do abismo,
e tudo ardia em volta,
e abandonavam-na os filhos,
e toda a noite tinha pesadelos,
e ouvia ao longe,
mas cada vez mais perto,
o grito interminável com que a morte,
mais do que chamá-la,
a invectivava,
a arrancar-lhe os cabelos,
a enredar-lhe os pés,
num sobressalto terrível, contínuo, insuportável.

Mais para a esquerda, está uma mulher jovem.
Se virmos bem,
cegos que somos,
veremos como lhe tremem as mãos,
enquanto escolhe um lugar apropriado para pôr a bandeja
que irá receber a cabeça do profeta.

É ainda nova para tanto alarme, a rapariga,
e o corpo ressente-se-lhe do que sente,
a trança presa por uma fita de veludo e a boca fechada
para que não entre em si o silêncio circundante,
e as suas lâminas não lhe atinjam as entranhas.
Do mais, nem quer saber: estava a bom recato e veio por uma ordem,
sendo que, sempre que é assim, o melhor é obedecer,
manda quem pode,
e quando lhe dirigem uma ordem só tem que a cumprir,
cala-se e faz,
por muito que prefira a frescura dos canteiros,
o doce odor que vem das laranjeiras,
o rumor da água a crepitar nos tanques,
o jardim, lá fora.

Restam dois homens. Um empunha a faca,
que esconde atrás das costas.
Com os braços possantes e as pernas vigorosas,
inclina o corpo em frente,
a sujeitar o que está por terra,
conferindo ao desempenho a força necessária,
nem maior, nem menor,
porque tudo é uma questão de adestramento:
matar um porco, ou um boi, é, no fundo,
o mesmo que matar um homem,
basta saber como empregar a força,
em que lugar fixar a lâmina,
que movimento usar para que não suje as mãos e o rosto.
Por ele, não há que duvidar: o que há para fazer
deve ser feito eficazmente e sem perguntas,
que até podem ser mal interpretadas, a contaminar
a confiança do amo,
sem que valha a pena.

O outro homem é João Baptista.
No chão manietado,
detido e indefeso,
não se sabe o que pensa,
se reza ou se é divino o seu silêncio,
se nos olhos cerrados é um rebanho que vai,
ou se só cuida de ovelhas tresmalhadas,
exactamente agora, no último momento,
como fez em toda a sua vida.

De tudo quanto fez e quanto viu
o mais de que se alegra foi ter baptizado Jesus Cristo,
e todos os demais, sacrílegos e ímpios, descrentes e pagãos,
e ter por certa, agora, a recompensa dada aos mártires pelo céu,
que lê o infortúnio como dádiva,
e o destino que chega como confirmação
de que, sob o arco do tempo,
há-de passar Salomé e a blasfémia,
e a crueldade,
e Herodes,
e cada um dos criados e os escravos,
e os reféns,
e os que, com ou sem arrependimento,
acicatam a carne e a degolam
no resguardo das caves,
para que ninguém veja a violência atroz,
salvando-se, ou não, a salvação.

Por fim, no quadro, há outra luz: a luz que, em contrastes, se insinua
nas figuras e faz ver o que lá não está: a mancha azul, opaca, na escuridão latente
  a que os dois vultos,
que da janela obscura espiam, sempre,
não podem escapar,
talvez porque um deles seja o próprio autor desta pintura
e o outro seja Deus

­– Deus que observa a sua criação sempre em silêncio e permanece imóvel
para que Caravaggio alcance a claridade e reproduza
este agoiro de luz, imperscrutável.


(in Poemas de Caravaggio, Maia, Cosmorama, 2008)


Caravaggio, 'A Degolação de S. João Baptista', Óleo s/ tela, 361 x 520 cm, Catedral de S. João, La Valetta, Malta,  1608

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Daniel Abrunheiro


Daniel Abrunheiro, poeta convidado


LENDO E VENDO E SENDO de Duarte Belo,
NO NÚCLEO DA CLARIDADE – entre as palavras de Ruy Belo


para o dito Duarte, naturalmente

Leiria, quarta-feira, 30 de Novembro de 2011


Melhores dias não virão talvez
salvar-nos da carestia anunciada
de de borla morrer e de viver pra nada
a meio da graciosa desgraça do português
como este-aquele ali, que pelas esplanadas
pedincha o cêntimo para a sopa, o tostão pró-pão,
por sua alma de cristão que é para pão, 
pela pobreza da minha roupa que é prá-sopa,
isto não é que me comova mas amargura-me,
mais de meia população vive do ar, que não da terra,
o resto vai a pé a Fátima ver a boneca, cura-me,
ó Virgem de louça, da cegueira que nos aterra,
não, melhores dias não virão,
sabeis,
mas não tarda será Verão,
vereis.

*
Cresceram duas mãos de homem
ao cabo dos meus braços de menino:
vou para velho, não mais já jovem
– dizem que é fado, que é destino. 
*
Estou aqui sentado entretido a ser português
ao sol morno e manso qual leão saciado.
Eu já nunca mais para sempre vivo outra vez,
é melhor portanto curtir o banco encontrado. 


*
Acaba-se-nos hoje o mês
O primeiro Novembro a seguir à vida
da minha Mãe
Não é fácil nem tenro nem terno
ser um órfão descriado à beira
do Inverno.




(Fotografias de Ruy Belo, montagem de Duarte Belo)


Daniel Abrunheiro, diz sobre si mesmo: nasci em Coimbra no mês de Maio de 1964. Publiquei quatro livros e tenho duas filhas. Os livros chamam-se Cronicão (2003), O Preço da Chuva (2006), Licor, Sabão e Sapatos (2007) e Terminação do Anjo (2008). As meninas chamam-se Leonor (1993) e Teresa (2000).