sábado, 30 de junho de 2012

Inês Ramos em 'Meditação Sobre O Fim'






Meditação Sobre o Fim, Editora Hariemuj, Lisboa, 2012


Hoje, não só noticio a saída da antologia Meditação Sobre o Fim, que recentemente foi dada à estampa pela editora Hariemuj (e que reuniu um extenso número de colaboradores, cf. a respectiva contra-capa que acima se reproduz), como, no caso, agradeço à Inês Ramos o poema que lá fez publicar e que teve a bondade de me dedicar. Aqui o reedito, com a devida vénia e a expressão fraternal de uma amizade que se vai fazendo antiga:




para o Amadeu Baptista

Meu caro amigo
o fim chegou como uma flecha
e não encontro a chave
para decifrar o último enigma.

Pesam-me as pálpebras e as mãos.
Houve dias em que dancei
troquei beijos
sonhei.
Agora, perto do fim
resta-me a soma das lembranças.
Passada já a última dor
acerto os passos nos últimos versos.

Não me angustia a morte
mas os rios onde não deitei os meus olhos
as pétalas que não toquei
as melodias que não ouvi
as estrelas que não espreitei.

Não vale a pena esquivar o tempo
ir buscar a cana de pesca e abalar para o rio
contar histórias aos peixes que não mordem o isco.

Resta-me ainda nos olhos
um grande reservatório de sonhos
que se embaciam.
Mas nem um vestido negro tenho
para o meu próprio luto.

Meu caro amigo
promete cobrir-me de rosas vermelhas
amanhã.
Sei que vai chover.

Não chores por mim.
Cobre-me de rosas cor de sangue
e segue para casa.
Abre a caixa de selos que te enviei pelo correio
e procura neles
as minhas impressões digitais.

No silêncio da casa
tenta tu compreender a vida
enigma de todos os meus dias
esse traço estranho que me acompanhou sempre
essa etérea luz
nem sempre chama
nem sempre ténue.

O olhar escurece-me
e nestas palavras inúteis
medito sobre o fim.

Aconchego-me na despedida
sem saber o que fui
porque nunca me forneceram
o meu livro de instruções.




Inês Ramos nasceu no dia 22 de Agosto de 1965, em Agualva-Cacém. Mantém, desde 2006 o blogue sobre poesia “Porosidade etérea”, onde divulga os poetas e os seus livros. Foi responsável pela recolha, selecção e organização da antologia de poesia “Os Dias do Amor”, para a editora Ministério dos Livros,
com poemas de 365 autores, editada em Janeiro de 2009.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O Bosque Cintilante # 52

Guiseppe Verdi: Coro dos Escravos Hebreus, de Nabucco

Mais amplamente, nós, os escravos, representamos
os que estão encarcerados
mas podem usufruir de um livro para cantar.
A luz sobre o proscénio não só nos ilumina
como suavemente alastra para a estrela que se ergue
sobre as nossas cabeças, a nossa ansiedade.
Onde quer que se encontre a nossa alma,
onde estiver a forja em que o nosso encantamento se projecta,
onde alguma vez se reunirem as sombras
dos inóspitos símbolos de que formos,
ainda que invisível,
ainda que inaudível.
há-de estar esse grito,
nítido e legível.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista



quarta-feira, 27 de junho de 2012

O Bosque Cintilante # 51

Wolfgang Amadeus Mozart: Andante " Elvira Madigan ",
     do Concerto para piano No. 21


 
Há ainda a consistência do veneno, essa parte expectante
que para lá do sonho infunde pavor e mistério
a quem procura a alma. Talvez esse frasco negro
nos grite a imensa necessidade de vida que ainda aguardamos,
talvez mesmo o rosto do reflexo nessa superfície baça
nos faça lembrar o que ficou para trás, com que gatilho
superamos a realidade, as cores mortíferas da vertigem.
Redonda, a trama invectiva-nos a um gesto supremo e sagrado,
é tanto o silêncio que a oração mental das coisas
se pode ouvir e ainda hesitamos, como se não fosse
possível intuir em sequências fragmentárias
esse prazer unívoco da proximidade de algo avassalador
e agreste. O gesto abarca a precariedade de um continente,
perpetuamente suspende a tensão para que a tensão
ilumine o que é fulminante, pó branco que se separa
das paredes compactamente, como se
já não haja milagres à superfície da terra.
É uma pequena praia essa cinza finíssima, um dedo toca-a,
as recordações chegam porque algo ainda nos sustém
à amplitude do mundo, um dia, alguma vez,
um instante qualquer. A mão carrega sobre a boca
esse quinhão de aprendizagem e ignorância, mais leve que o ar
impulsiona os lábios, de novo o forte odor recobre tudo,
a língua estremece e tudo se consuma, mesmo essa árvore
que nos uniu ao passado e nos devolve ao amor, o sinal obscuro
em que a claridade alastra.
Não mais que três segundos e há-de ver-se a Deus e ao anjo.
Pela primeira vez a luz é escuridão.
O grito audível em séculos de distância
por um instante apenas: frei aber cinsam, o sonho
de qualquer homem em qualquer lugar do universo,
incontornável, tangível.

in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista

terça-feira, 26 de junho de 2012

Ernesto Rodrigues


Ernesto Rodrigues, poeta convidado


TRÊS POEMAS



Soneto


Faz, meu querido autor, o ponto da situação:
se as pessoas inda crêem, isso é lá com elas.
Vão salvar o país, fazer chichi nas estrelas,
ricas como rimas em elas e em ão.


Já viste o que o mundo te reserva, se não
dizes bem do bem, dizes mal do mal; se velas,
dentro, as tão irreais flores do sentido, pelas
quais lutaste anos. Os velhos sonhos são


pra concluir sem tardança; lê, depois, versos,
almoça com jazz em Paris, Veneza, sobre
loira estrangeira, os olhos no Danúbio imersos.


Ah, não te deixes iludir por mais um nobre
gesto: reduz a vontade e trabalha um terço.
Não ames, descrê, goza, sorri – cai de chofre. 


Budapeste, 30-X-1982






[Para manter a palavra, basta]


Para manter a palavra, basta
que um leitor a oiça. E a curiosidade
no homem faz com que haja sempre
um. Assim, em Pour Un Malherbe,
o velho Francis depõe. Mais: contra
os que nos livros homens buscam, responde
que homens ele vê todos os dias. Oh, mas praticar 
a linguagem, essa é a nossa maneira
de à República servir. E não só esta: também
o próprio homem. E a nossa pátria é o mundo
mudo.


Para que o texto possa, de alguma forma, diz,
pretender dar conta do mundo exterior, preciso é
que ele toque primeiro a realidade no seu próprio
mundo, que o mundo dos textos é, o qual conhece
outras leis. Este não sei quê, por exemplo,
que vemos no rosto das mulheres belas,
que ver se pode e exprimir não. E cito.
Beauté, mon beau souci... (Idem: traduzo
as necessárias cesuras.) Para a manter,
esse antigo leitor me basta. Dele curioso,


pla hierarquia desço, em busca da pátria
muda. E cheira a linguagem, agradavelmente.


Budapeste, 12-II-1983







Árvore


Nunca, com tanta violência, sentira antes a força estática
da cor já pintando esta árvore do parque.
Todo emudeci – lentamente franzido na alma
como ribeiro onde caiu a folha suspirada.
Logo, abrindo mais os sentidos, vim dar com ela de leve
sorrindo na travessura que é por dentro mexer toda.
Nas margens, o Sol oferecia seu ouro costumado;
queria, e eu com ele, chegar ao centro das sombras íntimas
onde pássaros navegavam. Ai de nós, tão fora
do concerto interior
que no espanto diluímos e em seguida na procura.
Não entrava pela janela donde a observava. Sentado aquém
(sentemo-nos quando a Beleza dá em cansar-nos), eu tinha
no rosto a própria árvore que na janela quadrava, e tão inteira,
que as rugas eram troncos, profundos, nodosos, levando-me
plos idos caminhos e plos quais não irei jamais, que assim
se defende a vida nos seus enigmas, sempre adiando
o círculo mais fresco que as aves sem razão adejam.
Nunca, mal a vi senhora de si conversando
por toda a ramada, senti essa vontade de partir
que dizem acontecer aos santos sedentos de outra luz.
Asas de anjo corriam-na de ponta a ponta; por vezes,
baloiçava-se na copa sem tirar os pés da terra.
Da minha inocência dependiam seus movimentos.
Via-lhe, se me frisava, os nervos, distintamente.
E quando, tendo apercebido entre nós, no peitoril da janela,
uma pomba, eu ia para a beijar, como
se deve a quem se nos oferece tão matinalmente, a árvore
recuou para o seu lugar no parque onde a vira quando
abri a janela para a violência que os olhos merecem.
Atrás dela foi a pomba, e o ribeiro só de a sentir
franzia-se nas margens sonhando-a parada sombra.
O Sol endireitou-se; mas daqui observo ainda
que a ronda, sôfrego, sem a castigar onde queria.



Budapeste, 22-IX-1985



Fotos (ilustração dos poemas): © de Amadeu Baptista

Poemas: © Ernesto Rodigues





ERNESTO RODRIGUES (Torre de Dona Chama, 1956), poeta, ficcionista, crítico, ensaísta e tradutor de húngaro, é professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e presidente de direcção da Academia de Letras de Trás-os-Montes.
Principais obras: Várias Bulhas e Algumas Vítimas, novela, 1980; A Flor e a Morte, contos e novelas, 1983; Sobre o Danúbio, poesia, 1985; A Serpente de Bronze, romance, 1989; Torre de Dona Chama, romance, 1994; Histórias para Acordar, contos para a infância, 1996; Sobre o Danúbio / A Duna Partján, poesia e ficção, 1996; Pátria Breve, miscelânea, 2001; Antologia da Poesia Húngara, 2002; O Romance do Gramático, romance, 2011.  
Na crítica e ensaio, seleccionamos: Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal, 1998; Cultura Literária Oitocentista, 1999; Verso e Prosa de Novecentos, 2000; Visão dos Tempos. Os Óculos na Cultura Portuguesa, 2000; Crónica Jornalística. Século XIX, 2004; «O Século» de Lopes de Mendonça. O Primeiro Jornal Socialista, 2008; A Corte Luso-Brasileira no Jornalismo Português (1807-1821), 2008; 5 de Outubro – Uma Reconstituição, 2010; Tomé Pinheiro da Veiga, «Fastigínia», estudo, edição, variantes e notas, 2011. 
Responsável pelos 3 volumes de Actualização (Literatura Portuguesa e Estilística Literária) do Dicionário de Literatura dirigido por Jacinto do Prado Coelho (2002-2003), editou, entre outros, Padre António Vieira, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis, Ramalho Ortigão, Trindade Coelho, José Marmelo
e Silva, António José Saraiva. 

Solidariedade

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Gunvor Hofmo


POEMAS DE GUNVOR HOFMO


DE OUTRA REALIDADE

Ponho-me doente do grito que pede realidade.
Estive demasiado próximo das coisas,
de modo que me queimei ao atravessa-las
e estou do outro lado delas,
onde a luz não está separada da obscuridade,
onde não se pôs nenhum limite,
só um silêncio que me lança para um universo de solidão,
de incurável solidão.
Olha, refresco a mão na erva fria:
Isto será a realidade,
será suficiente realidade para os teus olhos
mas estou do outro lado
onde as lâminas da erva são sinos sonoros de pena e
    amarga expectativa.
Tenho nas mãos a mão de uma pessoa,
olho os olhos de um ser humano,
mas eu estou do outro lado
onde o homem é bruma de solidão e angústia.
Ai, se eu fosse uma pedra
que pudesse suportar o peso deste vazio,
mas eu sou um ser humano arremessado ao país fronteiriço,
e ouço rugir o silêncio,
oiço gritar o silêncio
de mundos mais profundos do que este.

Fra en annen virkelighet, 1948



AMIZADE ACABADA

Tudo sem altura, sem profundidade.
Andar pelas tuas ruas e sorrir
maliciosamente para as tuas entranhas
enquanto te fica o asco
na garganta:

os olhos exilados de Cristo
não são teus,
morta está a tua amarga ternura por uma alma.
Céu baixo, neve cinzenta e um cemitério.

I en våkenatt, 1954



BARCO NOCTURNO

Os corredores vazios.
Só está acesa a lâmpada da mesa.

O hospital como um barco
que navega por águas perigosas.
E os passageiros angustiosamente despertos.
Atentos aos ruídos de fora,
algum tremor no enorme casco do barco,
um grito que nunca chega.

Finalmente o grito volta-se
para os signos de sonho do céu
representados, imagem após imagem,
por anjos negros como a noite que abrem
os abismos com as suas chaves celestes.

E calada, uma enfermeira acerca-se com passo rápido
de alguém que se queixa a dormir.
O barco inclina-se para uma noite ainda mais profunda.

               
Gjest på jorden, 1971



DESPACHA-SE

Despacha-se o asseio matinal
despacham-se almoço e jantar
com a mesma inexorabilidade
Despacha-se a tarde
e os enfermeiros vão para casa
Despacha-se o sonho
e a enfermeira anda com passo ligeiro
pelos corredores.
Despacham-se as guerras
e algo sempre fica
crianças com pele cinzento de chumbo, o soldado
com uma perna que zurze
a muleta contra a calçada,
os cegos.
Despacha-se a morte
e há uma rosa solitária
diante de uma pedra fria.

            November, 1972



DEUS NÃO FALA

Deus não me fala
a mim como a Moisés
não me agride
como a Job
mas Ele está no
terrível silêncio
dentro de mim.
Lentamente Ele
vai-se desprendendo
como as primeiras folhas
luminosamente verdes da bétula.

            Veisperringer, 1973



NÃO EXISTE

Não existe
o que veio com a chuva
o que veio com os ventos
o que veio com a neve
A queixa inconsciente
de um pássaro adormecido disse-o:
não existe!

Mellomspill, 1974



UMA ROSA BRANCA

Uma rosa branca é uma lua
colocada no deserto jarrão
do céu.

Der er sent, 1978



Versão minha - © Amadeu Baptista



Gunvor Hofmo. Nasceu em 1921, em Oslo. Publicou os seus primeiros poemas no jornal comunista Friheten e na revista Hjemmet. Um dos seus primeiros poemas foi escrito para a sua amiga Ruth Maier, que veio a ser, durante o Holocausto, presa, deportada e assassinada em Auschwitz, perda central para a vida de Gunvor Hofmo, que iniciou uma luta profunda com a depressão e a doença mental. Foi institucionalizada no Gaustad Hospital, entre 1955 e 1971. De 1977 até à sua morte, que ocorreu em 1995, nunca deixou o seu apartamento em Nordstrand, Oslo. Publicou 17 livros de poesia e foi traduzida em sueco e em russo.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O Bosque Cintilante # 50

George Friederic Handel: Hallelujah Chorus, do Messias

Uma forma de voo sublime,
vozes e vozes que flutuam como
essas que são dos anjos,
etéreas e magníficas,
mas aos homens pertencem
para que o silêncio alastre
sobre tudo o que arde e em nós alastra
o que divinamente humano
canta e voa.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista

quinta-feira, 21 de junho de 2012

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Tiago Nené


Tiago Nené, poeta convidado


3 POEMAS


COMUNICAÇÃO

pões uma pausa à volta de cada palavra.
em cada pausa circular colocas uma porta.
convidas outras palavras para irem ao encontro
dessa pausa, dessa porta.
cada palavra tem, então, dentro de si
outras palavras.
ninguém sabe. mais tarde, pões uma distância
à volta de cada palavra.
algures a meio, colocas uma janela. desafias
outras palavras para taparem essa janela
com os seus significados mais primitivos, de modo
a se não permitir a interrupção dessa distância.
ao longe ninguém dará por isso.
erradicas do teu vocabulário a palavra
«nomeadamente».
sabes que os poemas secundam a vida
e por vezes vão para além dela.
mais tarde, comunicas com o teu amor
mais distante.
envias uma carta. telefonas. mandas mail.
és experiente e superior porque te soubeste
condicionar de múltiplas maneiras.
sabes que o amor é a menor distância possível
entre dois seres vivos.


in 100 poemas para Albano Martins, 2010







O TERRAMOTO

[a uma pessoa intemporal]

querida joana, o terramoto apanhou pessoas que faziam amor,
pessoas que morriam de uma causa lenta e dolorosa,
pessoas que celebravam contratos com apertos de mão,
pessoas com instrumentos na terra fértil,
pessoas que faziam de conta, pessoas sem relógio.
os que faziam amor perpetuaram-no, os que morriam
viram a sua morte impedida por uma colectiva e mais bem aceite,
os que celebravam contratos perderam as mãos coladas,
os que trabalhavam na terra fértil foram soterrados,
os que faziam de conta procuraram cumprir uma promessa,
os que não tinham relógio escaparam ao tempo.
meu amor, sermos egoístas é tentar impedir que as coisas mudem,
sermos intensos é não respeitar causas e efeitos,
espero-te no meu futuro, ainda que ele não seja
o efeito directo de um presente que ainda treme muito.


in Polishop, 2010







O BOM POETA

a António Ramos Rosa

o poeta inventa um leitor abstracto,
a sua extensão lível.
o poeta não consegue ler os seus poemas,
o bom poeta apenas escreve os seus poemas;
escrever poemas sem ler os poemas que se escreve
é perfeitamente possível
se o poeta estiver demasiado perto de cada palavra.
o grande poeta dorme dentro de cada palavra,
e eu não me conheço quando escrevo isto.
dentro de que palavra estarei?
que sílaba servirá de travesseiro aos meus sonhos?
creio que as primeiras palavras que escrevi
diziam que o poeta inventa um leitor abstracto,
não me lembro da versificação certa.
não importa.
apenas exponho permissões em cada sentimento,
e é isto o poema:
um grande sentimento amplificando
a inconfundível prosa de toda a vida.


in Relevo Móbil num Coração de Tempo, 2012





Fotos (ilustração dos poemas): © de Amadeu Baptista


Poemas: Tiago Nené



Tiago Nené é um poeta da nova geração nascido em Tavira a 29 de Março de 1982. Publicou “Versos Nus” em 2007, “Polishop” em 2010, e “Relevo Móbil Num Coração de Tempo” em 2012. Está representado em variadas revistas, jornais e antologias literárias entre as quais se incluem “Os Dias do Amor” (ed: Ministério dos Livros, 2009), “Cem Poemas para Albano Martins” (ed: Labirinto 2012) e “Algarve – 12 Poetas a Sul do Século XXI” (ed: Livros Capital, 2012). Tem também traduzido livros de poesia em língua espanhola na colecção Palavra Ibérica (ed: Ayuntamiento de Punta Umbria) e nas chancelas da Linguagem de Cálculo, associação cultural que dirige com o escritor Fernando  Esteves Pinto. Licenciado em Direito pela Universidade Católica Portuguesa, é advogado em Faro, cidade onde reside. Alguma da sua poesia pode ser lida no blogue pessoal: tiagonene.blogs.sapo.pt

terça-feira, 19 de junho de 2012

Benny Andersen


5 poemas de Benny Andersen


DIETA

As gambas secam a córnea
a gordura dá seborreia
os crepes atulham em demasia o estômago
o toucinho não é bom para o coração
o peixe não é bom para o carniceiro
o frango não é bom para os franganotes
os croquetes não são bons para nada
evitem a sopa de mandioca durante o casamento
o doce é pecado
o ácido é perigoso
o sal encurta a vida
o amargo prolonga inutilmente
a marmelada achata as orelhas
o guisado contrai a bexiga natatória
os ovos fazem com que os braços fiquem torcidos
o queijo influi no sentido do olfacto
o rábano branco influi no paladar
as massas influem a audição
os rábanos limitam o horizonte
as ervilhas entravam o crescimento
a couve-flor impede que se veja a paisagem
o pequeno-almoço tira o apetite
o jantar agudiza-o
os alimentos não são bons para o estômago
a vida é malsã
nham
nham
nham

Det indre bowlerhat, 1964




VOYEUR

Ver –
sabe-se verdadeiramente o que seja
ver?
Árvores, pássaros, rostos nas ruas, nos comboios –
é isso ver?
Tudo adopta uma pose.
Não há mais do que fotografar.
Mas ver
é surpreender o motivo
quando este não se sente observado.

Estou de joelhos em frente à fechadura
e vejo:
a mulher do terceiro andar detém-se para tomar alento –
quem a não ser eu
a viu a reconhecer as suas gorduras?
O carteiro coça o rabo diante da minha porta.
Um jovem nervoso não pára de limpar as mãos
às mangas – em vão.
O ocioso, de olhar fixo, leva a mão ao coração,
o mendigo sorri jactante a descer a escada,
o erguido derruba-se
e o bonifrates apruma-se,
eu vejo, vejo
pela primeira vez,
de joelhos diante do meu pequeno altar,
o buraco da minha fechadura por onde passa
o frio vento da verdade –
enfim respiro,
por fim vejo realmente
agora que ninguém me observa.

Kamera med køkkenedgang, 1965



M

Suspenso um crucifixo sobre a minha cama
para mim o amor é sagrado
olho por cima do ombro do meu amante
e tropeço com o martirizado olhar do crucificado
mas o meu amante dá-se conta
sente ciúmes
não compreende
detém-se
e tenho que pendurar o Filho do Homem na cozinha
no prego dos panos da cozinha
mas deixo a porta entreaberta
e quando nos pomos de certa maneira posso ver
o meu Salvador através da frincha
que acena com a cabeça: e carrego também com ele.
E assim que dói de verdade
tiro dele o máximo proveito
quando realmente dói
sinto que o Coroado de Espinhos
vigia para que tudo se faça correctamente
eu sofro
os espinhos afundam-se na minha carne
a cortina rasga-se de cima abaixo
carrego a minha parte do sofrimento do mundo
tudo está consumado

Portœtgalleri, 1966



ESTA INCERTEZA

Quando finalmente compreendi que certamente não era de mim
de quem tinhas dito aquilo e que certamente não era aquilo
o que havias dito e que certamente não eras tu o que
o havia dito fiquei nervoso de verdade porque
que é o que te podia ocorrer não dizer
na próxima vez em que talvez não vás dizer nada sobre mim.

Det sidste øh, 1969




UM BURACO NA TERRA

Apareceu um buraco na terra. Vazio.
Sem terra à volta
não existiria em absoluto.
O buraco depende profundamente da terra,
um vazio que mostra que algo existe
algo que mostra que aquele vazio existe.
Se não houvesse terra
tão pouco haveria vazio.
De um buraco vieste
à terra voltarás.
Ou vice-versa.
Dou uma palmaditas carinhosas no buraco
e sigo caminhando na terra.

Personlige papirer, 1974


Versão minha - © Amadeu Baptista



Benny Andersen. Nasceu em Vangede, Copenhagen, em 1929. Estreou-se em 1965. Além de poesia, escreveu um romance, guiões para cinema, literatura infanto-juvenil e comédias para a televisão. Excelente pianista, compõe a música e as letras das suas canções. A sua poesia, de tom humorístico, é já parte integrante da cultura dinamarquesa.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O Sonho do Elefante Tomé


De 24 de Abril a 15 de Julho, a Ludoteca “O Moinho”, situada no Bairro do Casal das Figueiras, em Setúbal, apresentará em teatro, a adaptação da história de
Amadeu Baptista: “O Sonho do Elefante Tomé “. 

A autoria da adaptação teatral é de Dalila Moura Baião

Aqui fica uma selecção de fotografias de algumas das representações levadas a cabo até agora:






Aqui ficam os horários e outras informações relevantes:

Horários :
De 2ª a quinta-feira, na Ludoteca "O Moinho" Rua dos Ventos - Bairro Casal das Figueiras - Setúbal (tel: 265 573408)

Manhã: 1º turno - das 10h às 11h30
2º turno - das 11h30 às 13h

Tarde: 1º turno - das 15h às 16h30
2º turno das 16h30 às 18h

(efectuam-se marcações prévias para grupos de alunos de escolas de 1º Ciclo, Jardins de Infância e outras Instituições públicas ou particulares, que trabalhem com a infância)


Personagens da História:

- Director do Circo Universal: André Cortina (licenciatura em Teatro - Artes Performativas pela E.S.T.A.L.)

- Elefante Tomé: Patrícia Santos (animadora sócio-profissional)

Trapezista: Sónia Bordalo (Técnica de Acção Educativa)

Treinador de Elefantes :Sónia Bordalo (desdobra a personagem)

Palhaço José: Dalila Moura Baião (Coordenadora Pedagógica - Professora - Formação em Teatro e Expressão Dramática)

Encenação a cargo de Dalila M. Baião e André Cortina


O Bosque Cintilante # 49

Sergei Rachmaninov: Prelúdio em dó sustenido menor

Para além da janela a neve abria
outro caminho além desses caminhos
que se ocultam no vento quando o tempo
já não é mais o tempo que vivemos
mas a marca do destino que trazemos
de uma outra dimensão, outro lugar
de onde chegam a estrela e o enigma
que há em nós.

Parti, então, rumo à tempestade.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista

domingo, 17 de junho de 2012

Iannos Ritsos


Um poema de Iannos Ritsos



FLORESCIMENTO ANTINATURAL


    Queria gritar – já não aguentava. Nada havia para escutar-lhe,
ninguém queria escutar. Ele mesmo temia a sua própria voz,
afogava-se no seu interior. O seu silêncio afogava-o. Pedaços do
seu corpo saltavam no ar. Ele recolhia-os com muito cuidado, silenciosamente,
voltava a pô-los no lugar, fechando os buracos. E se encontrava casualmente
uma papoila, uma açucena amarela, recolhia-as também, colocava-as
no seu corpo, como parte de si – assim golpeado, estranhamente florescido.


(Versão minha - © Amadeu Baptista)



Iannos Ritsos nasceu na Grécia a 1 de Maio de 1909. Aderiu ao Partido Comunista Grego, em 1931. Publicou Tractor, em 1934, inspirado no futurismo de Maiakovski. Devido às suas ideias políticas, algumas das suas obras foram queimadas em público. Foi internado em vários campos de reabilitação. No entanto, a sua produção poética é imparável, com dezenas de títulos. Em 1956, é-lhe atribuído o prémio nacional de poesia pelo livro Sonata ao Luar. Conjuntamente com Giorgios Seferis e Odysseus Elytis, é considerado um dos mais importantes poetas gregos do século XX. Faleceu a 11 de Novembro de 1990.