segunda-feira, 11 de março de 2013

Olav H. Hauge



POEMAS DE OLAV H. HAUGE

CONCHA

Constróis uma casa à tua alma.
E passeias-te orgulhoso
à luz das estrelas
com a tua casa às costas.
Se pressentes o perigo,
metes-te na casa
e sentes-te a salvo
por trás da dura
carapaça.

E quando já não existires
ficará
a casa
e testemunhará
a beleza da tua alma.
E dentro sussurrará
o mar da tua solidão.

Under bergfallet, 1951



LÁGRIMA, NÃO FAZ FALTA QUE CAIAS

Era pouco para ti
mas muito para mim:
Um sorriso quando fazia falta
e um aperto de mãos era tudo.

Lágrima,
não faz falta que caias
sei que és salgada.

Under bergfallet, 1951



NÃO ME TRAGAS TODA A VERDADE

Não me tragas toda a verdade,
não me tragas o oceano para apagar a minha sede,
não me tragas o céu quando te peço luz,
mas traz-me um brilho, uma gotinha, uma penazinha
igual à que os pássaros trazem uma gota de água do banho
e o vento um grão de sal.

På Ørnetuva, 1961



MURO

Pode-se fazer um bom muro
com pedras velhas,
se se colocam adequadamente
e se encaixam bem.
Mas talvez estejam mal talhadas
e dissemelhantes, talvez sobeje cal e argamassa
antiga, e se veja que estiveram antes noutro muro.
O melhor é tirar pedra nova da pedreira,
talhá-la como se quer,
assim obtêm-se umas arestas exactas
e é fácil encaixá-las.
Assim terás um muro firme.
E poderás dizer que é teu.

Dropar i austavind, 1966



UMA PALAVRA

Uma palavra
– uma pedra
num rio frio.
Outra pedra mais –
Tenho que pôr mais pedras
para poder cruzá-lo.

Dropar i austavind, 1966



NÃO NAVEGAMOS PELO MESMO MAR

Não navegamos pelo mesmo mar,
embora assim pareça.
Toscas placas e ferros na plataforma,
areia e cimento no porão,
vou muito imerso, avanço pesadamente,
estrebucho na tempestade,
bramo na névoa.
Tu navegas num barco de papel
e os sonhos incham a vela azul,
o vento é tão suave, tão delicada a onda.

Dropar i austavind, 1966



DEIXA QUE FAÇA COMO O ESCARAVELHO ESTERQUEIRO

As penas vão-se depositando sobre mim
e comprimem-me num cálido ninho.
Deixai que apesar disso me mova,
que teste as minhas forças, aligeire a turba –
deixai que faça como o escaravelho esterqueiro
quando num dia de primavera escavando emerge do estrume.

Dropar i austavind, 1966



MANHÃ INVERNAL

Quando hoje acordei, os vidros das janelas
estavam cobertos de gelo,
mas a mim acalentava-me um sonho agradável.
E a lareira difundia pelo quarto o calor
do tronco com que se tinha deleitado durante a noite.

Dropar i austavind, 1966



TU ERAS O VENTO

Sou um barco
sem vento.
Tu eras o vento.
Era esse o rumo que eu devia tomar?
A quem importa o rumo
com um vento assim!

Dropar i austavind, 1966



A ESPADA

A espada
corta
quando se desembainha,
se não outra coisa
– o ar.

Dropar i austavind, 1966



VELHO POETA QUE TENTA SER MODERNISTA

Também a ele subiram ganas de experimentar
as novas andas.
Alçou-se a elas
e anda com muito cuidado como uma cegonha.
É assombrosa a amplitude de vistas que adquiriu.
Até pode contar as ovelhas do seu vizinho.

Dropar i austavind, 1966



UM POEMA EM CADA DIA

Quero escrever um poema em cada dia,
cada dia.
Tem que ser possível.
Browning pôde fazê-lo durante muito tempo, apesar de
de rimada e
marcava o ritmo
com as suas providas sobrancelhas.
Isso mesmo, um poema em cada dia.
Algo te ocorrerá,
algo se passará,
de alguma coisa te darás conta.
– Levanto-me. Alvorece.
Tenho boas intenções.
E vejo o pintarroxo levantar voo da cerejeira
a que roubaram um rebento.

Spør vinden, 1971



CAVALOS E VAGABUNDOS

Cavalos e vagabundos procuram pias
na borda do caminho.
Para que querem
gasolineiras?

Spør vinden, 1971



PLENO INVERNO. NEVE

Pleno inverno. Neve.
Fiz para os pássaros umas migalhas de pão.
E nem por isso durmo pior.

Spør vinden, 1971



OLHO NUM ESPELHO ANTIGO

O anverso, espelho.
O reverso, uma imagem do jardim do Éden.

Estranha ocorrência
da velha cristaleira.

Spør vinden, 1971



T’AO CH’IEN

Se um dia T’ao Ch’ien
vier fazer-me uma visita,
mostrar-lhe-ei as minhas cerejeiras e as minhas macieiras,
preferia que viesse na primavera
quando estão em flor. Depois sentar-nos-emos à sombra
com um copo de sidra, talvez lhe ensine
um poema – se encontrar um de que possa gostar.
Os dragões que cruzam o céu deixando atrás de si veneno e fumo
deslizavam mais silenciosos no seu tempo e trinavam mais pássaros.
Aqui não há nada que ele não entenda.
Tem mais vontade do que nunca de se retirar
para um pomar como este.
Mas não sei se o faz com boa consciência.

Spør vinden, 1971



NÃO SE SUSPENDE UM GUARDA-CHUVA NUM RAIO DE SOL

Tens que ter sempre
chão firme
sob os pés, algo

a que te agarres,
a ideia
não se atreve

a soltar-se,
é como uma criança,
não tem confiança, mas

sempre anda
procurando apoio.
Não se suspende

um guarda-chuva num
raio de sol,
tarde aprendeste

a nadar, desconfias
do avião,
não te sentes seguro

senão a pé.

Spør vinden, 1971



A BÁSCULA

É a velha báscula
o mais importante
que há aqui na loja
(e, também, eu mesmo)
por isso o seu lugar fica aí
no meio, é
o que determina
o peso e decide
o que serão os gastos de envio.
Claro que eu noto
quando levanto caixotes ou sacos
o peso que têm,
mas há que colocá-los na báscula
para que ela diga o que lhe corresponde.
Negociamos entre nós
enquanto coloco os pesos
e a miúdo chegamos
a um acordo – ela balanceia,
eu anoto,
e dizemos que está bem –
não ajustamos, digamos assim, à grama.
A balança está oxidada e a mim
a artrite deixou-me as costas rígidas,
felizmente os pesos são mais leves
do que eu.
Às vezes noto que alguns duvidam
de que eu pese bem.
As pessoas são estranhas.
Quando querem vender algo
querem que pese muito,
quando estão a enviar algo, querem que seja leve.
Chegou um dia o juiz,
mostrou o seu espanto ante a balança, lembrou-se
provavelmente do que ele mesmo
tem que pesar.
«Isto não é balança de um farmacêutico», disse,
mas pensei sobretudo numa balança que vi uma vez
na oficina de um joalheiro, pesava pó de ouro
com uma pinça.
Frequentemente penso
no que tem que pesar um juiz:
justo e injusto
castigos e multas
vida e destino.
Quem ajusta esses pesos,
essa balança?

Janglestrå, 1980



NA HORA DA VERDADE

Ano após ano estiveste inclinado sobre os livros
reuniste mais conhecimentos
que os que terias precisado para nove vidas.
Na hora da verdade, pre-
cisa-se de pouca coisa, e essa pouca coisa
soube-a desde sempre o coração.
No Egipto o deus da sabedoria
tinha cabeça de macaco.

Vildstrån, 1980



PASSAGEM DO CÍRCULO POLAR

Um homem que vai no comboio assinala a torre de pedra na montanha,
estamos a passar o círculo polar, diz.
Em primeiro lugar não se nota nenhuma diferença,
a paisagem é idêntica ao norte da linha,
mas sabemos para onde vamos.
Não tinha parado a pensar nesta pequena ocorrência,
se não tivesse passado naqueles dias os 70.

Janglestrå, 1980


Versão minha - © Amadeu Baptista




Olav H. Hauge (1908-1994). Nasceu no norte da Noruega, em Ulvik, onde viveu toda a sua vida a cultivar fruta. É um dos poetas noruegueses mais reconhecidos no seu país. As suas traduções de poesia – de Holderlin, Yeats, Brecht, Celan, etc. – são consideradas como as mais belas feitas em norueguês. Hauge é um poeta que considera a tradução equiparável à criação, pelo que inclui as suas versões poéticas de outros autores na sua própria obra.

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