segunda-feira, 25 de março de 2013

María Wine


POEMAS DE MARÍA WINE



Ama-me
mas não te aproximes demasiado
deixa espaço para que o amor
se ria da sua felicidade
deixa sempre que um fogo do meu cabelo louro
seja livre.

Feberfötter, 1947



A BELEZA

Há beleza dentro de tudo
à volta de tudo
no presente
no ausente

a beleza é o pássaro azul da eternidade
tem asas
de gelo e neve
de chuva e verdura
de sol e trevas
goteja violetas no coração da pedra
queima cruzes negras na tristeza do olho
cresce como altos ciprestes nos sonhos do homem
perfura o túnel da dor
com a luz da flauta
é uma rapariga jovem
com a flor do trevo de uma encruzilhada a seus pés

a beleza:
flor fechada da boca
vermelha profundidade do beijo
as entrelaçadas linhas de água das extremidades
a minha fogueira
a tua fogueira
alimentada por rosas perdidas da noite

a beleza é o sonho dos cegos com a luz
o relâmpago no olho do veado perseguido
é a donzela da manhã
que vai fiando a sua madeixa de ouro
uma vela para o oblongo barco dos cisnes
é o vento a cavalgar os cavalos dos dia
até aos negros prados da noite

(tu podes colher a beleza na gruta da montanha
onde as estrelas são verdes
e a lua uma pedra negra)

a beleza são os cinco poemas da mão
a inclinação de cisne da nuca perante a tristeza
é o pé azul das profundidades
a caminhar para cima ou para baixo
no momento da despedida é um carro
que foge com o pêlo deitado para trás
ornado por recordações luminosas

no ausente
no presente
em volta de tudo
dentro de tudo
podes encontrar beleza

Född med svarta segel, 1950



Estou cansada de ser estátua
anseio converter-me num nada
que ninguém possa contemplar
estou cansada da gente
que devotamente anda por ali abaixo em pontas
junto a mim pé agrilhoado à pedra
Com a boca aberta e os olhos mudos
olham-me com admiração –
oh, que arrepios me provocam as reverberações dos seus sonhos banais!

Durante centos de anos
escutei a veloz flecha do tempo
que mais nada fez do que matar e matar e matar –
escutei os segredos dos homens
os segredos dos pássaros e das estações:
segredos que mostraram ser unicamente
uma vazia repetição sem fim

Estou cansada de ser estátua
o meu coração de pedra chora sal
quero fundir-me com a terra
até onde não chegue a pá dos homens
quero comer terra
quero cantar com a terra
quero ser terra

Kanskes osäkra båt, 1957


ÁROVRE E POEMA

Aqui está uma árvore:
o vento canta poemas sem palavras
na sua ampla copa.
Sei
que o destino da árvore é transformar-se em papel:
um papel com ânsia de palavras
Sei
de uma palavra
com ânsia de se plasmar no papel
de uma palavra com ânsia de começar um poema
Sei
de um poema não escrito que tem ânsia da sua primeira palavra
de um poema que tem ânsia do seu poeta
Mas sei também
que o poeta sofre
quando se abate a árvore para a transformar em papel.

Nattlandia, 1975


NÃO A QUE TU ACREDITAS

Eu não sou obviamente a
que tu crês que eu sou
Sou um vaga-lume angustiado
que não alcança a sua própria luz
Sou um negro caracol do bosque
a minha casa é uma mancha de baba de brilho Diamantino
e a chuva limpa sempre o meu caminho
Sou uma cria de gato
que fugiu para o alto de uma frondosa copa
e não desce
enquanto a sombra de um pastor alemão
dá passos de lobo ao pé da árvore
Sou uma intrépida medrosa
a alegre triste
e faço como tu
engano-me com meias verdades
sou aceitavelmente impossível em todas as partes

Não
não sou realmente a
que tu crês que sou
Sou duas mãos estendidas
que pedem misericórdia
Sou um ratinho
que rói o queijo que fez em casa
Sou uma buganvília
de aveludada nostalgia
Sou um pequeno pensador
que se abarrota de ideias vertiginosas
mas nunca consegue obter a luz nem sequer
uma centelha delas
Tenho as costas direitas como uma rainha
e no meu interior queixam-se os pequenos filhos da puta
do orgulho

Sou um obstáculo para mim mesma
e para os outros
mas também um grande salto
que faz com que os outros saltem
Sou um bola
que se nega a que o metam na baliza ao pontapé
Sou um pardal
que entesoura migalhas de pão para dar ao cisne
Eu sou isso no meu interior
que nunca aparece do teu interior!

Svårmodets mod, 1977



PAZ

Durmo sem dormir
vivo na tua solidão
com a minha solidão
Uma coisa é certa
e é que dois juntos
são e serão um-mais-um
E também que este mais
nunca será um menos

Espero resposta
luz ou trevas
O pranto está próximo
está sempre pronto
A alegria acostumada à desilusão
vela um pouco mais longe
Veremos quem chega primeiro

Dói-me
mostrar-te que me dói dentro
Reprimo a minha necessidade de queixa
penso em vermelho
ainda que vá de negro

Faço sapatilhas de musgo para os dois
e a sombra de uma carícia que nunca recebi
lavo-me
com as lembranças de outras carícias

Navego por um rio sonolento
O meu corpo é o meu barco
Pequenas ondas embalam-me
O céu é um retrato teu
Descanso com os braços em cruz
Descanso em paz

Lövsus i moll, 1979


Versão minha - © Amadeu Baptista




María Wine (1912-2003), naturalizada sueca(por casamento com o poeta Arthur Lundkvist), nasceu em Copenhagen. Passou a infância num orfanato e foi adoptada. Toda a sua obra está escrita em sueco, compreendendo: poesia, prosa e prosa poética.


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