sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Jóhannes úr Kötlum


                                            POEMAS DE  JÓHANNES ÚR KÖTLUM

CHEGOU

Se estamos mortos é que estamos mortos
a noite e o silêncio reinam na nossa tumba
    mas se estamos vivos gritam o céu e a tormenta
à terra e ao mar
e à nossa vida.

Se estamos vivos avançamos a atravessar a negra noite
um archote na mão
subimos ao estreito cinturão radiante
que cinge todos os mares do mundo
    negamo-nos a seguir os mortos à tumba.

Deixemos que os mortos enterrem os seus mortos
enquanto a tormenta explode no nosso cérebro
e o fogo no nosso coração
e elevemos esta esfera ardente, a nossa Terra,
até à imensidão sem limites de um novo dia.

O dia chegou e espalha sol sobre as tumbas
chegou
o dia dos vivos chegou.

Sjödaegra, 1955



RESSUREIÇÃO

Chegam os mortos
com véus brancos
surgem da escura terra

como uma onda dourada
brilha na madrugada
a vida eterna

a vida que deram por nós.

Sjödaegra, 1955



HOMO SAPIENS

Nasci para lutar contra os elementos
estátua bípede de barro com o sopro do seu autor
nas narinas.

Queima-nos o sofrimento: no crisol retiraram-nos a escória
as lágrimas, o sangue… e tudo voltará aonde nasce a fonte
originária

até que nasça o sol. Porque o sol surge do oceano
da desesperança
e na praia os meus filhos recolherão conchas: as conchas
que eu antes tinha quebrado e perdido.

Inteiras as levarão inteiras ao reino da luz
que se avizinha
e os elementos, atirando-se aos seus pés,
abençoarão a minha culpa.

Sjödaegra, 1955


TERREANALIDADE

De ti provenho, maravilhosa terra:

como luz brilham os meus olhos nas tuas flores
como neve se fecham as minhas mãos nas tuas pedras
como brisa agita a minha respiração as tuas ervas
como peixe nado eu na tua água
como pássaro canto no teu bosque
como cordeiro durmo no teu matagal.

Em ti me converterei, maravilhosa terra:

como furacão me movimentarei na tua tormenta
como gota cairei com a tua chuva
como casca arderei no teu fogo
como pó me espalharei no teu barro.

E ressuscitaremos, maravilhosa terra.

Tregaslagur, 1964



ATRÁS

Atrás da demência da guerra
esconde-se uma semente que cresce no deserto
e bebe dos amenos peitos da terra
junto à origem e à fonte
das desgraças do povo enlouquecido
sobe ao sacrifício de umas mãos que cegas
curam as nossas desgraças mais amargas
com centeio ou com rosas

dos grilhões infernais do ódio e do desprezo
liberta-se o amor das almas que procuram
e acende sobre o sofrimento da terra
a luz tão ansiada.

Tregaslagur, 1964



PRUDÊNCIA

Se nos falamos morre a poesia.

Morre a poesia se nos compreendemos
    se nos atrevemos a olharmo-nos nos olhos
ou a esquadrinhar isso que estamos
a procurar sem saber o que é.

Morre a poesia se caminhamos demasiado depressa
    se pisamos com demasiada força a terra
a caminho da meta
    se o barulho dos nossos sapatos desperta as perigosas
forças que dormem na escuridão da noite.

Morre a poesia se desprezamos o silêncio
    se agredimos o secreto
    se forçamos o santuário
e intentamos arrebatar Deus.

Tregaslagur, 1964




PRESSÁGIO

Pátria:

Olho-te com os olhos insones
e acolho-te no teu desmaio invernal.

Língua materna:
O teu manancial canta-me na raiz da língua
e ressuma as suas gotas pelo labirinto.

Mas, oh pátria!, oh língua:

oprime-me o medo
há um corvo pousado no beiral a grasnar horrivelmente
que pressagia esse pássaro negro?

Ný og nid, 1970



CRUCIFIXO

Estendi os meus braços ao mundo
e então viu o Sol
que eu tinha forme de cruz
e carregou o martelo de fogo
e os seus dardos ardentes
e cravou-me a humanidade mortal.

Oh, tu, sofrida humanidade dolente:
em piedade desta tua pobre cruz.

Ný og nid, 1970



A SÓS

Finalmente regressei ao templo dos meus glaciares
flautista das noites de São João
uma florinha vermelha na borda da placa de gelo
lançou as suas raízes
os arroios amenos do degelo bifurcam-se nos meus tornozelos
o panorama muda a cada passo
terminou a fuga
a luz preenche as superfícies do tempo e do espaço
o engano e a dúvida
não jazem escondidos
e já não tenho medo
entrego-me ao deus da terra e não pergunto nada.

Ný og nid, 1970


ENTRE A MAÇA E A PEDRA

O primeiro artífice
de pé perante um penhasco desgastado
prepara o golpe.

No ar
trememos indefesos
entre a maça e a pedra.

N. do T.: a expressão ‘Entre a maça e a pedra’ é o equivalente islandês da expressão portuguesa ‘Entre a espada e a parede’.

Ný og nid, 1970


Versão minha - © Amadeu Baptista
 
 

Jóhannes úr Kötlum (1889-1972). O seu primeiro livro de poemas data de 1926, de tom neo-romântico. Aderindo às ideias socialistas fez reflectir a sua ideologia em muitos dos seus poemas, ainda que tenha sempre usado uma veia lírica para cantar os sentimentos da natureza. Publicou 15 livros de poesia e alguns livros para a infância. Escreveu também romance e ensaios e artigos sobre literatura, cultura e política.
 

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