terça-feira, 18 de novembro de 2014

Ângelo de Sousa

A Modo de Ler acaba de dar à estampa, com coordenação de José da Cruz Santos e direcção gráfica de Armando Alves, uma plaquete, intitulada '20 Poemas para Ângelo de Sousa'. O volume, que inclui a reprodução de uma pintura de Ângelo de Sousa, tem a colaboração de Albano Martins, Amadeu Baptista, António Barbedo, António Rebordão Navarro, Bernardo Pinto de Almeida, Eduarda Chiote, Fernando Guimarães, Francisco Duarte Mangas, Inês Lourenço, Isabel de Sá, Jorge Velhote, José Emílio-Nelson, José Viale Moutinho, Mário Cláudio, Maria Cristina de Araújo, Martim Afonso de Redondo, Paulo Pais, Regina Guimarães, Vasco Graça Moura e Vergílio Alberto Vieira.


Deixo aqui o poema com que colaborei nesta publicação:


SOBRE O SORTILÉGIO DA PINTURA DE ÂNGELO DE SOUSA

Após a enxurrada fica a memória
da enxurrada, a mancha de um ramo
espatifado, uma sombra carregada
de cinza, um brilho negro. É quando
a brancura desbota e tudo fica
mais amplamente branco e, da brancura,
sobram, apenas, cintilações escuras,
a abundância domada, o refúgio
onde nem uma urna cabe, um osso,
um pressentimento. Então, o que está
liquidado deixa de permanecer,
embora nos suba à boca e seja
leve gota de sangue, como um cristal,
um poço, uma grinalda, isso
que radica na dimensão de um rosto
sob a alma e pelo caminhos
nocturnos irradia, se tem nome,
a devastar-nos pelo encantamento
as breves sílabas de um conciso verso.
Ah, se não tem nome é palavra cega,
um vulto com o fogo da voz a expandir-se
como barro vermelho.

©  Amadeu Baptista

(in '20 Poemas para Ângelo de Sousa', Porto, Modo de Ler, 2014)







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