domingo, 21 de outubro de 2012
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Manuel António Pina (1943-2012)
Ontem uma amiga pediu-me que aqui pusesse um poema de Manuel António Pina, mal eu sabia
que o iria fazer hoje, pelas piores razões.
Faleceu Manuel António Pina, de quem deixo aqui a sua poesia, com um aceno
que o iria fazer hoje, pelas piores razões.
Faleceu Manuel António Pina, de quem deixo aqui a sua poesia, com um aceno
cúmplice no café Orfeuzinho há alguns anos atrás.
De Manuel António Pina:
Cuidados Intensivos
A esta hora e neste sítio
(miocárdio ventricular esquerdo)
é a abstracta vida que me assalta.
Eles não sabem
que o seu coração pulsa,
ferido, no meu coração,
que a minha dor alheia
vagarosamente mata
os seus sonhos, os seus sentidos,
os seus dias visíveis e invisíveis,
a linha dos telhados
ao longe sobre o céu.
Como saberiam
(com que palavras exteriores?)
que existem
dentro de mim
de um modo fora de mim,
os parentes, os amigos,
a vaga enfermeira da noite,
que enquanto o meu Único coração
morre na minha cabeça
a luz do quarto se
apaga para sempre
e o silêncio se fecha
sobre os corredores?
No quarto ao lado alguém
a noite passada morreu,
provavelmente eu.
Os livros, as flores
da mesa de cabeceira
conhecerão estas últimas coisas
em algum sítio da minha alma?
*******
Vê se há mensagens
no gravador de chamadas;
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas, as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo, agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu, pelos vistos,
não tenha razão de queixa.
Senhor, permite que algo permaneça,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte, nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?
Agora o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.
(in Cuidados Intensivos, 1994)
Manuel António Pina, jornalista e escritor, nasceu em Sabugal a 18 de Novembro de 1943. A sua obra é principalmente constituída por poesia e literatura infanto-juvenil. É, ainda, autor de peças de teatro, obras de ficção e de crónica. Durante mais de três décadas foi jornalista no Jornal de Notícias, do Porto. Em 2002, sob a chancela da Assírio & Alvim, publicou ‘Poesia Reunida’. Em 2011, foi galardoado com o Prémio Camões.
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Adriano Correia de Oliveira
'Lembrar Adriano'
hoje, às 21.15 horas
por Carlos Andrade, José Silva e João Teixeira
Quinta de Bonjóia
Rua de Bonjóia, 185
Campanhã, Porto
Entrada Livre
Cecília Barreira
Cecília Barreira, poeta convidada
TRÊS POEMAS
País
Chove sempre nesta
terra de dor, vazio
e morte. Chove
tanto. Terra do
sul, terra da
morte dos toiros.
Terra do esplendor
de impérios que já
não são.
Terra de encómios,
de cinzas, de
memórias tão intensas.
Terra suja de
cal e marasmos.
Terra sem sabor,
pouca terra de
aldeias.
Pouca terra. comboios.
ausências. Tanta
dor do meu país.
Vómito
Não sei por que sofro.
Não sei por que
estar só é uma
condição de existir.
Não sei de imaginários
de fruição, nem
de escolas do bem.
Sei de solidão, de
vómitos, de cruzamentos,
de esperas.
Sei do refinamento;
sei do riso de
quem descobre que
sofrer é a suprema
condição da felicidade.
Pessoas
Todas as pessoas têm família.
As pessoas que não têm família
deviam ser sepultadas vivas.
Porque a família é a condição de existir,
única e autêntica.
Vivam as famílias,
atribuladas com os sacos de compras
de natal.
Amarguradas com a espera
para a televisão.
Seduzidas pelos totolotos da fama.
Todas as pessoas têm família.
As pessoas que não têm família
deviam ser enterradas dentro
de morgues apropriadas.
As famílias vivem felizes para sempre,
como nos contos de fadas.
As famílias são todas iguais,
como as formigas em casas de madeira.
As famílias são arquitectos do dever,
da moral e dos bons costumes.
As famílias observam o mundo
por detrás dos buracos de fechadura
e masturbam-se lentamente.
As famílias convivem com os pecados,
e a ingenuidade dos novos ricos.
As famílias fazem amor
aos sábados, depois do banho
e do hipermercado.
As famílias são a base
para compreendermos o que afinal
nos preenche a mágoa.
As famílias são a prova
fundamentada da nossa iniquidade
e vontade de vomitar e defecar.
Vivam todas as famílias
de todos os países do universo
extraterrestre e terrestre.
Vivam as famílias e as pessoas
que, por acaso, também vivem nas famílias.
Morram os sem família, os sem abrigo,
e os sem amor, e os sem sentido.
Morram e vivam,
mesmo que não seja permitido.
in 7&10, Lisboa, Europress, 2003
Fotos (ilustração dos poemas): © de Amadeu Baptista
Poemas: © Cecília Barreira
Cecília Barreira é actualmente professora de Cultura Contemporânea na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL. Escreveu alguns livros de poesia, entre eles, o livro 7&10 em 2003. Dedica-se mais à escrita ensaística no universo da história das mentalidades. Tem um heterónimo: mas não revela o nome.
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
António Ramos Rosa
parabéns, António Ramos Rosa, pelo 88º. aniversário
TRÊS POEMAS DE GÉNESE (SEGUIDO DE CONSTELAÇÕES)
Não podemos ter a certeza da nomeação
Entre o acto ou a coisa e a palavra há uma cesura intransponível
Vivemos paralelamente entre dois mundos como estranhos
e só a invenção pode constituir a fábula
de uma unidade que será sempre incerta ou futura ou improvável
Ou talvez possamos fazer um pacto com o inexprimível
e aceitar o insondável como um solo absoluto
e embalar-nos no silêncio ou no berço da nossa morte
Se uma adolescente expõe o seio diante de um espelho
e se deslumbra apaixonadamente e levemente beija a sua imagem
nenhuma palavra poderá dizer o frémito desse instante absoluto
mas é esse o desejo da palavra que procura um lábio
para sentir que ele é o mundo que desponta e o estremecimento do contacto
consigo própria no apaixonado círculo do seu movimento voluptuoso
Ela navega na solidão de imagem em imagem
para encontrar o outro para beijar nele a sua própria boca
e no seu sexo fecundar a ave subterrânea
das suas anelantes entranhas fustigadas pelo tufão do desejo.
Entre o acto ou a coisa e a palavra há uma cesura intransponível
Vivemos paralelamente entre dois mundos como estranhos
e só a invenção pode constituir a fábula
de uma unidade que será sempre incerta ou futura ou improvável
Ou talvez possamos fazer um pacto com o inexprimível
e aceitar o insondável como um solo absoluto
e embalar-nos no silêncio ou no berço da nossa morte
Se uma adolescente expõe o seio diante de um espelho
e se deslumbra apaixonadamente e levemente beija a sua imagem
nenhuma palavra poderá dizer o frémito desse instante absoluto
mas é esse o desejo da palavra que procura um lábio
para sentir que ele é o mundo que desponta e o estremecimento do contacto
consigo própria no apaixonado círculo do seu movimento voluptuoso
Ela navega na solidão de imagem em imagem
para encontrar o outro para beijar nele a sua própria boca
e no seu sexo fecundar a ave subterrânea
das suas anelantes entranhas fustigadas pelo tufão do desejo.
*
Quando uma mulher se despe numa clareira rodeada de arbustos
e sobre uma toalha se estende ao sol o seu desejo é ambíguo
porque não quer ser vista e ao mesmo tempo a sua pele estremece
sob um olhar ausente ou de alguém escondido entre a folhagem
Também a palavra se expõe e oculta no seu fulgor de lâmpada
alimentada pelo fogo obscuro que aspira à nudez solar
Ela inclina-se sobre a água para ver a sua imagem
com o olhar não dela mas de um outro que a move
para ser a presença pura no olhar de ninguém
e poderá ser um dia o de algum leitor que se deslumbra com a sua abstracta nudez
Sem esta duplicidade e sem este puro recato através do silêncio
ela não possuiria o frémito ideal da sua exposição
e seria opaca ou demasiado transparente sem os meandros cintilantes
que a tornam fugidia como um fio de mercúrio
e a sua nudez teria a consistência inerte
de uma pedra sem fogo e sem sal sem o focinho do desejo
Por isso o poema é uma mulher que se enrola na sua nudez
até ser tão redonda como redondo é o ser
com a sua língua bífida entre os lábios do seu sexo
Quando uma mulher se despe numa clareira rodeada de arbustos
e sobre uma toalha se estende ao sol o seu desejo é ambíguo
porque não quer ser vista e ao mesmo tempo a sua pele estremece
sob um olhar ausente ou de alguém escondido entre a folhagem
Também a palavra se expõe e oculta no seu fulgor de lâmpada
alimentada pelo fogo obscuro que aspira à nudez solar
Ela inclina-se sobre a água para ver a sua imagem
com o olhar não dela mas de um outro que a move
para ser a presença pura no olhar de ninguém
e poderá ser um dia o de algum leitor que se deslumbra com a sua abstracta nudez
Sem esta duplicidade e sem este puro recato através do silêncio
ela não possuiria o frémito ideal da sua exposição
e seria opaca ou demasiado transparente sem os meandros cintilantes
que a tornam fugidia como um fio de mercúrio
e a sua nudez teria a consistência inerte
de uma pedra sem fogo e sem sal sem o focinho do desejo
Por isso o poema é uma mulher que se enrola na sua nudez
até ser tão redonda como redondo é o ser
com a sua língua bífida entre os lábios do seu sexo
*
O que não é ainda o que está para ser o que já está a ser
e que não sendo excede sempre em íntima dissonância
que perpetua o mundo para além de nós
e em nós abre uma fenda mas também um espaço neutro
em que a palavra poderá encontrar a rosa do possível
sobre o impossível solo que a nega e que a suscita
O que o ser mais deseja é a integridade de um sentido
que envolva o não sentido que o transponha numa lenta coluna
de existência reunindo a sede e a móvel nascente
que não existe senão no movimento dos passos sobre o deserto
para que a página se ilumine e a boca respire o azul do dia
Mas o poema é sobretudo o movimento do sono adolescente
em que o mundo não é mais que maresia cintilante
e o ritmo das esferas o rolar de uma bola de esterco que um escaravelho empurra
O que não é ainda o que está para ser o que já está a ser
e que não sendo excede sempre em íntima dissonância
que perpetua o mundo para além de nós
e em nós abre uma fenda mas também um espaço neutro
em que a palavra poderá encontrar a rosa do possível
sobre o impossível solo que a nega e que a suscita
O que o ser mais deseja é a integridade de um sentido
que envolva o não sentido que o transponha numa lenta coluna
de existência reunindo a sede e a móvel nascente
que não existe senão no movimento dos passos sobre o deserto
para que a página se ilumine e a boca respire o azul do dia
Mas o poema é sobretudo o movimento do sono adolescente
em que o mundo não é mais que maresia cintilante
e o ritmo das esferas o rolar de uma bola de esterco que um escaravelho empurra
in Génese (seguido de Constelações) 2005
António Ramos Rosa, nasceu em Faro, a 17 de Outubro de 1924. É autor de uma obra poética extensíssima e de rigorosa qualidade (de uma intensa actividade poética, crítica e ensaísta), que o transforma, sem margem para qualquer discussão, no decano da poesia portuguesa deste século e do que passou.
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