sábado, 10 de março de 2012

O Bosque Cintilante # 5

Georges Bizet: Habanera, de Carmen

Quero que esta mulher cante
por ser maior o amor que a traição
e o poder do sangue
o único, o último fascínio.
Quero que esta mulher cante
até que não haja vestígio do extermínio
e só as árvores contemplem
o mal de que fugi.


in O Bosque Cintilante,  Maia, Cosmoroama, 2008

sexta-feira, 9 de março de 2012

O Bosque Cintilante # 4

Johann Strauss: Polca Trisch Trasch

O que entende a felicidade sabe como os dias de Viena
podem ser tão amenos como um olhar estival
e as pequenas luzes do encontro significam
a levíssima essência da inocência.

Bem haja a música e o transe que amplia
a trégua que os pássaros prenunciam
quando vem da alegria esse sinal
que tudo transfigura.

Seja-te a terra leve, pai, nos dias de Viena
em que de ti só a memória resta
de atrozmente em sonhos perseguires
a minha obsessão pela inocência.


in O Bosque Cintilante,  Maia, Cosmoroama, 2008


quinta-feira, 8 de março de 2012

O Bosque Cintilante # 3

Frederic Chopin: Valsa em dó sustenido menor

São estes os pontos de contacto entre a beleza
e a esquizofrenia. Não fosse o firmamento
o obscuro lugar em que me movo
e a crispação a clara afirmação
de que tudo se move sob impulsos
verdadeiramente aterradores, não fosse
a divisão entre os lugares a minha sombra
e a tempestuosidade
o senso de que o génio se alimenta,
não fosse esta tristeza
sumariamente ambígua
e o anjo ausente
deixasse de existir no que eu escrevo,
nada seria tão belo e tão terrível.


in O Bosque Cintilante,  Maia, Cosmoroama, 2008


quarta-feira, 7 de março de 2012

Intervenção e Surrealismo O Poeta José Afonso


Agenda: Intervenção e Surrealismo O Poeta José Afonso
             
              com Alexandre Pereira Martins,
              da Universidade de Colónia, Alemanha
             
               textos lidos por Inês Leite

              Ajanorte - Rua do Bonjardim, 635 1º Traseiras Porto

              10 de Março, Sábado, 15 horas


O Bosque Cintilante # 2

Pyotr Ilyich Tchaikovsky: Dança Espanhola, de O Lago dos Cisnes

De tanto perscrutar o interior das coisas
e sempre regressar ao ponto de partida,
sei bem como é precário o fogo da existência
e em dúvidas e tempo sempre alguém se perde.

O mundo e os seus mortos me perseguem
quando mais densa a invernia alastra
à minha ânsia sobre o temor por tudo
o que tenaz e irascível surpreende

cada um dos momentos da agonia
com que persigo a terra da esperança.
Por este testemunho a luz me atinge
e sei a que esplendor hoje pertenço.


in O Bosque Cintilante,  Maia, Cosmoroama, 2008


terça-feira, 6 de março de 2012

O Bosque Cintilante # 1

Antonio Vivaldi: Primavera, de As Quatro Estações

Vi as pedras à deriva ao longo da estrada,
a caminho de Veneza.
Tanta brancura foi mais do que um sinal,
entre o dia e a noite só um sonho cresce.
Superar a Deus, criando a transparência.


in O Bosque Cintilante,  Maia, Cosmoroama, 2008