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terça-feira, 22 de abril de 2014
4º. ANIVERSÁRIO
Esta blog faz hoje 4 anos de existência. A todos os visitantes e colaboradores fica o meu agradecimento.
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
domingo, 23 de setembro de 2012
Pablo Neruda 1904 - 1973
39º. aniversário da morte de Pablo Neruda,
12 de Junho de 1904 - 23 de Setembro de 1973
NÃO ME SINTO MUDAR
Não me sinto mudar. Ontem eu era o mesmo.
O tempo passa lento sobre os meus entusiasmos
cada dia mais raros são os meus cepticismos,
nunca fui vítima sequer de um pequeno orgasmo
mental que derrubasse a canção dos meus dias
que rompesse as minhas dúvidas que apagasse o meu nome.
Não mudei. É um pouco mais de melancolia,
um pouco de tédio que me deram os homens.
Não mudei. Não mudo. O meu pai está muito velho.
As roseiras florescem, as mulheres partem
cada dia há mais meninas para cada conselho
para cada cansaço para cada bondade.
Por isso continuo o mesmo. Nas sepulturas antigas
os vermes raivosos desfazem a dor,
todos os homens pedem de mais para amanhã
eu não peço nada nem um pouco de mundo.
Mas num dia amargo, num dia distante
sentirei a raiva de não estender as mãos
de não erguer as asas da renovação.
Será talvez um pouco mais de melancolia
mas na certeza da crise tardia
farei uma primavera para o meu coração.
(in Cadernos de Temuco, tradução de Albano Martins)
Pablo Neruda nasceu em Parral, em 12 de Julho de 1904, como Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto. Era filho de José del Carmen Reyes Morales, um operário ferroviário e de Rosa Basoalto Opazo, professora primária, morta quando Neruda tinha apenas um mês de vida. Ainda adolescente adotou o pseudónimo de Pablo Neruda (inspirado no escritor checo Jan Neruda), que utilizaria durante toda a vida, tornando-se seu nome legal, após acção de modificação do nome civil.
Em 1906 o seu pai transferiu-se para Temuco, onde se casou com Trinidad Candia Marverde, que o poeta menciona em diversos textos, como "Confesso que vivi" e "Memorial de Ilha Negra", como o nome de Mamadre. Estudou no Liceu de Homens dessa cidade
e ali publicou seus primeiros poemas no periódico regional A Manhã.
Em 1921 radicou-se em Santiago e estudou pedagogia na Universidade do Chile, obtendo o primeiro prémio da festa da primavera com o poema "A Canção de Festa", publicado posteriormente na revista Juventude. Em 1923 publica Crespusculário.
No ano seguinte aparece pela Editorial Nascimento seus Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, no que ainda se nota uma influência do modernismo.. Posteriormente manifesta um propósito de renovação formal de intenção vanguardista em três breves livros publicados em 1936:
O habitante e sua esperança, Anéis (em colaboração com Tomás Lagos)
e Tentativa do homem infinito.
Em 1927 começa sua longa carreira diplomática quando é nomeado cônsul em Rangum, na Birmânia. Em suas múltiplas viagens conhece em Buenos Aires Federico Garcia Lorca e, em Barcelona, Rafael Alberti.. Em 1935, Manuel Altolaguirre entrega a Neruda a direção da revista Cavalo verde para a poesia na qual é companheiro dos poetas da geração de 1927.
Nesse mesmo ano aparece a edição madrilenha de Residência na terra.
Em 1936, eclode a Guerra Civil espanhola; Neruda é destituído do cargo consular e escreve Espanha no coração. Em 1945 é eleito senador. No mesmo ano, lê para mais de 100 mil pessoas no Estádio do Pacaembu em homenagem ao líder comunista Luís Carlos Prestes. Em 1950 publica Canto Geral, em que sua poesia adopta intenção social, ética e política. Em 1952 publica Os Versos do Capitão
e em 1954 As uvas e o vento e Odes Elementares.
Em 1953 constrói sua casa em Santiago, apelidada de "La Chascona", para se encontrar clandestinamente com sua amante Matilde, a quem havia dedicado Os Versos do Capitão. A casa foi uma de suas três casas no Chile, as outras estão em Isla Negra e Valparaíso. "La Chascona" é um museu com objectos de Neruda e pode ser visitada, em Santiago. No mesmo ano, recebeu o Prémio Lenine da Paz.
Em 1958 apareceu Estravagario com uma nova mudança em sua poesia. Em 1965 lhe foi outorgado o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Oxford.. Em outubro de 1971 recebeu o Nobel de Literatura. Após o prémio, Neruda é convidado por Salvador Allende
para ler para mais de 70 mil pessoas no Estádio Nacional do Chile.
Morreu em Santiago em 23 de Setembro de 1973. Encontra-se sepultado em sua propriedade particular em Isla Negra, Santigo, no Chile. Postumamente foram publicadas suas memórias
em 1974, com o título Confesso que vivi.
Durante as eleições presidenciais do Chile nos anos 70, Neruda abriu mão de sua candidatura para que Allende vencesse, pois ambos eram marxistas e acreditavam numa América Latina mais justa o que, a seu ver, poderia ocorrer com o socialismo. De acordo com Isabel Allende, no seu livro Paula, Neruda teria morrido de "tristeza" em Setembro de 1973, ao ver dissolvido o governo de Allende. A versão do regime militar do ditador Augusto Pinochet (1973-1990) é a de que ele teria morrido devido a um cancro de próstata. No entanto, fontes próximas, como o motorista e ajudante do poeta na época, Manuel Araya, afirmam com insistência que o poeta teria sido assassinado, estando a justiça do Chile
a contestar a versão oficial sobre a sua morte.
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Antero de Quental - 170º. aniversário do seu nascimento
Antero Tarquínio de Quental, Ponta Delgada, 18 de Abril de 1842 - 11 de Setembro de 1891
O PALÁCIO DA VENTURA
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!
Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura…
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!
Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas d’ouro com fragor…
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!
(in Sonetos, 1861)
Foto: ilustração do poema (banco onde se suicidou Antero de Quantal): © de Amadeu Baptista
segunda-feira, 5 de março de 2012
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Aniversário do nascimento de Ruy Belo
MURIEL
Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de Janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver a minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
E penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontros
em que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
Decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
Ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos
junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
Terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão de escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido
Ruy Belo
O poeta e ensaísta Ruy de Moura Belo nasceu em São João da Ribeira, no Concelho de Rio Maior, a 27 de Fevereiro de 1933. Em 1951, entrou para a Universidade de Coimbra como aluno do Curso de Direito, mas concluiu-o em Lisboa, em 1956. Neste mesmo ano, partiu para Roma, doutorando-se em Direito Canónico.
Regressado a Portugal, trabalhou no campo editorial e, em 1961, entrou na Faculdade de Letras de Lisboa, recebendo uma bolsa para investigação. Exerceu, ainda que brevemente, um cargo de director-adjunto no então Ministério da Educação Nacional, mas o seu relacionamento com opositores ao regime da época, a participação na greve académica de 1962 e a sua candidatura a deputado, em 1969, pelas listas da Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, levaram a que as suas actividades fossem vigiadas e condicionadas. Posteriormente, ocupou o lugar de leitor de Português, na Universidade de Madrid (1971-1977). Ao regressar a Portugal, foi-lhe recusada a possibilidade de leccionar na Faculdade de Letras de Lisboa, dando aulas na Escola Técnica do Cacém, no ensino nocturno. Faleceu em Queluz, a 8 de Agosto de 1978.
Regressado a Portugal, trabalhou no campo editorial e, em 1961, entrou na Faculdade de Letras de Lisboa, recebendo uma bolsa para investigação. Exerceu, ainda que brevemente, um cargo de director-adjunto no então Ministério da Educação Nacional, mas o seu relacionamento com opositores ao regime da época, a participação na greve académica de 1962 e a sua candidatura a deputado, em 1969, pelas listas da Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, levaram a que as suas actividades fossem vigiadas e condicionadas. Posteriormente, ocupou o lugar de leitor de Português, na Universidade de Madrid (1971-1977). Ao regressar a Portugal, foi-lhe recusada a possibilidade de leccionar na Faculdade de Letras de Lisboa, dando aulas na Escola Técnica do Cacém, no ensino nocturno. Faleceu em Queluz, a 8 de Agosto de 1978.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Bocage, 246 º. aniversário do nascimento
Manuel Maria Barbosa du Bocage, n. a 15 de Setembro de 1765
[AUTORETRACTO]Magro, de olhos azues, carão moreno,Bem servido de pés, meão na altura,Triste de facha, o mesmo de figura,Nariz alto no meio, e não pequeno. Incapaz de assistir num só terreno,Mais propenso ao furor do que à ternura,Bebendo em niveas mãos por taça escuraDe zelos infernaes letal veneno. Devoto incensador de mil deidades,(Digo de moças mil) num só momentoInimigo de hypocritas, e frades. Eis Bocage, em quem luz algum talento:Sahiram delle mesmo estas verdadesNum dia, em que se achou cagando ao vento. (in Sonetos)
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Antero de Quental
Foto: © de Amadeu Baptista
Banco onde se suicidou Antero de Quental, fez ontem 120 anos
NA MÃO DE DEUS, NA SUA MÃO DIREITA...
Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.
Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depois do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.
Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,
Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!
(in Sonetos)
Antero Tarquínio de Quental, Ponta Delgada, 18 de Abril de 1842 - 11 de Setembro de 1891
domingo, 29 de maio de 2011
Os Poetas do Café, 1981 - 30 Anos
30 anos passados, aqui se assinala o lançamento da publicação colectiva Os Poetas do Café, que ocorreu exactamente no dia 29 de Maio de 1981. Reunia poemas de autores que frequentavam (uns mais do que outros), em generosa e animada tertúlia, o Café Diplomata, no Porto. Ao tempo, foram inúmeras as repercussões que este pequeno volume suscitou, tendo-se constituído como uma referência relevante para a actividade cultural da cidade; António José Saraiva e Óscar Lopes assinalam-no na História da Literatura Portuguesa. Colaboraram: Álvaro Magalhães, Amadeu Baptista, António Campos, Arnaldo Saraiva, Aureliano Lima, Eduardo Chiote, Egito Gonçalves, Helga Moreira, Isabel de Sá, Jorge Sousa Braga, Jorge Velhote, José Emílio-Nelson, Laureano Silveira, Luís Veiga Leitão, Manuel Alberto Valente, Maria da Glória Padrão, Mário Cláudio, Vergílio Alberto Vieira e Vítor Oliveira Jorge.
Contribuí com este poema, que, posteriormente, incluí em Green Man & French Horn:
ROYAL LABEL BLACK
(a Ruy Belo)
Este homem procura as cores mais secas do nosso entendimento;
vai connosco até à rua; responde-nos
um cigarro primeiro, uma construção na areia, depois um ferro
a espetar nas dunas e no mar
enquanto o mar houver e a paz durar;
come connosco à nossa própria mesa; ama a nossa mulher
e experimenta o odor da nossa casa aonde os nossos filhos
lhe entram pelos joelhos, o cobrem de carícias, lhe atiram
a satisfeitíssima bola de brincarmos aos adultos quando é tarde
ou os dias apresentam um cariz de pouca chuva.
Divide o nosso frango, a frugal fruta, as sobras do almoço
e sai-nos portas dentro quando o pôr-do-sol, a solução do sol, o sol
das terras de portugal e das noites de madrid
dialoga connosco, connosco estabelece a nítida fronteira
entre aeroportos, casas – oh as casas – e a mulher que,
podendo ser a de um estivador, do camisola amarela, desse
irreverente basquetebolista que por um grande azar não é das nossas relações,
foi, é, será sempre a mulher
encontrada e perdida na poeira, nas arcas, nas infâncias multicoloridas
que parcimoniosamente nos excedem.
Procura, sim, procura as cores do nosso entendimento;
bebe do nosso vinho; vai à missa connosco; veste-nos
a pele de lobos esfaimados nesta selva de ratos onde os ratos
se confundem com navalhas, intelectuais empalhados, inquiridores
por conta d’outrem (e própria), só para que o amor
um pouco sobreviva, exíguo e tenso; ri
às bandeiras despregadas como só um menino, como só
alguém que sabe da poda pode rir
enquanto os táxis, o choro, as dores de consciência
- que afinal não há, embora os cais… – atravessam o meio-dia, desesperadamente.
Ah, este homem procura as cores mais secas
do nosso entendimento; limpa-se
às nossas toalhas; chega
ao extremo de utilizar a escova privada da nossa privadíssima higiene; rompe
os nossos sapatos (meias inclusive); joga
à pancada connosco, ao eixo; e rouba-nos a carteira
como só quem sabe sorrir pode roubar-nos, pode
assinar de cruz por nós, solucionar
o problema da nossa talvez habitação
sem prestígio nenhum, ao menos uma praia de consolação em que morrer
com o mesmo à vontade, modéstia e alegria
deste homem que procura,
procura as cores mais secas do nosso entendimento.
(in Vários, Os Poetas do Café, Porto, Edição dos Autores, 1981 e Green Man & French Horn. Vários, A Jovem Poesia Portuguesa /2, Porto, Limiar, 1985)
Na foto (da esquerda para a direita): Aureliano Lima, Egito Gonçalves (atrás), Luís Veiga Leitão, Mário Cláudio, Helga Moreira, Isabel de Sá, Álvaro Magalhães, António Campos, Arnaldo Saraiva, José Emílio-Nelson, Jorge Velhote, Laureano Silveira, Amadeu Baptista. Em baixo, à frente, Manuel Alberto Valente e Maria da Glória Padrão.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
58.º ANIVERSÁRIO
NOTAÇÕES PARA UM CALENDÁRIO PERPÉTUO
o que abala o vapor que passa, a sulcar as águas?
aquele que vai sonhando com a escuridão, como li em pavese (sognando il buio)?
outra dor mortal, que se fixou entre a décima e a décima-primeira vértebra?
alguma coisa que se perdeu nos confins da infância,
ou nos confins da infância dos nossos filhos?
este rumor que oscila no forro da casa e não sabemos
de onde veio, quem é e para onde vai?
a cor que nunca saberemos definir muito bem, a cor
que domina, entre o esmeralda e o negro asa-de-corvo?
o fim do mundo, sempre tão próximo e temido, ó contemporâneos?
o juízo final?
a certeza de não haver qualquer certeza, de djerba a padron?
o óbito que o médico há anos assinou no hospital de santa maria, de um homem
que jazia a meus pés quando se pensou que a minha nevrite era um ataque cardíaco?
a sábia mulher das castanhas, tão magra, que um dia me ofereceu num cartucho
a recordação do outono de 89 para toda a vida?
a fotografia da casa de espinho, com o cemitério em frente, que ángeles afirmou
ter visitado certa noite de luar?
a brigada da polícia que a mulher chamou certa vez porque num acesso de cólera
o homem partiu a sala toda?
outra dor mental, entre o hemisfério direito e o hemisfério esquerdo?
o flagelo dos mais pobres?
a morte da avó, a instalar em mim, definitivamente,
a vacilação, o medo, o fascínio?
o segredo inviolável da carta lacrada (lacre azul) poisada na base do vaso (vaso vermelho) de avenca?
o pássaro imóvel, que canta, circunstancialmente?
o sorriso de cândida, quando me pergunta se quero dançar?
certas rochas magmáticas, que a aliança com o vento solidifica?
o som do corne inglês, a ressonância do cravo, o sortilégio da anta?
a vigília do estore, que ninguém quer ver fechado?
a esconsa janela da taberna, através da qual se observa a claridade embriagada?
todas as sombras de santo stefano belbo?
a fita de cetim que com estrondo esvoaça na rua, quando não passa ninguém?
o ciclista que vai em último lugar na classificação geral mas irá envergar a camisola amarela antes do final da etapa?
o feitiço que o anúncio da rádio afirma ser irreversível ?
a feiticeira de que me falou alfredo na corunha (se tu falas galaico-português
a minha pátria é a língua galaico-portuguesa, embora portuguesmente me sinta irlandês,
de dublin ou de belfast) e que por ser galega dá pelo nome de meiga?
a informação de capital importância a que ninguém prestou a mínima atenção
e não é, afinal, de capital importância?
o papel de parede do primeiro andar do número setenta e oito
da rua do monte de judeus no dia 6 de maio de mil novecentos e cinquenta e três
como apontamento autobiográfico?
teotihuacan, silves ou florença, em finais da década de setenta?
a memória fotográfica de verónica?
determinadas somas e outras subtracções que se fizeram num guardanapo de papel
como quem escreve um poema (uma arte poética?)?
o último bilhete de eléctrico do ruy belo guardado entre um livro de carlos de oliveira?
a mulher da noite de madrid?
a outra mulher de madrid que observei a comer batatas fritas
perto do museu do prado (goya)?
conímbriga, que sempre visitei quando ia com os meninos a riachos,
chamando-lhes o olhar para determinadas ossadas que lá estão e tenho a certeza
de que são as minhas?
a noite que acaba de cair no marão e abraça a montanha com a hesitação
de um primeiro nevão?
o tâmega, de que amadeo pintou certo recôndito lugar?
o guarda florestal que acabou agora de acender o cachimbo para poder ter
um incêndio – embora pequeno – para vigiar?
o ar circunspecto com que ele puxa a primeira fumaça e acompanha no livro
o mais obscuro herói de emílio salgari?
o quase imperceptível assobio da brisa nas conchas espalhadas no areal da tarde?
a sereníssima república de veneza, que para surpresa minha nunca visitei
(murano fica perto?)?
esta dupla interrogação supracitada?
o flagelo dos mais pobres?
a crónica falta de cigarros (três da manhã!), obviamente a desoras?
os alazões que me cavalgaram a ansiedade, a pretexto de uma ideia que não quero
agora explorar, e são vermelhos (gauguin) e vão à desfilada pela praia?
a palmeira de tânger, que não tendo visto nunca estou a ver aqui?
dois triângulos escalenos desenhados a giz por um dos heterónimos de pessoa
(ricardo reis, no ano da morte?) no cais das colunas
e que alguma chuva e muito anonimato deixou esquecidos sob a luz das gaivotas?
o oráculo de delfos, que estabeleceu o choro de uma mulher muçulmana
em alcácer do sal,
em dois mil e doze da nossa era (ano da minha morte?)?
esta segunda dupla interrogação supracitada?
o pingo de cera que derreteu no braço beneficiando a imagem impressa sob a pele?
o volkswagen branco matrícula hg-63-24 que estacionou numa página de pedro tamen
e a intertextualidade mandou parar aqui?
o omisso incidente entre a rapariga cigana, núria, e zé manel, carpinteiro-de-limpos,
que a ponta de uma faca sujou para a eternidade?
um dos barcos que atravessa o rio e transporta um vulto para a outra margem
(um lacrau?) ( uma predestinação?)?
esta terceira dupla interrogação supracitada?
a eternidade ela-mesma, diáfana e irreal?
o poço onde ela cai?
o rosto perplexo que lá em baixo brilha?
o coração cansado que nesse brilho mora?
o fluxo do vapor que passa e abala as águas,
encerrando assim o círculo, escarlate?
(in revista Inútil n.º 2, Lisboa, 2010)
segunda-feira, 2 de maio de 2011
239.º Aniversário do Nascimento de Novalis
A poesia é o autêntico real absoluto.
Isto é o cerne da minha filosofia.
Quanto mais poético, mais verdadeiro.
Novalis
Georg Philipp Friedrich von Hardenberg (Schloss Oberwiederstedt, Harz, 2 de Maio de 1772 - Weißenfels, 25 de Março de 1801), Freiherr (barão) von Hardenberg, mais conhecido pelo pseudónimo Novalis, foi um dos mais importantes representantes do primeiro romantrismo alemão de finais do séc. XVIII.
terça-feira, 26 de abril de 2011
95.º Aniversário da Morte de Mário de Sá-Carneiro
UM POEMA DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
DISPERSÃO
Perdi-me dentro de mim Porque eu era labirinto E hoje, quando me sinto.É com saudades de mim. Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.Na ânsia de ultrapassar,Nem dei pela minha vida... Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:O tempo que aos outros fogeCai sobre mim feito ontem. (O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecidoQue sentia comovidoOs Domingos de Paris: Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza, E os que olham a belezaNão têm bem-estar nem família). O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!E foi por isso tambémQue me abismaste nas ânsias. A grande ave doirada
Bateu asas para os céus,Mas fechou-as saciadaAo ver que ganhava os céus. Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:Eu fui amante inconstante Que se traiu a si mesmo. Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que protejo:Se me olho a um espelho, erro -Não me acho no que projeto. Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!Tenho a alma amortalhada,Sequinha, dentro de mim. Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.Assim eu choro, da vida,A morte da minha alma. Saudosamente recordo
Uma gentil companheiraQue na minha vida inteiraEu nunca vi... Mas recordo A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,Em um hálito perdidoQue vem na tarde doirada. (As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei. Ai, como eu tenho saudades Dos sonhos que sonhei!... ) E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -Existe lá longe, ao norte,Numa grande capital. Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,E todo azul-de-agoniaEm sombra e além me sumo. Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...Sou amor e piedadeEm face dessas mãos brancas... Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar...Ninguém mas quis apertar...Tristes mãos longas e lindas... Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...Que me faltou afinal?Um elo? Um rastro?... Ai de mim!... Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.Serei, mas já não me sou;Não vivo, durmo o crepúsculo. Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente A difundir-me dormente Em uma bruma outonal. Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...A hora foge vividaEu sigo-a, mas permaneço...Castelos desmantelados,Leões alados sem juba...Paris - Maio de 1913.Mário de Sá-CarneiroPoemas Completos, Edição Fernando Cabral Martins, Assírio & Alvim, 2001Mário de Sá-Carneiro nasceu no dia 19 de Maio de 1890 em Lisboa. Tendo perdido a mãe muito cedo, e estando o pai ausente, foi viver com os avós para uma quinta em Camarate. Aí começou a desenvolver uma sensibilidade complexa, atraída pelo mistério e pelo medo. Aos 9 anos morreu-lhe a avó, tendo ficado a cargo do avô. Começou a escrever pequenas peças de teatro e as primeiras poesias. Fascinado por temas como a loucura e o suicídio, a sua primeira peça, Amizade (publicada em 1912), escrita de parceria com Tomás Cabreira Júnior, ficou marcada pelo suicídio deste no dia 9 de Janeiro de 1911, com um tiro de pistola na cabeça, no pátio do Liceu de S. Domingos. Entretanto, Sá-Carneiro foi dando à estampa algumas novelas e o seu primeiro livro de poemas: Dispersão (1914). Muito se tem escrito sobre as obsessões literárias do poeta: loucura, suicídio, um certo kitsch, narcisismo, homossexualismo velado, delírio, etc. Mário de Sá-Carneiro passou os últimos anos da sua vida entre Lisboa e Paris, levando uma vida de boémia. Suicidou-se a 26 de Abril de 1916.
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