quarta-feira, 7 de março de 2012

O Bosque Cintilante # 2

Pyotr Ilyich Tchaikovsky: Dança Espanhola, de O Lago dos Cisnes

De tanto perscrutar o interior das coisas
e sempre regressar ao ponto de partida,
sei bem como é precário o fogo da existência
e em dúvidas e tempo sempre alguém se perde.

O mundo e os seus mortos me perseguem
quando mais densa a invernia alastra
à minha ânsia sobre o temor por tudo
o que tenaz e irascível surpreende

cada um dos momentos da agonia
com que persigo a terra da esperança.
Por este testemunho a luz me atinge
e sei a que esplendor hoje pertenço.


in O Bosque Cintilante,  Maia, Cosmoroama, 2008


terça-feira, 6 de março de 2012

O Bosque Cintilante # 1

Antonio Vivaldi: Primavera, de As Quatro Estações

Vi as pedras à deriva ao longo da estrada,
a caminho de Veneza.
Tanta brancura foi mais do que um sinal,
entre o dia e a noite só um sonho cresce.
Superar a Deus, criando a transparência.


in O Bosque Cintilante,  Maia, Cosmoroama, 2008


sábado, 3 de março de 2012

Soledade Santos


Soledade Santos, poeta convidada


3 poemas:


ALGUMA COISA

Abrimos caminho para as velhas casas
tal como para as pessoas.
Algumas aceitam-nos e deixam
que desvelemos esconsos
os murmúrios de vida
e a argamassa do tempo.
Quietas por trás das roseiras
parecem dormir.
Mas podem ser os acidentes
visíveis nos caminhos
de quem nunca regressou.

Assim a casa do cimo.
Em volta da mesa da cozinha
sentam-se só mulheres.
E no cheiro da salsa que se pica
miudinha para os ovos verdes
alguma coisa ali se aquieta,
alguma coisa que tem raízes
numa parte ignorada,
numa outra casa onde imperava
sobre um bando de rapazes
uma rapariga que não tinha
mãe irmãs nem primas.

Não se pode mudar de luz
nem outros espelhos além dos primeiros
nos acolhem o rosto.
Mas há casas assim densas
onde os cheiros
e a vibração das madeiras
e a gota que pinga
da torneira mal fechada
nos vestem
contra as injúrias do tempo e o frio
que nem sabíamos sentir.


(in Quatro Poetas da Net, 2002 - com alterações)





RETRATO

Comecemos pela minúcia dos dedos
pelas magnólias verdes dos teus olhos castanhos.

Contemplemos todas as batalhas
efémeras que perdeste
e os arroios que então se abriram
na espessura do teu corpo
e a boca lavrada pela sede incessante
e a glória da voz em vitral lento.

Consideremos também o teu nome
e para ele haverá que achar metáforas
estrelas em céu de Agosto.

Por fim busquemos no fundo
da memória a chave
para o texto que ainda não decifrámos.
Enquanto isso
a ninguém direi dos pássaros
que moram na tua cintura.

(inédito)




DISCIPLINA

Tantas horas as palavras afloram
os dedos e a comissura dos lábios
e se afogam no silêncio.
E o tempo vai. Fogachos brilham
e extinguem-se. Extingo-os. Memórias
acutilam a decisão. Repito gestos –
refaço o perímetro do mundo.

(inédito)


Fotos ilustração dos poemas: © de Amadeu Baptista

Soledade Santos nasceu no Sabugal, Guarda, em 1957. Reside no concelho de Alcobaça, onde é professora. Participou nas colectâneas Quatro Poetas da Net (2002), e Divina Música (2010). Tem poemas publicados na revista DiVersos, edições Sempre-em-Pé, e em vários sítios da internet. Em 2010, publicou o livro de poemas Sobre os teus pés a terra, pela editora Artefacto. Colabora no blogue da revista Ágio e no blogue de tradução Mudanças e Companhia.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Rui Costa



Amanhã, dia 3 de Março, pelas 21h30, os amigos do Rui Costa e a Poetria juntam-se à volta da poesia do Rui no Espaço Gesto (Rua José Falcão, 107, Porto).

A sessão será apresentada por Henrique Fialho e Rui Lage.
Será projectado um vídeo por António Costa e José João Morais e serão lidos textos por Cláudia Novais, André Sebastião, Regina Novais, Linda Moria e Isaque Ferreira. o lidos textos por Cláudia Novais, André Sebastião, Regina Novais, Linda Moria e Isaque Ferreira. A. Pedro Ribeiro, André Guerra e Fred reeditarão canções do projeto poético-musical Mana Calórica, de que Rui Costa foi um dos fundadores.

Os livros dos meus amigos meus amigos são


Alice Macedo Campos
a mulher sus.pensa, edita-me, Porto, 2011




Carlos Alberto Machado
Corpos, azulcobalto, Évora, 2011




Rui Almeida
Caderno de Milfontes, volta d'mar, s/l, 2011


quinta-feira, 1 de março de 2012

Os meus (mais belos) poemas sobre o Porto - # 8

tarde de mais,/ talvez,/ venho a saber o que seja/ a rotação da terra.
no final da manhã,/ olho o rio,/ o rio,/ este princípio de sabedoria e de incerteza./
tudo à minha volta é como um sonho/ e uma vertigem./ há sempre,/ aqui,/
um caminho de árvores entre a neblina,/ muros brancos,/ vozes,/ muito ao longe,/

e uma ferida incandescente,/ sinais. a rotação da terra é,/ entendo,/ nietzsche, próspero,
tudo o que vem da infância e atravessa/ a casa,/ os sons longínquos,/
a chuva nas janelas,/ a noite que amplia o extenso temporal com os berros
dos gatos e os uivos,/ os uivos fundos,/ lacustres,/ dos lobos.

vejo um caminho de pedras,/ um caminho de perdas./ em volta
tudo é desassossego,/ e uma sombra,/ alta,/ bate nos vidros da sala,/
embaraça as mãos,/ estilhaça. com o poder da noite/
e o demorado êxtase dos relâmpagos,/ vivos,/ a rasgar

o centro da escuridão,/ sinto que alguma coisa escava o meu coração,/
sombra a sombra,/ brilho a brilho,/ andaime a andaime,/ fogo a fogo,/
e subo/ e desço a cruz,/ a encruzilhada à minha frente,/ sombria,/
enquadrada pela luz,/ intratável e ténue,/ que vem da vide,/ o vaso

roxo,/ a cristaleira em que o pó delimita os detalhes
da demolição./ esta cidade é a rotação da terra,/ eu penso,/ o rio
uma metamorfose,/ os barcos o sentido/ em que a irredutabilidade
evolui,/ como uma marca na face,/ um corte de navalha

que expande o rosto até à ruína,/ numa corrente de vultos.
há,/ na mesa,/ uma nódoa,/ o meu pai hoje,/ já morto,/ bebe
em silêncio,/ eu,/ como ele,/ sorvo o real,/ agora,/ e intuo que nada é real,/
porque há,/ aqui,/ papéis em desalinho,/ lápis e tesouras,/ uma chávena,/

uma chave partida,/ um copo sujo de vinho, abandonado,/
enquanto eu,/ sempre quero o que não quero,/ e mais não faço,/
sempre,/ que permanecer,/ irrisório e frágil,/
para que não aconteça senão o que,/ neste momento,/ tarda,/ ainda.

vejo o estremecimento das mãos de meu pai,/ a toalha,/ alvíssima,/ adamascada,/
flutua sobre a minha cabeça,/ e sei,/ de súbito,/ que a rotação da terra prolonga
as reconciliações do mundo,/ e estou preso,/ assim,/
a um acerto e a um desacerto,/ diria,/ de despojos,/ um cerco

onde há uma avaliação absoluta de pontes,/ em que tudo prefigura
a continuação do fim,/ entre constância e assombro,/ memória e declínio,/
sendo os muros o que se enlaça e perdura/ na geografia
imprecisa/ da infância,/ gravada sobre a perda,/ a perda,/ blake, pavese.

eis,/ de novo,/ o milagre do rio,/ a rotação da terra
converge para todos os lugares e nenhum,/ diverge/
onde o real antecipa a destruição/ e a destruição antecipa
o aniquilamento,/ uma nódoa na toalha adamascada,/ alvíssima,/

que interfere,/ intensamente,/ com a trasladação,/ o seu registo
na imensa caixa negra desta terra queimada,/ este rio, sem fim.


in Negrume,  & Etc, Lisboa, 2006


Foto: © de Amadeu Baptista