quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Bocage, 246 º. aniversário do nascimento


Manuel Maria Barbosa du Bocage, n. a 15 de Setembro de 1765



[AUTORETRACTO]
Magro, de olhos azues, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno.
 
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em niveas mãos por taça escura
De zelos infernaes letal veneno.
 
Devoto incensador de mil deidades,
(Digo de moças mil) num só momento
Inimigo de hypocritas, e frades.
 
Eis Bocage, em quem luz algum talento:
Sahiram delle mesmo estas verdades
Num dia, em que se achou cagando ao vento.

                                  

                                   (in Sonetos)

Vida adulta / 20

MIL NOVECENTOS E NOVENTA E TRÊS

Verdadeiro como uma serra
de recorte o estupor transita
pelo coração.

Fico na esquina
a ver passar o trânsito
ou vou a casa, para ver sorrir
os mortos na varanda.

À saída,
começa a adultez, com passagens
para o infinito e a imortalidade,
a desarrumação forrada
a luas fluorescentes e enigmas
inimagináveis.

Salva a ira,
a irritação na pele opõe-se
ao espírito,
premedita e age sob a acção
de um vento irrequieto,
esquizofrénico.

E a serra,
a serra de recorte omnipresente
e ágil, nada recupera.

Engole-me a seco,
para que possa ganir mais à vontade,
cão de avinagrada língua.

Se quero acreditar, não quero.

A ponte em seu balanço vespertino
em vão aguarda esse rodado,
a braçada em que a surpresa
se escondeu.

E o amor, o amor,
é como a igreja vazia nessa hora
em que o milagre não vem
e a assembleia desacredita em Deus.

Depois, a noite,
inúmera e vaga,
inunda tudo,
a cabeça inerte na almofada branca
ressuma pouco calor,
parcas navegações.

Se houve um sonho, a morte o levará
e não vai adiantar procurá-lo
atrás da máquina de lavar,
caído, como um trapo
ou o frasco da lixívia,
já vazio.


( in Açogue, Corunha, Espiral Maior, 2009)



Foto: © de Amadeu Baptista

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Gisela Ramos Rosa


Gisela Ramos Rosa, poeta convidada


TRÊS POEMAS


Quando nasci voltei a reaprender a traduzir o mundo maior em que nascia e aquele
primeiro mundo pele de minha mãe,
Era a luz voltando a entrar em relevo pelos olhos sem que
a memória anterior se tivesse extinguido
tradução e agenciamento, fluência e água amadurecendo a observação
reintegrei os gestos as formas e abri um aqueduto livre no coração
onde guardei em segredo imagens originais
compreendi que na folha em branco os espelhos se podem confundir
com a rigidez do olhar onde as pedras se fixam,
assentei o verbo na tradução das manhãs anteriores
da primeira pele descobrindo as camadas do Livro
com o brilho inquieto do real sobre as mãos

09-07-2011




E é assim que te vejo quando me olhas centrado e me dizes que já foste a infância e que nesse lugar havia crianças e fronteiras, esconderijos, bolas, abafadores e ...aquelas casas de madeira que idealizavas no cimo das árvores.....hoje, quando encontro os teus olhos percebo como são difíceis os esconderijos sem bússola... como destinos fora do lugar.... e não sei se te vejo ou me revejo lembrando a carta que escrevi a minha mãe insistindo para que ela compreendesse o modo como os meus olhos divisavam a paisagem.....agora, nesta minúcia em que me pego a ti, nesta proximidade dos olhos, da pele.....neste acolhimento tão fiel dos amigos, invento um círculo perfeito para os olhos que persistem irrequietos, fora do mapa, em busca de ramos para tornar esta folha num ninho improvável, que nos ligue como se uma flor nascesse por dentro de nós....

27-11-2010



As palavras mais vãs são aquelas que habitam o livre arbítrio dos dias, Afasto-as do poema com a Alma por haver um rio entre as muralhas
onde os olhos se misturam com uma pronúncia muda
invoco o oceano íntimo que trago no peito
percorrendo a lucidez das superfícies nuas
amo o princípio evidente das coisas, dos seres uma pedra, a boca, a baga desigual na saliva dos homens dissolvendo os dias
vou encontrando a luz, palavra ou barca atravessando o dia até ao lugar do visível
por detrás dos olhos onde todas as águas se diluem e encontram

2-07-2011


Gisela Ramos Rosa (1964, Maputo) é Perita em Documentos no Laboratório de Polícia Científica da Polícia Judiciária em Lisboa. Licenciou-se em Relações Internacionais e é Mestre em Relações Interculturais. Tem um livro publicado em conjunto com António Ramos Rosa - Vasos Comunicantes (diálogo poético) de 2006 e tem colaborado com poemas em várias Antologias e Revistas de poesia. 

Fotos: © de Amadeu Baptista; Poemas: © de Gisela Ramos Rosa

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Vida adulta / 19

MIL NOVECENTOS E NOVENTA E UM

Velhas coisas são as que guardamos
no sótão
e não queremos devolver à procedência,

uma vara de garrafas vazias,
revistas esfarrapadas,
cartões de visita,
um par de sapatos de verniz,
quase novos,
a que se junta
uma carteira gasta,
de senhora,
um manequim sem cabeça,
uma panela furada,
o berbequim.

Pena é que os furos possíveis
não caibam já no cinto,
e a dentadura
não nos caiba na boca.

Presa a língua à trave que suporta o telhado
e as palavras disponíveis
para abate,
teríamos, por fim,
acantonado o silêncio,

o desusado silêncio
do sótão imperturbado.


( in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)

Foto: © de Amadeu Baptista


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Vida adulta / 18

MIL NOVECENTOS E NOVENTA

Se soubesse o que procuro
saberia que água pedir neste momento
e a que árvore pertence
este rumor de folhas sob o vento.

De quanto quis saberia a entoação
a que o coração responde nos ardis
que a obscuridade entrega
quando o contágio da memória
me absolve do que nunca deveria
arrepender-me.

Quanto busco não só é indizível
como não tem refúgio certo
entre os ramos hostis do reencontro,

esse incêndio do acaso no ocaso.


( in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)



Foto: © de Amadeu Baptista
Scriabin, Sonata para Piano nº. 4



Antero de Quental

Foto: © de Amadeu Baptista

Banco onde se suicidou Antero de Quental, fez ontem 120 anos


NA MÃO DE DEUS, NA SUA MÃO DIREITA...

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depois do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada 
E atravessa, sorrindo vagamente,
Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

(in Sonetos)



Antero Tarquínio de Quental, Ponta Delgada, 18 de Abril de 1842 - 11 de Setembro de 1891


domingo, 11 de setembro de 2011

Ground Zero - 11 de Setembro de 1973


O Golpe de Estado de 11 de Setembro, ocorrido no Chile em 1973, consistiu na derrubada do regime democrático constitucional do Chile, e de seu presidente Salvador Allende, tendo sido articulado conjuntamente por oficiais sediciosos da marinha e do exército chileno, com apoio militar e financeiro do governo dos Estados Unidos e da CIA, bem como de organizações terroristas chilenas, de tendências nacionalistas-fascistas, tendo sido encabeçado pelo general Augusto Pinochet, que se proclamou presidente.

Fonte: Wikipédia



Pablo Neruda, Canto Geral: