Mostrar mensagens com a etiqueta Livros do Autor. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Livros do Autor. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Um pouco acima da miséria



Tenho livro novo, acabado de editar na Galiza pela editora Espiral Maior, na sequência de ter ganho, no ano passado, o XXIX Prémio de Poesia Cidade de Ourense. Deste livro sairá muito em breve a edição portuguesa, que presumo será distribuída nos inícios de Setembro, com a chancela da &Etc.


Aqui deixo o poema que tem início na página 103:





UM SONHO DE JORGE LUÍS BORGES

A máscara pertence ao domínio
de quem vem ao palco agradecer três vezes
e corre perigo demasiado tempo
para encontrar a essência.

Atrás da coluna a máscara conclama
os sátiros da república, a procissão sacerdotal,
as linhas de angústia do real,
os bárbaros que estão no meio de nós.

No proscénio, alguém usa a máscara sob a fantasia
de coração arrebatado e credores à porta,
enquanto a acção decorre alheia à sedição
e o homem de joelhos suplica.

À luz contemporânea a máscara vai
de taberna em taberna à espera que o absinto
volte de novo ao encanto
e às ramificações esplendorosas do quotidiano.

A máscara do algoz será mais requisitada
depois do curso unívoco dos nossos predadores,
e em chapas metálicas de alumínio
reverterá em favor da eternidade.

Esta máscara simples e surpreendente
é o litígio, os sete pecados capitais;
em cada incandescência
a pantomina condena-nos à excrescência.

Esta será a máscara de Keats, ou mesmo de Pessoa.
Os poetas são da ciência obscura o vaticínio,
haja ainda alguma estrela para ver
sob o céu sem estrelas que nos coube.

Também a máscara do rigor se apresenta
neste constrangimento;
o corpo escava a escarpa
e o ruído de fundo é o demónio a marcar território.

Raiz e precipício é a máscara da morte
quando corre o vinho pelas gargantas
para contagiar quem vê e aplaude,
os dois dias da vida, os três do carnaval.

Observe-se esta máscara quase derradeira
que passa nos bastidores e não entra em cena.
Morto de fome o povo vem atrás
e acena à prosperidade infinita da cidade.

Em literatura a máscara ou a cabeça
induz à clonagem e à queimadura.
Sob o cérebro o olhar é mais severo
e a máscara prolixa, sempre irreversível.

A soletrar um verso, não obstante
os centros comerciais e os bancos ingleses,
vem a máscara de novo à cena
dizer que a vergonha engendra mais vergonha.

A máscara expectante, a máscara do drama.
Quando voltarmos a casa o filme a cores enfada,
tornámo-nos gente impaciente a afivelar
a máscara do sortilégio ausente.

A máscara da tragédia vem ao poema
corroborar a faca, a liga, o sindicato.
Não é nunca a máscara mais que ornato,
acontece tantas vezes no nosso assassinato.

A máscara interior, o seu diálogo
perdido entre o onanismo e a festividade:
tantas vezes vai o cântaro à fonte
que chove dentro de casa.

A máscara dos iníquos, a máscara dos equídeos.
De vazio em vazio passamos brandamente
e só o actor sabe como a cicatriz reluz
e só a actriz sabe como cicatriza a luz.

A máscara do amor: a secreta paisagem
que nos traz aqui em busca da nossa própria máscara.
Adeus penumbra e imensidão de lágrimas,
cabe ao poeta a máscara da ternura.



(in Um Pouco Acima da Miséria. Espiral Maior, Corunha, Espanha, 2014)



© Amadeu Baptista








segunda-feira, 31 de março de 2014

Fragmentos Tunisinos




Está em distribuição o meu novo livro, com a chancela da Volta D'Mar. A aquisição do livro pode ser feita directamente na editora, através do e-mail: voltadmar@gmail.com


Deixo aqui os primeiros fragmentos do livro:




BIZERTE

Sob o céu tunisino
desejo-te outra vez
– o meu crescente é fértil pelo teu.


Falo sozinho,
ou falo-te, ó ausente
– e tanto me respondes.


Vejo na estrada o nácar cor-de-rosa
que esta noite soletrarei
na tua pele.


Pelo golpe de luz na açoteia
sei o calor que está
– a minha mão na tua.


Chega ao meu coração
a tua voz
mesmo se a tua palavra é o silêncio.


Sou como o poeta
que aguarda o poema
– a qualquer momento irás chegar.


O livro arde no círculo de luz
da treva inaugural

– esquivo-me da morte.



(in Fragmentos Tunisinos. Vota d'Mar, Nazaré, 2014)


© Amadeu Baptista











quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Henrique Manuel Bento Fialho escreve sobre 'Açougue'


Com o agradecimento devido, aqui transcrevo o que Henrique Manuel Bento Fialho escreveu no seu blog sobre o meu livro 'Açougue':

( ver link: http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.pt/ )


«Ando há anos para escrever sobre Açougue, provavelmente desde 2008. Data desse ano a primeira edição, na colecção de livros vencedores do Prémio de Poesia Espiral Maior. Reeditado pela &etc em Junho de 2012, numa versão acrescentada, Açougue é um dos meus livros de poesia preferidos. Não é apenas um dos livros de Amadeu Baptista (n. 1953) que mais aprecio - poeta sobre quem António Cabrita já disse o que havia a dizer ( ver link: http://raposasasul.blogspot.pt/2013/06/mon-ami-amadeus.html) -, é mesmo um dos meus livros de poesia preferidos, porque nele encontro uma capacidade expressiva que transcende o nevoeiro sobre o qual paira a constelação de lamentos da contemporaneidade. O maior defeito que encontro em muita da poesia portuguesa contemporânea é, precisamente, não correr riscos, não procurar ir além da constelação de lamentos que ilumina a cabeça dos poetas com mais ou menos jeito para dançar.

Açougue, título fortíssimo, sobretudo para um conjunto de poemas explicitamente autobiográficos, é uma síntese violenta do comércio das carnes a que a vida nos sujeita. Vejamos: são, neste preciso instante, uma hora e cinco minutos da manhã do dia 28 de Agosto de 2013; nos jornais portugueses as notícias dão conta de cada vez mais alunos a abandonarem o ensino, com as universidades numa competição desenfreada por futuros doutores; o desemprego e a precariedade crescem; a Cinemateca está em risco de fechar, cúmulo de uma tragédia cultural que, de Norte a Sul, vem descaracterizando mais o país do que a especulação imobiliária conseguiu fazer à paisagem; há vários fogos acesos, mas nenhum me aquece o suficiente para que afaste esta lúgubre constatação de que, perante a morte de Elmore Leonard e tantas outras notícias, quem podia ler Leonard, ou quiçá Amadeu Baptista, prefere perder tempo a discutir as entrevistas da Judite de Sousa.

Quando digo que vivo num país naufragado sem qualquer salvação não o digo da boca para fora, sinto-o cada vez mais inequivocamente. Sobretudo porque não vislumbro alternativa em quem teve oportunidade para acrescentar alguns milímetros à testa. O Facebook é só a face caricata destes tempos onde ninguém se importa de nivelar os seus dias pela mediocridade, um açougue de encontros e de aproximações onde nos vamos comercializando sem darmos conta disso. Gostamos tanto de um vídeo de jazz como de uma fotografia ridícula, de um bom poema como de uma péssima anedota, gostamos não necessariamente por gostarmos mas para mostrarmos a quem partilhou que vimos, estivemos ali, esperamos que também venha a gostar de nós. Imposturice. Que tem isto que ver com o livro? Suponho que tudo, porque este é um livro que nos confronta com os domínios latentes da vida.

«Logo no primeiro ano / estou só / e não me consigo manter de pé» (p. 9). Estes três primeiros versos do primeiro poema (Mil Novecentos e Cinquenta e Três – cada poema remete para um ano de vida do autor) fazem da solidão uma espécie de oráculo que perseguirá todos os outros poemas, mesmo quando neles se recordam momentos dignos de um afecto que não se deixa circunscrever pela condição existencial indicada no título do conjunto. Geralmente, perduram imagens violentas e intensas, separações, mortes, ausências, a pobreza, as privações, um frio que toma conta das mãos e passa para os versos, amarguras, «circunstâncias indeclaráveis». Mas, como referi, o sofrimento que aqui se escuta transcende a lamentação, adquire nos últimos poemas, torrenciais, uma raiva desmesurada, aquele excesso de que a poesia deve deixar-se contaminar para se libertar definitivamente de todos e quaisquer constrangimentos.

No último poema, já acossado pela morte, escreve o poeta: «Quer a morte que eu deixe de escrever, que o latido do poema / se não ouça, que eu rebente as têmporas por não o encontrar, consumido / pelo esquecimento a que me vejo destinado, neste silêncio iníquo / que a idiotia vigente força, este ultraje que o crapuloso impõe, sanciona, justifica» (p. 89). Ora bem, da solidão essencial à idiotia vigente pode o leitor apressado pressupor uma qualquer tendência para a presunção (não de inocência, mas porventura de superioridade face aos demais). Se assim for, resta-me dizer que discordo. Entre a solidão essencial, comprovada pelas circunstâncias, e a idiotia vigente, pelas circunstâncias comprovada, existe apenas um profundo desencanto. Dói como se estivéssemos a ser cortados às postas. E na realidade estamos, por dentro. E essas postas damos para troca e comércio, num mundo que a tal nos obriga e exige. Porque o cenário é de sobrevivência, sobrevivência num ambiente de pocilga que dói ainda mais por sabermos não ter que ser assim.»
Henrique Manuel Bento Fialho

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Prémio de Poesia Cidade de Ourense

Notícia do jornal Faro de Vigo, de hoje:

«El escritor portugués Amadeu Baptista ha sido el ganador del XXIX Premio de Poesía Cidade de Ourense por la obra Un pouco acima da miseria. El jurado lo califica como "un libro de excepcional personalidad. Una respiración poética amplia, un trabajo minucioso de lenguaje, que está en la base de una tensión poética intensa". Amadeu Baptista nació en Oporto en 1953. Cuenta con una amplia bibliografía. Colaborador habitual de periódicos, revistas, libros colectivos y antologías en diversos países de Europa y América.»

Para os amigos e visitantes deste blog deixo um poema do original 'Um pouco acima da miséria', que acaba de vencer a edição deste ano do Prémio de Poesia Cidade de Ourense e que conta, desde já, com a publicação da obra a concurso em Espanha:



MURMURAÇÃO DE LEÓN TROTSKY NO SEU LEITO DE MORTE

Natália Sedova, olha-me, peço-te que me olhes fixamente
– de mim não escutarás um único gemido, mas dir-te-ei
que a última flor do terrífico é a beleza, como te disse há muito,
como repetidas vezes te disse e agora repito neste meu último fôlego:
o terrífico é a beleza, tal como tudo é neve em nós,
de vitória em vitória, ou derrota em derrota,
ou um verso aterrador de Pushkin ou Maiakovski.

Não vês a revolução permanente neste trapo vermelho
enrolado à volta da minha cabeça, enquanto ponho
os olhos num infinito não muito distante?

Que te parece este exílio, estes dias luminosos de tequila e mezcal,
estes encontros com Frida, que de tudo fala como se pintasse,
enquanto tu cozinhas deliciosamente e eu escrevo sem parar
como se não haja em nós senão comoção?

Nesta cama, onde já só aguardo a morte,
porque é de morte que estou ferido,
não te parece que tudo em mim potencia a neve e o degelo
em contraponto à dor, esse axioma de múltiplos postulados
que a dialéctica acabará por resolver,
tal como resolverá a luta de classes?

Não te parece que, desde que o mundo é mundo, o mundo
é só mudança e que para a revolução revertem
todos os sacrifícios e todos os sonhos?

Não me viste a conduzir
os exércitos entre Kazen e a Ucrânia
e como, de acordo com Lenine, o encadeamento
das batalhas faz todo o sentido?

Deixa que olhe o tecto desta casa estranha e que veja o que vejo:
com certeza é mágoa o que diviso, mas, ainda assim, deixa
que veja um exército alucinado sempre em marcha, um exército
em busca de futuro, mesmo que não haja futuro, ou não haja
soldados quando a guerra terminar.

Deixa que sinta este arrepio a percorrer-me o corpo
como uma ventania poderosa que varresse a estepe
e nunca mais parasse,
e fizesse de mim um homem retemperado e livre.

Inquieta-te ou não te inquieta o esgar
que me modela o rosto, agora que a morte
penetrou o meu crânio e nada mais poderei fazer
do que sentir estas dores intratáveis e a ligadura
a encher-se de sangue, enquanto tu, Natália Sedova,
pões os olhos em mim e ouves comigo o riso longínquo de Estaline
a celebrar, não a morte de um inimigo de classe,
mas a classe de um inimigo – eu mesmo neste leito,
sem temor, sem pavor pelo fim, apaziguado
pela benignidade revolucionária de quem está a morrer?

Digo que é preciso acautelar as coisas, cada clarão, cada
gesto suspeito, e que não devemos confiar se alguém
se apresentar em nossa casa como sendo um amigo,
um amigo belga que não é belga, mas alguém insidioso
que quer ter uma história para contar, uma história
tremenda, a história do meu assassinato,
e quer frequentar a nossa intimidade para nos matar,
porque no Kremlin governa Estaline e, com ele, está a neve,
a neve implacável que sem tréguas nos persegue
e é um curso sangrento, entre sápatras e sequazes,
um curso de brancura que nos quer eliminar.

Creio na fuga, no exílio permanente.
Talvez a revolução seja isso, ter um inimigo
às costas e nunca lhe ver os olhos,
e ter de dormir com a eficácia de um fugitivo,
juntando as botas a um canto, e os filhos,
e toda a parafernália de pensamentos
que aliviem, ainda que por instantes,
o medo e o paroxismo de ser acossado
por uma mão invisível e omnipotente, uma mão
mais poderosa que a mão do acaso, ou a mão de Deus.

Abro a cigarreira e é neve o que encontro,
a caneta que uso é com neve que a encho,
e, quando escrevo, é neve o que alastra
no papel, neve a expandir-se sobre a terra,
enquanto a minha boca é neve que cospe,
a neve da proscrição, a neve da Sibéria,
da Turquia e da França, neve infinita
como a única amargura de quem não pode permanecer
em qualquer lugar que esteja e, em cada sombra,
apreende uma ameaça, em cada ruído, em cada
estalido das juntas de madeira da cama em que dorme.

O que digo é que uma sombra pode soterrar um homem,
uma sombra entre as sombras pode envenenar
a alma de um homem, e que as sombras são como a neve,
estendem-se à frente dos olhos e é como se a luz
favorecesse a ameaça, e fosse a revolução a  própria ameaça,
e nada mais houvesse que essa ameaça a perseguir-nos a cada instante
e em todos os lugares, de Kronstadt à Cidade do México,
de todos os lugares em que estive até todos os papéis que escrevi,
do mais simples panfleto até à sentença de morte de um desertor
ou de um burguês contra-revolucionário.

Creio na fuga, digo. Na fuga há uma tensão que favorece
o improviso, e a vida é isso mesmo, um improviso perpétuo
para sobreviver: junta-se um fio a outro, e outro a outro,
até que fica pronta a bagagem que essa corda
há-de prender –  nessa mala depomos tudo o que é nosso,
os livros que escrevemos, as mulheres que amamos,
as sombras que a nossa intimidade reconheceu
e a corda do improviso ata a esse passo decisivo,
a fuga que é preciso empreender porque as sombras, tal como a neve,
podem adquirir qualquer forma para quem é ameaçado,
a forma de um punhal, de uma pistola, de um copo
de veneno, de uma picareta de alpinista, de pontas aguçadas,
pronta a ser desferida sobre a nossa cabeça.

Digo que o exílio é como a neve, sempre e sempre
a adensar-se sobre nós, por mais que o fogo abrase,
ou nos incendeiem a casa, ou, no ímpeto da fuga,
passemos de um país a outro, e no novo país a que aportemos
tudo seja mais cálido, mais confiável, mais acolhedor.

Ah, mas o certo é que pomos um pedaço de neve no samovar,
preparamos o chá e a água fervente, o infusor de prata,
e é sempre neve o que bebemos, a neve perpétua
de nos querermos aquecer por dentro, a conhecer
o frio permanente de quem é acossado
e atrás de si pressente a perseguição implacável.

E os nevões sucederam-se, nevava em Alma Ata,
nevava nos contra-fortes dos montes Tien-Shan,
nevava em Prinkipo, a ilha predilecta da minha afeição,
onde ficou perdido o melhor cão que já tive,
nevava na Noruega – assim como nevou em todas
as casas do precário asilo que me foi permitido,
até mesmo aqui em Coyoacán, sobre a minha mesa de trabalho,
nestes lençóis, sobre a colecção de cactos que iniciei
para aquietar a fadiga da perseguição, da angústia, do desgosto.

Ah, Natália Sedova, está a nevar nesta cama e eu sei
que é o sangue que neva da minha cabeça que alaga as almofadas
e inunda o soalho e as tuas mãos, e que Rámon Mercader, a mando de Estaline,
conseguiu o queria, dar-me o golpe que a todos recompensa, por esta neve
infalível que sempre me acompanhou e me há-de levar
ao sepulcro e ao tempo futuro.


© de Amadeu Baptista

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Negrume

Nunca é tarde para receber o que não se espera: razões várias fizeram com que os exemplares que me eram devidos da edição de 'Negrume' no Brasil, que data de 2007  (Lumme Editor, São Paulo, 2007), só esta semana me tivessem chegado à mão. Nem interessa referir a responsabilidade de tal coisa ter acontecido, mas assinalar e celebrar esta publicação aqui no blogue. Assim sendo, deixo aqui a reprodução da capa, o prefácio de autoria de Pedro Sena-Lino, a capa da edição portuguesa (&Etc, 2006) 
e um poema do livro:




DE UMA DUPLA VIOLÊNCIA
Prefácio a Negrume

                i.
                O poema não é da alma, mas da sua geografia.
Se o modernismo algo de território novo trouxe à humanidade foi a consolidação de que o poema é um mapa – do invisível, mas do abraço constituinte entre o desconhecido e o corpo que estruturam (um vário, e não já alma vs. corpo) o homem. Mais: a poesia ainda hoje enfrenta essa luta epistemológica consigo mesma, consequência do modernismo, como geografia do não-visto, pré-ciência, astronomia do corpo. Ninguém duvida hoje, passado o pórtico do século XXI, que o romance psicológico de Dostoievsky e Proust resgatou a psicologia como um dos eixos fundamentais da civilização; mas ainda não é possível nem muito menos claro que a poesia salve o invisível de dentro do homem e do universo como constituinte do que chamamos mundo. Essa luta, imemorial e agora renovada, ainda não terminou.

ii.
Donde o título desta colectânea de Amadeu Baptista (n. Porto, 1953): Negrume – essa é a aparência e mesmo a forma do invisível quando se lhe toca pela primeira vez.
Uma viagem breve pelos títulos dos seus dezasseis livros de poesia publicados até 2005 o demonstram: As Passagens Secretas, O Sossego da Luz, A Sombra Iluminada, Desenho de Luzes, Arte do Regresso, Sal Negro; uma permanência da sombra à volta da fala, e esta princípio genesíaco, dizendo para criar. Outro nome para criar: revelar, fazer a luz sobre o informe:

«Perscruta-o a incendiar o chão em volta
Com intensa brancura e um halo de frescura
exerce pelo fascínio um poder obscuro
para exemplo dos secretos animais
que, tal como tu, crescem sobre o dia
aos gritos para encontrar tudo o que há
na claridade omnipresente. Em chamas (...)».

Um poema defronta o silêncio na fala; bate com as suas sílabas de sombra no universo inteiro, convoca a memória ainda antes de ser corpo, e liga sentidos que qualquer coisa de anterior traz guardado no eixo da sintaxe e da semântica:

«Estou entregue a esta doença incurável, ignoro
o que adio por este estupefaciente, a vida,
a morte, por esta máscara sou talvez
definitivamente alheio à obediência das coisas,
o pássaro efémero. Desconheço
que reciprocidade aqui me recrimina, sombras,
papéis, o exercício de uma pulsão secreta
no perímetro ameaçador do coração e do medo.
A paixão perscruto pela sinuosidade do mundo,
o êxtase, a febre, este inefável despojo
sob a proximidade do perigo, a precaridade
uníssona, a comunicação com os anjos.»

Não é alheia à marca geracional em que Amadeu Baptista se funda o equilíbrio entre um modernismo já vazio de experiências e novidades, e a tentação do real quotidiano e urbano. A geração poética de oitenta (revelados nesses anos, e nascidos entre 1950 e 1960), em Portugal, viu explodir na poesia o estertor da última vanguarda, o experimentalismo, esvaziando à sua volta o modernismo construtor do século. Geração também reflectida pela assunção do romance como linguagem que melhor reflecte o Portugal pós-25 de Abril; que vê a poesia perder o carácter denunciador da situação sócio-política, e que apenas pode voltar a sátira sobre o quotidiano ou sobre o sujeito, num lirismo de destruição cujo exemplo mais marcante é precisamente a poesia de Amadeu Baptista. Outros nomes o acompanham geracionalmente, estes religando auto e hetero-ironia, como José Emílio Nelson, ou sobretudo Jorge de Sousa Braga ou Adília Lopes.

iii.
Este livro inédito age como síntese, mas muito mais como cume de uma obra. Amadeu Baptista não deixa senão que uma dupla violência percorra a estrada dos seus versos, entre a presença ausente de uma luz que entrevê na fala, no falo e no dia como contrário do visível; e uma doença do valor das palavras, do poema e dos símbolos que estruturam o ocidente:

«uma doença intrusa. preterido,
procuras perdurar no papel
ou no mármore. afogas-te
num tumulto e vais de escadaria

em escadaria buscar o teu lugar
no paraíso. a araucária serve
ao teu cansaço como um lugar de repouso
e de passagem, e hesitas,

entre tomar a poção sépia
que te estendem na colher
ou o caminho do abismo,

ali tão perto. uma doença irradiante
inscreve-se na pele como um aviso
que ninguém, nem tu, poderá ler.»

Presenças obsidiantes na sua obra são os caracteres dessa primeira violência, uma espécie de revelação falha(da): os corpos partidos, a gruta sensual, impermanente e assassina do ventre, o sentido para uma memória omnipresentemente destruidora, o caminho fragmentado e sempre verdadeiro ou falso das imagens e sombras que cruzam o quotidiano. Mas também a segunda violência do valor do passado (herança literária, biografia, do poema como lugar da memória), esse chão instável de passar um século, de combater o sem-sentido no sentido: poesia finissecular, que o negrume apenas vigia e prenuncia.

Pedro Sena-Lino








Do capítulo 'As Danações':


uma doença infecta, provocada
por balas tracejantes e episódios
retirados do acaso, ora domésticos,
sublinhados por discussões violentas,

ora fortuitos como um acidente
em que uma parte da nuca bate contra o chão
e o sangue corre, fervente, pelo passeio
em que um menino de bibe e sapatilhas pretas

leva as mãos aos ouvidos para não ter que ver
mais do que vê, insustentadamente.
um pavor de doença, que amplia

a legião de fantasmas que nos segue
e nos piores pesadelos admoesta
o sono leve com que a noite passa.

(in Negrume, Lisboa, & Etc, 2006)




 © Amadeu Baptista (poema e foto)

domingo, 29 de julho de 2012

Livros do Autor


Este blogue vai ficar de férias até ao próximo mês de Setembro.
Até lá ficam dois poemas dos meus livros mais recentes.




DOIS MIL E NOVE

(à memória de Rogério Ribeiro)

É de lugares improváveis que as imagens chegam.
A sombra e a luz acentuam as formas das figuras
e há um risco etéreo que o criador recebe
para que seja translúcido o horizonte e a harmonia

estabeleça um fragor luminoso sobre as coisas,
uma escuridão. Eis o que se imagina:
a grande noite acende-se na tela e o pintor
anima-a, a recolher do espaço o que é divino

à força de aguarelas ou de óleos, de pincéis
e incêndios, sendo nítida a transfiguração
em que as figuras voam e, com elas, o olhar.
Vendo bem, quem vê vê mais do que observa,

porque o pintor entrega no que faz um tempo
de outros tempos, onde há homens e mulheres
surpreendentes, perpassados de verdes e azuis,
de praias e de árvores em que a luz

é como uma abertura no céu ou na folhagem,
que faculta o porvir e desoculta
todo o mistério que o sortilégio adensa
e à pintura chega para que a vida seja.

Eis as figuras: são deuses e duendes
de uma cosmogonia antiquíssima
em que a terra se revê e o poema
lentamente aflora para que a terra

tenha um nome e seja a cor
não mais do que fascínio e desassombro
do que o confronto cria sobre tudo
e o pintor, pelo silêncio límpido, resgata

para que o mundo se amplie sobre o mundo
e o claro interior do labirinto
transcenda a eternidade
pelo lápis, a anilina, o desenho.

Eis como o fascínio que há em cada imagem
atrai a voz do olhar e tudo é novo: no mistério
das coisas a luz alastra e é o criador o ser criado,
um fragor obscuro sobre as coisas,

uma constelação.


(in Açougue. Lisboa, & Etc, 2012)








O homem é, antes de mais, criança.
Tem olhos para ver e sabe ouvir
tudo o que se agiganta sobre as casas,
a chama da candeia sobre a mesa e as sombras

que iluminam a cal da sua enxerga vertical.
Com dois paus repercute o horizonte
que o chama, sendo que é certo que observa tudo
com predestinada invenção, a cama diminuta

em que se deita, o prato de alumínio de que recolhe
uma fracção de pão, o resplendor de uma camisa
que rescende a lavado, as árvores da ribeira,

além de uma miríade de segredos que invectivam
a que seja veloz a aprendizagem e lenta
a descoberta.



(in Atlas das Circunsdtâcias. Póvoa de Santo Adrião, Lua de Marfim, 2012)





Para todos os amigos e amigas deste blogue fica o desejo de umas excelentes férias.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Atlas das Circunstâncias



Acaba de ser dado à estampa o meu novo livro Atlas das Circunstâncias. O livro é o nº. 3 da colecção Meia Lua e a edição é da Lua de Marfim. A ilustração da capa pertence a Maria João Lopes Fernandes. Em 2009 foi atribuído a Atlas das Circunstâncias o Prémio Literário 'Manuel Maria Barbosa du Bocage'.
Aqui deixo o fragmento inicial deste longo poema em 30 sonetos:




Não há dias propícios para os fulgores
mortais. Vem-se à terra por uma vereda
acrisolada, com as mãos ininterruptas,
e faz-se a boca diagrama das casas,

sapiência de ver e de sentir, caladamente.
Depois, há só como pensar em tudo em volta
e ver os córregos, as nuvens mansas, a prata
dos telhados, sendo por essa liturgia do silêncio

que há-de ir-se um homem em busca das palavras,
para as sentir e ampliar nos campos e na infância,
enquanto a terra revolve os seus cilícios

de treva e de raízes, a congraçar na cabeça
uma rede de brilhos opacos e translúcidos
em cada pedra.


in Atlas das Circunstâncias, Póvoa de Santa Iria, Lua de Marfim, 2012

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Açougue


Está em distribuição a publicação portuguesa de Açougue, em edição & Etc.
A capa é de Bárbara Assis Pacheco e a composição e paginação de Pedro Serpa.


Um poema:


MIL NOVECENTOS E OITENTA E SEIS

Na extensão do quarto não há senão
um lençol vermelho e a mulher.

A cama, ao fundo, e a lâmpada acesa
não são mais que motivos para prender
a atenção.

Dou dois passos absolutamente vacilantes.

O lençol vermelho é de um cetim que cega,
um brilho extenuante.

Mas eu quero ver, quero ver a mulher.

Na extensão do lençol de cetim
a mulher não vacila.

Parecendo
que dorme, tem um sorriso nos lábios,
desconhecido.

Dou dois passos na sua direcção.

Paira no ar um perfume quente,
quase sólido, que me embriaga a ponto
de a querer ou de a matar.

Quero, quero ver a mulher, em toda
a extensão do quarto, surpreender-me
com o fascínio da oferenda, os seios breves
no lençol vermelho, de cetim,

esse sorriso,
assim desconhecido.

A pouco mais de um passo, tocando-a
ao de leve,
sinto que a carne não é carne
nesse momento intenso,
a carne é a visão do desejo sobre um lençol vermelho, de cetim,

em que a lascívia se amplia
e o desencontro
se entrega à claridade da extensão do quarto
para que o crime se consuma
e eu use, cegamente,

este punhal.


in Açougue, Lisboa, & Etc. 2012
© de Amadeu Baptista

sábado, 28 de maio de 2011

Outros Domínios (Clamor por Florbela Espanca), 2011



2.
Creio ter aqui chegado por um certo engano,
e por isso o meu nascimento foi uma avareza de rosas,
e os cães rosnaram no extremo da charneca, e um uivo
inquietou a solidão doirada da planície para que algo
me dissesse como estou aqui, como cheguei aqui,
como o meu leite é negro sob a tempestade dos homens
e os elementos não sabem como interromper a ameaça.

Onde anda meu pai a esta hora infinita, não sei.
De todos os lugares chegam vozes impossíveis,
e o meu berço azul brilha no centro da terra, nesta casa
de cal, nesta branca tirania da suavidade, que Eliat ignora
e só um mar vermelho poderia aquietar.

Venho à vida, e venho a um lugar estranho onde as vozes
se levantam para murmurar, e por murmurações
entendo a condenação à fogueira, e a chuva de larvas
nos campos em volta, e os cavalos desenfreados
que vão de igreja em igreja procurar a redenção,
e os homens que, nas tendas, preparam as facas.

Aqui nasci, e não tenho onde repousar a cabeça, e nada
vem transformar a água em vinho, e a minha língua arde
pela impossibilidade de escolha das primícias, sendo que quero
uvas, maçãs, um pêssego absoluto, e toda a paz da planura,
toda a paz da humildade, enquanto os meus mortos revogam
os meus cânticos, e eu canto como cantam as raparigas de Jerusalém.


 
(in Outros Domínios Clamor Por Flobela Espanca, Coimbra, Temas Originais, 2011)


sexta-feira, 27 de maio de 2011

O Poeta e o Burro, 2010




Platero é um burro pardo,
manso como um sussurro.
Dono de um trote alegre,
vai ter com Juan Rámon

sempre que o ouve chamar
para lhe dar de comer.
Come tudo o que lhe dão:
laranjas e tangerinas,

uvas da cor do âmbar
e figos arroxeados,
com as suas gotinhas de mel.
Platero é de algodão,

parece que não tem ossos.
Por fora é muito mimoso,
embora seja, por dentro,
forte e seco, como as pedras,

e o seus olhos sejam duros
como espelhos de azeviche.
Mas é claro o seu olhar,
muito brando, muito doce.






(in O Poeta e o Burro, Matosinhos, QuidNovi, 2010)

Ilustrações de Raquel Pinheiro

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Estrela de Bizâncio, 2010


(fragmento)

O tempo existe, eu conheço-o, tem apenas a ver com o que os olhos vêem mesmo, com essa parte corpórea que jamais se extingue dentro da cabeça e da alma, como um rastro de alta emoção marcado num mapa por milenares sinais de assombro e cristal. Nesse mapa páginas compactas fixam os dias e as noites que acontecem simultaneamente em mim, aqui vibra uma estrela, ali há um ramo de urze e de giesta, além há árvores, bicicletas, sacos de trigo, gente encarregada de recensear os habitantes da aldeia, gado, um ancião que procura provas irrefutáveis da existência de deus, um vedor de rosas, crianças que brincam às escondidas, um caçador furtivo que larga um furão à entrada de uma lura, um coelhinho branco, uma avioneta azul que sobrevoa a seara, uma nuvem com a forma de um dragão, uma andorinha no beiral do celeiro, uma urna aberta em frente à entrada lateral da capela nova, o cão a dormir na soleira da porta, o gato amarelo a lamber a pata, a primeira melancia, o primeiro melão, a debulhadora parada no final do lameiro, a ardósia partida em que a luz incide,  a lamparina acesa sob a sombra delida, o saco de batatas encostado ao taipal, a garrafa vazia que já ninguém procura, a foice pendurada sobre a porta, um violino e um arco guardados num estojo verde, o lençol branco acabado de passar, a tigela grená que à janela seca a marmelada, a tesoura de poda esquecida no alpendre, o candeeiro a petróleo que ninguém acende, um sapato a que falta o par, uma trança de mulher guardada numa renda, uma teia de aranha iridescente, os restos de uma fogueira, a sombra de uma espingarda, uma cesta com maçãs, um colchão em ruína, as contas de um rosário, a estampa de um leão, uma dentadura velha, um dedal e uma tesoura, uma meada de ráfia, um saquinho de sementes, um relógio sem ponteiros, um prato com moedas, um cinzeiro esbotenado, uma caneta sem tinta, a aba de uma mesa quebrada, a pega de um castiçal, um rebanho de pardais, o fuso, a lançadeira, uma coruja empalhada, um ramo de violetas, sete chaves ferrugentas, a opa do sacristão, um sino que ninguém toca, livros de deve e haver, grosas e grosas de lápis, ainda por afiar, um prato pintado à mão, pingos de tinta no chão, diversos frascos vazios, um lacrau sob uma pedra, duas gotas de água benta, a miniatura de um carro com um burrico a puxar, são josé e o menino numa gravura rasgada, folhas secas, uma panela furada, uma lata de sardinhas, a planta de uma casa, um selo da lituânia, cinco quilos de laranjas.


(in Estrela de Bizâncio, Torres Vedras, Ed. Livrododia, 2010)


Prémio de Poesia e Ficção de Almada, 2005

terça-feira, 24 de maio de 2011

O Ano da Morte de José Saramago, 2010




(fragmento)

E é então que a saudade se expande como palavra portuguesa
e eu volto à infância, enquanto tu, Dempster das Irlandas que não há,
revives e oficias o K3 dessa Guiné repulsiva para que o fascismo te mandou,
como se houvesse uma nova crónica do descobrimento e conquista da Guiné a ampliar
a que o Zurara escreveu, e nada se cria ou se perde, e tudo se transforma,
como a antiga lei nos disse, e de versos se inça o exílio que jamais projectamos
e, sem mais, o acaso da vida, pelo seu ábaco infeliz, nos ordenou –
e sabemos que os poemas sujam tudo,
tal como os pombos, as pombas, os ratos, os pais que nos traíram,
e todos os que traíam as infâncias que, como as nossas,
foram vividas a golpes de marcas nos costados pela sovas iníquas
que nos deram

Falemos de exemplares vivos e pios de aves,
o centro da cidade é uma loja chinesa na ordem geral do mundo,
nós estamos a viver algures entre a rua Formosa e a rua da Paz
e o dia de hoje, claro como há muitos dias não havia, enche-se de sombras,
e eis que acabam de bater as doze e quarenta e cinco e morre, em Lanzarote,
José Saramago, tão pombo como nós na refrega das coisas que nos escapam
entre os dedos como se não fossem mais que jangadas de pedra onde nenhum
ente divino se senta à nossa mesa por um café – falemos
da inexprimível solidão dos poetas, esse luto

Vejo-me como um homem calado, vejo assim os poetas,
vemo-nos como homens calados que não podem estar calados,
ou que estão cegos e não podem estar cegos,
ou que não podem deixar de deambular na cidade,
porque há uma pedra a levantar do chão,
um povo a levantar,
uma infância a levantar

É, foi na infância que o descontrolo se arrostou,
aquele odor a sal e a vinagre palpita ainda no meu cérebro,
ligamo-nos assim à terra, a olhar o interior das mercearias,
dos pomares,
a surpreender a alegria que se faz pela interposição do silêncio
com as palavras vitais, o rego de sangue que se abriu
na via do caramanchão quando ficou determinado o lugar das alucinações
e se abriu a porta para um determinado ponto da cidade,
esse mesmo onde caímos pela primeira vez

O que lá está é nosso e não nos pertence nunca, o olhar
deslumbra-se por esses cavalos, essa estátua, esses pombos,
provera a Deus e seríamos meninos para sempre com essa brisa no rosto,
os barcos estão cheios de carvão, discorrem sobre eles as mulheres
que pelas tábuas passam e carregam à cabeça largos cestos de vime,
e é como se fossem podoas a escandir o ar, como se fossem
a nossa misericórdia irremissível


(in O Ano da Morte de José Saramago, Lisboa, & Etc, 2010)

domingo, 22 de maio de 2011

Zoo Musical, 2010



Farto de tocar o sino
por uma ou duas moedas
o elefante Renato
teve uma ideia brilhante.

Reuniu os animais
e apresentou a proposta
de entre todos formarem
uma orquestra janota.

Tratava-se, segundo ele,
de alegrar o zoológico.
Considerava que, assim,
quem os fosse visitar,

teria motivos óbvios
para melhor desfrutar
o passeio que fizesse:
via os bichos do jardim

e tinha a oportunidade
de poder usufruir
de momentos agradáveis
com a música que fizessem.

(in Zoo Musical, Vila Nova de Gaia, Calendário das Letras, 2010)

Ilustrações de Ana Biscaia