sábado, 11 de fevereiro de 2012
Alice Macedo Campos - Lançamento
Dia 18 de Fevereiro, pelas 16 horas
Lançamento do livro de Alice Macedo Campos 'a mulher sus.pensa'
Local: A Cadeira de Van Gogh, Rua Morgado de Mateus, 41, 4000-334 Porto
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Pena Agravada
Estou a cumprir pena perpétua. Na infância, uns filhos da puta rodearam-me com triângulos escalenos e não pude fazer mais que emocionar-me. Nesse tempo, a minha ocupação eram as luzes coloridas e um rio em que as barcas abrangentes conduziam as almas para o inferno, sem que dessa escuridão se suspeitasse. Nos anos cinquenta a miséria absoluta confrontava-se com um menino inocente, que o alarido dos vizinhos amedrontava, sendo que alguns deles sangravam dos ouvidos e dormiam ao relento sob as árvores, e bebiam até que pelas veias corresse apenas álcool. Com cuidado, olhava-os nos olhos, a fazer do silêncio um primeiro recorte obsessivo de palavras, películas vermelhas que invadiam a nítida frescura do meu pátio. Estava ali e queria persistir, talvez porque pensasse que há lugares ilesos um pouco para além dos gemidos da noite e do chicote com que a turbulência arrasa certas vidas que não podem mais que o pão quotidiano, sobretudo se o desamparo é não o ter. Agir, por essa altura, era crescer, embora o crescimento seja uma fortuna inverosímil, que se pega ao corpo a assinalar o teor que há na dor de modo mais profundo e explícito, em que a morte é como um sinal de perigo, mas não exactamente uma ameaça. Fazia sete anos e era pastor aquando do passamento da mulher amada, a quem chamei avó e sei que é um álamo verde nestas margens em que me reduzo a pó nesta memória de a lembrar agora a inscrever nas praças do seu tempo um meneio escandaloso de passar por elas com os cabelos soltos e a anca em fogo. Compôs-se então de treva a claridade e aprendi a ler. Foi-me tormento a escola e o terror de ter por mestres gente que batia nas crianças e andava curvada sobre o tempo que se estendia cinzento sobre os dias, sem qualquer alegria que a tristeza anódina dos que perderam para sempre a macieira mágica. Cheguei a presumir que nos temiam, sendo as nossas certezas tão escassas mas tão vociferantes essas figuras que nos faziam crer que compensava o crime de nos manterem reféns no estrado, completamente prontos para a impunidade de uma régua mortífera nos nós dos nossos dedos. Mijávamo-nos de pavor pela violência inumerável da aprendizagem, onde o fulgor coalhava com notícias do céu tão abstractas como o facto de sermos navegantes há tanto tempo que não o lembrávamos. Até que um dia, já adolescente, descobri o poder da poesia que, a par com o mar, aprendi a fitar com imprudência, por serem revoltosas essas águas em que o dia e a noite se confundem. Era essa imprudência o desassombro de ouvir o longínquo e o genesíaco, com homens e mulheres a recortar-se da imensidão dos tempos, a cantar a dolência e o sublime, a invectivar o mistério e a ampliar o enigma que há entre os enigmas, ou o surto de sentidos que, num sopro, agrega ao infinito o infinito, para que haja mais infinito no sentido. No meu país, então, grassava a guerra e para os da minha idade só havia essa promessa como compromisso, que abarcava a morte pela extorsão e a posse da terra, e a escravatura de outros homens em tudo iguais a nós. Longos anos durou essa aflição, até que um dia o mais cruel dos meses comportou a amenidade esperada, dando à paz um fugaz clarão de expectativa. Por essa estrada ia a descobrir os gregos e não tardei a ver com que punhais trabalha a insídia e aos abutres se não devem confiar os braços levantados para a prece comum. Os pobres estão mais pobres do que nunca e despojado o mundo pelos roubos que, entre acerto e desacerto, cada um de nós vai consentindo, por cobardia, fraqueza, ignomínia. Ainda assim eu quis resistir. E li mais gregos, e instintivamente olhei o mar. E fui, contra a corrente, nessa corrente de vozes subterrâneas e ventanias densas que me tornaram órfão de tudo quanto amei e perplexo amante de um recontro tenso com o poema oculto no poema em que, mais do que o amor, surpreendi a morte com que, fora de mim, por dentro me revejo, agora que, ungido pelo vazio, só mesmo a poesia sobrevem. Triângulos escalenos trouxeram-me a este cais e, tal como na infância, uns filhos da puta me rodeiam. Não posso fazer mais que emocionar-me. in Antecedentes Criminais Antologia Pessoal 1982-2007, V. N. de Famalicão, 2007 |
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Wislawa Szymborska (1923-2012)
Wislawa Szymborska
POSSIBILIDADES
Prefiro cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos nas margens do Warta.
Prefiro Dickens a Doistoievski.
Prefiro-me gostando dos homens
em vez de estar amando a humanidade.
Prefiro ter uma agulha preparada com a linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrever.
No amor prefiro os aniversários não redondos
para serem comemorados cada dia.
Prefiro os moralistas,
que não prometem nada.
Prefiro a bondade esperta à bondade ingénua demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.
Prefiro ter abjecções.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro contos de fada de Grimm às manchetes de jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com o rabo não cortado.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que aqui não disse,
e outras tantas não mencionadas aqui.
Prefiro os zeros à solta
a tê-los numa fila junto ao algarismo.
Prefiro o tempo do insecto ao tempo das estrelas.
Prefiro isolar.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro levar em consideração até a possibilidade
do ser ter a sua razão.
Wislawa Szymborska, in "rosa do mundo" assírio & alvim, 2001
A poetisa polaca Wislawa Szymborska, Nobel da Literatura de 1996, morreu ontem, aos 88 anos. Deixou mais de uma vintena de livros de poesia. “Morreu tranquilamente, durante o sono”, na sua casa em Cracóvia, anunciou o seu assistente Michael Rusinek.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Alice Macedo Campos
Alice Macedo Campos, poeta convidada
3 Poemas do livro 'a mulher sus.pensa'
se encaram e se entregam, as melhores palavras, as
que chegam em bandejas de prata, com a escama ainda
exposta, e o sangue, avançam como éguas, ouve-se daqui
o seu galope, deslizam na pele à velocidade dos meus pulsos,
e correm. estavam porém um espelho e a minha voz deste lado,
a luz claramente acesa sobre o medo, pronta a cegar-nos os olhos
e a boca fechada, a gramática impura dos amantes fez do verbo estar
um filme que acontece fora de nós, na paisagem e nos brilhos, onde a
música toca um instrumento tântrico que nos adversa, na hora de cantar.
(in 'a mulher sus.pensa', edita-me, 2011)
quantas luas foram já o teu olhar, perguntei,
mas estava a interrogação contrária na linha do mar,
como um ponto frágil que derrete à primeira água, sempre
que te ausentas. e o teu nome suava ao longe uma lágrima antiga,
nunca antes chorada, que derrama no tempo, e amanhã, e depois disso,
este poema verso a verso, sobretudo os que faltam. vejo-te daqui, lânguida,
o dorso da noite como um ombro que suporta o peso excessivo de viver, e sinto,
embora a distância seja a de um grão, que é aqui que terás de morrer, para sempre.
mas estava a interrogação contrária na linha do mar,
como um ponto frágil que derrete à primeira água, sempre
que te ausentas. e o teu nome suava ao longe uma lágrima antiga,
nunca antes chorada, que derrama no tempo, e amanhã, e depois disso,
este poema verso a verso, sobretudo os que faltam. vejo-te daqui, lânguida,
o dorso da noite como um ombro que suporta o peso excessivo de viver, e sinto,
embora a distância seja a de um grão, que é aqui que terás de morrer, para sempre.
(in 'a mulher sus.pensa', edita-me, 2011)
toda a vida chorei este dia e foi um saco lacrimal que se rompeu.
sou talvez muito nova para sofrer um cancro, este, de te amar.
esta carta é uma oração e uma prece. e sua penitência.
a deus nosso senhor e todos os seus familiares.
por eu ser a mais vulgar das raparigas.
sem perdão nem castigo.
sou talvez muito nova para sofrer um cancro, este, de te amar.
esta carta é uma oração e uma prece. e sua penitência.
a deus nosso senhor e todos os seus familiares.
por eu ser a mais vulgar das raparigas.
sem perdão nem castigo.
(in 'a mulher sus.pensa', edita-me, 2011)
Alice Macedo Campo. 33 anos, natural e residente em Penafiel, publicou 3 livros, 'o ciclo menstrual da noite', em 2008, 'um cão em cada dedo', em 2010, e 'a mulher sus.pensa', em 2011
Fotos: ilustração dos poemas © de Amadeu Baptista
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Rui Costa (1972-2012)
Autobiografia
Não preciso mas tu sabes como eu sou
Encaminho-me pouco divirto-me assim nas copas
Das árvores soprando pensamentos para o mundo que há de noite.
As pessoas quando acordam são outras, já sabias,
Essa névoa contemporânea do medo miudinho
Que perdemos nas cidades e nos corpos, tu entraste
Antes de mim nos jogos, o enxofre da música e o
Lago do feitiço, inocente homem breve que sonha
Tu bem sabes.
Depois aluguei a bruxa por uma vasta noite.
E a minha vida mudou, a noite cresceu,
A vertigem ardeu-me nos braços até a sangria
Do tédio quando para sempre julguei que te perdia.
Na luta perdi um ou dois braços,
Mais do que o que tinha. Mas esta memória é um palácio,
São corais no pensamento. Jardins e fantasmas,
O gume nas mãos sorvendo, criança estratosférica
E profunda: sem braços e agora sem mais nada.
Não me percebeste, enchi-me de fúria.
É uma arte, queria eu dizer, matar sem retrocesso e
Atraso – ah aqueles braços para apoiar as mãos - ,
Ceifando. Saturno e o vento na proa erguendo.
O: navio:no:mar:parado:parado: completamente.
Parado.como dizer? Não dizer, eu sou.uma vida
Medonha e múltipla. E agora descanso
Deitado nestas mãos que mexem
Sem apoio, sabes, nascendo dos teus olhos
P’la manhã.
( in A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, Edições Quasi, 2005)
Adenda: O funeral do Rui será no cemitério de Santa Marinha coordenadas: 41 07' 43,83''N, 8º 37' 37,64''O) pela 10h30 da manhã do dia 20 de Janeiro. O corpo estará numa das capelas mortuárias do cemitério a partir das 9h00 da manhã do mesmo dia. Após uma breve cerimónia o corpo do Rui seguirá para o cemitério de Macieira de Cambra, Vale de Cambra (coordenadas GPS: 40º 51' 31,39''N, 8º 22' 28,36''O).
Informa António Aguiar Costa, irmão do Rui.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
GUSTAVE COURBET
GUSTAVE COURBET: A ORIGEM DO MUNDO (1866)
Para os que esqueceram
a nudez com que aqui chegaram,
e de onde todos chegam,
crio.
A perda,
a perda que é sempre só resgate,
vem comigo,
quer dizer,
ponho-a nos quadros
para que, na exibição do ultraje,
nada se extinga,
nada se perca
e tudo se transforme.
Este é o rosto invisível de um quasar,
e a mulher que posa é Joanna Hiffernan,
a amante de um amigo,
enquanto o mundo,
o velho mundo,
se esquece que há em Deus
muitos mistérios
e que são os homens que os fazem.
O que se escuta, aqui?
Talvez só se escute alguma coisa estranha,
que os ocres e os vermelhos sublinham
com as insinuações brevíssimas na folhagem
que corre no talude.
Ou o ruído,
quase imperceptível,
de uma aranha a fazer a teia,
a luminosa teia da manhã.
Ou, talvez, se escute
a dimensão do universo,
com os seus firmamentos irreais,
as suas bocas, hiantes,
a adocicar os negros,
os meios tons,
a grave claridade de um grito a derramar-se
no fundo de um ribeiro.
Ou isso, ou muito mais:
o pôr-do-sol,
as raparigas que passam com os seus lenços
brancos,
perseguidas por homens em cujos olhos
vai o carro de Zeus,
e Apolo,
e as Eríneas,
e a aurora,
com o seu labor operário
no ar recém lavado
da imundície da cidade,
onde a soberba dos ricos
ainda dorme
e onde há órfãos insones,
em busca,
pelos cantos,
de um pão, ainda que recesso.
Eu crio:
estrume,
ou esterco,
crio,
para que o meu testemunho,
sob o efémero,
possa aguilhoar as almas
e consumar
a união entre o diverso e o transitório,
e não haja mais escândalo
que o escândalo
de ser a soberba a nossa ignorância
e a nossa ignorância a desventura.
O que há para ver nos genitais de Joanna?
O fogo?
A presença divina?
A parte da memória que não sabemos
onde está escondida?
A anunciação?
A carroça de feno que os peixes
empurram porque não há
estrelas na noite?
A expectação?
O ribombar dos canhões
no campo de batalha?
O fim de tudo?
A deposição?
O terror do martírio?
A serpente?
Ou só, apenas,
o indício seguro
de que a nossa humanidade é assim,
terna e tenra,
oferente e solícita,
ainda que tudo seja
aterrador
e a aflição
nos cerque?
Joanna é doce,
suporta sem queixume
a pose que lhe impus,
e sabe como,
no princípio,
cobria tudo a treva,
e a mulher chegou
toda de branco,
com uma luz nos olhos e os dedos
abertos
para a farinha,
e que, aos seus ombros,
vieram aves
que, de árvore em árvore,
cantaram o fulgor das primícias,
os frutos,
o sangue vivo
que vinha da mulher numa corrente
purificadora.
Eis o conjuro:
estar vivo.
E passam nos meus olhos
imagens dos amigos,
e Juliet Courbet, dormindo,
como uma criança,
Gabrielle Borreau,
que olha o infinito,
e Besançon,
e os campos floridos,
onde brinquei em menino
a roubar ninhos,
a explorar as grutas,
a desvendar a vida.
Joanna é doce,
sorri-me quando pode
e canta,
para entreter a monotonia
a que a pose para este quadro obriga:
e eu olho-a,
e olho-me,
e escuto-a a cantar
como se fosse um pássaro de ausência,
e eu um homem
sem mais remédio
do que pintar assim
como que fascinado,
como que enfeitiçado,
a suprir uma falta,
uma falta imensa na luz que me convoca.
Para os que esqueceram a nudez
com que aqui chegaram,
e de onde todos chegam,
crio,
apenas.
(in Doze Cantos do Mundo, Sintra, Edição CM Sintra, 2009)
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