sábado, 3 de dezembro de 2011

Em memória de António Cabral

Dois documentos:



Foto: © de A. M. Pires Caral

Uma foto histórica, em São Leonardo da Galafura, viagem de preparação da publicação 'Douro: Um Percurso de Segredos' (Instituto de Navegabilidade do Douro, s/l, 2000). Na imagem, da esquerda para a direita: Amadeu Baptista, Jorge Velhote, António Cabral, Braga Amaral, João Paulo Sotto Mayor (de costas), Albano Lobo e Eugénio de Andrade (Primavera de 1999)





Vídeo feito por excertos de duas intervenções de António Cabral nos "Dias da Criação",
em Vilar, Boticas. Setembro de 2007

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Caravaggio / 3

CARAVAGGIO: A INCREDULIDADE DE S. TOMÉ

Acredito no novilho primogénito
e no basalto erradio da Galileia.
Acredito na transigência de Abel
e no gesto truculento de Caim.
Acredito no cinamomo e no bálsamo
aromático, e no ónix, e em Loth.

Acredito que Judite, a filha de Marari,
derrubou os gigantes com a sua formosura.
E na perturbação dos Persas e dos Medos
perante quem os castiga. Acredito
na aliança, na terra,  e que o terebinto
há-de estender os seus ramos
na amplidão do deserto.

Acredito que as gerações fenecem
para que outras nasçam. Assim como acredito
que são belas as mulheres de Jerusalém,
sem que as tenha olhado longamente.
Acredito na sombra e nos estigmas,
e no prodígio das dádivas.
E acredito que são insondáveis os caminhos
que levam à abundância.

Acredito no bordão e nas sandálias,
e que ainda há homens dignos na cidade.
E acredito na oliveira dos campos
e nos desígnios com que alguns clamores
nos vêm perseguir. Acredito na escada de Jacob,
e que brotou da rocha a água,
e que as colinas podem ser cordeiros de um rebanho.

Acredito na essência preciosa
na barba de Aarão, e no orvalho de Hermon.
E que haverá vida para sempre.
Acredito nas harpas suspensas
nos salgueiros, porque exigiam canções
e, na Babilónia, tal como em Sião,
era cativo, o povo.

Acredito em Noé, e na canção
do poço. E que nevou no Verão,
e choveu, na ceifa. E que a maldade
dos homens é infinita. Acredito que há
corações feridos e mirrados
como erva. Acredito na coruja
das ruínas, e que os que vituperam
o inimigo, ainda assim,
devem ser vigiados. E acredito
na pomba, no pântano, e no hissopo
que cura e regenera.

Acredito em Sodoma e Gomorra
e na pestilência de alguns lugares,
assim como acredito no hino das aves,
e que estão em flor as vides,
e a figueira é benigna.
Acredito em Moisés, e na fragrância
do monte de Beter. E que o índigo
é uma planta mágica, de que retiro
o mais belo azul.

Acredito na dança e no adufe,
e que a voz da rola se estende sobre a terra.
E acredito que o amado pode
fazer como o veado ou o filho da gazela.
Acredito nos que praticam a justiça
antes da morte. E no refrigério da tenda,
e na esperança.

Acredito no pó e no engendramento
de algumas maravilhas, e no barro,
e que chegam recompensas
da esfera alta, da luz, e das estrelas.
Acredito que a dádiva santifica,
e acredito no penhor do sacrifício.
Acredito que o que pede pão será saciado.

Acredito no profeta Jeremias
a louvar as lágrimas, e em Job,
que sabe que o cavalo
é um fulgor possante. Acredito
no mistério, e que há um pano espesso
e invisível entre nós e os anjos,
entre nós e o céu. E na centelha,
eis no que acredito.

Acredito em Baal, e na noite da vigília.
E em Daniel, na cova dos leões.
E em Jonas, no ventre da baleia.
Acredito que se deve preservar o trigo
e festejar as primícias. E acredito no escravo
que, num murmúrio, exprime a liberdade.

Acredito no brilho do espírito
e na resina do pinheiro. E acredito
nas cores, nos verdes e vermelhos
com que se esboça uma veste, ou um pregueio.

Acredito no sol, no áspero espinho.
E que a poeira é cinzenta, e cinza, e negra.
E que no Horebe tudo arde.

Acredito no rábano silvestre e que Elias
dele se alimentou em Jericó.
E em Lilith, também acredito,
seja ela o vento, a lua,
ou o próprio inferno.

Acredito na cobra e no seixo rolado,
na árvore e no arroio. E acredito em Babel,
no mal e na serpente, e nos arcanjos
que velam, entre nuvens de fogo.
Acredito na luminosidade e nos clarões
da distância, e como pode
um brilho ser decisivo num quadro,
a iluminar o oculto.

Acredito no galo, e acredito em Pedro,
mesmo que negue Cristo, só por medo.
E acredito no anho, no peixe, e no pelicano
– e no mistério. Acredito na treva e na manhã.

Acredito até que num guia cego se mostra
a rota certa. Acredito no vinho,
em Canaã, em Belém, e nos pastores,
e acredito no mar de Tiberíades.
Acredito que à perseguição dos inocentes
se seguiu a chacina. Acredito em José,
o carpinteiro, e em José de Arimateia.
Acredito nos justos, nos rectos, nos legítimos.

Acredito em Simão, o cireneu que levou a cruz.
E em Verónica, e em cada um dos pregos
da crucificação. E acredito na pena, e na vertigem,
e que o silêncio tem a boca cheia de palavras.
Acredito na perdição de Agag, e em Balaão,
o filho de Beor. Acredito nas miríades de Efraim,
e de quantos em Manassés estão.
E no sermão da montanha, e no sepulcro,
perfumado de aloés.

Contudo, eu,
Michelangelo Merisi Caravaggio, tal como Tomé,
vacilo em acreditar na ressurreição dos mortos
e na vida do mundo que há-de vir,
provavelmente porque é coxo o meu idioma
e para acreditar preciso de atingir
a chama que me há-de incendiar
tocando, ou não, a ferida que nos sara.


(in Poemas de Caravaggio, Maia, Cosmorama, 2008)





Caravaggio, 'A Incrudelidade de S.Tomé', Óleo s/ tela, 107 x 146 cm, Sanssouci, Potsdam, 1601-1601

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Caravaggio / 2

CARAVAGGIO: O MARTÍRIO DE S. MATEUS

Embora a dor seja uma ciência
comum
e todos a reconheçam,
mesmo em momentos felizes,
importa dizer que há dor infligida
pela sombra
torcionária,
que o recôndito das coisas manifesta
surdamente,
como se nada se passasse no momento
em que acontece.

A faca é uma emboscada
no escrutínio assassino,
que avança lentamente
pelas zonas de penumbra
até que a lâmina encontra
um ponto em que não há
resistência e penetra
a carne da vítima
e provoca o esgar
pelo reconhecimento do golpe.

Há também os casos em que o homicida
usa as mãos como arma,
que são como dupla sombra a aproximar-se
do pescoço e a  apertar a garganta
até que na luz das órbitas do condenado
nada haja mais que a transfiguração
dessa mesma sombra,
no início
não mais que um rastro azul
a brilhar no branco dos olhos,
e, depois, só uma agonia informe
a expandir-se no rosto,
que em súbitos estremecimentos
amplia a dor até ao último,
desarvorado,
suspiro.

E há os que preferem recorrer ao martírio
pela simples insídia,
sem derramamento de sangue,
mas a perseguição
mais ou menos subtil ao que há-de morrer,
tecendo sobre o outro
uma terrível teia de afrontas mortíferas,
em que a marcha da perseguição
abarca o disfarce da ofensa,
tal como fazem
os dominadores,
os exércitos de destruição maciça,
os cobradores de impostos,
a rede global de intoxicação,
o flagelo da fome e da doença
sobre os povos, a dose eficaz de malignidade,
enquanto cada
um de nós se vai sombriamente convertendo
em cúmplice dissoluto da ignomínia.

Outros há que elegem o emparedamento
da ansiedade, e voam sobre
as caves a arrastar as vítimas
do holocausto por escadas íngremes,
onde não chega o eco das detonações,
mas há sempre ensejo
para a sedimentação do terror,
uma fogueira acesa
ou apagada a aguardar
que o veneno exerça os seus obscuros talentos
e, por fim, extermine,
para prevalecer –

eis o que digo, Michelangelo Merisi Caravaggio.



(in Poemas de Caravaggio, Maia, Cosmorama, 2008)


Caravaggio, 'O Martírio de São Mateus', Óleo s/ tela, 323 x 343 cm, Igreja de São Luís dos Franceses, Roma, 1599-1600

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Caravaggio

CARAVAGGIO: SETE OBRAS DE MISERICÓRDIA

Uma atitude plástica indomável
e arrebatamento rítmico nas figuras,
eis o que me interessa transmitir:

sou panteísta,
e sei como nas cores há um luxo físico
que torna o que é palpável
imaterial

– de modo que o que faço
é da rua que vem,
para que se transfigure em dom de imanência
e a alma e o espírito se cumpram nos pigmentos
para que tudo seja obra compassiva,
como um enigma de arrebatamento.

A minha vida é a cor
– e o recorte que o relevo da luz
lhe introduz
serve para que o universo vibre
e uma tensão grandíloqua se estabeleça,
entre a detonação da tela
e o espectador,
num repto total,
esmagador.

Ouso o fascínio,
mas, mais do que o fascínio,
aspiro ao coração
dos que vêem a tela interiormente,
sendo que os olhos
acumulam sortilégio
para que o entendimento desmorone
a falsidade que nos cerca e mata.

Eis a encomenda:
um quadro de grandes dimensões
que patenteie
as sete obras de misericórdia corporais,
dando relevo aos justos, obviamente,
mas também aos pecadores,
já que cada um deles é cada um de nós,
se a nossa prudência souber dizê-lo
de modo a não ardermos na fogueira.

Deu-me trabalho, o esboço:
a caridade existe,
mas é tão raro vê-la
que um pintor não sabe onde encontrar
modelo adequado,
mesmo que vá de igreja em igreja
a cuidar que, de repente,
encontra exemplo para a missão.

Tentei de tudo. Tentei, até, de mais.
Mas os dias passavam, e as noites,
e não me satisfazia com o que via,
os palácios a abarrotar de nobres
sem magnanimidade, e os pobres
sempre mais pobres, a morrer à míngua.

O mundo, agora, é só hipocrisia.
E, por isso mesmo, a minha regra
é não ter regra nenhuma
– em busca da brandura
vou de sítio em sítio,
a procurar um sentido nos sentidos,
ou alguém que não difame,
ou que não roube.

Só posso pelo sonho exorcizar-me;
mas o facto é que na rua é que anda tudo
– abrindo bem os olhos, em lida
extenuante, mas de grande prazer,
basta só olhar em volta e ver:
e ver é uma arte que faz toda a diferença.
E assim foi que vi os anjos nesta esquina,
e uma profusão de personagens
a perfazer o périplo das obras
misericordiosas:

a visitar os presos,
a dar de comer a quem tem fome,
a enterrar os mortos,
a cuidar dos enfermos,
a vestir os nus,
a dar de beber a quem tem sede,
a dar pousada aos peregrinos.

Olhando o quadro, agora pronto,
exposto na igreja do Pio Monte della Misericordia,
em Nápoles,
entendo que é pelo arrojo
que vou bem
– e fico impressionado
pelo que faço dos temas,
e como os meus impulsos artísticos resultam
em explosões categóricas de beatitude
de que até eu me assombro.

Toda a beleza é transcendência,
afirmo, de mim para comigo.
No meu tempo poucos haverá
que isto entendam, embotados
que estão de dogmas e preceitos
em que se relega o mundo
e nada vive como a vida é.

Martinho tira a capa e dá-a a um pobre.
Uma jovem mulher oferece o seio
a um velho preso da sua miserável condição
matando-lhe a fome e aliviando-o
do desgaste do castigo.
Um diácono clemente
manda que os coveiros
abram a terra e sepultem os cadáveres.
Um jovem, em tronco nu, ampara os doentes.
Um Sansão, sequioso, dessedenta-se com água
que alguém pôs no maxilar de um asno.
E Santiago aloja os peregrinos
com a ajuda de um almocreve adolescente.

Eis o meu quadro, a que juntei,
sobre a multidão,
uns anjos
para que se saiba
que não são dos anjos as tarefas dos homens,
e que o que é possível pode até tocar-se
se estendermos a mão ao nosso semelhante
– mesmo que ninguém veja,
mesmo que fique no segredo dos anjos a nossa acção,
mesmo que a partilha seja, apenas, nossa
e que nada, nem ninguém, nos agradeça
o gesto,
o acto.

Chamo-me Michelangelo Merisi Caravaggio
e ignoro
se sou cristão, ou não.

No caso, interessa pouco quem eu sou.
Sei é que deixo nesta terra
uma pequena herança
de luz
e movimento
e cor
que me fará feliz
se os homens se lembrarem
que pior que o esquecimento é a ingratidão,
e que ser ingrato nesta terra é não estar ao lado
de quem na vida vai ao nosso lado

e é nosso irmão.


(in Poemas de Caravaggio, Maia, Cosmorama, 2008)



Caravaggio, 'Sete obras de misericórdia', Óleo s/ tela, 390 x 260 cm, Igreja do Pio Monte da Misericórdia, Nápoles

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Vida adulta / 34

DOIS MIL E OITO

 
Sou um homem do norte e um homem do norte
continuarei a ser até que a morte me separe.
As minhas circunstâncias são exactamente
as mesmas circunstâncias daqueles de que sou
vizinho, a gente das vielas e das ruas empedradas
a granito, os vociferadores sem mais ânimo
que o da sorte, os rapazes que peroram o descaso
de não haver árvores a que possam
subir para começar uma aventura
que não tenha fim. Na minha memória
o que está mais marcadamente aceso
tem a ver com o mistério irredutível da infância,
e desse tempo guardo choques inimagináveis,
com homens no trabalho a poder de fome e de cansaço
e mulheres em angústia permanente por não haver
o que dar de comer a velhos e crianças.
Cedo me foi dado partir para os braços de alguém
que me atenuou as faltas, com pão branco e um resto de toucinho,
pelo qual chorei, vim a saber mais tarde,
como um garoto sem saber de maior evidência do que ter, enfim,
um pequeno manjar para celebrar.
A vida era dura nesse tempo,
que eu fui vigiando quase por instinto,
fazendo o que fazem os que ampliam a vida pela experiência
e, de erro em erro, consolidam, sem mais,
o que passaram a saber, porque o sofreram.
A vida era dura nesse tempo, sobretudo
para quem me estava próximo
e eu via viver sem mais remédio do que ir transfigurando
a fome irrespondível em estoicismo feroz,
capaz, se necessário, de abalar montanhas.
Em volta, quem estava, pouco ou nenhum exemplo
seria do fascínio, mas era gente que, ainda assim,
andava de cara levantada pelas ruas, a mourejar o sustento,
fosse a lavar escadas ou contratado nas docas,
como vi acontecer aos meus progenitores.
Quem me criou foi disto que adoptou ao receber-me,
sendo que minha mãe me entregou para me livrar da miséria comum
  por assim ter sido, eu sei que ela
levou para a sepultura uma dor excruciante sob o peito,
e lágrimas perpétuas nos olhos. Fosse o que fosse o mundo,
ali estava a minha predisposição para o saber, menino e moço
levado de casa de meus pais para uma outra enxertia no meu tronco.
A casa para onde fui era um mistério, e foi nesse mistério
que dei por mim a interrogar fosse o que fosse, a luz, a treva, a sombra,
sempre a olhar em volta e a assinalar nas coisas
o rudimento de uma linguagem que me pudesse dizer tal como sou.
É certo que o que somos nunca é o que pensamos ser,
porque nós somos o que somos e o que os outros de nós fazem,
além de que também somos o que vimos, as coisas que ouvimos,
as coisas que esquecemos, os sonhos que em nós se enraízam,
sem outro modo de prevalecermos senão por outros sonhos,
no que dizemos, ao que nos aproximamos, do que nos afastamos,
inexoravelmente, pela intensidade do nosso regozijo
ou o alento que alcançamos reunir.
Eis que, portanto, a infância, a minha infância,
me entregou ao duro acaso que há nas coisas,
a confrontar-me, ainda inocente, com a morte.
E tive que cuidar de uma mulher que, não sendo minha avó,
me chamava neto, e eu amava sem saber porquê.
Ela estava entrevada, e disputávamos pelas tardes coisas sem valia,
a luz de uma planta, uma bolacha que era só farinha,
uma moeda que a sua bolsa negra resguardava das minhas investidas,
porque eu queria rebuçados, figurinhas-de-passar, amêndoas, uma bola,
e ela pouco tinha para me dar,
além da sua eterna progressão em direcção à morte.
Tínhamos uma infinita paciência um para o outro, e ela animava-se
a contar-me histórias, sendo que por essas histórias é que compus
o meu imaginário, o meu encantamento.
Não havia professor de que eu gostasse mais do que gostava dela,
pela sua pele mirrada e a sua perna inchada, gorda, de elefantíase,
que um enfermeiro mortiço tratava com afinco, com nitrato
de prata vertido sobre a chaga que, por tanta escuridão, abria em carne viva.
Falava-me da raposa e do milhafre, falava-me do lobo e do coelho,
da águia e do veado, falava-me das flores –  as brancas, as vermelhas –,
falava-me da praia e da floresta, falava-me das pedras, dos cristais,
dos reis e das princesas, do gelo e da resina, das bruxas e das fadas,
e tudo o que dizia estava vivo, mexia e respirava, porque eu,
ouvindo o que dizia, o via à minha frente, a entender
como há uma tenacidade absoluta que habita na palavra,
e que só pela palavra existe o que nós vemos,
salve-se disso, ou não, a nossa esperança.
Hoje, quando escrevo, pressinto que vem dessa mulher
o uso obstinado de comparações violentas nos poemas,
sendo que entendo que as metáforas se vivem para que haja
um termo irretorquível de eficácia na dimensão da escrita.
Certa noite, esta mulher morreu
e, nessa agonia, eu vi que há,
entre os vários planos em que existimos,
outros planos cruéis que nos ficam cravados na memória
para sempre e que nunca mais nos abandonam.
Morria ela enquanto ia comendo a camisa branca que vestia,
levando-a à boca em catadupas, numa luta incessante com a morte
pela qual eu, pela surpresa de a ver lutar com ela assim, fiquei estuporado.
Anos mais tarde, morreu a minha mãe, e tive novo confronto com a vida,
acareando a morte,
porque a fui velar a uma pequena capela de uma rua íngreme,
onde todos os tráficos existiam, da música argentina ao comércio do sexo,
da emulação pelo vinho ao desacato
das meninas que perto voejavam, a angariar clientes,
enquanto minha mãe ali jazia, morta, finalmente,
mas ainda viva, viva pela vida circundante.
Não traumatizemos as crianças, diz-se, hoje em dia,
mas a verdade é que a consciência do que me vai acontecendo
sempre me pareceu soberba e exaltante,
tanto mais que sempre quis ser poeta,
e para se ser poeta é sempre necessário estar no fio da navalha,
é necessário sentir o fio da navalha sobre a carne,
é necessário saber como se abre a ferida e o sangue corre,
e como a dor alastra sobre tudo, sem que haja esquecimento ou redenção,
mesmo se a redenção vier e a deslembrança
tiver que ser a última recompensa.
Assim cresci, assim empreendi a aprendizagem,
a constatar como na alma os passos se abismam
se a pura incandescência nos confronta com a violência que há em tudo,
sendo que quanto maior for a violência maior é o tirocínio do poeta:
a empreender o abalroamento do real para que resulte frontal a colisão
– derrapa, um dia, num troço da auto-estrada, a fazer
do ligeiro um monte de sucata e, do passageiro, lama,
não mais restando do que somos na energia cósmica, que ao pó regressa.
E assim cresci, e vi que a enxertia resultava
em algo mais sensível do que alguma vez supus,
sem que soubesse por que herói optar, Aquiles ou Heitor,
se pela força indómita e bravia,
se pela razão que toca o coração para que seja cada morte uma vitória,
ainda que os mortos, em multidões inúmeras,
com as suas botas grossas e os seus bibes verdes,
com as suas túnicas púrpura e os seus coadores de prata,
com o seu orvalho negro e o seu odor a incenso,
terrivelmente aguardem que a justiça venha, e dure, e seja feita.
Foi primavera, veio o verão, depois; é já outono, agora.
Tive dois filhos, os quais eu vi nascer com estes olhos que a terra
há-de conter, e vê-los a chegar, a suscitar ternura, fez-me querer
ser um guerreiro a combater o efémero, desarmado, embora,
mas pronto para a luta e a conquista dessa muralha inerme
com que a realidade arma ciladas sem nunca nos dar tréguas.
Fiz, então, da escrita o meu sonho maior,
e das palavras tomei o que podia para encontrar
o ardor e a harmonia, sendo que o desenlace da harmonia,
aqui, onde vivemos,
seja só inconsonância e incerteza,
perversas dúvidas,
amálgama de ferros,
trechos de música densa e obscura,
que sabemos e não sabemos como existe,
mas sentimos na alma e no espírito,
e nos enche o olhar como um bosque cintilante.
Se sou poeta, ou não, interessa pouco.
O que escrevo é só um tempo breve,
em que os mortos e os vivos se procuram
para que haja testemunho e não seja longa a espera
do fim que há em tudo. Ah, que quem venha
a seguir se não esqueça o que é o norte,
e onde fica.


(in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)



Foto: © de Amadeu Baptista

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Vida adulta / 33

DOIS MIL E SETE

Alexandria, Alexandria, procuro o teu refúgio.
Há por aí um velho que me lê os teus versos.
Amar é morrer neste porto de sal,
a pedra amarga que rasga a língua.

Mais além do silêncio hão-de estar os teus braços,
é a pedra que cinges o alvoroço secreto.
Talha-me com as tuas mãos ao sabor do teu tempo,
amar é saber-te – e, sabendo, perder.


( in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)


Foto: © de Amadeu Baptista

domingo, 20 de novembro de 2011

Nína Bjork Árnadóttir, 5 poemas



A LORCA

Desapareceram os nossos cavalos
silenciosamente no bosque.

Ponho a minha mão sobre o teu coração.
Foi aqui?

Dás-me a tua mão
conduzes-me à luz
e ofereces-me a navalha
enquanto os nossos cavalos desaparecem
silenciosamente no bosque.

Cravo a navalha no coração
distanciamo-nos silenciosamente.

Sorridentes descemos o declive
mutuamente saboreando as nossas palavras.

                                  
( de Undarlegt er ad spryrja mennina, 1968)




INTERESSANTE É PERGUNTAR AOS OUTROS

Interessante é perguntar aos outros
pelos demais.
Interessante é perguntar pela paz
e o amor.
Interessante é sentir o teu alento
meu filho
sentir-te beber dos meus seios
das flores dos meus seios.

Pergunta-o aos outros.

                                  
( de Undarlegt er ad spyrja mennina, 1968)





CANÇÃO

Não te posso esquecer
durante a noite não durmo
Às vezes as tuas palavras eram como lâminas
outras vezes como sinos
deitámos fogo a uma montanha
que logo nos recordou para sempre
Cantou a urze
cantaram todas as plantas
o nosso amor

e não pude esquecer-te
não posso dormir à noite.

                                  
( de Bornin í gardinum, 1971)





NOITE DE JUNHO

( canção para flauta )

Cantaram pássaros
em nossos olhos
os nossos dedos
voaram
de sonho
em sonho

os meus lábios
no teu ombro
a brisa
intimamente alegre

os teus lábios e a tua língua
flores voadoras
eu fui o seu prado
essa noite

fui água, montanha, barro
e sobretudo
arroio imensamente alegre
que corria
entre as tuas pernas
e te arrastava
para o abismo

ali onde brilhava
como cristal
a tua semente.

Tão ardentes eram os nossos corações
tão ardentes
pulsavam
juntos.

Tão ardentes eram
os nossos corações
tão ardentes
que o gelo não poderá
jamais
endurece-los.

E desde então sempre
cantamos cada um
no sangue
do outro
cantamos sempre desde então
cada qual
no sangue
do outro.

                                  
( de Svartur hestur í myrkrinu, 1982)





CONVIDADOS

Anoitece no nosso pensamento
sossegaram as vozes das tarefas
oxalá a noite fosse tão comprida como o dia
e maior o descanso
porque andamos a transformar em convidados
um montão de guinchos e zumbidos.

Tenho sonhos terríveis, irmão,
sonhos terríveis,
sonho
que somos a engrenagem de uma máquina uivante
e não conseguimos fazer ver
que somos eu, e tu, irmão,
e não a roda numa máquina uivante.

                                  
( de Hvíti trúdurinn, 1988)


Versão minha; © de Amadeu Baptista


Nína Bjork Árnadóttir. Poeta, dramaturga e romancista islandesa. Nasceu a 7 de Junho de 1941. Formou-se na Escola de Actores de Reykjavik e na Universidade de Copenhaga. Faleceu a 16 de Abril de 2000.