sexta-feira, 18 de dezembro de 2015
quinta-feira, 12 de novembro de 2015
Os Selos da Lituânia / 11
11.
atrasei-me muito no caminho da escola
para casa porque o bosque
enfeitiçou os meus sentidos.
fiquei a olhar as pedras e as árvores
e a tocar o chão com as mãos para perceber
de que matéria a luz é feita ou como podem
certos pássaros voar, assim tão negros,
como se fossem o segredo que se encontra
entre o ágil e o fluido, a limpidez
e o abundantemente imponderável.
comigo ia a evanescência das coisas, o caminho
em que se decide tudo, a fonte de água
pura que os animais procuram, esse fumo
invisível que atravessa o coração
e nos há-de acompanhar durante a vida,
se à vida devolvermos claridade
pelo que vemos e ouvimos, esse frágil
rumor de mil cintilações à nossa volta.
caía a tarde célere e a noite próxima
fez-me despertar deste fascínio, o regresso
impunha-se e a inocência
poderia seguir num outro dia
o rastro que na tarde havia descoberto.
tinha que me apressar, ainda havia
uma longa distância a percorrer
entre as cintilações e a casa inatingível.
nunca tive uma relação pacífica
com a mulher que me criou. quando cheguei,
abriu-me a porta impacientemente,
pressenti-a nervosa e pude ler-lhe
uma infinita censura no rosto,
não bem pelo atraso com que vinha,
mas porque é mesmo assim a crueldade,
com aqueles traços finos de quem sabe
que há sempre castigo exemplar
para um miúdo de nove anos. em silêncio,
indicou-me a porta das traseiras e faz-me entrar
na garagem deserta àquela hora,
onde uma fila de garrafas e um monte de jornais
foram a fria testemunha de como pagaria
o facto de ter visto uma libélula
e perscrutado o vento. não me bateu
com as mãos, ou mesmo com um cinto,
mas com uma velha correia de borracha com arame dentro
que estava ali abandonada de um arranjo
do carro, há já bastante tempo.
não verti uma lágrima.
nem disse uma palavra.
o bosque ainda hoje me extasia
e a esta mulher morta desejo
a terra leve.
in Os Selos da Lituânia, Lisboa, & Etc, 2008
© do poema e da foto: Amadeu Baptista~
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
Os Selos da Lituânia / 10
10.
primeiro dia de aulas, nunca vi
tantas crianças juntas. tenho medo
deste desconhecido, onde paira no ar
um cheiro grave a ameaça e giz.
em casa, tentaram convencer-me
de que é bom saber escrever e ler,
mas só a perspectiva de ter que sair cedo
e de ficar fechado numa sala,
durante tanto tempo, dá-me volta
ao estômago e vomito ali mesmo.
não compreendo a azáfama desta gente
que se aglomera num corredor sombrio,
decorado com uns desenhos tristes
de cores muito desbotadas e plantas
cinzentas, que há meses
não devem ser regadas. as mães
acotovelam-se no exíguo espaço
e incitam-me a que vá ver o recreio
onde uma árvore raquítica sobressai
e um anexo em ruínas contém
dois lavatórios, um urinol colectivo
e três latrinas, de onde vem um odor
nauseabundo e em que é preciso
ficar acocorado para fazer o que é preciso.
de novo agoniado, alheio-me dos rapazes
que correm sem destino e das meninas
vestidas de lavado, sentadas nas escadas
contíguas ao refeitório, e volto para dentro,
onde ainda dura aquela confusão, sem nenhum sentido.
de súbito entrevejo a sala onde
decorrerão as aulas, um latifúndio
de quarenta carteiras com tinteiros
de louça branca, esbotenados
e sujos e um estrado descomunal com uma secretária
castanha picada do caruncho e uma cadeira
em frente ao quadro negro, ladeado
por duas fotografias emolduradas
que dominam o espaço, representando
um militar algo embaciado e um civil
seráfico de nariz adunco. entre as molduras
um crucifixo ostenta uma teia de aranha
que vai até ao tecto e nas paredes
repetem-se os desenhos que vi no corredor,
além de vários mapas de portugal continental
e das províncias ultramarinas pintalgados
pelas moscas e a reprodução de um homem
que muito simplesmente me apavora,
porque o desenho mostra como ele
é por dentro, com as vísceras à mostra,
o coração, o pâncreas, os dentes amarelos,
o fígado, o abdómen, a cerviz,
as veias, a boca entreaberta, a garganta, os brônquios,
a traqueia e outras atrocidades indizíveis,
como, por exemplo, não ter sexo. compungido,
peço para sair dali para fora, mas logo avisam
de que se me ponho a chorar é bem provável
que piore o meu estado. a senhora
directora detesta seres mimados
e usa facilmente a palmatória.
alheio-me daquilo, sem saber
o que fazer para ter paz.
começo a ficar tonto, com a cabeça
a andar à roda, como se o chão se abrisse
debaixo dos meus pés e nem sequer voar
me fosse permitido. manhã, manhã,
que a tua luz tão nítida me proteja.
in Os Selos da Lituânia, Lisboa, & Etc, 2008
© do poema e da foto: Amadeu Baptista
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
Os Selos da Lituânia / 9
9.
a casa sobrepõe-se e confunde-se
com outras casas que já não conheço
ou conheço apenas se a memória
for de casa em casa procurar
alguns instantes que de todo se perderam.
aqui menti sobre o paradeiro
de um punhal que estava guardado
na gaveta de baixo do roupeiro.
ali apavorei-me pela sombra
que senti perseguir-me na cozinha,
onde numa tigela ainda fumega
o sangue de uma galinha degolada.
deste lado do muro reconheço
um homem louco mas apaziguado
pelas árvores em redor e o rio, ao fundo,
que corre pelo mundo até ao cabedelo.
além está uma cigana a ler a sina
e as criadas da casa assimilam
o oráculo das palavras como sendo
uma lei peremptória que se ergue.
nesta despensa obscura cheira a fruta
e há uma gata preta que fez ninho
sobre os sacos de cimento amontoados
entre toda a espécie de acessórios para a pesca
e latas de diluente e gasolina
e caixas com sementes e um ancinho.
pela janela aberta deste quarto
entrou a trepadeira florida
e deste lado da cama o enfermeiro
fez o curativo a uma criança
que rasgou os joelhos e passa aqui as tardes
enquanto a mãe não arranja trabalho
e o pai continua detido na polícia
política por actividades ditas subversivas.
a este espaço só vimos pela páscoa.
no centro desta sala há uma mesinha
com uma garrafa de vinho fino já aberta
e biscoitos sortidos que se guardam
numa caixa prateada forrada com um pano
bordado a fio de ouro, igual aos paramentos
que o senhor padre enverga.
a família reúne-se e ajoelha
muito compenetrada do momento
e eu fascino-me pela cruz e o menino jesus
que cada um de nós tem que beijar no pé.
aqui espreitei pela fechadura
e vi a mulher nua e o luís
esconder num lenço azul a hemoptise,
procurando refúgio na varanda
para que o não pudessem ver naquele estado.
ali abri um baú com meadas de renda cor de rosa
com um odor intenso a cânfora, que me extasia,
por aquele cheiro lembrar o cobertor
de lã em que dormi certa noite de grande tempestade
com trovões e relâmpagos formidáveis.
no patamar de paredes brancas
dei o meu primeiro beijo, pela primeira vez fumei
e vi o mar inamovível atravessar o inverno,
quando a terra tremia e toda a infância
enchia até ao tecto a casa
e um denso mistério ampliava
os recantos do sótão com os uivos indizíveis
dos cães da vizinhança. ah, as casas,
as casas sobrepõem-se e confundem-se,
as casas que habitei e que me habitam,
de onde olho fixamente para fora
para que a demolição se suspenda
ou tenha início.
in Os Selos da Lituânia, Lisboa, & Etc, 2008
© do poema e da foto: Amadeu Baptista
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
Os Selos da Lituânia / 8
8.
do pomar de limões da casa ao lado
desprende-se uma fragrância inebriante
que invade as ruas circundantes
e se nota ainda no largo do viriato.
pelo estreito postigo do vestíbulo
surpreendo-me a observar aqueles metros
de terra onde a luz refunde noutra luz
as formas arredondadas dos frutos
que se assemelham à lua em quarto-crescente.
além dos limoeiros, junto ao muro,
cresce uma madressilva,
de onde vem um delicado aroma que transmite
um vínculo a uma origem que não julgo
poder descrever com eficácia
aos meus filhos, por culpa minha, creio.
outros sinais lhes hão-de revelar
a frágil ascendência de que venho
e outras marcas haverá para entender
o inverosímil pretexto que me fez
indagar assim as árvores e a brisa que as percorre
hoje ou ontem, alguma vez, outrora,
sabendo que catástrofe contamina
com feroz galope a beleza
e só a memória pode alguma coisa
entre a cisão e o limite.
morria a tarde, vinha o crepúsculo e a noite,
e eu continuava a ver nesse quintal
a índole de um mistério inexplicável
que como um plano de incandescências breves
constituía o meu lugar no mundo,
a minha descoberta do que havia
de ter como meu, para além de o descobrir.
era verão, chegavam em cardumes
pequenas aves, a escuridão
abria as sombras de uma sombra
nesse espaço remoto onde me lembro
de silenciosamente perscrutar
uma coruja ou uma cobra de água,
uma estrela de papel ou um pirilampo, o arco-íris,
um homem e uma mulher a transpor o muro
para perante os meus olhos ampliarem o fascínio,
dando início a um vendaval sem tréguas de volúpia
que era como se se matassem
ou morressem nesse incêndio,
enquanto recrudescia o odor a limões sobre a cidade
e o universo de repente enlouquecesse.
in Os Selos da Lituânia, Lisboa, & Etc, 2008
© do poema e da foto: Amadeu Baptista
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
DIES IRAE
Este é o tempo de pescar homens à mão.
Depois de Auschwitz e após setenta anos do fim da segunda
Guerra mundial, as criaturas morrem em balsas improváveis
No mar mediterrâneo ou acabam vitimadas
Nos camiões-frigoríficos das auto-estradas da Europa,
Famintas, esgotadas, enregeladas. Não sabemos
Quem somos neste tempo, o mais que somos
É refugiados da crueldade da guerra, e da sua miséria,
Da barbaridade que a desilusão do século XXI
Quis entregar-nos. Não há caminhos, montanhas,
Praias limpas. Na pólis da antiga Grécia não entravam
Mercadores e o paradoxo é que são agora os mercados que
decidem
A nossa dor, a dor dos nossos coetâneos,
A dor universal de estarmos indefesos.
Tempos houve que se ergueram muros
Para evitar que as pessoas saíssem dos países,
Agora as barreiras são erguidas para que
Não entrem as pessoas nos países, essas vítimas
Que mais não fazem do que fugir da atrocidade
Com que as confrontam sob a ameça de serem
Espoliadas de tudo quanto têm e quanto são,
Sendo verdade que, mais cedo ou mais tarde, acabarão
Assassinadas em qualquer esquina de um campo por lavrar,
Ou numa estação de comboios em que não podem entrar.
Nada nos pertence quando a treva invade tudo,
A matéria da luz perde-se a cada instante,
Éramos os que tínhamos esperança e agora nada somos,
A imbrincar silêncio sobre tudo, a tecer uma teia
De comércio de armas, de lavagem de dinheiro,
De custos cada vez mais elaborados no deve e haver
Das almas, cúmplices inconfessáveis dos dramas
Que não vemos, por mais que nos entrem pelos olhos dentro.
Ah, que chegue o dia da ira, que não haja salvação
Para os que nos condenaram. Não há caminhos, montanhas,
Praias limpas. A sordidez
ultrapassa qualquer realidade
E nem as lágrimas bastam, nem a cólera que não ousamos ter.
© do poema e da foto: Amadeu Baptista
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