quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Os Selos da Lituânia / 9

9.
a casa sobrepõe-se e confunde-se
com outras casas que já não conheço
ou conheço apenas se a memória
for de casa em casa procurar
alguns instantes que de todo se perderam.
aqui menti sobre o paradeiro
de um punhal que estava guardado
na gaveta de baixo do roupeiro.
ali apavorei-me pela sombra
que senti perseguir-me na cozinha,
onde numa tigela ainda fumega
o sangue de uma galinha degolada.
deste lado do muro reconheço
um homem louco mas apaziguado
pelas árvores em redor e o rio, ao fundo,
que corre pelo mundo até ao cabedelo.
além está uma cigana a ler a sina
e as criadas da casa assimilam
o oráculo das palavras como sendo
uma lei peremptória que se ergue.
nesta despensa obscura cheira a fruta
e há uma gata preta que fez ninho
sobre os sacos de cimento amontoados
entre toda a espécie de acessórios para a pesca
e latas de diluente e gasolina
e caixas com sementes e um ancinho.
pela janela aberta deste quarto
entrou a trepadeira florida
e deste lado da cama o enfermeiro
fez o curativo a uma criança
que rasgou os joelhos e passa aqui as tardes
enquanto a mãe não arranja trabalho
e o pai continua detido na polícia
política por actividades ditas subversivas.
a este espaço só vimos pela páscoa.
no centro desta sala há uma mesinha
com uma garrafa de vinho fino já aberta
e biscoitos sortidos que se guardam
numa caixa prateada forrada com um pano
bordado a fio de ouro, igual aos paramentos
que o senhor padre enverga.
a família reúne-se e ajoelha
muito compenetrada do momento
e eu fascino-me pela cruz e o menino jesus
que cada um de nós tem que beijar no pé.
aqui espreitei pela fechadura
e vi a mulher nua e o luís
esconder num lenço azul a hemoptise,
procurando refúgio na varanda
para que o não pudessem ver naquele estado.
ali abri um baú com meadas de renda cor de rosa
com um odor intenso a cânfora, que me extasia,
por aquele cheiro lembrar o cobertor
de lã em que dormi certa noite de grande tempestade
com trovões e relâmpagos formidáveis.
no patamar de paredes brancas
dei o meu primeiro beijo, pela primeira vez fumei
e vi o mar inamovível atravessar o inverno,
quando a terra tremia e toda a infância
enchia até ao tecto a casa
e um denso mistério ampliava
os recantos do sótão com os uivos indizíveis
dos cães da vizinhança. ah, as casas,
as casas sobrepõem-se e confundem-se,
as casas que habitei e que me habitam,
de onde olho fixamente para fora
para que a demolição se suspenda
ou tenha início.


in Os Selos da Lituânia, Lisboa, & Etc, 2008

© do poema e da foto: Amadeu Baptista



segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Vitor Silva Tavares


Morreu o meu amigo Vitor Silva Tavares e estou muito triste.






Vitor Silva Tavares, 1937 - 2015

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Os Selos da Lituânia / 8

8.
do pomar de limões da casa ao lado
desprende-se uma fragrância inebriante
que invade as ruas circundantes
e se nota ainda no largo do viriato.
pelo estreito postigo do vestíbulo
surpreendo-me a observar aqueles metros
de terra onde a luz refunde noutra luz
as formas arredondadas dos frutos
que se assemelham à lua em quarto-crescente.
além dos limoeiros, junto ao muro,
cresce uma madressilva,
de onde vem um delicado aroma que transmite
um vínculo a uma origem que não julgo
poder descrever com eficácia
aos meus filhos, por culpa minha, creio.
outros sinais lhes hão-de revelar
a frágil ascendência de que venho
e outras marcas haverá para entender
o inverosímil pretexto que me fez
indagar assim as árvores e a brisa que as percorre
hoje ou ontem, alguma vez, outrora,
sabendo que catástrofe contamina
com feroz galope a beleza
e só a memória pode alguma coisa
entre a cisão e o limite.
morria a tarde, vinha o crepúsculo e a noite,
e eu continuava a ver nesse quintal
a índole de um mistério inexplicável
que como um plano de incandescências breves
constituía o meu lugar no mundo,
a minha descoberta do que havia
de ter como meu, para além de o descobrir.
era verão, chegavam em cardumes
pequenas aves, a escuridão
abria as sombras de uma sombra
nesse espaço remoto onde me lembro
de silenciosamente perscrutar
uma coruja ou uma cobra de água,
uma estrela de papel ou um pirilampo, o arco-íris,
um homem e uma mulher a transpor o muro
para perante os meus olhos ampliarem o fascínio,
dando início a um vendaval sem tréguas de volúpia
que era como se se matassem
ou morressem nesse incêndio,
enquanto recrudescia o odor a limões sobre a cidade
e o universo de repente enlouquecesse.


in Os Selos da Lituânia, Lisboa, & Etc, 2008

© do poema e da foto: Amadeu Baptista





quinta-feira, 3 de setembro de 2015

DIES IRAE


Este é o tempo de pescar homens à mão.
Depois de Auschwitz e após setenta anos do fim da segunda
Guerra mundial, as criaturas morrem em balsas improváveis
No mar mediterrâneo ou acabam vitimadas

Nos camiões-frigoríficos das auto-estradas da Europa,
Famintas, esgotadas, enregeladas. Não sabemos
Quem somos neste tempo, o mais que somos
É refugiados da crueldade da guerra, e da sua miséria,

Da barbaridade que a desilusão do século XXI
Quis entregar-nos. Não há caminhos, montanhas,
Praias limpas. Na pólis da antiga Grécia não entravam
Mercadores e o paradoxo é que são agora os mercados que decidem

A nossa dor, a dor dos nossos coetâneos,
A dor universal de estarmos indefesos.
Tempos houve que se ergueram muros
Para evitar que as pessoas saíssem dos países,

Agora as barreiras são erguidas para que
Não entrem as pessoas nos países, essas vítimas
Que mais não fazem do que fugir da atrocidade
Com que as confrontam sob a ameça de serem

Espoliadas de tudo quanto têm e quanto são,
Sendo verdade que, mais cedo ou mais tarde, acabarão
Assassinadas em qualquer esquina de um campo por lavrar,
Ou numa estação de comboios em que não podem entrar.

Nada nos pertence quando a treva invade tudo,
A matéria da luz perde-se a cada instante,
Éramos os que tínhamos esperança e agora nada  somos,
A imbrincar silêncio sobre tudo, a tecer uma teia

De comércio de armas, de lavagem de dinheiro,
De custos cada vez mais elaborados no deve e haver
Das almas, cúmplices inconfessáveis dos dramas
Que não vemos, por mais que nos entrem pelos olhos dentro.

Ah, que chegue o dia da ira, que não haja salvação
Para os que nos condenaram. Não há caminhos, montanhas,
Praias limpas. A sordidez  ultrapassa qualquer realidade

E nem as lágrimas bastam, nem a cólera que não ousamos ter.


© do poema e da foto: Amadeu Baptista




quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Os Selos da Lituânia / 7

7.
já não me lembro se era inverno ou verão.
sei que o sol estava baixo e a sombra dos prédios
se alongava pelo rio e um último feixe de luz precipitava
o início de um crepúsculo de cores muito saturadas.
alguém veio chamar a minha ama
e ela levou-me pela mão como se houvesse
no ar o sinal de uma catástrofe
maior do que poderia pressentir.
só parámos em frente à entrada principal do palácio das sereias
de onde vi, ao longe, a carga policial
sobre os manifestantes que se aglomeravam no largo da alfândega.
de um lado havia gente em silêncio
e do outro guardas a cavalo.
dir-se-ia que apenas esperavam
o momento adequado para o impulso
de raiva que se lhes vislumbrava
estampada nos rostos. eu não sabia
o que não sabia existir. de súbito, senti
um nó na garganta
que apertava tanto que me fez doer
a nuca, os braços, as clavículas,
as pernas, os joelhos. a minha mão
na mão da minha ama, que senti tremer.
de súbito, provindo do silêncio
em que tudo decorria, sem prévio
aviso, ouvimos um estampido, e outro, e outro, ainda.
dos homens a cavalo, alguém puxara
de uma pistola e disparara sobre a multidão
silenciosa, que começou a gritar e a correr,
arremessando pedras sobre os guardas
de esporas nos cavalos, que espumavam
e levantavam as patas dianteiras.
nas janelas das casas vi
gente que levantava bandeiras negras
e vermelhas, outras brancas,
e apupava a polícia e clamava
palavras que até ali desconhecia
e aprendi, para sempre, serem
as mais essenciais para quem da vida
só espera a liberdade. do sítio de onde
estava, num relance, vi um homem
com sangue a escorrer do peito e da cabeça, estando muitos
caídos pelo chão, que os cavalos pisavam
e a quem os guardas batiam com bastões,
enquanto outros não paravam de correr,
procurando refúgio atrás das poucas árvores
e de alguns automóveis ali parados.
por essa altura, todo o meu corpo
se pôs em convulsões, acompanhando
os gritos que ainda hoje oiço
da infância.

in Os Selos da Lituânia, Lisboa, & Etc, 2008

© do poema e da foto: Amadeu Baptista



quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Ana Hatherly (8 de Maio de 1929 – 5 de Agosto de 2015)



Um poema de Ana Hatherly




Esta Gente / Essa Gente


O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha  dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente

(in Calculador de Improbabilidades)

sábado, 1 de agosto de 2015

Os Selos da Lituânia / 6

6.
substituí  no coração o meu avô, que era barqueiro,
por este homem que morava no segundo andar
do prédio em frente. à porta, sobre uma coluna de madeira,
tinha uma begónia sempre florida e uma avenca,
e só me permitia entrar sob promessa
de estar calado e de, em caso algum, tocar em nada.
invejava-lhe a caneta azul-escuro montblanc, com aparo
de ouro, quase igual à que alguém me ofereceu
no último aniversário, e a caligrafia taquigráfica
que eu não sabia ler, mas admirava,
pelo negro brilhante a inscrever-se
no papel branco ou lilás que utilizava.
ele escrevia quase incessantemente.
à tarde recebia muita gente que trazia,
em pastas de couro muito velhas, inúmeros
documentos, áscuas de um mistério
absoluto. analisava tudo pormenorizadamente
e, com minúcia, anotava-os, sempre em busca
de um detalhe talvez inesperado e valioso, que o fazia
ir à procura em livros muito grossos
de coisas que ninguém mais entendia,
com os óculos de massa puxados para a testa
e um lápis viarco atrás da orelha. gostava imenso
de contar histórias, o que acontecia
quando estava bem disposto e se sentava
na poltrona forrada de veludo, ou porque os negócios
lhe corriam melhor do que esperara
ou o almoço estivesse para além das suas expectativas.
fazia uns cigarrinhos que fumava e deslumbrava-me
a extrema destreza com que punha
entre os dedos os fios de tabaco e os enrolava
na mortalha, molhando-a com saliva,
num movimento rápido dos lábios e da língua.
depois, ficava horas a desfiar aventuras em cima de aventuras,
que só tarde demais percebi que inventava
e nada tinham a ver com a sua própria história,
embora hoje ainda me espante como divagava
assim sobre tigres e leões sem os ter visto alguma vez
e as suas viagens não passassem 
de tristes itinerários entre os guindais e a cantareira.
falava sobre os vulcões da islândia e o mar de riga
com a familiaridade de quem lá tivesse vivido a vida inteira
e o seu olhar adensava-se sobre as coisas
como se nesse momento estivesse de partida.
havia dias em que estava deprimido
e mais para o fim, um dia, reparei
que secretamente observava
um volumoso conjunto de postais
de mulheres nuas que mais tarde
vim a encontrar reproduzidas numa edição
da forbiden erotika e o devem
ter aliviado do desalento de estar um homem velho
e muito fatigado deste mundo
que vale muito pouco para quem, como dizia,
já passou dos setenta e está casado
com uma megera há tantos anos
que só mesmo uma angina de peito faz sentido.
também para o fim, já não tolerava
mais nenhuma presença além da minha
e a de um gato siamês a que estimava
e dava lições de canto ao som de um disco
da callas, sempre o mesmo,
sempre na mesma faixa, durante tempos e tempos
infinitos. no dia em que se foi, jurei para mim mesmo
não mais entrar naquela dependência
e o faria não em sua memória mas em nome
do que me soube e quis ensinar com tanto afecto
e argúcia. é dele que preservo
os selos da lituânia.



in Os Selos da Lituânia, Lisboa, & Etc, 2008

© do poema e da foto: Amadeu Baptista