terça-feira, 10 de março de 2015

Árvores no Coração # 7

CASTANEA SATIVA

O incessante ramalhar dos castanheiros no souto imaginário.
Ser ainda criança deve ser este movimento ampliado no tempo,
Para saber-se que não há recuo sobre os caminhos, enquanto as folhas
Destas árvores aguardam os dias luminosos do outono.
É geral esta ênfase das coisas que buscam a perenidade,
Da encruzilhada chegam as sombras dos castanheiros e sabemos

Como há um prenúncio de aves a iluminar o céu, uma delonga
De sinais que os deuses espalham sobre a terra, como se tudo
O que teve início voltasse ao princípio dos tempos e a criação
Voltasse a nascer. Sobre estas árvores deita-se a criança e o poeta,
Deita-se o pintor e tudo o que toca o torpor em que a génese está inscrita,

Velhos troncos a suster a claridade e as sombras de modo a que a clorofila
Solidifique nos pulmões e possa instituir-se sob os predomínios da arte
Esse sopro em que alguma coisa se acrescenta ao que já existe, ainda
Que imaginariamente, num gesto, numa sílaba, numa cor que se expande
Do que nunca existiu mas é nosso de súbito, agregador e tangível.

Nunca se afasta de nós, a criança. Está deitada sobre a terra
E a luz do souto embranquece-lhe os cabelos, é certo que envelhece,
Mas esse fechamento é uma abertura para o que não pára de surpreender,
Uma criança, um poeta, um pintor que uma floresta restrita protege
De todas as tempestades e de todas as bonanças, como se o que houvesse
A salvar não fosse mais que o incessante ramalhar dos castanheiros

Do souto imaginário. O que passa por aqui não tem salvação,
Mas acrescenta milagres entre lagos e montanhas ao que vive do sol
E da neve, acrescenta prodígios ao que confia na ordem celeste
E sabe que vai morrer, o que pastoreia sonhos, ilusões, incertezas
Sobre cada sombra, cada silêncio, cada uma das árvores da mata imaginária.

A arte é este souto. Estamos a dormir e alguma coisa canta nos interstícios
Do mundo, responde-nos a perguntas que nunca foram feitas, a questões
Que se tornam transparentes e translúcidas sob este crescimento,
Esta jornada mortal que retoma o eterno e a imortalidade, este jogo
De hipóteses que se reformulam sem fim, como se nenhum desfecho
Houvesse, nenhum outro destino na desassombradas veredas.

A criança vive desse nome agreste, tal como o poeta e o pintor
Não mais esperam que um casulo em que possa frutificar, uma ronquidão
De árvores a avançar no solo agreste, o souto imaginário
De que as aves surgem como sombras espantosas, em busca
De uma nova fadiga, uma viagem ao centro do desconhecido,
Uma transposição de cânticos de que os vínculos do universo
Se resgatam sob as imperfeitas desinências da infância e da morte.

Tudo se faz com um compromisso, o que entre os dedos se prende
É o que se perde entre os dedos, a arte é o que de inadiável os castanheiros
Anunciam, um fruto opaco que um obstáculo guarda e protege
Para que haja depois uma proximidade a retribuir, a alimentar, vinda

De um souto imaginário, uma dúvida perpetua, o trânsito de um corpo.


© (inédito) Amadeu Baptista 



arte de Agostinho Santos

quarta-feira, 4 de março de 2015

Árvores no Coração # 6


 SALIZ SALICACEAE

Digo que são salgueiros o que vejo da minha janela. Digo
De que destas árvores vem um uivo que se escuta muito longe
E que o ar se dissolve nas lágrimas sumptuosas destes ramos.
Digo que o mistério é sermos das árvores e que tudo

O que se amplia em nós vem desta reminiscência inaudível. Digo que o rio
Abençoa estas árvores, e a chuva, e todas as tempestades do universo,
E que a magia é saber que existes algures, muito para lá do desaforo
De tudo ser pertença do silêncio. Onde estes ramos tocam a minha cabeça

Estou eu com um clarão a invadir-me, a ver estas árvores
Como cavalos rudimentares e solenes, como frutos inusitados
Que ascendem da treva. Digo que há um desabrigo de ossos
Na presença destas árvores, um abismo, uma casa em ruínas

Que decompõe a noite em partes coloridas, simétricas. O pintor
Toca-as, põe-lhes olhos e bocas, reparte-as pela tela, invoca
O que elas têm de implacável, talvez um anjo, talvez um demónio,
Por certo uma parte de sombra que o coração não sabe como acolher

Mas vela as coisas com agudo discernimento. Os salgueiros
Que vejo da minha janela improvisam pactos e concordâncias,
Não sabemos porque choram, porque uivam ininterruptamente,
Nem eu sei onde estás, em que lugar me proteges,

Em que caminhos abres o coração ao que te rodeia e faz de nós
Seres absolutos e frágeis, seres sem mais comedimentos do que a esperança.
Talvez a natureza não seja mais do que uma interrogação, o que cresce
Nos ramos dos salgueiros em direcção à terra sem que nenhum mensageiro

Se anuncie, sem que nenhuma dor deixe de assinalar, do mesmo modo
Que os salgueiros tomam o rio como um rumor verdadeiro, um cântico,
Uma peroração que nunca cessa. Digo que os salgueiros
São o que somos a cada momento, sede que não se mitiga,

Fome que não se apazigua, ainda que os campos em volta se iluminem
E a cada hora os pássaros reprimam a fadiga de aqui estarmos.
Digo que os salgueiros são a minha janela, tu estás longe,
Tudo está longe quando a beleza sem mácula não me assiste

Mas sobre a terra caem pequenos milagres, pequenas núpcias
Que transformam o desencanto em encantamento, feitiço
De árvores que evoluem ao longo da minha janela e te trazem
Para perto de mim na crucial desolação do universo.

Não sei que abandono seja este, o amor é ubíquo, os salgueiros
São a constelação esperada, segue o rio o seu curso de ser mais do que rio,
Tudo em volta reverdece, ainda que destas árvores chegue um uivo que não cessa,
E tu e eu sejamos a grande colheita em que tudo é fulgurante silêncio.


© (inédito) Amadeu Baptista 





  arte de Agostinho Santos







terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Árvores no Coração # 5

OLEA EUROPEA

Estrelas fixas, estas árvores de prata. Progrido no extenso olival
Para que alguma coisa valha a pena, quem sabe se as aves que o sobrevoam,
Quem sabe se a luz remota que aqui cai para que os milagres se sucedam
E possam chegar os homens com as suas varas para beber a terra.

Em cada oliveira vejo um rosto, há rostos de muitos séculos que habitam
Estas árvores, estão nelas como graça e espírito, a escrever em cada folha
O nome que sempre tiveram e ninguém conseguiu ler, nomes do início
Do universo, em marcha, sempre em marcha para que o há-de ser limpo
E vem, de novo, expandir-se nos brilhos de que cada sombra.

Um ofício impaciente adensa cada um destes ramos, tudo parece feito
De lentidão, como a natureza institui, mas o enigma
Fez para outras rasuras e outras intensidades, como vi em Djerba,
Como vi em Atenas, como vi em Oran, rápidas essências
Que sobem das planícies como se mais nada houvesse
Que um laço repentino a unir todos os laços, todos os céus.

Os óleos destas árvores existem para que rejubilemos, a mesa é franca,
Em volta dela avistamos os rostos de sempre, o rosto das árvores,
Que são como de homens, estrelas fixas a escutar os nomes dos séculos,
O que alguns preservam nas ramificações de cada cor, como faz a mulher que passa
Na bicicleta vermelha que amplia na paisagem sobre esta prata, este verde,
Este cinzento, este talismã que responde aos mais ténues ecos do coração,
No fulgor da noite constelada em que cada alma se faz bênção.

Os reis do mundo são estas árvores sem fim, nenhum outro poder
Se revela senão por este sol que contêm, sol de sóis, milhares de sóis
A tecer luz para que vejamos na treva e tudo fique limpo e isento
Como estas árvores pelas quais passo e a que abraço o tronco
Para que a vitalidade sobrevenha e tudo tenha um nome.

Por que choro quando toco estas árvores? Por que se me enchem
Os olhos de lágrimas quando entrevejo este verde marginal
Que me toma o coração? Por que sinto, entre a ramagem,
Fios de frio que me fazem sangrar e ter vertigens? Por que nave
Tomo as oliveiras, estes seres frágeis que a custo respiram,
Mas o ar constrói para que respiremos melhor? Por que corre
Mais rápido o sangue nas veias por esta frescura ímpar, este viço?

Ah, as folhas adejam, adeja sobre as nossas cabeças a branca
Queimadura destas árvores, oliveiras de  Elêusis, de Tiro, de Alepo,
De um lugar a sul do meu corpo, onde todo o azeite se derrama
De ânforas antigas e há homens que comem pedaços de terra
Em grandes pratos de bronze enquanto cantam a agrura
De não terem nome, ainda que o seu nome esteja inscrito
No tronco destas árvores, nestas densas bagas verdes,
No horizonte sem fim que transfigura a vida e agita o vento.



  arte de Agostinho Santos

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Árvores no Coração # 4

CUPRESSUS LUSITANICA


Vivi a infância rodeado de cedros. Talvez a infância
Seja esse odor que ficou nos meus dedos, que sempre pouso
O olhar em coisas longínquas, mesmo quando as vejo perto.
Talvez viver a infância rodeado de cedros me tenha preparado
Para este recrudescimento da mágoa perante as coisas, por mais
Cheias de graça que cheguem, perto ou longe de mim.
Talvez cada um de nós tenha um cedro inesquecível na infância
Como uma avalanche ou um sonho, e a infância não seja
Mais do que isso, um lugar que se torna desabitado assim que termina.

Que pode um cedro? Pergunto hoje, que desenrolei a infância
nas sombras longínquas. Um cedro pode levar-nos longe,
Doce que é, e rude, exactamente como longe me levou a infância,
Sempre aqui perto e sempre tão distante. Que se passou
Na minha infância para que eu tenha este ofício de impaciência
Ao que perdi, ao que tive e nunca foi meu? Que pode a infância?

Lembro-me que havia um cedro no centro do mundo.
Que o meu bairro era feito de ruínas assombradas,
Que as ruas em que passei eram habitadas por raparigas assombrosas
E uma montanha de sombras intransponíveis.
Onde estou eu nessas ruas, na transcendência dos quintais
Dos meus antigos vizinhos, nos terraços onde estive
A assobiar longos momentos, esse lugar de enlevo
Em que os cedros me respondiam com a transfiguração dos ventos?

Saí do paraíso para nunca mais voltar, os cedros pontuavam
A minha alegria, iam as nuvens no céu como redes de pesca
Que alguém desenrolava, os meus vizinhos sabiam
O que fosse o inferno, gemiam de noite, atiravam pedras
Aos candeeiros, faziam longas excursões a lugares que não existiam,
Esperavam o milagre da multiplicação dos cedros em pequenos
Oratórios onde era a escassa a luz, mas espessa, sublime.

Onde estou eu naqueles cedros que a minha infância perdeu?
Que privilégio de mágoas posso se os recordo, se me vejo
Nos campos que circundavam a minha casa, naquele
Rumor de ventos inacessíveis, desbragados, a tanger
A minha inocência e a minha nudez? Onde estou na lonjura
Em que tudo falhei, reminiscência e caos em que os cedros
Estão mergulhados agora, como se fosse a solidão
A única imunidade que resta?

Dá nisto ter vivido a infância rodeado de cedros, o passado
É uma coisa branca que se crava na memória, na carne.
A imagem da vida cede a esse vislumbre, continuo a morrer,
Mas tenho comigo os cedros da infância, o incessante percurso
Do deslumbramento, este chão flagrante em que a humildade se abisma.

Tudo é grave e miúdo, agora. Tudo é diminuto neste tempo
Difuso, mas há uma hora em que me lembro dos cedros
Da minha infância, árvores brilhantes que é impossível ver,
Mas se sentem, sentem-se como um luminoso obstáculo,
Um obstáculo que ajuda a progredir, a perdurar, a intuir
Que é impossível adormecer na restrita faixa de luz que ainda resta.

© (inédito) Amadeu Baptista 



                                                                                      arte de Agostinho Santos














quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Árvores no Coração #3

ALNUS GLUTINOSA

Uma fila infinita de amieiros corre ao longo
Do rio e tudo mexe aqui. Pudesse eu e correria
Com essas árvores magníficas e por elas cantaria a cada passo,
Como se não mais existisse o silêncio avassalador
Que vai de margem a margem deste rio.

Inscrevo na terra a minha sombra, no rio
O meu reflexo. Há uma doce violência que me faz
Percorrer a selva, sob o escarcéu das aves que se refugiam nos ramos
Como se acabasse o mundo de nascer ou de morrer.

Entretanto, há o sol, o milagre a que pertencemos,
Eu, tu, as aves, os amieiros, a divindade que assestamos
No que cremos para que tudo se perca e tudo se transforme,
A multidão de verdes que arde em volta, a tarde que voa
Em obscuras transparências que tudo cobrem e tudo desafiam.

Crer no silêncio e nas aves que cantam há-de ser da ordem
Da origem do universo, o contraditório que invocamos,
Esta escrita que se espalha no coração da luz, esta luz
Que se lança de amieiro em amieiro para compor o bosque
Para que haja uma última possibilidade de salvação na clareira imprevista.

O que posso deter da beleza? O que detenho destes amieiros
Quando a noite chega e tudo não é mais que um extenso obstáculo
De treva? Que detenho das raízes deste rio, destes sons, destes arcos
Levantados em cada encruzilhada, onde, sem apelo nem agravo,
Me crucifico? Duro ofício é o de prevalecer, a morte
Chega em fluxos intermitentes, acode-nos, acorre-nos,
Corre connosco como esta fila de amieiros que se ergue
Ao longo do rio e, dentro da treva, são como um rio solar
Que queremos navegar.

São as árvores que fazem as aves voar ou as aves que incitam
Ao voo todas as coisas que existem? A fila de amieiros voa
Na densidade propulsora da noite, ou sou eu que voo
Nos interstícios da noite, sem que mais nada possa fazer
Do que escrever? Escrever é uma arte intangível, tal como o voo
De uma árvore é não mais que um percalço de treva sobre a terra?

Lado a lado com os amieiros, corro. Não importa se corro
De jusante para nascente ou de nascente para jusante, se do nascimento
Para a morte, se da morte para o nascimento. Faço tudo ao contrário
Do que seja plausível, as minhas expectativas são o que ocorre
Escrever a cada passada, uma a mais ou a menos para a morte.

Importa é que haja rio, árvores, aves, voo,
Como se acabasse o mundo de nascer ou de morrer.
Corro alegre e desesperadamente, corro ao lado das árvores
E desprendo-me da terra como estes amieiros que correm na margem do rio
Para que posse ser ave, e árvore, e criador.

Ah, uma infinita fila de interrogações vai comigo, ramagens
De extrema fragilidade que dão sombra, sol, sentido ao que apraz
Precaver no denso itinerário em que transito de um lugar a outro,

Para que me leve esta espessa luz que no coração hei-de guardar para sempre.


© (inédito) Amadeu Baptista 


                                                                                      arte de Agostinho Santos

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Árvores no Coração # 2

PINUS PINASTER

Não esperávamos que o desapontamento nos ferisse
E, no entanto, essa sombra vem tolher-nos.

Tanta coisa, que nos bate no ouvido, tanta agulha
Que os pinheiros largam na senda sinuosa. Lentamente,
As águas vão subindo. Promete este domingo um desabrigo
De prédios demolidos e tu, como sempre, desamarras
O bálsamo para que não alastre a treva sobre a pele,
Pões os teus dedos sobre a minha boca.

Escrevo sobre coisas que já aconteceram,
Ou sobre coisas que nunca poderão acontecer?

Ao meio-dia cai a luz implacável e tudo é chumbo
Que se não pode cunhar. Entretanto, pergunto
Pelo que saberão os pinheiros do destino, que arroubos
Podem, que ventania acumulam em cada uma
Das suas pinhas circunscritas. O silêncio arrebata-os,
Só podem mesmo construir florestas,
Para que haja barcas, odores, antigos cofres
Onde se acumulem tesouros, sonhos, o que seja.

Talvez a escrita seja a resina que a alma exuma.

Por esta dúvida há poetas que se matam, a cidade
Pouco ou nada sabe da angústia de quem vai
Pela floresta e, por estar perdido, não pode recuar.

Domingo? As águas sobem. Tal como a memória
A cidade é um estendal de circunstâncias, tábuas
Que ardem, desordens que rebentam, enquanto tu
Continuas presente e ausente permaneces
Sobre a ferocidade das coisas, sem que saibas
Que avalanches nos sitiam, o que seja o chumbo,
Ou o cunho que não há, mas poderia ter havido
Se houvesse um outro mundo.

Não sei o que vale uma palavra, o que contém
O bálsamo para que sobre nós perdure a aliança?

Pousas os teus dedos sobre a minha boca.

Na proximidade do pinhal a brisa prenuncia
Os teus cabelos, a tua mão na minha, os teus lábios
Nos meus. A senda é sinuosa, doloroso
Este domingo que nunca mais acaba,
Mas talvez nos salve este pinhal
Com as suas sombras, este dédalo de ramos

Que entre nós circula e nos aproxima num ponto ainda longínquo.



 © (inédito) Amadeu Baptista 




 arte de Agostinho Santos

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Árvores no Coração # 1

TILIA PLATYPHYLLOS

As tílias, esse manancial de odores,
Com as suas sombras devolutas e acesas,
Chamam por mim, para que me lembre
Que tu, ainda que distante, estás aqui.

Eu abençoo as tílias, esta harmonia excelsa
Que a cidade alimenta à custa do erário
Dos sonhos que ainda restam, olhando-as
Como manancial ininterrupto de cintilações,
Irmãs dos mais íntimos brilhos dos teus olhos.

Quem inventou as tílias está doravante perdoado
De tanta coisa correr mal nas alamedas,
Crimes de sangue, estupros, o brutal drama
De uma criança desaparecida há meses,
A tua ausência, a cada dia mais insuportável.

O nevoeiro faz com que a paisagem
Seja um prolongamento do mistério se há tílias
Por perto, sombras que se adensam de luz,
Fulgurações que carregam de fogo a arte escura
De haver árvores assim, frágeis mas robustas
Na circum-navegação do mundo.

Por este renque de tílias acedo ao que de ti
Existe no universo paralelo em que eu existo
E sei que o teu cabelo tem este cheiro ameno
A árvores altas que, mesmo longe do mar,
É maresia que entregam, a extensa maresia
Em que mergulhas as mãos, este perfume
Que as tílias soltam, a estabelecer connosco
Um pacto divino.

Tal como tu, as tílias são divinas. Passei demasiado
Tempo sem saber o que seria o teu mistério,
Que sortilégio te habita, até que soube
Que ias pela noite recolher o fascinante aroma destas árvores
E o colocavas no mais recôndito lugar do teu coração.

Só alguém divino pode decifrar o enigma
Que nas tílias arde, só alguém como tu
Pode conhecer a substância pagã que em ti persigo,
Sempre que ando em volta das tílias dos meus sonhos.

Só alguém como tu pode estabelecer um tal pacto
Com a realidade e com a irrealidade, talvez porque,
Apesar da tua silhueta de corsa ou de gazela,
És como as tílias, estas árvores frondosas
Que a natureza acolhe como princípio
E fundamento de tudo quanto existe.

Não sei se és tu quem vai pelo caminho das tílias
Ou se são as tílias que construíram o caminho onde passas
Para que tudo tenha algum sentido. Não sei
O que serei sem o benefício da sombra destas árvores
Que fazem da luz a amenidade do teu corpo
E a bênção procurada desde que me conheço
E não sei de mim, pelo devastador silêncio que me cerca.

Não sei que nome tem esta casa de bálsamos e sementes,
Onde cada fragrância corresponde a uma porção de ti,
O tronco o teu peito, as folhas os teus lábios, as raízes
Tudo o que cresce além de ti no teu espírito,
O espírito das florestas e dos bosques, o espírito

Que habita a secreta densidade do teu sexo,
O jardim das delícias a que acedo quando enlaço
Cada um dos teus ramos, cada um dos enigmas
Que te descrevem. Sei que agora falo com as tílias,
Este deslumbramento de árvores que responde pelo teu nome.

Sei que agora não mais falarei só, que tu e as tílias
Respondem ao que pergunto e que há um odor poderoso
E inebriante na claridade que entregas,
Igual ao destas árvores que nos amam.



 © (inédito) Amadeu Baptista 






 arte de Agostinho Santos