terça-feira, 18 de novembro de 2014

Ângelo de Sousa

A Modo de Ler acaba de dar à estampa, com coordenação de José da Cruz Santos e direcção gráfica de Armando Alves, uma plaquete, intitulada '20 Poemas para Ângelo de Sousa'. O volume, que inclui a reprodução de uma pintura de Ângelo de Sousa, tem a colaboração de Albano Martins, Amadeu Baptista, António Barbedo, António Rebordão Navarro, Bernardo Pinto de Almeida, Eduarda Chiote, Fernando Guimarães, Francisco Duarte Mangas, Inês Lourenço, Isabel de Sá, Jorge Velhote, José Emílio-Nelson, José Viale Moutinho, Mário Cláudio, Maria Cristina de Araújo, Martim Afonso de Redondo, Paulo Pais, Regina Guimarães, Vasco Graça Moura e Vergílio Alberto Vieira.


Deixo aqui o poema com que colaborei nesta publicação:


SOBRE O SORTILÉGIO DA PINTURA DE ÂNGELO DE SOUSA

Após a enxurrada fica a memória
da enxurrada, a mancha de um ramo
espatifado, uma sombra carregada
de cinza, um brilho negro. É quando
a brancura desbota e tudo fica
mais amplamente branco e, da brancura,
sobram, apenas, cintilações escuras,
a abundância domada, o refúgio
onde nem uma urna cabe, um osso,
um pressentimento. Então, o que está
liquidado deixa de permanecer,
embora nos suba à boca e seja
leve gota de sangue, como um cristal,
um poço, uma grinalda, isso
que radica na dimensão de um rosto
sob a alma e pelo caminhos
nocturnos irradia, se tem nome,
a devastar-nos pelo encantamento
as breves sílabas de um conciso verso.
Ah, se não tem nome é palavra cega,
um vulto com o fogo da voz a expandir-se
como barro vermelho.

©  Amadeu Baptista

(in '20 Poemas para Ângelo de Sousa', Porto, Modo de Ler, 2014)







sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Resposta a três perguntas

Para uma página do facebook, A Senhora Clap' (conferir em https://.www.facebook.com/pages/Senhora-Clap/588145527961228, fizeram-me três perguntas a que quis responder. Aqui ficam, para memória presente e futura:



·         Tem memória de algum aplauso que lhe tenha ficado para a vida?


Entrei para o serviço militar no dia 24 de Abril de 1974, pouco havia de passar das cinco da tarde. À data, as condicionalidades de alguém da minha idade, resumiam-se a pouco: a regra ficava-se pela opção de desertar e fugir para o estrangeiro, ou a queda inevitável nas malhas do império, que teimava em sobreviver à custa de jovens mancebos recrutados voluntariamente pela obrigatoriedade das leis da execranda canalha do regime fascista mais durável da história europeia. Caiu a noite daquele dia. No refeitório, o jantar não passou de umas batatas pretas e uns peixes requentados, que ninguém comeu. Regressados às casernas, ficamo-nos a arrumar os poucos pertences que leváramos e a prepararmo-nos para dormir: mil e duzentos homens sem sono, atordoados pelo facto de ali estarem, expressavam a tristeza, o temor pelo futuro e as saudades de casa com uma gritaria constante e insuportável. Às nove da noite, sob ameaça, alguém nos obrigou ao silêncio. Calou-se a maioria, outros continuaram a desenfreada barulheira mais algum tempo. Deitado no exíguo beliche, onde só tinha um franzino cobertor que me protegesse do frio, tentei concitar o sono e o repouso, o que se revelou tarefa completamente impossível: no final das contas, o que a manhã poderia trazer seria, afinal, mais um passo em direcção à guerra colonial, onde os melhores de nós eram ceifados a um ritmo assustador. Apesar do esforço, não consegui adormecer – e o tempo, lento e demolidor, foi passando. Seriam três da manhã da madrugada de 25 de Abril de 1974 quando, de roldão, entrou um grupo de gente armada até aos dentes na caserna. O grupo impunha a proibição de que não se ouvisse rádio, a partir daquele momento. Eu tinha um pequeno transístor, munido de um minúsculo auricular, que, de imediato, liguei. E logo um imenso aplauso interior percorreu todo o meu corpo, porque entendi que a revolução estava na rua e estava, talvez pela primeira na minha vida, restaurada a esperança na liberdade sonhada há tanto tempo.

·         Já aplaudiu de pé? Em que situação?

Aplaudi de pé em muitas e variadas vezes. E lembro-me da primeira vez que o fiz. Em 1972, a companhia brasileira da portuguesa Ruth Escobar, fez uma pequena digressão pelo nosso país. Assisti no Porto, no Rivoli, à exibição de ‘Missa Leiga’, uma peça com texto polémico e contundente, de autoria de Chico Assis, um nome de referência na dramaturgia contemporânea . A sala fervilhava, com o público e os actores sujeitos às mais diversas provocações que alguns agentes da pide, estrategicamente dispostos na sala, arremessavam para o palco. Por pouco não houve pancadaria e presumo que, à saída, uns quantos espectadores foram detidos. Por mim, fiquei fascinado pelo poder de intervenção do espectáculo e, sobretudo, pela audácia de um texto que teve o condão de reordenar as frágeis ideias políticas que tinha na altura. Além, obviamente, de toda a carga artística que lá assimilei como apontamento crucial a utilizar no futuro. Tudo o que há de resistência e denúncia na minha poesia, alguma coisa deve a essa peça e às circunstâncias em que a vi, não tinha eu mais do que uns ingénuos dezanove anos.

·         Hoje, o que lhe apetece aplaudir?


Mais do que os jovens, apetece-me aplaudir os velhos deste país. Não sou dos que cantam loas a uma juventude que, regra geral, se conforma à grunhisse perigosa e saloia da roupa de marca, do telemóvel de topo de gama e da playstation de última geração, sem que se preocupem em saber o que um lugar activo na luta de classes os pode dignificar como gente, como pessoas. Espera-os um futuro irredimível de escravatura e nada fazem para que esse opróbrio lhes não trucide o corpo e a cabeça, que pouco, ou nada, usam. Alguns serão, não tarda, classe dirigente que devorará os outros, como estes que nos dirigem (?) agora fazem. Outros, a avassaladora maioria (em que há, como em tudo, honrosas excepções), ficam-se na mais calamitosa passividade, que a si mesmos os há-de trair, tal como traem o povo a pertencem. Aplaudo e peroro os velhos. Esses que, sem suficiente linguagem para dar nomes aos bois, sobrevivem a custo no meio de um mar de dificuldades, sem mais remédio do que se verem sitiados pela miséria, a fome e a venalidade  num país que, tendo-lhes comido a carne, nem os ossos lhes respeita. Ah, sim, aplaudo a dignidade dos velhos desta pátria que sujas camarilhas pontapeiam para gáudio das suas fazendas e dos seus ódios brutais e rapinantes – velhos de cepa, rijos, indefectíveis, que na sua profunda debilidade mostram, ainda, como há uma luta a abraçar em cada dia, uma jornada a estabelecer na resistência que é necessário potenciar e ousar.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

MANOEL DE BARROS 1916 - 2014




O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.


O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


Retrato do artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.



Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.



Os deslimites da palavra

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas


Aprendimentos

O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura
é o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada.
Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs.
E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar.
Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles —
esse pessoal.
Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova.
Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.


O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Sophia de Mello Breyner Andresen‏, nasceu há 95 anos



CAMÕES E A TENÇA

Irás ao paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce.

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou ser mais que a outra gente.

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto.

Irás ao paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência.

Este país te mata lentamente.

(in Grades, 1970)



segunda-feira, 20 de outubro de 2014

José do Carmo Francisco escreve sobre 'Um Pouco Acima da Miséria'



Prémio de Poesia «Cidade de Ourense» em 2013, este livro de 99 páginas e 27 poemas é uma longa reflexão de Amadeu Baptista (n.1953) sobre a Vida, a Morte e o Mundo – entendido por «Mundo» um verso da página 64: «religião, história, lógica, razão, honra ou justiça». Basta um verso da página 77 para perceber o alcance da mensagem. Erguendo a voz como se fosse o poeta Nazim Hikmet, Amadeu Baptista, que publica regularmente poesia desde 1982 («As passagens secretas»), afirma - «serei poeta continuadamente» - depois de no verso anterior ter definido Ataturk: «de cabo-de-guerra a paxá, Mustafá Kamal será Ataturk /herói dos Dardanelos, pai dos turcos, genocida dos arménios». De modo hábil, o autor inventa no poema sobre Nelson Mandela o que poderia ter sido a sua fala ao sair da prisão em Robben Island: «Não sei se na generosidade o acaso existe, / mas tenho para mim que foi bondosa a vida / que me coube viver, tão cheia de obstáculos / e dissabores, tão dentro dos covais que só a luz / poderia enfim surgir no termo da jornada em que inicio / uma outra caminhada sobre a qual agora me ergo, / por um planalto de cânticos / um sortilégio de irmãos / uma savana de rosas.» De poema em poema, há no livro uma revisitação aos vários tempos da Guerra e da Paz, do Mundo e dos Homens, há gente que mandou matar (Rasputine, Hitler, Trotsky, Mussolini, Lumumba) mas, nas sucessivas máscaras convocadas, o ponto alto está na máscara do próprio poeta. Começa numa adversativa: «A soletrar um verso, não obstante / os centros comerciais e os bancos ingleses / vem a máscara de novo à cena / dizer que a vergonha engendra mais vergonha». Mas conclui afirmando: «A máscara do amor: a secreta paisagem / que nos traz aqui em busca da nossa própria máscara. /Adeus penumbra e imensidão de lágrimas / cabe ao poeta a máscara da ternura». Escrito para António José Queiroz, dedicado à memória de Aristides de Sousa Mendes e abrindo com uma citação de Manuel António Pina, este é um livro de excepcional qualidade poética a partir de uma ideia insólita, inesperada e inovadora. (Editora: & etc, Capa: Alex Gozblau)

in: http://transportesentimental.blogs.sapo.pt/um-pouco-acima-da-miseria-de-amadeu-163662








sexta-feira, 10 de outubro de 2014

UM INÉDITO

SOBRE A FIGURA DE UM DEMÓNIO PINTADO
QUE VIMOS NUMA PAREDE

Não se supõe que o demónio nos apareça num início de tarde
 na parede de uma sala desconhecida em que entramos
pela primeira vez. Mas os nossos olhos fixam-se na sua figura
para não mais o esquecermos, agradados por o termos visto
numa amenidade simples e sem remorsos, talvez porque foi
uma mulher que nos levou a ver esse demónio e se ampliou
no coração a luz dos olhos dessa mulher, que quisemos reter
como a um destino. Essa luz será sempre um mistério,
diabólica que seja por pertencer a alguém que não contávamos
que viesse perturbar a nossa vida, ou porque 
o próprio demónio se compadeceu de nós e essa luz
nos induz a que se estabeleça no nosso coração um ameno
agravo que se não há-de saber como solver, uma paixão 
que durará para sempre, breve e eterna como é próprio da luz que nos atinge:
o sortilégio de sempre quando dois poderes – o demónio, a mulher – 
nos submetem e nada podemos fazer do que entregarmo-nos,
tomando do silêncio a melhor parte do que queremos ter,
acrescentando aos sonhos esse ápice volátil em que, por um momento,
tudo é nosso, tudo em nós estremece, tudo está, ainda, ao nosso alcance.
Depois, o demónio obriga-nos a partir para a vida
sem outro alvitre que o extenso conflito com que o destino
nos sacode, fazendo-nos lembrar a luz daqueles olhos, aquela sala
remota,  essa mulher que nos chamou a atenção para a figura do demónio
na parede da sala  desconhecida enquanto nos sorria – e a quem sorrimos também,
com frágeis palavras presas na garganta e o arbítrio do coração
descompassado para que só a memória desse encontro possa valer
para sempre. Mas a memória não é não mais do que outro demónio
a perseguir-nos, nunca nos deixa em paz, nunca nos larga
nos múltiplos desencontros que nos ferem e fazem com que os sonhos
se renovem, exasperantes como um caminho que se segue e não tem fim,
ou um rio sem nascente nem foz, mas rio, apenas, na extensão do desassossego
das suas águas turvas, límpidas, convulsivas. Ama-se, então, o demónio:
ao demónio não mais que circunscrevemos as nossas preces,
os nossos desconsolos, a nossa angústia extensa, a nossa fome,
a nossa funda miséria de sabermos tão pouco do que temos
e tudo estar perdido à nossa  volta, sem outra solução do que viver-se.
E assim é que o demónio nos ampara e alimenta, e o que é impossível
acontece, e o que não é nosso nos pertence, e as noites se iluminam
pela luz daqueles olhos que apenas pressentimos demoníacos
e pacíficos na sala desconhecida em que entramos para que o arrebatamento
nos tocasse. Depois tudo nos assusta como um abalo sísmico a invadir-nos
o corpo, correm os dias como aves negras, não há esperança e tudo se reduz
ao enigma de nada ter sentido sob o impulso das correntes que ainda perseguimos,
um brilho numa árvore, a mancha de uma pedra, um bosque que se avista,
a lembrança de uns olhos que persiste nos mais recônditos precipícios do passado.
Ah, o demónio opera maravilhas, faz e desfaz, atira-nos para o mundo
como se o que nos ilude pudesse ser tangível e o demoníaco
se transformasse em beatitude, promessa que se cumpre, concerto
para o que nos atormenta, conciliação do puro com o impuro, caminho
que falta percorrer quando não há caminho e tudo em tudo se consome,
serena inquietação que nos há-de fazer voltar à amenidade de uma sala
desconhecida que uma mulher nos mostrou. E a tarde avança, a noite
alastra sobre as paredes brancas, e a figura do demónio continua a velar-nos,
vela-nos o desespero e a desolação amplia-se dentro de nós, e não é mais
o demónio que um instrumento de usura, vemo-lo como um ferro em brasa
que queremos tocar sem que nos queimemos, mas não é mais do que uma figura
entre almas penadas e chamas vermelhas, não é mais do que uma passagem
de medo que se insinua na carne, um medo arrasador  pelo que em nós anoitece,
a solidão de sempre, a perdida luz que permanece nos olhos de uma mulher
que para nosso estupor e enlevo nos invadiu o coração. Ah, noite preta, noite
de múltiplos demónios e análogos escanhoamentos, noite de sortidas perfídias
em que a morte se insinua, pugnaz, falaz, audaz, em que sempre perdemos terreno,
em que não há cortinas para abrir, a que nenhum céu pode corresponder senão
com um maior e mais amplo negrume, uma insatisfação desabrida  sobre os olhos,
tempestade que galga a treva e se eleva sobre a alma, inundada de sombras.
E a paixão permanece, entre a ruína permanece, a perfilar sobre o rosto
um sinal irreconciliável, enquanto nada há que se divise na terra a não ser
essa figura sortílega na parede branca de uma casa desconhecida
em que o alvoroço nos arrebata talvez demasiado tarde,
talvez demasiado cedo para o temeroso fogo com que o demónio nos tenta,
esse calor que é a um tempo refrigério e admoestação, porque nada
se distingue no inextricável rumor que a vida é. Assim o vermelho represo
na figura do demónio nos suplicia, e enlouquece-nos por aquele brilho dos olhos
que nos saúda como execração e opróbrio, aquelas unhas paradas
sobre a nossa garganta, essa deposição que sobre nós se debruça, a atingir-nos
como uma desatenção vigilante, um ofensivo cuidado em que mais nada
podemos fazer do que perdermo-nos para que a nossa desventura cresça
connosco e assim nos diminua. A casa amplia-se, então, sob o auspício
de um silêncio devastador, as salas estremecem, estremece o coração,
um estalido destaca-se dos móveis e a a perturbação vem confundir-nos,
ao que éramos atentos somos agora alheados, como se o tempo
deixasse de cumprir  os seus ritmos expectantes e soubéssemos, por uma vez,
que a tempestade não vai passar e tudo se abandona ao esquecimento porque o êxtase
não é já uma prerrogativa, uma aliança que possa fundar-se. «Vai morrer»,
ouvimos o demónio dizer. «Vai morrer longe», repete ele, elaboradamente
– e há um longo exílio que começa a cumprir-se, uma pena maior, um degredo,
uma degradação que alastra nas veias e nos congela o rosto e corrói os humores,
numa invernia contínua, uma derrocada a expandir-se em sucessivas fantasmagorias
e perplexidades consecutivas. Ah, a noite é infinita, noite preta, noite negra,
de um lugar a outro nada resta senão a vacilação, o demónio olha-nos de frente
e mostra-nos a claridade de uns olhos para que a amplitude do desgosto seja essa
luz que perdemos, esse ardor que derruba, essa convulsão no peito que quisemos
manter como crença, mas nos pôs sem solução perante muros, portões, gradeamentos.
E pertence-nos o que nunca foi nosso, pertence-nos o que nunca há-de
pertencer-nos, pertence-nos a dimensão do vazio carregada de sons e pigmentações,
o que ficou desse dia em que vimos a figura do demónio na parede de uma sala
desconhecida. E, de novo, vemos o brilho dos olhos da mulher
no brilho dos nossos olhos, enquanto a imaginamos a vestir uma camisa branca,
ou a dormir, ou a pentear a serena inquietação dos seus cabelos, ou a mostrar
na boca um sorriso que interceda por nós, ou a tecer uma demorada
palavra que nos enrede e faça de nós voluntários prisioneiros da sua presença.
Ah, como todas as cargas nos exaurem, como todos os tormentos nos sitiam,
como todas as impossibilidades nos afrontam, embora o caminho se estenda
diante de nós e, como sempre, não haja caminho, nunca haja caminho de um lugar
a outro, de um coração a outro, de um refúgio a outro – o demónio está em toda a parte 
e não se cansa de se mostrar, não se cansa de nos dizer, elaboradamente, «vai morrer
longe», não nos poupa obstáculos, ciladas, destemperos, aflições, aparece-nos, 
apenas, para manifestar em nós a decepção do mundo e o seu declínio, 
a nossa desventurada condição de miseráveis sem mais remédio 
do que esperar algum instante retemperador no fulgor da claridade, algum gesto 
inesperado, algum espelho que possa devolver a transitoriedade da nossa imagem.
 Ah, foi num dia de sol, há muito tempo, que vimos a chuva bater no vidro das janelas,
e que, de súbito, a treva cingiu as cintilações que envolviam a cidade, e as casas
prenunciaram um incêndio infinito de proporções assustadoras, e os relâmpagos
deixaram fundas cicatrizes no horizonte de nuvens: tudo isto dura desde que foi
a infância, dura eternamente desde que a perda se insinuou e manteve como ferida
mortal, vara que bate nas têmporas, no coração, nas palavras, nos poemas. Oh, cheia
de graça, o sucesso da tragédia não cessa de nos acossar, é um veneno subtil
que a cada dia se instala e, lenta e pressurosamente, nos mata como se fosse 
o lenitivo que resta, a arma exclusiva contra todos os demónios que nos perseguem
e afrontam, a última vertigem consentida. Não, não se supõe que o demónio 
nos apareça num início de tarde na parede de uma sala desconhecida 
em que entramos pela primeira vez, ou que a mulher possa sorrir-nos, 
ainda que lhe brilhem os olhos, ou que desarvore no mundo o milagre da redenção 
–  o corpo progride para a imensidão, os olhos gastam-se por tanto verem, 
destrói-se o momento da centelha e do mistério e nada é sagrado,
nada é iluminado pela visão longínqua que tivemos.


©  Amadeu Baptista

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

OS MEUS LIVROS NA &ETC (QUASE UMA ANTOLOGIA)


2006

( ilustração da capa de Ana Biscaia)



UM POEMA DE 'NEGRUME':


estou a dizer caralho repetidamente.
atrás de mim vejo uma embarcação em ruínas,
o sonho assume uma amplidão soturna, as bocas cospem fogo.
depois a cidade cai, com estrondo.

vem uma mancha negra ou azul, como petróleo,
e contamina as minhas mãos. principio
a perscrutar-te os olhos sem te reconhecer.
continuo a dizer caralho, repetidamente.

depois o sonho alonga-se numa queda sem fim.
vai a cabeça à frente do corpo, coberto
por uma toalha vermelha. da boca voam
insectos gigantescos, maiores que a sua sombra.

a treva cobre tudo. chega um vulto e diz que não se pode
regressar por esse caminho, há que seguir em frente.
um caminho de longos silêncios e longas lâminas
intimida os que querem passar.

a mão intratável sobrevoa-me os ombros.
tenho as omoplatas pontuadas por uma claridade verde esmeralda.
estou a chorar, na antiga casa, o velho alpendre.
volto a cabeça e vejo o teu sexo, a gruta escarlate e quente.

a gruta  tem um enorme poder de sedução,
sou ainda uma criança e fico em silêncio a observar.
o meu silêncio pesa mais do que o peso da minha alma.
passam gansos, peixes brancos. digo repetidamente caralho e não me calo.

vem alguém e entorna leite no chão da cozinha,
um homem vocifera e ergue-se com uma corda ao pescoço
e uma faca na mão. volto a repetir: caralho, caralho, caralho.
passa um carro na rua a buzinar estridentemente e acordo, num sobressalto terrível.

depois, tudo é silêncio avassalador. há passos surdos no corredor
contíguo ao meu quarto. oiço um alfinete cair, a mãe a gemer.
a cama range, o pai volta-se nos lençóis, para outro lado,
outra direcção atroz.

a casa está submersa num silêncio sólido, irreparável.
estou muito só e tenho frio, embora esteja um calor abrasador.
ouve-se um cântico ao longe. o som de asas a roçar nas paredes.
digo: caralho, caralho, caralho, num sussurro infinito, até perder o fôlego.

in Negrume,Lisboa, &Etc, 2012



2008

(ilustração da capa de Inês Ramos)

UM POEMA DE 'OS SELOS DA LITUÂNIA'


escrever pode ser, naturalmente, ter três anos,
estar na praia num dia muito quente
e sentir que alguém nos apanha pela cintura
e mergulha nas ondas violentas
de um mar revolto, vendo num relance
a multidão em volta, toucas amarelas,
biquínis coloridos e o homem da bolacha
americana, de boné enfeitado com uma âncora,
a percorrer o areal em toda a extensão
que vai do paredão à casa do banheiro.
vir num soluço à tona de água e voltar
a submergir com um grito preso na garganta
para ver do mar o fundo, aquelas algas
ameaçadoras num bailado aquoso
que as lágrimas ainda mais adensam.
se não for isso, pode ser, exactamente,
ter um profundo conhecimento da palavra
garrotilho, ter estado de cama com sarampo
e a janela para a rua resguardada
por um pano vermelho que vai do chão ao tecto,
sentindo muita sede, sem poder
sequer molhar os lábios. ou, então, ouvir
a tarde toda os gemidos de alguém
a quem diagnosticaram esclerose múltipla, a regredir
na idade e a ir morrendo aos poucos
de drageias brancas. escrever pode ser, exactamente,
ter um medo mortal de ir à escola, e sofrer
os efeitos maiores da crueldade
que os mestres manifestam nas crianças,
as páginas à deriva entre a baba e o ranho,           
as pernas aflitas por todo aquele pânico,
doridos nós dos dedos e o coração
aos saltos. não sendo isso,
escrever pode ser, provavelmente,
um ajuste de contas com o passado,
ou até mesmo a lembrança dessa noite
em que o vento varreu o nosso quarto
e destelhou as casas circundantes, vitimando
o garboso pundonor do gato que cruzou
a estrada e foi atropelado por um balde
amolgado. não sendo isso, pode ser o cavalo
inquieto que no prado, certa vez, se vislumbrou, ou animais
degolados, com as vísceras entrançadas
num novelo no alpendre, perto da roupa
pendurada na corda de secar. ou a noite,
imensa e perdurável, em que alguém
bateu à nossa porta e não entrou,
e nós com a lanterna tentámos ver
sob a chuva que vergasta ainda
as sebes que há em volta do cercado,
o cata-vento em forma de avião, os cardos
do baldio. se não for isso, será, precisamente,
aprisionar o rosto a um lugar
para não ceder, ir com o corpo adiante procurar
o ritmo das paixões, as mais vorazes,
as que podem produzir assassinatos, estontear
as cabeças, irromper de um céu de sombras
verdadeiras, mesmo que não haja céu,
mesmo que não haja sombras
e nas letras resplandeça
pouca coisa.

in Os Selos da Lituânia, Lisboa, &Etc, 2012



2009

( ilustração da capa de António Ferra)

UM FRAGMENTO DE 'ESCALPE':


Há uma seda sensual no teu cabelo
que apetece incandescer.

Os dedos deslizam nessas pequenas cascatas
e apuram-se
a encontrar-te a nuca,
o seu recôndito côncavo.

Molho um dedo com saliva
e, da nuca,
atinjo-te as costas,
sinto as pequenas saliências da tua coluna
como se tocasse
um instrumento antigo,

quase harpa,
quase alaúde,

e dessa música silenciosa vejo que te arrepias,
e que o teu corpo pulsa ternamente,

e freme como o ramo de uma árvore
que a brisa inebriasse.

Depois, procuro-te os seios com a mão esquerda,

e belisco-te os mamilos,
sem suavidade,
sem serenidade.

Tudo é inquietação na procura do corpo,
mesmo quando o corpo a outro corpo
se rende e se conforma.

O corpo sabe como nada se apazigua
no momento da posse
e que, carícia após carícia,
há sempre novos montantes
de enigmas a descobrir,
a despertar.

A minha boca procura a tua boca,
os meus lábios afloram os teus lábios,
com os dentes aprisiono a tua língua 
e mordo,
mordo demoradamente,

enquanto o dedo,
o dedo que está livre a  explorar-te as costas,
desce ao teu cóccix
e desce às tuas nádegas
e não se perde, afeito.

Eis os orifícios valiosos,
as furnas a penetrar:

a mão espalma-se e arranha-te
e são já dois dedos os que te possuem

–  um sonda o teu ânus,
o outro a tua vulva,
no exacto momento em que tu és já
um estremecimento subtil a atravessar-te,

a atravessar-te as coxas,
os joelhos,
os pés nus.

A tua boca desprende-se da minha
e dá início à viagem:

agora és tu quem morde,
és tu quem arrasta os dentes e a língua no meu peito,
és tu quem amotina

– na minha pele
a tua língua espalha um rastro de fogueiras,
de pequenas manchas incendiárias,

e eu deixo-me ir na embriaguez
que os teus cabelos negros,
soltos no meu ventre,
ampliam no meu tórax.

Assim acede a tua boca ao meu sexo,
enquanto tudo arde no teu sexo.

No teu ânus,
na tua vulva,
afundo os meus dois dedos,

palpita a tua língua no meu escroto,
e lambe,
e chupa,
e é o momento da minha língua uivar
sobre o teu peito
e te procurar o sexo.

E há a mansidão e a selvajaria
no modo como afundas
o meu pénis na garganta
e a minha língua separa a tua carne
e te penetra o túnel húmido,
luminoso:

aqui é o teu centro,
esta protuberância onde o infinito se adensa,
esta fonte em que todos os paroxismos se acumulam,
exactamente como, na minha glande,
está o meu centro propulsor,
o dínamo da vida.

Agora, arfas.

in Escalpe, Lisboa, &Etc, 2009





2010

(ilustração da capa de Ana Biscaia)



(...)

A desgraça de um país mede-se na distância que vai das instâncias do poder
à esperança dos seus habitantes, o deserto especializa-se quando a crise
se amplia, chegam os usurpadores e o equilíbrio das emoções descontrola-se,
a ciência columbófila ressente-se por esse condicionamento,
eiva-se de sinecuras e compadrios,
especializa-se em apreciações,
distingue-se entre os méritos e os desméritos
por simonia,
favorecimentos,
invejas comezinhas

E é então que a saudade se expande como palavra portuguesa
e eu volto à infância, enquanto tu, Dempster das Irlandas que não há,
revives e oficias o K3 dessa Guiné repulsiva para que o fascismo te mandou,
como se houvesse uma nova crónica do descobrimento e conquista da Guiné a ampliar
a que o Zurara escreveu, e nada se cria ou se perde, e tudo se transforma,
como a antiga lei nos disse, e de versos se inça o exílio que jamais projectamos
e, sem mais, o acaso da vida, pelo seu ábaco infeliz, nos ordenou –
e sabemos que os poemas sujam tudo,
tal como os pombos, as pombas, os ratos, os pais que nos traíram,
e todos os que traíam as infâncias que, como as nossas,
foram vividas a golpes de marcas nos costados pela sovas iníquas
que nos deram

Falemos de exemplares vivos e pios de aves,
o centro da cidade é uma loja chinesa na ordem geral do mundo,
nós estamos a viver algures entre a rua Formosa e a rua da Paz
e o dia de hoje, claro como há muitos dias não havia, enche-se de sombras,
e eis que acabam de bater as doze e quarenta e cinco e morre, em Lanzarote,
José Saramago, tão pombo como nós na refrega das coisas que nos escapam
entre os dedos como se não fossem mais que jangadas de pedra onde nenhum
ente divino se senta à nossa mesa por um café – falemos
da inexprimível solidão dos poetas, esse luto

Vejo-me como um homem calado, vejo assim os poetas,
vemo-nos como homens calados que não podem estar calados,
ou que estão cegos e não podem estar cegos,
ou que não podem deixar de deambular na cidade,
porque há uma pedra a levantar do chão,
um povo a levantar,
uma infância a levantar

É, foi na infância que o descontrolo se arrostou,
aquele odor a sal e a vinagre palpita ainda no meu cérebro,
ligamo-nos assim à terra, a olhar o interior das mercearias,
dos pomares,
a surpreender a alegria que se faz pela interposição do silêncio
com as palavras vitais, o rego de sangue que se abriu
na via do caramanchão quando ficou determinado o lugar das alucinações
e se abriu a porta para um determinado ponto da cidade,
esse mesmo onde caímos pela primeira vez

O que lá está é nosso e não nos pertence nunca, o olhar
deslumbra-se por esses cavalos, essa estátua, esses pombos,
provera a Deus e seríamos meninos para sempre com essa brisa no rosto,
os barcos estão cheios de carvão, discorrem sobre eles as mulheres
que pelas tábuas passam e carregam à cabeça largos cestos de vime,
e é como se fossem podoas a escandir o ar, como se fossem
a nossa misericórdia irremissível

Depois a tarde alonga-se, vem a noite, e as mulheres repartem-se
pelas inúmeras tabernas das suas circunstâncias,
bebem à nossa memória, e nós permanecemos transidos
nesse desvendamento,
atrás de nós está o Jardim da Cordoaria, está o António Nobre com uma camisola
de pescador e uma Bíblia sob a cabeça, está o Raul Brandão na pedra do lume
como uma árvore sem poda, estão as putas, está a árvore da forca,
está a nossa vontade férrea pelo eterno, está o Hospital de Santo António
onde a minha avó morrerá de uma cirrose,
está Caim, estão os pássaros, a celebrada cadeira do nosso barbeiro comum,
aqueles frascos alinhados nos seus torpores azuis e verdes, e grenás, e roxos,
está a Foz Velha, onde tu, Nuno, como eu, não muito longe de ti,
aprendeste o desusado rumor dos versos,

essa penumbra

(...)


in O Ano da Morte de José Saramago Lisboa, & Etc, 2010





2012

(ilustração da capa de Bárbara Assis Pacheco)




UM POEMA DE 'AÇOUGUE':



DOIS MIL E OITO

(para Baptista-Bastos)

Sou um homem do norte e um homem do norte
continuarei a ser até que a morte me separe.
As minhas circunstâncias são exactamente
as mesmas circunstâncias daqueles de que sou
vizinho, a gente das vielas e das ruas empedradas
a granito, os vociferadores sem mais ânimo
que o da sorte, os rapazes que peroram o descaso
de não haver árvores a que possam
subir para começar uma aventura
que não tenha fim. Na minha memória
o que está mais marcadamente aceso
tem a ver com o mistério irredutível da infância,
e desse tempo guardo choques inimagináveis,
com homens no trabalho a poder de fome e de cansaço
e mulheres em angústia permanente por não haver
o que dar de comer a velhos e crianças.
Cedo me foi dado partir para os braços de alguém
que me atenuou as faltas, com pão branco e um resto de toucinho,
pelo qual chorei, vim a saber mais tarde,
como um garoto sem saber de maior evidência do que ter, enfim,
um pequeno manjar para celebrar.
A vida era dura nesse tempo,
que eu fui vigiando quase por instinto,
fazendo o que fazem os que ampliam a vida pela experiência
e, de erro em erro, consolidam, sem mais,
o que passaram a saber, porque o sofreram.
A vida era dura nesse tempo, sobretudo
para quem me estava próximo
e eu via viver sem mais remédio do que ir transfigurando
a fome irrespondível em estoicismo feroz,
capaz, se necessário, de abalar montanhas.
Em volta, quem estava, pouco ou nenhum exemplo
seria do fascínio, mas era gente que, ainda assim,
andava de cara levantada pelas ruas, a mourejar o sustento,
fosse a lavar escadas ou contratado nas docas,
como vi acontecer aos meus progenitores.
Quem me criou foi disto que adoptou ao receber-me,
sendo que minha mãe me entregou para me livrar da miséria comum
–  por assim ter sido, eu sei que ela
levou para a sepultura uma dor excruciante sob o peito,
e lágrimas perpétuas nos olhos. Fosse o que fosse o mundo,
ali estava a minha predisposição para o saber, menino e moço
levado de casa de meus pais para uma outra enxertia no meu tronco.
A casa para onde fui era um mistério, e foi nesse mistério
que dei por mim a interrogar fosse o que fosse, a luz, a treva, a sombra,
sempre a olhar em volta e a assinalar nas coisas
o rudimento de uma linguagem que me pudesse dizer tal como sou.
É certo que o que somos nunca é o que pensamos ser,
porque nós somos o que somos e o que os outros de nós fazem,
além de que também somos o que vimos, as coisas que ouvimos,
as coisas que esquecemos, os sonhos que em nós se enraízam,
sem outro modo de prevalecermos senão por outros sonhos,
no que dizemos, ao que nos aproximamos, do que nos afastamos,
inexoravelmente, pela intensidade do nosso regozijo
ou o alento que alcançamos reunir.
Eis que, portanto, a infância, a minha infância,
me entregou ao duro acaso que há nas coisas,
a confrontar-me, ainda inocente, com a morte.
E tive que cuidar de uma mulher que, não sendo minha avó,
me chamava neto, e eu amava sem saber porquê.
Ela estava entrevada, e disputávamos pelas tardes coisas sem valia,
a luz de uma planta, uma bolacha que era só farinha,
uma moeda que a sua bolsa negra resguardava das minhas investidas,
porque eu queria rebuçados, figurinhas-de-passar, amêndoas, uma bola,
e ela pouco tinha para me dar,
além da sua eterna progressão em direcção à morte.
Tínhamos uma infinita paciência um para o outro, e ela animava-se
a contar-me histórias, sendo que por essas histórias é que compus
o meu imaginário, o meu encantamento.
Não havia professor de que eu gostasse mais do que gostava dela,
pela sua pele mirrada e a sua perna inchada, gorda, de elefantíase,
que um enfermeiro mortiço tratava com afinco, com nitrato
de prata vertido sobre a chaga que, por tanta escuridão, abria em carne viva.
Falava-me da raposa e do milhafre, falava-me do lobo e do coelho,
da águia e do veado, falava-me das flores –  as brancas, as vermelhas –,
falava-me da praia e da floresta, falava-me das pedras, dos cristais,
dos reis e das princesas, do gelo e da resina, das bruxas e das fadas,
e tudo o que dizia estava vivo, mexia e respirava, porque eu,
ouvindo o que dizia, o via à minha frente, a entender
como há uma tenacidade absoluta que habita na palavra,
e que só pela palavra existe o que nós vemos,
salve-se disso, ou não, a nossa esperança.
Hoje, quando escrevo, pressinto que vem dessa mulher
o uso obstinado de comparações violentas nos poemas,
sendo que entendo que as metáforas se vivem para que haja
um termo irretorquível de eficácia na dimensão da escrita.
Certa noite, esta mulher morreu
e, nessa agonia, eu vi que há,
entre os vários planos em que existimos,
outros planos cruéis que nos ficam cravados na memória
para sempre e que nunca mais nos abandonam.
Morria ela enquanto ia comendo a camisa branca que vestia,
levando-a à boca em catadupas, numa luta incessante com a morte
pela qual eu, pela surpresa de a ver lutar com ela assim, fiquei estuporado.
Anos mais tarde, morreu a minha mãe, e tive novo confronto com a vida,
acareando a morte,
porque a fui velar a uma pequena capela de uma rua íngreme,
onde todos os tráficos existiam, da música argentina ao comércio do sexo,
da emulação pelo vinho ao desacato
das meninas que perto voejavam, a angariar clientes,
enquanto minha mãe ali jazia, morta, finalmente,
mas ainda viva, viva pela vida circundante.
Não traumatizemos as crianças, diz-se, hoje em dia,
mas a verdade é que a consciência do que me vai acontecendo
sempre me pareceu soberba e exaltante,
tanto mais que sempre quis ser poeta,
e para se ser poeta é sempre necessário estar no fio da navalha,
é necessário sentir o fio da navalha sobre a carne,
é necessário saber como se abre a ferida e o sangue corre,
e como a dor alastra sobre tudo, sem que haja esquecimento ou redenção,
mesmo se a redenção vier e a deslembrança
tiver que ser a última recompensa.
Assim cresci, assim empreendi a aprendizagem,
a constatar como na alma os passos se abismam
se a pura incandescência nos confronta com a violência que há em tudo,
sendo que quanto maior for a violência maior é o tirocínio do poeta:
a empreender o abalroamento do real para que resulte frontal a colisão
– derrapa, um dia, num troço da auto-estrada, a fazer
do ligeiro um monte de sucata e, do passageiro, lama,
não mais restando do que somos na energia cósmica, que ao pó regressa.
E assim cresci, e vi que a enxertia resultava
em algo mais sensível do que alguma vez supus,
sem que soubesse por que herói optar, Aquiles ou Heitor,
se pela força indómita e bravia,
se pela razão que toca o coração para que seja cada morte uma vitória,
ainda que os mortos, em multidões inúmeras,
com as suas botas grossas e os seus bibes verdes,
com as suas túnicas púrpura e os seus coadores de prata,
com o seu orvalho negro e o seu odor a incenso,
terrivelmente aguardem que a justiça venha, e dure, e seja feita.
Foi primavera, veio o verão, depois; é já outono, agora.
Tive dois filhos, os quais eu vi nascer com estes olhos que a terra
há-de conter, e vê-los a chegar, a suscitar ternura, fez-me querer
ser um guerreiro a combater o efémero, desarmado, embora,
mas pronto para a luta e a conquista dessa muralha inerme
com que a realidade arma ciladas sem nunca nos dar tréguas.
Fiz, então, da escrita o meu sonho maior,
e das palavras tomei o que podia para encontrar
o ardor e a harmonia, sendo que o desenlace da harmonia,
aqui, onde vivemos,
seja só inconsonância e incerteza,
perversas dúvidas,
amálgama de ferros,
trechos de música densa e obscura,
que sabemos e não sabemos como existe,
mas sentimos na alma e no espírito,
e nos enche o olhar como um bosque cintilante.
Se sou poeta, ou não, interessa pouco.
O que escrevo é só um tempo breve,
em que os mortos e os vivos se procuram
para que haja testemunho e não seja longa a espera
do fim que há em tudo. Ah, que quem venha
a seguir se não esqueça o que é o norte,

e onde fica.

in Açougue, Lisboa, & Etc, 2012



2014

(capa de Alex Gozblau)


UM POEMA DE 'UM POUCO ACIMA DA MISÉRIA':




GUNVOR HOFMO FALA, EM SONHOS, À SUA AMIGA
JUDIA RUTH MAIER

(para Vítor M. S. Rodrigues)

A casa está contida no abismo esquizofrénico
e as loucas uivam, com as bocas cheias de árvores.
Por mim, vou na esteira das sombras, sempre a cantar,
como se cantar fosse uma revelação e o sol
o aconchego possível para a predestinação
da sobrevivência, nos dias em que a solidão nos submerge.
De onde vim havia um trabalho de crepitações,
a neve enrolava-se-me nas mãos, e o meu olhar abrangia
a beleza periférica em que nada mais somos do que uma rasura
na espessa paisagem. E os olhos recebiam essa luz duradoura
que me fascinava e abria o peito, talvez à ilusão, talvez ao frio,
mas, com certeza, à circunstância de fazer do entendimento
das coisas uma visão do sagrado, um rastro de luz interminável.
E assim foi que chegou a ordem dos arianos e eu retrocedi
na minha idade, e a minha boca ardeu pelo teu nome
na densidade da noite –  chegou a ordem dos arianos com os carros
blindados e os camiões negros, como se o mundo
fosse já sem qualquer saída e tu não fosses mais do que o sinal
de que nada há a esperar, embora o canto
predomine sobre tudo. A casa está contida
no abismo esquizofrénico e eu lembro-me de ti,
a tua mão sobre a minha poderia ter sido a redenção,
mas os arianos chegaram a Dalsbergstien 3
e a luz de Oslo nada mais atenuou, a amarga
expectativa de que a angústia acabasse sem demora
gorou a esperança e o alento, e tudo se malogrou sobre o silêncio,
com as suásticas a perder de vista sobre o campo de visão
do nosso descontentamento. Lembro-me como se desvaneceu 
o teu sorriso, lembro-me como vi sobre ti os anjos negros,
lembro-me como a perseguição foi obstinada sobre a rapidez dos teus passos,
e como te arrastaram pelas escadas do lugar onde moravas,
e te apanharam pelo cabelo,
e te forçaram a ajoelhar,
e apoiaram a arma
sobre a tua nuca até que dentro de ti
mais nada houvesse que a jurisdição do terror,
quem sabe se o único promontório que ainda resta.
É tarde, sobre o céu baixo desta noite infinita repiso
os versos da minha ignorância, as loucas uivam
com as bocas cheias de árvores, sob os lençóis contorço
as mãos por tanta aflição, e toda a inexorabilidade
se inscreve nas minhas palavras, e não sei de mim, nem de ti,
nesta extensão de trevas que se transmite à ressonância dos séculos,
de quando mais não éramos do que crianças a inquirir os bosques,
o vento pelos abetos, os animais pacíficos,
a neve imaculada de Biri. A enfermeira passa no corredor,
a ronda completa-se, eu prendo os cabelos nas mãos a pensar em ti,
e digo que o asseio deste lugar me assusta,
tal como me assusta a cegueira circundante,
tal como me assustam os soldados que povoam
este espaço como fantasmas iníquos
que me entregam, a cada hora, notícias da tua deportação,
do teu sacrifício, em pesadelos terríveis.
Não, não somos mais do que uma rasura na espessa paisagem,
mas creio que, ainda assim, somos uma rasura de origem divina
–  dos camiões os detidos foram impelidos para o comboio de mercadorias,
longa foi a viagem pela Alta Silésia onde as unidades SS são ubíquas,
a trepidação dos vagões levou-te ao sacrifício, nem concebo o teu horror
perante os mastins excitados, a ameaça das metralhadoras, as vozes ofensivas, o zunir dos chicotes sobre a carne vulnerável, a longa espera na fila
de aniquilamento, a tua nudez branquíssima a iluminar a câmara de gás,
a cinza do teu corpo a subir aos céus de Auschwitz, conjuntamente
com outros milhares de corpos impacientes por retornar à vida, divinos
como sempre foi o teu corpo, Ruth Maier.
Não, aqui nada é inacessível, o sofrimento não é inacessível, não é
inacessível o rumor da tua voz no meu ouvido, não é inacessível
o teu riso cristalino na primavera fugaz, no medonho silêncio que está dentro
de mim como uma luz com o teu nome quando lembro o teu destino,
uma rosa solitária como a serenidade expansiva da memória que conservo
de ti, a olhar-me nos olhos, a perscrutar a lâmpada de azeite
que em cima da mesa alguém acendeu para que voltemos
a ver na discrepância dos tempos, e seja limpo o que virmos,
como uma migalha de pão ou uma estrela nítida no firmamento obscuro.
O que seja o extermínio, sempre nos há-de encontrar inocentes,
e eu sempre acrescentarei mais versos aos versos que escrevi,
e zurzirei a noite com o mesmo esforço com que te inscrevo
nas minhas orações, no meu silêncio, no meu desamparo,
enquanto estou contigo à roda de uma fogueira, a subentender
os pássaros que gravitam sobre as nossas cabeças, juntas uma vez mais
no desassossego que nos coube entretecer, sempre a cantar,
mesmo que cantar não valha mais a pena ou seja o nosso último reduto.
Ah, as loucas uivam com as bocas cheias de árvores, os meus versos
expandem-se pelos céus da Noruega, tudo está por dizer sobre a união
do corpo e da luz, relembro-te e relembro o que alguns humanos
já esqueceram, ou querem que esqueçamos, mas não há perder-se do tesouro
da vida, não há-de deixar de gritar o teu e o meu nome nesta casa inabalável.

in Um Pouco Acima da Miséria, Lisboa, &Etc, 2014


©  Amadeu Baptista