sexta-feira, 26 de setembro de 2014

OS MEUS LIVROS NA &ETC (QUASE UMA ANTOLOGIA)


2006

( ilustração da capa de Ana Biscaia)



UM POEMA DE 'NEGRUME':


estou a dizer caralho repetidamente.
atrás de mim vejo uma embarcação em ruínas,
o sonho assume uma amplidão soturna, as bocas cospem fogo.
depois a cidade cai, com estrondo.

vem uma mancha negra ou azul, como petróleo,
e contamina as minhas mãos. principio
a perscrutar-te os olhos sem te reconhecer.
continuo a dizer caralho, repetidamente.

depois o sonho alonga-se numa queda sem fim.
vai a cabeça à frente do corpo, coberto
por uma toalha vermelha. da boca voam
insectos gigantescos, maiores que a sua sombra.

a treva cobre tudo. chega um vulto e diz que não se pode
regressar por esse caminho, há que seguir em frente.
um caminho de longos silêncios e longas lâminas
intimida os que querem passar.

a mão intratável sobrevoa-me os ombros.
tenho as omoplatas pontuadas por uma claridade verde esmeralda.
estou a chorar, na antiga casa, o velho alpendre.
volto a cabeça e vejo o teu sexo, a gruta escarlate e quente.

a gruta  tem um enorme poder de sedução,
sou ainda uma criança e fico em silêncio a observar.
o meu silêncio pesa mais do que o peso da minha alma.
passam gansos, peixes brancos. digo repetidamente caralho e não me calo.

vem alguém e entorna leite no chão da cozinha,
um homem vocifera e ergue-se com uma corda ao pescoço
e uma faca na mão. volto a repetir: caralho, caralho, caralho.
passa um carro na rua a buzinar estridentemente e acordo, num sobressalto terrível.

depois, tudo é silêncio avassalador. há passos surdos no corredor
contíguo ao meu quarto. oiço um alfinete cair, a mãe a gemer.
a cama range, o pai volta-se nos lençóis, para outro lado,
outra direcção atroz.

a casa está submersa num silêncio sólido, irreparável.
estou muito só e tenho frio, embora esteja um calor abrasador.
ouve-se um cântico ao longe. o som de asas a roçar nas paredes.
digo: caralho, caralho, caralho, num sussurro infinito, até perder o fôlego.

in Negrume,Lisboa, &Etc, 2012



2008

(ilustração da capa de Inês Ramos)

UM POEMA DE 'OS SELOS DA LITUÂNIA'


escrever pode ser, naturalmente, ter três anos,
estar na praia num dia muito quente
e sentir que alguém nos apanha pela cintura
e mergulha nas ondas violentas
de um mar revolto, vendo num relance
a multidão em volta, toucas amarelas,
biquínis coloridos e o homem da bolacha
americana, de boné enfeitado com uma âncora,
a percorrer o areal em toda a extensão
que vai do paredão à casa do banheiro.
vir num soluço à tona de água e voltar
a submergir com um grito preso na garganta
para ver do mar o fundo, aquelas algas
ameaçadoras num bailado aquoso
que as lágrimas ainda mais adensam.
se não for isso, pode ser, exactamente,
ter um profundo conhecimento da palavra
garrotilho, ter estado de cama com sarampo
e a janela para a rua resguardada
por um pano vermelho que vai do chão ao tecto,
sentindo muita sede, sem poder
sequer molhar os lábios. ou, então, ouvir
a tarde toda os gemidos de alguém
a quem diagnosticaram esclerose múltipla, a regredir
na idade e a ir morrendo aos poucos
de drageias brancas. escrever pode ser, exactamente,
ter um medo mortal de ir à escola, e sofrer
os efeitos maiores da crueldade
que os mestres manifestam nas crianças,
as páginas à deriva entre a baba e o ranho,           
as pernas aflitas por todo aquele pânico,
doridos nós dos dedos e o coração
aos saltos. não sendo isso,
escrever pode ser, provavelmente,
um ajuste de contas com o passado,
ou até mesmo a lembrança dessa noite
em que o vento varreu o nosso quarto
e destelhou as casas circundantes, vitimando
o garboso pundonor do gato que cruzou
a estrada e foi atropelado por um balde
amolgado. não sendo isso, pode ser o cavalo
inquieto que no prado, certa vez, se vislumbrou, ou animais
degolados, com as vísceras entrançadas
num novelo no alpendre, perto da roupa
pendurada na corda de secar. ou a noite,
imensa e perdurável, em que alguém
bateu à nossa porta e não entrou,
e nós com a lanterna tentámos ver
sob a chuva que vergasta ainda
as sebes que há em volta do cercado,
o cata-vento em forma de avião, os cardos
do baldio. se não for isso, será, precisamente,
aprisionar o rosto a um lugar
para não ceder, ir com o corpo adiante procurar
o ritmo das paixões, as mais vorazes,
as que podem produzir assassinatos, estontear
as cabeças, irromper de um céu de sombras
verdadeiras, mesmo que não haja céu,
mesmo que não haja sombras
e nas letras resplandeça
pouca coisa.

in Os Selos da Lituânia, Lisboa, &Etc, 2012



2009

( ilustração da capa de António Ferra)

UM FRAGMENTO DE 'ESCALPE':


Há uma seda sensual no teu cabelo
que apetece incandescer.

Os dedos deslizam nessas pequenas cascatas
e apuram-se
a encontrar-te a nuca,
o seu recôndito côncavo.

Molho um dedo com saliva
e, da nuca,
atinjo-te as costas,
sinto as pequenas saliências da tua coluna
como se tocasse
um instrumento antigo,

quase harpa,
quase alaúde,

e dessa música silenciosa vejo que te arrepias,
e que o teu corpo pulsa ternamente,

e freme como o ramo de uma árvore
que a brisa inebriasse.

Depois, procuro-te os seios com a mão esquerda,

e belisco-te os mamilos,
sem suavidade,
sem serenidade.

Tudo é inquietação na procura do corpo,
mesmo quando o corpo a outro corpo
se rende e se conforma.

O corpo sabe como nada se apazigua
no momento da posse
e que, carícia após carícia,
há sempre novos montantes
de enigmas a descobrir,
a despertar.

A minha boca procura a tua boca,
os meus lábios afloram os teus lábios,
com os dentes aprisiono a tua língua 
e mordo,
mordo demoradamente,

enquanto o dedo,
o dedo que está livre a  explorar-te as costas,
desce ao teu cóccix
e desce às tuas nádegas
e não se perde, afeito.

Eis os orifícios valiosos,
as furnas a penetrar:

a mão espalma-se e arranha-te
e são já dois dedos os que te possuem

–  um sonda o teu ânus,
o outro a tua vulva,
no exacto momento em que tu és já
um estremecimento subtil a atravessar-te,

a atravessar-te as coxas,
os joelhos,
os pés nus.

A tua boca desprende-se da minha
e dá início à viagem:

agora és tu quem morde,
és tu quem arrasta os dentes e a língua no meu peito,
és tu quem amotina

– na minha pele
a tua língua espalha um rastro de fogueiras,
de pequenas manchas incendiárias,

e eu deixo-me ir na embriaguez
que os teus cabelos negros,
soltos no meu ventre,
ampliam no meu tórax.

Assim acede a tua boca ao meu sexo,
enquanto tudo arde no teu sexo.

No teu ânus,
na tua vulva,
afundo os meus dois dedos,

palpita a tua língua no meu escroto,
e lambe,
e chupa,
e é o momento da minha língua uivar
sobre o teu peito
e te procurar o sexo.

E há a mansidão e a selvajaria
no modo como afundas
o meu pénis na garganta
e a minha língua separa a tua carne
e te penetra o túnel húmido,
luminoso:

aqui é o teu centro,
esta protuberância onde o infinito se adensa,
esta fonte em que todos os paroxismos se acumulam,
exactamente como, na minha glande,
está o meu centro propulsor,
o dínamo da vida.

Agora, arfas.

in Escalpe, Lisboa, &Etc, 2009





2010

(ilustração da capa de Ana Biscaia)



(...)

A desgraça de um país mede-se na distância que vai das instâncias do poder
à esperança dos seus habitantes, o deserto especializa-se quando a crise
se amplia, chegam os usurpadores e o equilíbrio das emoções descontrola-se,
a ciência columbófila ressente-se por esse condicionamento,
eiva-se de sinecuras e compadrios,
especializa-se em apreciações,
distingue-se entre os méritos e os desméritos
por simonia,
favorecimentos,
invejas comezinhas

E é então que a saudade se expande como palavra portuguesa
e eu volto à infância, enquanto tu, Dempster das Irlandas que não há,
revives e oficias o K3 dessa Guiné repulsiva para que o fascismo te mandou,
como se houvesse uma nova crónica do descobrimento e conquista da Guiné a ampliar
a que o Zurara escreveu, e nada se cria ou se perde, e tudo se transforma,
como a antiga lei nos disse, e de versos se inça o exílio que jamais projectamos
e, sem mais, o acaso da vida, pelo seu ábaco infeliz, nos ordenou –
e sabemos que os poemas sujam tudo,
tal como os pombos, as pombas, os ratos, os pais que nos traíram,
e todos os que traíam as infâncias que, como as nossas,
foram vividas a golpes de marcas nos costados pela sovas iníquas
que nos deram

Falemos de exemplares vivos e pios de aves,
o centro da cidade é uma loja chinesa na ordem geral do mundo,
nós estamos a viver algures entre a rua Formosa e a rua da Paz
e o dia de hoje, claro como há muitos dias não havia, enche-se de sombras,
e eis que acabam de bater as doze e quarenta e cinco e morre, em Lanzarote,
José Saramago, tão pombo como nós na refrega das coisas que nos escapam
entre os dedos como se não fossem mais que jangadas de pedra onde nenhum
ente divino se senta à nossa mesa por um café – falemos
da inexprimível solidão dos poetas, esse luto

Vejo-me como um homem calado, vejo assim os poetas,
vemo-nos como homens calados que não podem estar calados,
ou que estão cegos e não podem estar cegos,
ou que não podem deixar de deambular na cidade,
porque há uma pedra a levantar do chão,
um povo a levantar,
uma infância a levantar

É, foi na infância que o descontrolo se arrostou,
aquele odor a sal e a vinagre palpita ainda no meu cérebro,
ligamo-nos assim à terra, a olhar o interior das mercearias,
dos pomares,
a surpreender a alegria que se faz pela interposição do silêncio
com as palavras vitais, o rego de sangue que se abriu
na via do caramanchão quando ficou determinado o lugar das alucinações
e se abriu a porta para um determinado ponto da cidade,
esse mesmo onde caímos pela primeira vez

O que lá está é nosso e não nos pertence nunca, o olhar
deslumbra-se por esses cavalos, essa estátua, esses pombos,
provera a Deus e seríamos meninos para sempre com essa brisa no rosto,
os barcos estão cheios de carvão, discorrem sobre eles as mulheres
que pelas tábuas passam e carregam à cabeça largos cestos de vime,
e é como se fossem podoas a escandir o ar, como se fossem
a nossa misericórdia irremissível

Depois a tarde alonga-se, vem a noite, e as mulheres repartem-se
pelas inúmeras tabernas das suas circunstâncias,
bebem à nossa memória, e nós permanecemos transidos
nesse desvendamento,
atrás de nós está o Jardim da Cordoaria, está o António Nobre com uma camisola
de pescador e uma Bíblia sob a cabeça, está o Raul Brandão na pedra do lume
como uma árvore sem poda, estão as putas, está a árvore da forca,
está a nossa vontade férrea pelo eterno, está o Hospital de Santo António
onde a minha avó morrerá de uma cirrose,
está Caim, estão os pássaros, a celebrada cadeira do nosso barbeiro comum,
aqueles frascos alinhados nos seus torpores azuis e verdes, e grenás, e roxos,
está a Foz Velha, onde tu, Nuno, como eu, não muito longe de ti,
aprendeste o desusado rumor dos versos,

essa penumbra

(...)


in O Ano da Morte de José Saramago Lisboa, & Etc, 2010





2012

(ilustração da capa de Bárbara Assis Pacheco)




UM POEMA DE 'AÇOUGUE':



DOIS MIL E OITO

(para Baptista-Bastos)

Sou um homem do norte e um homem do norte
continuarei a ser até que a morte me separe.
As minhas circunstâncias são exactamente
as mesmas circunstâncias daqueles de que sou
vizinho, a gente das vielas e das ruas empedradas
a granito, os vociferadores sem mais ânimo
que o da sorte, os rapazes que peroram o descaso
de não haver árvores a que possam
subir para começar uma aventura
que não tenha fim. Na minha memória
o que está mais marcadamente aceso
tem a ver com o mistério irredutível da infância,
e desse tempo guardo choques inimagináveis,
com homens no trabalho a poder de fome e de cansaço
e mulheres em angústia permanente por não haver
o que dar de comer a velhos e crianças.
Cedo me foi dado partir para os braços de alguém
que me atenuou as faltas, com pão branco e um resto de toucinho,
pelo qual chorei, vim a saber mais tarde,
como um garoto sem saber de maior evidência do que ter, enfim,
um pequeno manjar para celebrar.
A vida era dura nesse tempo,
que eu fui vigiando quase por instinto,
fazendo o que fazem os que ampliam a vida pela experiência
e, de erro em erro, consolidam, sem mais,
o que passaram a saber, porque o sofreram.
A vida era dura nesse tempo, sobretudo
para quem me estava próximo
e eu via viver sem mais remédio do que ir transfigurando
a fome irrespondível em estoicismo feroz,
capaz, se necessário, de abalar montanhas.
Em volta, quem estava, pouco ou nenhum exemplo
seria do fascínio, mas era gente que, ainda assim,
andava de cara levantada pelas ruas, a mourejar o sustento,
fosse a lavar escadas ou contratado nas docas,
como vi acontecer aos meus progenitores.
Quem me criou foi disto que adoptou ao receber-me,
sendo que minha mãe me entregou para me livrar da miséria comum
–  por assim ter sido, eu sei que ela
levou para a sepultura uma dor excruciante sob o peito,
e lágrimas perpétuas nos olhos. Fosse o que fosse o mundo,
ali estava a minha predisposição para o saber, menino e moço
levado de casa de meus pais para uma outra enxertia no meu tronco.
A casa para onde fui era um mistério, e foi nesse mistério
que dei por mim a interrogar fosse o que fosse, a luz, a treva, a sombra,
sempre a olhar em volta e a assinalar nas coisas
o rudimento de uma linguagem que me pudesse dizer tal como sou.
É certo que o que somos nunca é o que pensamos ser,
porque nós somos o que somos e o que os outros de nós fazem,
além de que também somos o que vimos, as coisas que ouvimos,
as coisas que esquecemos, os sonhos que em nós se enraízam,
sem outro modo de prevalecermos senão por outros sonhos,
no que dizemos, ao que nos aproximamos, do que nos afastamos,
inexoravelmente, pela intensidade do nosso regozijo
ou o alento que alcançamos reunir.
Eis que, portanto, a infância, a minha infância,
me entregou ao duro acaso que há nas coisas,
a confrontar-me, ainda inocente, com a morte.
E tive que cuidar de uma mulher que, não sendo minha avó,
me chamava neto, e eu amava sem saber porquê.
Ela estava entrevada, e disputávamos pelas tardes coisas sem valia,
a luz de uma planta, uma bolacha que era só farinha,
uma moeda que a sua bolsa negra resguardava das minhas investidas,
porque eu queria rebuçados, figurinhas-de-passar, amêndoas, uma bola,
e ela pouco tinha para me dar,
além da sua eterna progressão em direcção à morte.
Tínhamos uma infinita paciência um para o outro, e ela animava-se
a contar-me histórias, sendo que por essas histórias é que compus
o meu imaginário, o meu encantamento.
Não havia professor de que eu gostasse mais do que gostava dela,
pela sua pele mirrada e a sua perna inchada, gorda, de elefantíase,
que um enfermeiro mortiço tratava com afinco, com nitrato
de prata vertido sobre a chaga que, por tanta escuridão, abria em carne viva.
Falava-me da raposa e do milhafre, falava-me do lobo e do coelho,
da águia e do veado, falava-me das flores –  as brancas, as vermelhas –,
falava-me da praia e da floresta, falava-me das pedras, dos cristais,
dos reis e das princesas, do gelo e da resina, das bruxas e das fadas,
e tudo o que dizia estava vivo, mexia e respirava, porque eu,
ouvindo o que dizia, o via à minha frente, a entender
como há uma tenacidade absoluta que habita na palavra,
e que só pela palavra existe o que nós vemos,
salve-se disso, ou não, a nossa esperança.
Hoje, quando escrevo, pressinto que vem dessa mulher
o uso obstinado de comparações violentas nos poemas,
sendo que entendo que as metáforas se vivem para que haja
um termo irretorquível de eficácia na dimensão da escrita.
Certa noite, esta mulher morreu
e, nessa agonia, eu vi que há,
entre os vários planos em que existimos,
outros planos cruéis que nos ficam cravados na memória
para sempre e que nunca mais nos abandonam.
Morria ela enquanto ia comendo a camisa branca que vestia,
levando-a à boca em catadupas, numa luta incessante com a morte
pela qual eu, pela surpresa de a ver lutar com ela assim, fiquei estuporado.
Anos mais tarde, morreu a minha mãe, e tive novo confronto com a vida,
acareando a morte,
porque a fui velar a uma pequena capela de uma rua íngreme,
onde todos os tráficos existiam, da música argentina ao comércio do sexo,
da emulação pelo vinho ao desacato
das meninas que perto voejavam, a angariar clientes,
enquanto minha mãe ali jazia, morta, finalmente,
mas ainda viva, viva pela vida circundante.
Não traumatizemos as crianças, diz-se, hoje em dia,
mas a verdade é que a consciência do que me vai acontecendo
sempre me pareceu soberba e exaltante,
tanto mais que sempre quis ser poeta,
e para se ser poeta é sempre necessário estar no fio da navalha,
é necessário sentir o fio da navalha sobre a carne,
é necessário saber como se abre a ferida e o sangue corre,
e como a dor alastra sobre tudo, sem que haja esquecimento ou redenção,
mesmo se a redenção vier e a deslembrança
tiver que ser a última recompensa.
Assim cresci, assim empreendi a aprendizagem,
a constatar como na alma os passos se abismam
se a pura incandescência nos confronta com a violência que há em tudo,
sendo que quanto maior for a violência maior é o tirocínio do poeta:
a empreender o abalroamento do real para que resulte frontal a colisão
– derrapa, um dia, num troço da auto-estrada, a fazer
do ligeiro um monte de sucata e, do passageiro, lama,
não mais restando do que somos na energia cósmica, que ao pó regressa.
E assim cresci, e vi que a enxertia resultava
em algo mais sensível do que alguma vez supus,
sem que soubesse por que herói optar, Aquiles ou Heitor,
se pela força indómita e bravia,
se pela razão que toca o coração para que seja cada morte uma vitória,
ainda que os mortos, em multidões inúmeras,
com as suas botas grossas e os seus bibes verdes,
com as suas túnicas púrpura e os seus coadores de prata,
com o seu orvalho negro e o seu odor a incenso,
terrivelmente aguardem que a justiça venha, e dure, e seja feita.
Foi primavera, veio o verão, depois; é já outono, agora.
Tive dois filhos, os quais eu vi nascer com estes olhos que a terra
há-de conter, e vê-los a chegar, a suscitar ternura, fez-me querer
ser um guerreiro a combater o efémero, desarmado, embora,
mas pronto para a luta e a conquista dessa muralha inerme
com que a realidade arma ciladas sem nunca nos dar tréguas.
Fiz, então, da escrita o meu sonho maior,
e das palavras tomei o que podia para encontrar
o ardor e a harmonia, sendo que o desenlace da harmonia,
aqui, onde vivemos,
seja só inconsonância e incerteza,
perversas dúvidas,
amálgama de ferros,
trechos de música densa e obscura,
que sabemos e não sabemos como existe,
mas sentimos na alma e no espírito,
e nos enche o olhar como um bosque cintilante.
Se sou poeta, ou não, interessa pouco.
O que escrevo é só um tempo breve,
em que os mortos e os vivos se procuram
para que haja testemunho e não seja longa a espera
do fim que há em tudo. Ah, que quem venha
a seguir se não esqueça o que é o norte,

e onde fica.

in Açougue, Lisboa, & Etc, 2012



2014

(capa de Alex Gozblau)


UM POEMA DE 'UM POUCO ACIMA DA MISÉRIA':




GUNVOR HOFMO FALA, EM SONHOS, À SUA AMIGA
JUDIA RUTH MAIER

(para Vítor M. S. Rodrigues)

A casa está contida no abismo esquizofrénico
e as loucas uivam, com as bocas cheias de árvores.
Por mim, vou na esteira das sombras, sempre a cantar,
como se cantar fosse uma revelação e o sol
o aconchego possível para a predestinação
da sobrevivência, nos dias em que a solidão nos submerge.
De onde vim havia um trabalho de crepitações,
a neve enrolava-se-me nas mãos, e o meu olhar abrangia
a beleza periférica em que nada mais somos do que uma rasura
na espessa paisagem. E os olhos recebiam essa luz duradoura
que me fascinava e abria o peito, talvez à ilusão, talvez ao frio,
mas, com certeza, à circunstância de fazer do entendimento
das coisas uma visão do sagrado, um rastro de luz interminável.
E assim foi que chegou a ordem dos arianos e eu retrocedi
na minha idade, e a minha boca ardeu pelo teu nome
na densidade da noite –  chegou a ordem dos arianos com os carros
blindados e os camiões negros, como se o mundo
fosse já sem qualquer saída e tu não fosses mais do que o sinal
de que nada há a esperar, embora o canto
predomine sobre tudo. A casa está contida
no abismo esquizofrénico e eu lembro-me de ti,
a tua mão sobre a minha poderia ter sido a redenção,
mas os arianos chegaram a Dalsbergstien 3
e a luz de Oslo nada mais atenuou, a amarga
expectativa de que a angústia acabasse sem demora
gorou a esperança e o alento, e tudo se malogrou sobre o silêncio,
com as suásticas a perder de vista sobre o campo de visão
do nosso descontentamento. Lembro-me como se desvaneceu 
o teu sorriso, lembro-me como vi sobre ti os anjos negros,
lembro-me como a perseguição foi obstinada sobre a rapidez dos teus passos,
e como te arrastaram pelas escadas do lugar onde moravas,
e te apanharam pelo cabelo,
e te forçaram a ajoelhar,
e apoiaram a arma
sobre a tua nuca até que dentro de ti
mais nada houvesse que a jurisdição do terror,
quem sabe se o único promontório que ainda resta.
É tarde, sobre o céu baixo desta noite infinita repiso
os versos da minha ignorância, as loucas uivam
com as bocas cheias de árvores, sob os lençóis contorço
as mãos por tanta aflição, e toda a inexorabilidade
se inscreve nas minhas palavras, e não sei de mim, nem de ti,
nesta extensão de trevas que se transmite à ressonância dos séculos,
de quando mais não éramos do que crianças a inquirir os bosques,
o vento pelos abetos, os animais pacíficos,
a neve imaculada de Biri. A enfermeira passa no corredor,
a ronda completa-se, eu prendo os cabelos nas mãos a pensar em ti,
e digo que o asseio deste lugar me assusta,
tal como me assusta a cegueira circundante,
tal como me assustam os soldados que povoam
este espaço como fantasmas iníquos
que me entregam, a cada hora, notícias da tua deportação,
do teu sacrifício, em pesadelos terríveis.
Não, não somos mais do que uma rasura na espessa paisagem,
mas creio que, ainda assim, somos uma rasura de origem divina
–  dos camiões os detidos foram impelidos para o comboio de mercadorias,
longa foi a viagem pela Alta Silésia onde as unidades SS são ubíquas,
a trepidação dos vagões levou-te ao sacrifício, nem concebo o teu horror
perante os mastins excitados, a ameaça das metralhadoras, as vozes ofensivas, o zunir dos chicotes sobre a carne vulnerável, a longa espera na fila
de aniquilamento, a tua nudez branquíssima a iluminar a câmara de gás,
a cinza do teu corpo a subir aos céus de Auschwitz, conjuntamente
com outros milhares de corpos impacientes por retornar à vida, divinos
como sempre foi o teu corpo, Ruth Maier.
Não, aqui nada é inacessível, o sofrimento não é inacessível, não é
inacessível o rumor da tua voz no meu ouvido, não é inacessível
o teu riso cristalino na primavera fugaz, no medonho silêncio que está dentro
de mim como uma luz com o teu nome quando lembro o teu destino,
uma rosa solitária como a serenidade expansiva da memória que conservo
de ti, a olhar-me nos olhos, a perscrutar a lâmpada de azeite
que em cima da mesa alguém acendeu para que voltemos
a ver na discrepância dos tempos, e seja limpo o que virmos,
como uma migalha de pão ou uma estrela nítida no firmamento obscuro.
O que seja o extermínio, sempre nos há-de encontrar inocentes,
e eu sempre acrescentarei mais versos aos versos que escrevi,
e zurzirei a noite com o mesmo esforço com que te inscrevo
nas minhas orações, no meu silêncio, no meu desamparo,
enquanto estou contigo à roda de uma fogueira, a subentender
os pássaros que gravitam sobre as nossas cabeças, juntas uma vez mais
no desassossego que nos coube entretecer, sempre a cantar,
mesmo que cantar não valha mais a pena ou seja o nosso último reduto.
Ah, as loucas uivam com as bocas cheias de árvores, os meus versos
expandem-se pelos céus da Noruega, tudo está por dizer sobre a união
do corpo e da luz, relembro-te e relembro o que alguns humanos
já esqueceram, ou querem que esqueçamos, mas não há perder-se do tesouro
da vida, não há-de deixar de gritar o teu e o meu nome nesta casa inabalável.

in Um Pouco Acima da Miséria, Lisboa, &Etc, 2014


©  Amadeu Baptista

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Arvo Turtiainen



                                                      POEMAS DE ARVO TURTIAINEN




OS LIVROS

Os livros piedosos ensinam-nos:
Homem, faz-te melhor, melhor
Para que pareças mais com Deus.

Quando os nossos membros cresceram
e já podíamos trabalhar,
puseram-nos a ler um livro de pedra, o Livro da Vida.
Pão era a sua primeira palavra
e cada frase terminava em pão.
Aprendemos a ler aquele livro,
aprendemos a lê-lo bem.
Foi-nos revelado que a superioridade começa
quando o pão cresce; que a bondade termina
quando chega a fome,
e que qualquer se pode acercar de Deus onde
não há que lutar pelo pão.

O livro a vida fala claro.
Das suas palavras alimentam-se os que serão sábios de verdade
e nos explicam a unidade do Pão e do espírito.

                Muutos, 1936




50 GRAUS ABAIXO DE ZERO

Nas noites de janeiro
rangem os dentes das estrelas
ao morder
o pão do frio.

Nas noites de janeiro
navega a lua
como um ataúde
rumo ao seu gélido inferno azul.

Os bosques negros
estremecem.
Congelam as cortinas
da aurora boreal.

Nas noites de janeiro
resplandece
o punhal do frio
na mão da morte.

                Palasin kottin, 1944





AGRADAM-ME O PÃO E A CARNE

Agradam-me o pão e a carne,
agrada-me beber vinho e cantar,
agradam-me as crianças e as mulheres bonitas,
agradam-me os velhos e as velhas
bondosos que falam sós.

Agradam-me os juncos e as árvores,
o brilho das águas nas noites de lua,
a sábia conversação dos amigos.

Na realidade eu nasci para o amor,
por isso raramente me vedes
tal como sou.

                Minä rakastan, 1955





TRABALHA ENQUANTO VIVAS

Nasces; morrerás.
O que há entre o começo e o fim,
será a tua vida.
E a tua vida serás
tu.
A tua obra será
o que és.
Os que ficarem, dirão
Como foi.

Por isso, não te preocupes:
Bastar-te-á viver
A trabalhar.

                Minä rakastan, 1955





EU, CRIANÇA DA RUA

I
Quando nasci escreveu um poeta
sobre o mundo:
            Tão estrepitosamente como os pinheiros
            caem as antigas convicções.
            Vamos afogar-nos no fel do outono
            ou viver entre as flores do verão?
            Não sei. Eu simplesmente vejo
            como mudou o mundo
            sob lamentos, ruinas e tempestades.
            Aguentá-lo-eis, povos?

Nasci num mundo de guerra

II

Quando tinha dez anos
vi o czar

            passou num automóvel pela rua Esplanadi
            e nós estávamos à esquina do restaurante Capilla
            agitando bandeiras
            que o professor tinha distribuído

Tínhamos que gritar viva viva viva

            mas ninguém gritava
            o czar ia de pé no automóvel descapotável
            era muito pequeno
            e tinha o nariz algo azulado pelo frio


III

Quando tinha catorze anos
            um guarda vermelho ferido na cabeça esteve
            toda a tarde, e noite, até ao meio-dia seguinte
            morrendo entre estertores sob a nossa janela
            na rua Korkeavuorenkatu.
            Não sabia nada deste mundo, nem sequer
            que tinham tomado Helsínquia
            havia já vinte e quatro horas. Quando por fim morreu
            o papá guardou as suas coisas:
            uma carteira com doze marcos, um relógio de bolso
            com uma medalha na corrente com a inscrição:
            III Prémio. Campeonato de Luta, União Operária.

No verão chegou uma mulher
para recolher as suas coisas,
disse:
Paavo teve colhões.

IV

Quando tinha quarenta anos
voltamos a estar em guerra, três guerras tinham-me passado
por cima e tinha lido sobre outras trinta.
Com os que morreram nelas
podiam-se ter formado dez nações,
todas do tamanho da Finlândia.

Teriam trabalhado,
arando, semeando, segando,
construído estradas, cidades, fábricas;
teriam celebrado aniversários,
teriam ido de férias no verão,
muitos teriam lido poesia, alguém
teria escrito sobre tudo isto

V
Quando escrevi isto
Nos cinquenta e oito anos do meu nascimento
Recordei as palavras do poeta:
Vamos afogar-nos no fel do outono
            ou viver entre as flores do verão?
            Não sei. Eu simplesmente vejo
            como mudou o mundo
            sob lamentos, ruinas e tempestades.
            Aguentá-lo-eis, povos?


VI

Que rápido se levantam casas nos bairros novos,
que rápido deixam as crianças o lar e se vão,
que rápido desaparecem os velhos atrás das cortinas
e ficam vazias as janelas.
Que rápido tantos
novos cemitérios


VII

Contemplava o meu umbigo
brotaram dele umas bandeirinhas vermelhas
atirei-as para a rua
para que as pessoas as agitassem alegremente

continuei a contemplar o meu umbigo
brotou uma rosa, uma rosa

Que me entrou pelo ouvido
e me lavou os miolos



VIII

Deixei crescer a barba
é uma barba muito estranha
cor de líquen
falo atrás da minha barba
digo o que  me dá na gana
todos a olham com respeito
dizem
que barba tão sábia


IX

Sente-se numa tarde azul de abril:
as torres estremecem, um tremor corre
dos pináculos até à rocha, até às raízes
da pedra, do cimento, da terra,
sente-se no ar, na respiração ofegante dos homens.
Todos queriam fazer algo impossível:
Porem-se em pé de um salto, erguidos como torres,
entrelaçar-se uns com os outros como as ruas
ou as árvores na penumbra, entregar-se
como a tarde ao falo do farol.
Quem não quereria, perguntai ao vosso coração,
     quem não
                     quereria foder uma vez em abril.

                Minä paljasjalkainen, 1962



Versão minha - © Amadeu Baptista





Arvo Turtiainen (1904-1980). Nasceu em Helsínquia. Estudou na Escola de Estudos Sociais; foi ajudante de dentista, jornalista e tradutor. Pertenceu ao grupo esquerdista Kiila (A cunha). Nos seus primeiros livros reflectiu sobre os conflitos sociais da época e nos seguintes sobre a sua experiência na prisão. Apaixonado pela cidade, incorporou nos seus poemas a linguagem das ruas de Helsínquia e o jargão da capital.



quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Mais um poema de 'Um pouco acima da miséria'





PROVA DE VIDA DE GABRIEL CELAYA, UM POUCO ANTES
DO SEU FALECIMENTO

Está um estouvamento de cães que se riem
ao longo da estrada. Um poeta deve alisar
as rugas que a vida lhe impõe, por isso
paro para pensar e sei que aquele riso
é infecundo, como a asfixia que me levou
à miséria. Paro para pensar e volto atrás

no tempo, ainda que o tempo seja o termo
em que tudo se vence, e reencontro os meus pais
nas estradas de Espanha, e os mortos
que foram desarmados para a extradição
da vida nas montanhas do País Basco, tal como eu
vítimas da fome intemporal que acompanha
os povos, esta gente circundante que não tem
senão lençóis de esparto como última mortalha.

Paro para pensar e procuro a última força
da minha alegria,  e vejo as árvores enegrecidas
do meu país, um desvario de luas  infatigáveis
que sobre as nossas cabeças pulsa como uma tormenta,
uma agonia sanguinária que desde sempre alongou
o silencioso vazio dos caminhos, a treva que estoura
as cabeças dos homens e os reduz a não mais que ânsia
e medo sob a força torrencial do sol e dos campos em volta.

Paro para pensar e pergunto-me o que é a miséria
sem que saiba o que possa responder-me, embora a veja
sempre, e estendo os olhos para o infinito da terra onde nasci,
a sua gesta brutal, e sei que hei-de ter sempre fome
de poesia e de luz neste emparcelamento da dor,
e que as ramificações da infâmia sempre afligirão
as minhas entranhas, a minha luta diária,
a minha mágoa irretorquível sobre este mundo
de palavras sitiadas pela aridez envolvente.

Paro para pensar e vejo-me capitão da república
e o voluntário que em Bilbao foi feito prisioneiro,
corria a guerra civil pelo meu mundo, com as ruínas
de Guernica a elevarem-se do fogo como uma denúncia
 – ah, em verdade  vivemos uns pelos outros, a luta enrijece
a cada dia que passa, ainda que os cães riam e seja
a estrada longa e acidentada, e vasta a miséria
para quem vive de versos, e por eles morra
à fome, ao frio, ao abandono. Sobre mim crescem

estorvos inabaláveis, pela afronta
da míngua obrigaram-me a vender a biblioteca,
é inexprimível o pesar de me ter visto afastado dos meus livros,
 às vezes demoramos o uso das navalhas
e a aprendizagem que delas carecemos,
mas é pela vertigem que vamos, enquanto
não ocorre o degelo e os nossos corações
estiolam por tanta desonra, tanta iníqua tristeza
a fluir infinitamente pelas ruas de Madrid.

É uma pátria que escrevo quando escrevo
o meu optimismo carregado de futuro,
o que tomei entre mãos é ao amor que se deve,
um amor de serenas pegadas e nomes magnificentes,
o amor da mulher que amei sem condições
e que sempre vislumbro no sortilégio das noites,
Amparitxu Gastón, que nunca deixou de incitar
a que viessem a nossa casa os mais preciosos amigos,
Blas de Otero, Pablo Neruda, Dolores Ibarruri,
e todos os que me ensinaram a avaliar
o crepúsculo e a manhã concomitante.

Paro para pensar e sei que o riso dos cães é infecundo,
talvez de pouco mais saiba neste tempo em que
a dignidade de um poeta de Espanha é tocada
pela selva negra da afronta, no fundo dos bolsos
não resta dinheiro para bálsamos e maçãs,
mas possuo uma boa quantidade de mortos
que de cara levantada vão como as estrelas
no firmamento sem fim, a luzir, sempre a luzir

porque é da luz que nos alimentamos
e da ferocidade incontornável de mesmo mortos
permanecermos vivos. Oh, sim, riam-se os cães
na iniquidade suprema, riam-se pela maldade
que sempre revelaram, riam-se pelas execuções
sumárias e arbitrárias, riam-se dos fuzilamentos,
do garrote, das perseguições, das detenções prepotentes,
da miséria, riam-se que o fim da estrada está próximo

e não há-de tardar a que nos libertemos.


(in 'Um pouco acima da miséria, Culluredo, Espiral Maior, 2014)

 ©  Amadeu Baptista



quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Outro poema de 'Um pouco acima da miséria'

MEMÓRIA DE EMILIO SALGARI SOBRE O SENTIDO DA MORTE

(para José Colaço Barreiros)

Está o mundo todo cheio de electricidade e a neurastenia
vem a golpes de vento dizimar-nos. O que se escreve
não é senão um modo de partir, tudo nos chama
para longe, as perturbações, as dúvidas, o soluço
que dentro do meu peito se amplia até ao infinito
e não me deixa a paz suficiente para tomar
das coisas a libertação que um dia há-de chegar,
fatídica e estranha como o soberbo furacão que assolou Génova
em 1899 e arrebatou o meu deslumbramento.
A luz há-de ser sempre escassa, assim como escassa é
a alegria nestes tempos de invulgar desgaste e sacrifício
para quem trabalha, mal se bastando de pão e de minestra
para enganar a fome e ter a ilusão de que procede
de outras dores a vigília prolongada e a tarefa 
de ao universo acrescentar mais universo.

Sento-me à pequena mesa desmontável, bebo um gole
de marsala para dissipar o efémero, e assim percorro
a confusão de papéis onde nunca me debelo
para escrever o homem que quis ser. Com os meus heróis
dou o corpo às balas e estou nos confins de mim mesmo,
estou na Malásia, no Bornéu, em Ceilão, na Cochinchina,
e confronto-me com os mil perigos dos mil horizontes,
e todas as sombras se reúnem e conjuram
para que seja avassaladora a derrota e a derrota
seja a salvação enquanto esgrimo com o destino
e os meus editores me roubam por  me pagarem
não mais que o pouco combinado, e me enterneço
pela pequena labareda que nos olhos de Ida ainda brilha,
sendo que ao nada sempre hei-de voltar por este odor a chuva
no meu leito ou pelos meus filhos, muito em breve, órfãos.

Temos que levar uma pá à frente de nós
e, no final, é essa mesma pá que nos sepulta:
nada mais é a morte do que este trânsito
entre as pedras da terra e os lugares
por onde nos perdemos, sejamos capitães
ou cavaleiros, faça ou não faça parte
a nossa arte da expiação possível.
Sucede que escrevi o quanto me exauriu
e nunca houve dinheiro que abundasse
para tanta copiosidade de romances.
Sucede que a felicidade não existe.
E que, a haver contentamento, só a limpa
probidade me há-de atravessar
desde a nascença até ao obscurecimento,
esconjurado que seja pelos numes.

Descem e sobem as águas, pelos corredores solitários
da tristeza vou com os meus tigres, será insípida a vida
se na mágoa não ranger os dentes, vulgares e irreparáveis
todos somos, mas nas trincheiras de Mompracem
tudo se aguenta, tudo se aguenta nos espaldões de Maracaíbo,
só a falta de liberdade é insuportável, a falta de ar
livre nos pulmões, como vi nas oficinas de Turim,
com os pobres desgraçados a serem triturados prematuramente.
Ah, eu cuspo sangue para manter os meus, esta é a obstinação,
vai comigo Sandokan e o marajá de Lahore,
vão comigo o Corsário Negro e o Corsário Vermelho,
vão comigo centenas de figuras que se dão à aventura
para que se esquadrinhe o resgate e todos nós estejamos
na dimensão do sonho para prevalecer, ainda que mortos,
ainda que abandonados, ainda que celerados na multidão dos cegos.

E há-de ser a vida esta cegueira ímpar, a de irmos cegando
para vermos melhor, a confirmar no corpo a extenuação
e abrindo com ele um trilho para o espírito, este fogo, esta estirpe,
este furor. Oh, sim, talvez o sangue se detenha se abrirmos as veias,
como vi ser feito com pauzinhos de alúmen de rocha,
talvez o sangue de súbito se deslace e logo estanque
para que tudo tenha sentido, a minha escrita vertiginosa,
a minha macaca Peperita, o meu cão Niombo, a tartaruga Lampo,
a galinha Nini, o meu gato Tigrote, os ministros de Yanez,
que não tardou em fazer-se imperador, a minha sagaz amiga Angiolina,
as moscas famélicas desta casa impossível, onde coalham
as estranhezas do mundo e os vaga-lumes transitam
como almas penadas. Oh, sim, talvez o meu suicídio venha a amparar
os meus, e eu do céu os veja a viajar nos meus livros, 
a recobrar da incómoda sensação de estarem vivos.

Foi a noite, surgiu a alvorada, é agora manhã clara.
Chegada está a hora de suprimir-me, já que me sai
ao caminho a primavera e ficou Ida fechada na asfixia
das lúgubres paredes do hospício. Nem sei como
não rebentou comigo o nó que me entupiu a garganta
por vê-la assim,  a um tempo afoita e aflita, comigo
a afogar-me num choro de lágrimas convulsas
e no mesmo mal de sempre: parcas moedas para ressarcir
o internamento que a depressão reclama. Ao sossego
do bosque levo os passos do meu desassossego
e faço o que há a fazer, com golpes eficazes sobre a carne
e o meu último fôlego. Agora sei como está a transparência
posta nestes campos em que desabrocha o jasmim
e a magnólia acende brilhos magníficos.
Agora sei como a estrela procurada me arrebata.

E eis que a morte chega, e com ela sobrevêm os sinais
do que é duradouro e extravasa as jornadas precárias
e as navegações. Cheio de electricidade o mundo há-de
desconjuntar-se mais cedo do que tarde, passe ou não passe
um estorninho sobre a minha campa, ou encontre-se ou não
oiro no Alasca. E esses sinais serão, talvez, uma vingança.
Uma vingança como uma vitória num duelo, ou numa prova
velocipédica. Uma vingança de que sairei ileso, por ultrajes
e penas dirimidos nesse momento exacto. Já sem obséquios,
no caixão de madeira clara, terei o rosto calmo, num corpo
descansado, com a redingote abotoada até ao último botão
e a cruz de Cavaleiro sobre o peito. E sorrirei ao ver os estudantes
a ornamentarem a minha urna com as primeiras flores
que na vizinhança de Corso Casale recolherem, chorando alguns,
e uns poucos devolvendo-me a deferência.

 (in 'Um pouco acima da miséria, Culluredo, Espiral Maior, 2014)

 ©  Amadeu Baptista















terça-feira, 9 de setembro de 2014

Um poema de 'Um pouco acima da miséria'



IRENE PAPAS ENTOA VERSOS DESCONHECIDOS NO EPIDAURO AQUANDO DA INVASÃO ALEMÃ DA GRÉCIA


Venho com figuras de deuses no meu corpo
e estou a cantar. Na mão esquerda trago
uma camisa de linho e, na direita, uma bandeira
azul e a proa de um navio. Invoco os talismãs
propícios e sobre o promontório procuro a luz
de outrora e a que há-de vir. Eu e o meu povo
sabemos que desígnios transparecem

nos golpes que sofremos.


(in 'Um pouco acima da miséria, Culluredo, Espiral Maior, 2014)

 ©  Amadeu Baptista



quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Göran Sonnevi




                                     POEMAS DE GÖRAN SONNEVI 



Fora das janelas, atrás do televisor
mudou a luz. A escuridão
fez-se cinzenta e as árvores destacavam
os negros na clara luz cinzenta
da neve recém caída. De manhã
tudo estava nevado. Saio
para a limpeza após a tempestade.
Ouço no rádio que os Estados Unidos
publicaram um livro branco
sobre a guerra do Vietnam
em que se acusa o Vietnam do Norte
de agressão. À noite na televisão
vimos um documentário feito
na zona do Vietcong, ouvimos
o surdo levantar
dos helicópteros
do solo e o bando
dos metralhados. Há um par de semanas
noutro filme
a CBS entrevistou alguns pilotos
de helicóptero norte-americanos. Um deles
descreveu o seu orgasmo
quando por fim abateu
um Vietcong: os explosivos
atiraram-no pelo ar
para a frente, uns três metros. Seguramente
hoje nevará mais,
disse o meu vizinho, que, vestido de negro,  
vai para o seu trabalho. Ele
embalsama cadáveres e é enfermeiro de noite
num manicómio. O lugar onde vivo – Lund
e arredores – vai-se transformando num livro
cada vez mais branco. Aparece o sol e brilha
com um frio ardente na páginas amplas.
Os mortos são números que descansam, revoluteiam
como cristais no vento da planície. Até agora
calcula-se que tenham morrido mais de dois milhões no Vietnam.
Aqui não morre ninguém
senão por motivos pessoais. A economia
sueca na actualidade não mata
muita gente, em todo o caso
não aqui, na nossa pátria. Ninguém faz
a guerra no nosso país para defender
os seus interesses. Ninguém
nos queima com napalm.
O sol vai subindo até ao seu meio-dia.
Estamos em março de 1965.
Morre cada dia mais gente na suja guerra dos Estados Unidos.
Na foto do presidente Johnson
aquando dos últimos bombardeamentos
ao Vietnam do Norte – ele saía
de um automóvel ou entrava, não sei –
caem os flocos de neve
intensamente sobre as brancas páginas.
Mais mortos, mais justificações,
até que tudo fica coberto de neve
na noite que definitivamente
muda luz lá fora, atrás das janelas.

ingrepp-modeller, 1965




UMA MÃE…

Uma mãe está diante do edifício inacabado
de uma central nuclear
Leva o filho como protecção
contra as raivosas imagens dentro do
seu corpo
Fora o mar é cinzento
a terra cinzenta,
o filho dentro tudo
é cinzento
A mãe cinzenta, em espera
da lenta
invisível dor


                                   ***

Alguns exigem-nos um conhecimento exacto do
Desconhecido. Um conhecimento
que eles mesmos não têm
O que sabemos com segurança
é que eles não sabem
Este é um conhecimento exacto

Sabemos com exactidão que o nosso futuro
nunca poderá ser mais que
uma série de aproximações, uma séria de probabilidades
Mas que as nossas vidas no futuro
sejam completamente exactas, completamente
dependentes de
erros irremediáveis nos
cálculos, erros
irreparáveis na construção biológica
das nossas vidas futuras

Este é uma espécie de conhecimento exacto


                                   ***


Temos poder na nossa mão para tocar
toda a humanidade
à distância
Distância também no tempo
para o futuro, tocar
os não nascidos,
os corpos
ainda não concebidos
E não sabemos
o que sabemos
mas não por isso nos vão
perdoar  Ninguém.


                                               ***


Estamos todos como uma mãe
perante o filho desconhecido, aquele
de que nós
não sabíamos nada
Vemo-lo a morrer por todos
Não pode morrer

As séries de crianças inacabadas
Estarão também como uma mãe
à espera de
uma outra criança desconhecida.

Del omöjliga, 1975





A imagem das cabeças cortadas
sobre o brilhante papel da revista
um trevo de quatro folhas
contrapostas, as cabeças de Rimbaud
descansando, sanguinolentas   É
a imagem do terror, desta
vez de S. salvador
no ano da rebelião aberta

1981 Isto
Encurta a linha  Abreviatura
extrema é esta imagem de
uma cabeça mais curta, uma
razão mais curta, um
coração mais curto  Somos mais

Små klanger en röst, 1985



Isto é loucura   Isto é
dar-se por vencido de antemão, num
desfrute da aniquilação. Deixai-me
olhar isto também cara a cara, parte

do processo   Tão pouco a vergonha pode
ser completa   Destruído, toco
o teu coração   Pulsamos então

numa dupla pulsação, numa mútua
destruição   Pediste-me que visse a tua
pobreza   Pedi que viesses que eu não sabia

nada   Os restos da linguagem destruída
movem-se dentro de mim   Só existe este
movimento, aqui. Até à água. Para a vida

Små klanger en röst, 1985






EU NÃO QUERO

Eu não quero estar
em situação de superioridade em relação
a ninguém

e tão pouco de inferioridade
Porque é o limiar
da superioridade

Dikter utan ordning, 1985






ANO NOVO 1990

A luz do céu abre-se   É o sol
que sai, resplandece nos cristais da árvores
O sol inferior sai debaixo
de dentro do interior, da sua clara treva
É o mesmo sol, nós somos seus filhos
Quando se encontram os sóis nós já não existimos
Olho agora no tempo da nova luz   O que espero
não sei, tão pouco quase sei
o que desejo   Somos feitos de utopias, todavia
ainda não nascidas, no real, resplandecentes na dupla luz
Os conflitos podem começar aqui, sem violência, simplesmente
nada retendo   Tão simples?
Não! Como o pudeste acreditar?   Os conflitos existem no real
Também intrincados, e com violência oculta, também sob
o aberto    Quando se tira o aberto surge o oculto
Também deve desaparecer   Podemos falar uns com os outros
O canto é solitário, excepto na extrema voluntariedade, ou a sua
Aproximação, porque também nós somos seres humanos   Tu
ajudas agora a minha mãe a lavar a cabeça; alegra-me
Esse impulso de ternura   O não criado    A criança
Estamos no aberto; mas só enquanto não
está fechado, por fora ou por dentro   Nós não decidimos
Não há libertação que possa ser controlada; nem sequer a nossa
Dormimos um ao lado do outro, o sonho da primeira noite
Acreditei por instante ter compreendido algo mais
das estruturas da cegueira, em mi, fora de mim   Logo
compreendi que não tinha compreendido   Que não era
suficiente   Como se a cegueira escura
fosse sempre maior   Mas a luz vem então de dois lugares pelo menos
uma e outra vez, no seu movimento circular    Recolhemo-la,
em novas voltas incessantes   Como calculamos não importa
Soma-se em nós, na integral de cada instante   Como
vivemos juntos na realidade, com que cegueiras
com que visão   Com que espelhos que levantamos uns ante os outros
O sol inferior retorce-se em mim   Estou tenso em torno do seu universo
Talvez haja palavras mais pequenas   Olhei os rostos dos mortos,
uns sorriem na morte, e com os olhos abertos. O que antes havia
era pior, aquela utopia   Como se pudéssemos eleger
Mas podemos, todos, também no sol comum   Uma eleição livre?
Não!   Nenhuma eleição é livre, mas apesar disso podemos eleger
Se algo estiver aberto, ainda que por instantes, entre os regimes
Todos estamos informados do que não existe, o instante
anterior ao real   Mas então temos que estar vivos   Estamos na luz solar aberta
Na sua torrente, e também debaixo, em todas as partes. Na árvore

Trädet, 1991


Versão minha - © Amadeu Baptista





Göran Sonnevi, nasceu a 3 de Outubro de 1939 em Lund, onde cursou Filosofia e Letras. Inciou a sua actividade literária com a tradução para sueco de Ezra Pound e estreou-se como poeta em 1961. O seu poema Sobre a guerra do Vietnam marcou o início da explosão da poesia comprometida no seu país. Recebeu os prémios Carl Emil Englund e Bellman.