terça-feira, 23 de setembro de 2014

Arvo Turtiainen



                                                      POEMAS DE ARVO TURTIAINEN




OS LIVROS

Os livros piedosos ensinam-nos:
Homem, faz-te melhor, melhor
Para que pareças mais com Deus.

Quando os nossos membros cresceram
e já podíamos trabalhar,
puseram-nos a ler um livro de pedra, o Livro da Vida.
Pão era a sua primeira palavra
e cada frase terminava em pão.
Aprendemos a ler aquele livro,
aprendemos a lê-lo bem.
Foi-nos revelado que a superioridade começa
quando o pão cresce; que a bondade termina
quando chega a fome,
e que qualquer se pode acercar de Deus onde
não há que lutar pelo pão.

O livro a vida fala claro.
Das suas palavras alimentam-se os que serão sábios de verdade
e nos explicam a unidade do Pão e do espírito.

                Muutos, 1936




50 GRAUS ABAIXO DE ZERO

Nas noites de janeiro
rangem os dentes das estrelas
ao morder
o pão do frio.

Nas noites de janeiro
navega a lua
como um ataúde
rumo ao seu gélido inferno azul.

Os bosques negros
estremecem.
Congelam as cortinas
da aurora boreal.

Nas noites de janeiro
resplandece
o punhal do frio
na mão da morte.

                Palasin kottin, 1944





AGRADAM-ME O PÃO E A CARNE

Agradam-me o pão e a carne,
agrada-me beber vinho e cantar,
agradam-me as crianças e as mulheres bonitas,
agradam-me os velhos e as velhas
bondosos que falam sós.

Agradam-me os juncos e as árvores,
o brilho das águas nas noites de lua,
a sábia conversação dos amigos.

Na realidade eu nasci para o amor,
por isso raramente me vedes
tal como sou.

                Minä rakastan, 1955





TRABALHA ENQUANTO VIVAS

Nasces; morrerás.
O que há entre o começo e o fim,
será a tua vida.
E a tua vida serás
tu.
A tua obra será
o que és.
Os que ficarem, dirão
Como foi.

Por isso, não te preocupes:
Bastar-te-á viver
A trabalhar.

                Minä rakastan, 1955





EU, CRIANÇA DA RUA

I
Quando nasci escreveu um poeta
sobre o mundo:
            Tão estrepitosamente como os pinheiros
            caem as antigas convicções.
            Vamos afogar-nos no fel do outono
            ou viver entre as flores do verão?
            Não sei. Eu simplesmente vejo
            como mudou o mundo
            sob lamentos, ruinas e tempestades.
            Aguentá-lo-eis, povos?

Nasci num mundo de guerra

II

Quando tinha dez anos
vi o czar

            passou num automóvel pela rua Esplanadi
            e nós estávamos à esquina do restaurante Capilla
            agitando bandeiras
            que o professor tinha distribuído

Tínhamos que gritar viva viva viva

            mas ninguém gritava
            o czar ia de pé no automóvel descapotável
            era muito pequeno
            e tinha o nariz algo azulado pelo frio


III

Quando tinha catorze anos
            um guarda vermelho ferido na cabeça esteve
            toda a tarde, e noite, até ao meio-dia seguinte
            morrendo entre estertores sob a nossa janela
            na rua Korkeavuorenkatu.
            Não sabia nada deste mundo, nem sequer
            que tinham tomado Helsínquia
            havia já vinte e quatro horas. Quando por fim morreu
            o papá guardou as suas coisas:
            uma carteira com doze marcos, um relógio de bolso
            com uma medalha na corrente com a inscrição:
            III Prémio. Campeonato de Luta, União Operária.

No verão chegou uma mulher
para recolher as suas coisas,
disse:
Paavo teve colhões.

IV

Quando tinha quarenta anos
voltamos a estar em guerra, três guerras tinham-me passado
por cima e tinha lido sobre outras trinta.
Com os que morreram nelas
podiam-se ter formado dez nações,
todas do tamanho da Finlândia.

Teriam trabalhado,
arando, semeando, segando,
construído estradas, cidades, fábricas;
teriam celebrado aniversários,
teriam ido de férias no verão,
muitos teriam lido poesia, alguém
teria escrito sobre tudo isto

V
Quando escrevi isto
Nos cinquenta e oito anos do meu nascimento
Recordei as palavras do poeta:
Vamos afogar-nos no fel do outono
            ou viver entre as flores do verão?
            Não sei. Eu simplesmente vejo
            como mudou o mundo
            sob lamentos, ruinas e tempestades.
            Aguentá-lo-eis, povos?


VI

Que rápido se levantam casas nos bairros novos,
que rápido deixam as crianças o lar e se vão,
que rápido desaparecem os velhos atrás das cortinas
e ficam vazias as janelas.
Que rápido tantos
novos cemitérios


VII

Contemplava o meu umbigo
brotaram dele umas bandeirinhas vermelhas
atirei-as para a rua
para que as pessoas as agitassem alegremente

continuei a contemplar o meu umbigo
brotou uma rosa, uma rosa

Que me entrou pelo ouvido
e me lavou os miolos



VIII

Deixei crescer a barba
é uma barba muito estranha
cor de líquen
falo atrás da minha barba
digo o que  me dá na gana
todos a olham com respeito
dizem
que barba tão sábia


IX

Sente-se numa tarde azul de abril:
as torres estremecem, um tremor corre
dos pináculos até à rocha, até às raízes
da pedra, do cimento, da terra,
sente-se no ar, na respiração ofegante dos homens.
Todos queriam fazer algo impossível:
Porem-se em pé de um salto, erguidos como torres,
entrelaçar-se uns com os outros como as ruas
ou as árvores na penumbra, entregar-se
como a tarde ao falo do farol.
Quem não quereria, perguntai ao vosso coração,
     quem não
                     quereria foder uma vez em abril.

                Minä paljasjalkainen, 1962



Versão minha - © Amadeu Baptista





Arvo Turtiainen (1904-1980). Nasceu em Helsínquia. Estudou na Escola de Estudos Sociais; foi ajudante de dentista, jornalista e tradutor. Pertenceu ao grupo esquerdista Kiila (A cunha). Nos seus primeiros livros reflectiu sobre os conflitos sociais da época e nos seguintes sobre a sua experiência na prisão. Apaixonado pela cidade, incorporou nos seus poemas a linguagem das ruas de Helsínquia e o jargão da capital.



quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Mais um poema de 'Um pouco acima da miséria'





PROVA DE VIDA DE GABRIEL CELAYA, UM POUCO ANTES
DO SEU FALECIMENTO

Está um estouvamento de cães que se riem
ao longo da estrada. Um poeta deve alisar
as rugas que a vida lhe impõe, por isso
paro para pensar e sei que aquele riso
é infecundo, como a asfixia que me levou
à miséria. Paro para pensar e volto atrás

no tempo, ainda que o tempo seja o termo
em que tudo se vence, e reencontro os meus pais
nas estradas de Espanha, e os mortos
que foram desarmados para a extradição
da vida nas montanhas do País Basco, tal como eu
vítimas da fome intemporal que acompanha
os povos, esta gente circundante que não tem
senão lençóis de esparto como última mortalha.

Paro para pensar e procuro a última força
da minha alegria,  e vejo as árvores enegrecidas
do meu país, um desvario de luas  infatigáveis
que sobre as nossas cabeças pulsa como uma tormenta,
uma agonia sanguinária que desde sempre alongou
o silencioso vazio dos caminhos, a treva que estoura
as cabeças dos homens e os reduz a não mais que ânsia
e medo sob a força torrencial do sol e dos campos em volta.

Paro para pensar e pergunto-me o que é a miséria
sem que saiba o que possa responder-me, embora a veja
sempre, e estendo os olhos para o infinito da terra onde nasci,
a sua gesta brutal, e sei que hei-de ter sempre fome
de poesia e de luz neste emparcelamento da dor,
e que as ramificações da infâmia sempre afligirão
as minhas entranhas, a minha luta diária,
a minha mágoa irretorquível sobre este mundo
de palavras sitiadas pela aridez envolvente.

Paro para pensar e vejo-me capitão da república
e o voluntário que em Bilbao foi feito prisioneiro,
corria a guerra civil pelo meu mundo, com as ruínas
de Guernica a elevarem-se do fogo como uma denúncia
 – ah, em verdade  vivemos uns pelos outros, a luta enrijece
a cada dia que passa, ainda que os cães riam e seja
a estrada longa e acidentada, e vasta a miséria
para quem vive de versos, e por eles morra
à fome, ao frio, ao abandono. Sobre mim crescem

estorvos inabaláveis, pela afronta
da míngua obrigaram-me a vender a biblioteca,
é inexprimível o pesar de me ter visto afastado dos meus livros,
 às vezes demoramos o uso das navalhas
e a aprendizagem que delas carecemos,
mas é pela vertigem que vamos, enquanto
não ocorre o degelo e os nossos corações
estiolam por tanta desonra, tanta iníqua tristeza
a fluir infinitamente pelas ruas de Madrid.

É uma pátria que escrevo quando escrevo
o meu optimismo carregado de futuro,
o que tomei entre mãos é ao amor que se deve,
um amor de serenas pegadas e nomes magnificentes,
o amor da mulher que amei sem condições
e que sempre vislumbro no sortilégio das noites,
Amparitxu Gastón, que nunca deixou de incitar
a que viessem a nossa casa os mais preciosos amigos,
Blas de Otero, Pablo Neruda, Dolores Ibarruri,
e todos os que me ensinaram a avaliar
o crepúsculo e a manhã concomitante.

Paro para pensar e sei que o riso dos cães é infecundo,
talvez de pouco mais saiba neste tempo em que
a dignidade de um poeta de Espanha é tocada
pela selva negra da afronta, no fundo dos bolsos
não resta dinheiro para bálsamos e maçãs,
mas possuo uma boa quantidade de mortos
que de cara levantada vão como as estrelas
no firmamento sem fim, a luzir, sempre a luzir

porque é da luz que nos alimentamos
e da ferocidade incontornável de mesmo mortos
permanecermos vivos. Oh, sim, riam-se os cães
na iniquidade suprema, riam-se pela maldade
que sempre revelaram, riam-se pelas execuções
sumárias e arbitrárias, riam-se dos fuzilamentos,
do garrote, das perseguições, das detenções prepotentes,
da miséria, riam-se que o fim da estrada está próximo

e não há-de tardar a que nos libertemos.


(in 'Um pouco acima da miséria, Culluredo, Espiral Maior, 2014)

 ©  Amadeu Baptista



quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Outro poema de 'Um pouco acima da miséria'

MEMÓRIA DE EMILIO SALGARI SOBRE O SENTIDO DA MORTE

(para José Colaço Barreiros)

Está o mundo todo cheio de electricidade e a neurastenia
vem a golpes de vento dizimar-nos. O que se escreve
não é senão um modo de partir, tudo nos chama
para longe, as perturbações, as dúvidas, o soluço
que dentro do meu peito se amplia até ao infinito
e não me deixa a paz suficiente para tomar
das coisas a libertação que um dia há-de chegar,
fatídica e estranha como o soberbo furacão que assolou Génova
em 1899 e arrebatou o meu deslumbramento.
A luz há-de ser sempre escassa, assim como escassa é
a alegria nestes tempos de invulgar desgaste e sacrifício
para quem trabalha, mal se bastando de pão e de minestra
para enganar a fome e ter a ilusão de que procede
de outras dores a vigília prolongada e a tarefa 
de ao universo acrescentar mais universo.

Sento-me à pequena mesa desmontável, bebo um gole
de marsala para dissipar o efémero, e assim percorro
a confusão de papéis onde nunca me debelo
para escrever o homem que quis ser. Com os meus heróis
dou o corpo às balas e estou nos confins de mim mesmo,
estou na Malásia, no Bornéu, em Ceilão, na Cochinchina,
e confronto-me com os mil perigos dos mil horizontes,
e todas as sombras se reúnem e conjuram
para que seja avassaladora a derrota e a derrota
seja a salvação enquanto esgrimo com o destino
e os meus editores me roubam por  me pagarem
não mais que o pouco combinado, e me enterneço
pela pequena labareda que nos olhos de Ida ainda brilha,
sendo que ao nada sempre hei-de voltar por este odor a chuva
no meu leito ou pelos meus filhos, muito em breve, órfãos.

Temos que levar uma pá à frente de nós
e, no final, é essa mesma pá que nos sepulta:
nada mais é a morte do que este trânsito
entre as pedras da terra e os lugares
por onde nos perdemos, sejamos capitães
ou cavaleiros, faça ou não faça parte
a nossa arte da expiação possível.
Sucede que escrevi o quanto me exauriu
e nunca houve dinheiro que abundasse
para tanta copiosidade de romances.
Sucede que a felicidade não existe.
E que, a haver contentamento, só a limpa
probidade me há-de atravessar
desde a nascença até ao obscurecimento,
esconjurado que seja pelos numes.

Descem e sobem as águas, pelos corredores solitários
da tristeza vou com os meus tigres, será insípida a vida
se na mágoa não ranger os dentes, vulgares e irreparáveis
todos somos, mas nas trincheiras de Mompracem
tudo se aguenta, tudo se aguenta nos espaldões de Maracaíbo,
só a falta de liberdade é insuportável, a falta de ar
livre nos pulmões, como vi nas oficinas de Turim,
com os pobres desgraçados a serem triturados prematuramente.
Ah, eu cuspo sangue para manter os meus, esta é a obstinação,
vai comigo Sandokan e o marajá de Lahore,
vão comigo o Corsário Negro e o Corsário Vermelho,
vão comigo centenas de figuras que se dão à aventura
para que se esquadrinhe o resgate e todos nós estejamos
na dimensão do sonho para prevalecer, ainda que mortos,
ainda que abandonados, ainda que celerados na multidão dos cegos.

E há-de ser a vida esta cegueira ímpar, a de irmos cegando
para vermos melhor, a confirmar no corpo a extenuação
e abrindo com ele um trilho para o espírito, este fogo, esta estirpe,
este furor. Oh, sim, talvez o sangue se detenha se abrirmos as veias,
como vi ser feito com pauzinhos de alúmen de rocha,
talvez o sangue de súbito se deslace e logo estanque
para que tudo tenha sentido, a minha escrita vertiginosa,
a minha macaca Peperita, o meu cão Niombo, a tartaruga Lampo,
a galinha Nini, o meu gato Tigrote, os ministros de Yanez,
que não tardou em fazer-se imperador, a minha sagaz amiga Angiolina,
as moscas famélicas desta casa impossível, onde coalham
as estranhezas do mundo e os vaga-lumes transitam
como almas penadas. Oh, sim, talvez o meu suicídio venha a amparar
os meus, e eu do céu os veja a viajar nos meus livros, 
a recobrar da incómoda sensação de estarem vivos.

Foi a noite, surgiu a alvorada, é agora manhã clara.
Chegada está a hora de suprimir-me, já que me sai
ao caminho a primavera e ficou Ida fechada na asfixia
das lúgubres paredes do hospício. Nem sei como
não rebentou comigo o nó que me entupiu a garganta
por vê-la assim,  a um tempo afoita e aflita, comigo
a afogar-me num choro de lágrimas convulsas
e no mesmo mal de sempre: parcas moedas para ressarcir
o internamento que a depressão reclama. Ao sossego
do bosque levo os passos do meu desassossego
e faço o que há a fazer, com golpes eficazes sobre a carne
e o meu último fôlego. Agora sei como está a transparência
posta nestes campos em que desabrocha o jasmim
e a magnólia acende brilhos magníficos.
Agora sei como a estrela procurada me arrebata.

E eis que a morte chega, e com ela sobrevêm os sinais
do que é duradouro e extravasa as jornadas precárias
e as navegações. Cheio de electricidade o mundo há-de
desconjuntar-se mais cedo do que tarde, passe ou não passe
um estorninho sobre a minha campa, ou encontre-se ou não
oiro no Alasca. E esses sinais serão, talvez, uma vingança.
Uma vingança como uma vitória num duelo, ou numa prova
velocipédica. Uma vingança de que sairei ileso, por ultrajes
e penas dirimidos nesse momento exacto. Já sem obséquios,
no caixão de madeira clara, terei o rosto calmo, num corpo
descansado, com a redingote abotoada até ao último botão
e a cruz de Cavaleiro sobre o peito. E sorrirei ao ver os estudantes
a ornamentarem a minha urna com as primeiras flores
que na vizinhança de Corso Casale recolherem, chorando alguns,
e uns poucos devolvendo-me a deferência.

 (in 'Um pouco acima da miséria, Culluredo, Espiral Maior, 2014)

 ©  Amadeu Baptista















terça-feira, 9 de setembro de 2014

Um poema de 'Um pouco acima da miséria'



IRENE PAPAS ENTOA VERSOS DESCONHECIDOS NO EPIDAURO AQUANDO DA INVASÃO ALEMÃ DA GRÉCIA


Venho com figuras de deuses no meu corpo
e estou a cantar. Na mão esquerda trago
uma camisa de linho e, na direita, uma bandeira
azul e a proa de um navio. Invoco os talismãs
propícios e sobre o promontório procuro a luz
de outrora e a que há-de vir. Eu e o meu povo
sabemos que desígnios transparecem

nos golpes que sofremos.


(in 'Um pouco acima da miséria, Culluredo, Espiral Maior, 2014)

 ©  Amadeu Baptista



quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Göran Sonnevi




                                     POEMAS DE GÖRAN SONNEVI 



Fora das janelas, atrás do televisor
mudou a luz. A escuridão
fez-se cinzenta e as árvores destacavam
os negros na clara luz cinzenta
da neve recém caída. De manhã
tudo estava nevado. Saio
para a limpeza após a tempestade.
Ouço no rádio que os Estados Unidos
publicaram um livro branco
sobre a guerra do Vietnam
em que se acusa o Vietnam do Norte
de agressão. À noite na televisão
vimos um documentário feito
na zona do Vietcong, ouvimos
o surdo levantar
dos helicópteros
do solo e o bando
dos metralhados. Há um par de semanas
noutro filme
a CBS entrevistou alguns pilotos
de helicóptero norte-americanos. Um deles
descreveu o seu orgasmo
quando por fim abateu
um Vietcong: os explosivos
atiraram-no pelo ar
para a frente, uns três metros. Seguramente
hoje nevará mais,
disse o meu vizinho, que, vestido de negro,  
vai para o seu trabalho. Ele
embalsama cadáveres e é enfermeiro de noite
num manicómio. O lugar onde vivo – Lund
e arredores – vai-se transformando num livro
cada vez mais branco. Aparece o sol e brilha
com um frio ardente na páginas amplas.
Os mortos são números que descansam, revoluteiam
como cristais no vento da planície. Até agora
calcula-se que tenham morrido mais de dois milhões no Vietnam.
Aqui não morre ninguém
senão por motivos pessoais. A economia
sueca na actualidade não mata
muita gente, em todo o caso
não aqui, na nossa pátria. Ninguém faz
a guerra no nosso país para defender
os seus interesses. Ninguém
nos queima com napalm.
O sol vai subindo até ao seu meio-dia.
Estamos em março de 1965.
Morre cada dia mais gente na suja guerra dos Estados Unidos.
Na foto do presidente Johnson
aquando dos últimos bombardeamentos
ao Vietnam do Norte – ele saía
de um automóvel ou entrava, não sei –
caem os flocos de neve
intensamente sobre as brancas páginas.
Mais mortos, mais justificações,
até que tudo fica coberto de neve
na noite que definitivamente
muda luz lá fora, atrás das janelas.

ingrepp-modeller, 1965




UMA MÃE…

Uma mãe está diante do edifício inacabado
de uma central nuclear
Leva o filho como protecção
contra as raivosas imagens dentro do
seu corpo
Fora o mar é cinzento
a terra cinzenta,
o filho dentro tudo
é cinzento
A mãe cinzenta, em espera
da lenta
invisível dor


                                   ***

Alguns exigem-nos um conhecimento exacto do
Desconhecido. Um conhecimento
que eles mesmos não têm
O que sabemos com segurança
é que eles não sabem
Este é um conhecimento exacto

Sabemos com exactidão que o nosso futuro
nunca poderá ser mais que
uma série de aproximações, uma séria de probabilidades
Mas que as nossas vidas no futuro
sejam completamente exactas, completamente
dependentes de
erros irremediáveis nos
cálculos, erros
irreparáveis na construção biológica
das nossas vidas futuras

Este é uma espécie de conhecimento exacto


                                   ***


Temos poder na nossa mão para tocar
toda a humanidade
à distância
Distância também no tempo
para o futuro, tocar
os não nascidos,
os corpos
ainda não concebidos
E não sabemos
o que sabemos
mas não por isso nos vão
perdoar  Ninguém.


                                               ***


Estamos todos como uma mãe
perante o filho desconhecido, aquele
de que nós
não sabíamos nada
Vemo-lo a morrer por todos
Não pode morrer

As séries de crianças inacabadas
Estarão também como uma mãe
à espera de
uma outra criança desconhecida.

Del omöjliga, 1975





A imagem das cabeças cortadas
sobre o brilhante papel da revista
um trevo de quatro folhas
contrapostas, as cabeças de Rimbaud
descansando, sanguinolentas   É
a imagem do terror, desta
vez de S. salvador
no ano da rebelião aberta

1981 Isto
Encurta a linha  Abreviatura
extrema é esta imagem de
uma cabeça mais curta, uma
razão mais curta, um
coração mais curto  Somos mais

Små klanger en röst, 1985



Isto é loucura   Isto é
dar-se por vencido de antemão, num
desfrute da aniquilação. Deixai-me
olhar isto também cara a cara, parte

do processo   Tão pouco a vergonha pode
ser completa   Destruído, toco
o teu coração   Pulsamos então

numa dupla pulsação, numa mútua
destruição   Pediste-me que visse a tua
pobreza   Pedi que viesses que eu não sabia

nada   Os restos da linguagem destruída
movem-se dentro de mim   Só existe este
movimento, aqui. Até à água. Para a vida

Små klanger en röst, 1985






EU NÃO QUERO

Eu não quero estar
em situação de superioridade em relação
a ninguém

e tão pouco de inferioridade
Porque é o limiar
da superioridade

Dikter utan ordning, 1985






ANO NOVO 1990

A luz do céu abre-se   É o sol
que sai, resplandece nos cristais da árvores
O sol inferior sai debaixo
de dentro do interior, da sua clara treva
É o mesmo sol, nós somos seus filhos
Quando se encontram os sóis nós já não existimos
Olho agora no tempo da nova luz   O que espero
não sei, tão pouco quase sei
o que desejo   Somos feitos de utopias, todavia
ainda não nascidas, no real, resplandecentes na dupla luz
Os conflitos podem começar aqui, sem violência, simplesmente
nada retendo   Tão simples?
Não! Como o pudeste acreditar?   Os conflitos existem no real
Também intrincados, e com violência oculta, também sob
o aberto    Quando se tira o aberto surge o oculto
Também deve desaparecer   Podemos falar uns com os outros
O canto é solitário, excepto na extrema voluntariedade, ou a sua
Aproximação, porque também nós somos seres humanos   Tu
ajudas agora a minha mãe a lavar a cabeça; alegra-me
Esse impulso de ternura   O não criado    A criança
Estamos no aberto; mas só enquanto não
está fechado, por fora ou por dentro   Nós não decidimos
Não há libertação que possa ser controlada; nem sequer a nossa
Dormimos um ao lado do outro, o sonho da primeira noite
Acreditei por instante ter compreendido algo mais
das estruturas da cegueira, em mi, fora de mim   Logo
compreendi que não tinha compreendido   Que não era
suficiente   Como se a cegueira escura
fosse sempre maior   Mas a luz vem então de dois lugares pelo menos
uma e outra vez, no seu movimento circular    Recolhemo-la,
em novas voltas incessantes   Como calculamos não importa
Soma-se em nós, na integral de cada instante   Como
vivemos juntos na realidade, com que cegueiras
com que visão   Com que espelhos que levantamos uns ante os outros
O sol inferior retorce-se em mim   Estou tenso em torno do seu universo
Talvez haja palavras mais pequenas   Olhei os rostos dos mortos,
uns sorriem na morte, e com os olhos abertos. O que antes havia
era pior, aquela utopia   Como se pudéssemos eleger
Mas podemos, todos, também no sol comum   Uma eleição livre?
Não!   Nenhuma eleição é livre, mas apesar disso podemos eleger
Se algo estiver aberto, ainda que por instantes, entre os regimes
Todos estamos informados do que não existe, o instante
anterior ao real   Mas então temos que estar vivos   Estamos na luz solar aberta
Na sua torrente, e também debaixo, em todas as partes. Na árvore

Trädet, 1991


Versão minha - © Amadeu Baptista





Göran Sonnevi, nasceu a 3 de Outubro de 1939 em Lund, onde cursou Filosofia e Letras. Inciou a sua actividade literária com a tradução para sueco de Ezra Pound e estreou-se como poeta em 1961. O seu poema Sobre a guerra do Vietnam marcou o início da explosão da poesia comprometida no seu país. Recebeu os prémios Carl Emil Englund e Bellman.




quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Sistina



Está em distribuição o meu novo livro 'Sistina', acabado de publicar pela 'Edita-me'. Aqui deixo a capa do livro e um poema do mesmo:






PINTURICCHIO: MOISÉS A CAMINHO DO EGIPTO
E A CIRCUNCISÃO DE SEUS FILHOS

Podemos escrever na terra, meus filhos, mas não conseguiremos
ler o que fica escrito, seja pelo ímpeto do vento que tudo desconcerta,
seja pela ínvia escuridão que sobre as nossas cabeças paira e ameaça,
como se não fôssemos nós também escuridão
e à nossa treva não correspondesse outro poder que não sabemos
distinguir e não sabemos de onde vem.

Por isso, convém que armemos o corpo de jurisdições ocultas,
de incisões na carne,
de voltas no prepúcio,
para que esteja em nós a voz dos antepassados
e o nosso rogo vá pelas várzeas e vá pelo deserto
dizer como não temos
como entender a nossa linguagem
e que ignoramos o que seja
a sarça ardente e o seu triunfo.

Ajoelhemos, meus filhos, mas não nos prostremos
nesta cúpula de fogo,
neste incêndio que reclama a nossa boca,
neste incenso combusto por uma ordem só de expectativas,
a anunciar-nos como,
e quando,
e onde
se produzirá o milagre,
sem que a ele possamos aceder,
sem que lhe chamemos nosso,
sem que ao nosso sangue aceda a clareza
que há nas promessas
e no céu se alicerçam.

Mas, sim, cumpramos os rituais que nos defendem,
sangremos a glande,
extirpemos a pele que nos molesta,
façamos o que a outros vimos nós fazer,
para que seja maior o nosso arco
e mais potentes
as nossas vacilações e decisões.

Na terra prometida está o leite e o mel
com que sonhamos,
mas há-de ser por nós e o nosso vezo
que ascenderemos ao divino
e letra a letra de nós mesmos diremos
de onde vimos e para onde vamos,
soem ou não soem as trombetas,
possamos nós, ou não,
vencer o que mitiga a nossa humanidade
e nos faz párias
e nos obriga, ainda, a que deambulemos sob o irrestrito solo
das inquietações,
a caminho do Egipto,
ou dele regressando.

Agora, neste sítio, onde há explosões de silêncio
e clarões inexplicáveis no horizonte,
agora que escrevemos na terra mas não conseguimos
ler o que fica escrito,
de nós só restará a nossa força,
solene ou não,
a nossa força de homens destinados a seguir em frente
para que não haja mais deserto nos nossos passos
e os nossos sonhos sejam quem nós somos
neste castigo de não sabermos nunca
o que nos domina, e expurga, e ofende.

Deus já fez de nós praga bastante,
obrigando-nos à viagem, ao exílio e à desgraça,
à desventura de, em terra bárbara, não sermos mais que bárbaros
que ao céu invocam alguma paz,
algum plano que nos faça livres,
sem dano nem vinganças,
sem terror.

Por isso, é assim que somos
e o nosso rosto sangra,
e estão os olhos cegos dessa luz que nos atinge,
e nos diz o silêncio que redime.

Por essa luz é que aqui viemos
e se há-de abrir o mar para que passemos,
e se aproximará de nós a morte a reclamar-nos,
e não aguentaremos o degredo,
e às tribos será imposta a peregrinação,
e estamos sempre como que perdidos entre a exaltação
e o bezerro de ouro,
entre o louvor e a comiseração,
o medo e a agitação de um êxodo que nunca mais acaba,
ou só acabará se nós morrermos.

Mas, sim, cumpramos os rituais
que nos defendem,
que somos nós, assim, o sacrifício
e o que lemos não o conseguiremos ler,
se na terra fica.  

terça-feira, 8 de julho de 2014

Férias

Este blog vai entrar em férias. Espera-se que todos também vão de férias e que se divirtam. Até breve.