quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Göran Sonnevi




                                     POEMAS DE GÖRAN SONNEVI 



Fora das janelas, atrás do televisor
mudou a luz. A escuridão
fez-se cinzenta e as árvores destacavam
os negros na clara luz cinzenta
da neve recém caída. De manhã
tudo estava nevado. Saio
para a limpeza após a tempestade.
Ouço no rádio que os Estados Unidos
publicaram um livro branco
sobre a guerra do Vietnam
em que se acusa o Vietnam do Norte
de agressão. À noite na televisão
vimos um documentário feito
na zona do Vietcong, ouvimos
o surdo levantar
dos helicópteros
do solo e o bando
dos metralhados. Há um par de semanas
noutro filme
a CBS entrevistou alguns pilotos
de helicóptero norte-americanos. Um deles
descreveu o seu orgasmo
quando por fim abateu
um Vietcong: os explosivos
atiraram-no pelo ar
para a frente, uns três metros. Seguramente
hoje nevará mais,
disse o meu vizinho, que, vestido de negro,  
vai para o seu trabalho. Ele
embalsama cadáveres e é enfermeiro de noite
num manicómio. O lugar onde vivo – Lund
e arredores – vai-se transformando num livro
cada vez mais branco. Aparece o sol e brilha
com um frio ardente na páginas amplas.
Os mortos são números que descansam, revoluteiam
como cristais no vento da planície. Até agora
calcula-se que tenham morrido mais de dois milhões no Vietnam.
Aqui não morre ninguém
senão por motivos pessoais. A economia
sueca na actualidade não mata
muita gente, em todo o caso
não aqui, na nossa pátria. Ninguém faz
a guerra no nosso país para defender
os seus interesses. Ninguém
nos queima com napalm.
O sol vai subindo até ao seu meio-dia.
Estamos em março de 1965.
Morre cada dia mais gente na suja guerra dos Estados Unidos.
Na foto do presidente Johnson
aquando dos últimos bombardeamentos
ao Vietnam do Norte – ele saía
de um automóvel ou entrava, não sei –
caem os flocos de neve
intensamente sobre as brancas páginas.
Mais mortos, mais justificações,
até que tudo fica coberto de neve
na noite que definitivamente
muda luz lá fora, atrás das janelas.

ingrepp-modeller, 1965




UMA MÃE…

Uma mãe está diante do edifício inacabado
de uma central nuclear
Leva o filho como protecção
contra as raivosas imagens dentro do
seu corpo
Fora o mar é cinzento
a terra cinzenta,
o filho dentro tudo
é cinzento
A mãe cinzenta, em espera
da lenta
invisível dor


                                   ***

Alguns exigem-nos um conhecimento exacto do
Desconhecido. Um conhecimento
que eles mesmos não têm
O que sabemos com segurança
é que eles não sabem
Este é um conhecimento exacto

Sabemos com exactidão que o nosso futuro
nunca poderá ser mais que
uma série de aproximações, uma séria de probabilidades
Mas que as nossas vidas no futuro
sejam completamente exactas, completamente
dependentes de
erros irremediáveis nos
cálculos, erros
irreparáveis na construção biológica
das nossas vidas futuras

Este é uma espécie de conhecimento exacto


                                   ***


Temos poder na nossa mão para tocar
toda a humanidade
à distância
Distância também no tempo
para o futuro, tocar
os não nascidos,
os corpos
ainda não concebidos
E não sabemos
o que sabemos
mas não por isso nos vão
perdoar  Ninguém.


                                               ***


Estamos todos como uma mãe
perante o filho desconhecido, aquele
de que nós
não sabíamos nada
Vemo-lo a morrer por todos
Não pode morrer

As séries de crianças inacabadas
Estarão também como uma mãe
à espera de
uma outra criança desconhecida.

Del omöjliga, 1975





A imagem das cabeças cortadas
sobre o brilhante papel da revista
um trevo de quatro folhas
contrapostas, as cabeças de Rimbaud
descansando, sanguinolentas   É
a imagem do terror, desta
vez de S. salvador
no ano da rebelião aberta

1981 Isto
Encurta a linha  Abreviatura
extrema é esta imagem de
uma cabeça mais curta, uma
razão mais curta, um
coração mais curto  Somos mais

Små klanger en röst, 1985



Isto é loucura   Isto é
dar-se por vencido de antemão, num
desfrute da aniquilação. Deixai-me
olhar isto também cara a cara, parte

do processo   Tão pouco a vergonha pode
ser completa   Destruído, toco
o teu coração   Pulsamos então

numa dupla pulsação, numa mútua
destruição   Pediste-me que visse a tua
pobreza   Pedi que viesses que eu não sabia

nada   Os restos da linguagem destruída
movem-se dentro de mim   Só existe este
movimento, aqui. Até à água. Para a vida

Små klanger en röst, 1985






EU NÃO QUERO

Eu não quero estar
em situação de superioridade em relação
a ninguém

e tão pouco de inferioridade
Porque é o limiar
da superioridade

Dikter utan ordning, 1985






ANO NOVO 1990

A luz do céu abre-se   É o sol
que sai, resplandece nos cristais da árvores
O sol inferior sai debaixo
de dentro do interior, da sua clara treva
É o mesmo sol, nós somos seus filhos
Quando se encontram os sóis nós já não existimos
Olho agora no tempo da nova luz   O que espero
não sei, tão pouco quase sei
o que desejo   Somos feitos de utopias, todavia
ainda não nascidas, no real, resplandecentes na dupla luz
Os conflitos podem começar aqui, sem violência, simplesmente
nada retendo   Tão simples?
Não! Como o pudeste acreditar?   Os conflitos existem no real
Também intrincados, e com violência oculta, também sob
o aberto    Quando se tira o aberto surge o oculto
Também deve desaparecer   Podemos falar uns com os outros
O canto é solitário, excepto na extrema voluntariedade, ou a sua
Aproximação, porque também nós somos seres humanos   Tu
ajudas agora a minha mãe a lavar a cabeça; alegra-me
Esse impulso de ternura   O não criado    A criança
Estamos no aberto; mas só enquanto não
está fechado, por fora ou por dentro   Nós não decidimos
Não há libertação que possa ser controlada; nem sequer a nossa
Dormimos um ao lado do outro, o sonho da primeira noite
Acreditei por instante ter compreendido algo mais
das estruturas da cegueira, em mi, fora de mim   Logo
compreendi que não tinha compreendido   Que não era
suficiente   Como se a cegueira escura
fosse sempre maior   Mas a luz vem então de dois lugares pelo menos
uma e outra vez, no seu movimento circular    Recolhemo-la,
em novas voltas incessantes   Como calculamos não importa
Soma-se em nós, na integral de cada instante   Como
vivemos juntos na realidade, com que cegueiras
com que visão   Com que espelhos que levantamos uns ante os outros
O sol inferior retorce-se em mim   Estou tenso em torno do seu universo
Talvez haja palavras mais pequenas   Olhei os rostos dos mortos,
uns sorriem na morte, e com os olhos abertos. O que antes havia
era pior, aquela utopia   Como se pudéssemos eleger
Mas podemos, todos, também no sol comum   Uma eleição livre?
Não!   Nenhuma eleição é livre, mas apesar disso podemos eleger
Se algo estiver aberto, ainda que por instantes, entre os regimes
Todos estamos informados do que não existe, o instante
anterior ao real   Mas então temos que estar vivos   Estamos na luz solar aberta
Na sua torrente, e também debaixo, em todas as partes. Na árvore

Trädet, 1991


Versão minha - © Amadeu Baptista





Göran Sonnevi, nasceu a 3 de Outubro de 1939 em Lund, onde cursou Filosofia e Letras. Inciou a sua actividade literária com a tradução para sueco de Ezra Pound e estreou-se como poeta em 1961. O seu poema Sobre a guerra do Vietnam marcou o início da explosão da poesia comprometida no seu país. Recebeu os prémios Carl Emil Englund e Bellman.




quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Sistina



Está em distribuição o meu novo livro 'Sistina', acabado de publicar pela 'Edita-me'. Aqui deixo a capa do livro e um poema do mesmo:






PINTURICCHIO: MOISÉS A CAMINHO DO EGIPTO
E A CIRCUNCISÃO DE SEUS FILHOS

Podemos escrever na terra, meus filhos, mas não conseguiremos
ler o que fica escrito, seja pelo ímpeto do vento que tudo desconcerta,
seja pela ínvia escuridão que sobre as nossas cabeças paira e ameaça,
como se não fôssemos nós também escuridão
e à nossa treva não correspondesse outro poder que não sabemos
distinguir e não sabemos de onde vem.

Por isso, convém que armemos o corpo de jurisdições ocultas,
de incisões na carne,
de voltas no prepúcio,
para que esteja em nós a voz dos antepassados
e o nosso rogo vá pelas várzeas e vá pelo deserto
dizer como não temos
como entender a nossa linguagem
e que ignoramos o que seja
a sarça ardente e o seu triunfo.

Ajoelhemos, meus filhos, mas não nos prostremos
nesta cúpula de fogo,
neste incêndio que reclama a nossa boca,
neste incenso combusto por uma ordem só de expectativas,
a anunciar-nos como,
e quando,
e onde
se produzirá o milagre,
sem que a ele possamos aceder,
sem que lhe chamemos nosso,
sem que ao nosso sangue aceda a clareza
que há nas promessas
e no céu se alicerçam.

Mas, sim, cumpramos os rituais que nos defendem,
sangremos a glande,
extirpemos a pele que nos molesta,
façamos o que a outros vimos nós fazer,
para que seja maior o nosso arco
e mais potentes
as nossas vacilações e decisões.

Na terra prometida está o leite e o mel
com que sonhamos,
mas há-de ser por nós e o nosso vezo
que ascenderemos ao divino
e letra a letra de nós mesmos diremos
de onde vimos e para onde vamos,
soem ou não soem as trombetas,
possamos nós, ou não,
vencer o que mitiga a nossa humanidade
e nos faz párias
e nos obriga, ainda, a que deambulemos sob o irrestrito solo
das inquietações,
a caminho do Egipto,
ou dele regressando.

Agora, neste sítio, onde há explosões de silêncio
e clarões inexplicáveis no horizonte,
agora que escrevemos na terra mas não conseguimos
ler o que fica escrito,
de nós só restará a nossa força,
solene ou não,
a nossa força de homens destinados a seguir em frente
para que não haja mais deserto nos nossos passos
e os nossos sonhos sejam quem nós somos
neste castigo de não sabermos nunca
o que nos domina, e expurga, e ofende.

Deus já fez de nós praga bastante,
obrigando-nos à viagem, ao exílio e à desgraça,
à desventura de, em terra bárbara, não sermos mais que bárbaros
que ao céu invocam alguma paz,
algum plano que nos faça livres,
sem dano nem vinganças,
sem terror.

Por isso, é assim que somos
e o nosso rosto sangra,
e estão os olhos cegos dessa luz que nos atinge,
e nos diz o silêncio que redime.

Por essa luz é que aqui viemos
e se há-de abrir o mar para que passemos,
e se aproximará de nós a morte a reclamar-nos,
e não aguentaremos o degredo,
e às tribos será imposta a peregrinação,
e estamos sempre como que perdidos entre a exaltação
e o bezerro de ouro,
entre o louvor e a comiseração,
o medo e a agitação de um êxodo que nunca mais acaba,
ou só acabará se nós morrermos.

Mas, sim, cumpramos os rituais
que nos defendem,
que somos nós, assim, o sacrifício
e o que lemos não o conseguiremos ler,
se na terra fica.  

terça-feira, 8 de julho de 2014

Férias

Este blog vai entrar em férias. Espera-se que todos também vão de férias e que se divirtam. Até breve.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Sophia, de novo

transladação dos restos mortais de sophia
de mello breyner andresen



os políticos, e sobre todos os que têm
vendido a pátria ao estrangeiro todos os dias
e roubam ao povo o pouco que o povo já não tem,
quiseram, poeta, violar-te as ossadas, transladar-te,
pôr-te entre mortos  que nada te disseram
enquanto estavas viva, a ti, que só querias o liso, o puro,
a dignidade, a essência. puseram-se nos bicos dos pés
da mediocridade e chegaram com os seus carros negros,
os seus óculos escuros, as suas gravatas pretas, e afrontaram-te,
a ti, a nós, à poesia, a luz maior que ainda nos resta
perante quem é de tais benemerências que fez
com que a fome grasse agora por todo o território. esta soez
manipulação da alma de uma poeta calha-lhes bem, por certo,
que sempre precisaram de foguetório avulso
para que a romaria lhes faça algum sentido
e possam afirmar como protegem os vultos da cultura,
aqueles que, à força de talento, ergueram o país a outro horizonte
e foram vítimas dos poderes instituídos.
a esta corja não basta acobertar-se na desfaçatez
e vir, depois, altear a cabeça como os sáurios
sempre que abocanham, sabendo-se como de vozes
dissonantes se acobardam, gordurosos e maus,
sempre arrimados a lugares do estado e administrações
de empresas, além das prebendas com que uns aos outros
se obsequiam. a falta de vergonha é o seu zelo,
viciados que vão pelas carreiras,
a extorquir aos outros o que desperdiçam
na faustosa vida que mantêm. de vez em quando atacam
com a verrina de porem um artista no panteão, ou em preitos
vazios de conteúdo, à guisa de homenagem, onde querem exibir
uma ordem de grandeza que nunca hão-de ter,
mas de que se julgam iguais ou superiores. chegam rodeados
de polícias à paisana e segurança privada a protegê-los,
cientes de que o melhor, por tanta iniquidade
levada a cabo, será não arriscar a pose em que vegetam.
não têm as mãos limpas, mas têm da limpeza um conceito
que a qualquer dá nojo, hienas a nutrir-se do que os favorece,
abutres sempre prontos ao voo terrorista,
sujos de sangue e crimes contra a nossa humanidade.
metem-nos no coração sempre que falam porque sabem
que quanto maior for a hipocrisia maior será o engodo
para os que querem enganar vezes sem conta.
há dias, foi a vez de quererem conspurcar-te, a ti, poeta,
que sempre lhes disseste de frente o que pensavas
e fingiram que esqueceram o modo vertical como viveste
para, uma vez mais, tratarem das vidinhas.
sempre que podem entregam-se ao asco da empáfia
e dos salamaleques, eivados de ódio contra
os nossos semelhantes, a fazer de conta que respeitam
aqueles que detestam. com o jorge de sena,
não vai para muito anos, usaram de idêntico artifício,
quando fizeram que as ossadas do poeta viessem do brasil
para em maior esquecimento o enterrarem. maldosamente,
repetem a grotesca fantochada, as ossadas do sena
ficaram no calvário e as tuas, poeta, permanecerão
em santa engrácia, com o intuito de oferecer por dádiva
o desprezo que sempre manifestam, tratando-se de quem
amou a pátria com uma ética que a tudo ultrapassou e sobrepôs.
já em 66 do século passado transladaram, depois de terem, durante 
um ano e treze dias, andado com o féretro por parte incerta para as abandonar
logo em seguida, as ossadas do botto  no cemitério do alto de são
joão, para que o silêncio soterrasse tudo e progredisse
a crassa ignorância sobre quem foi este poeta, que versos produziu, 
como viveu. nem se discute com que razão e com que fito isto acontece,
intoxicado por suporíferos vários, televisão, futebol, demagogia,
o povo paga, apaziguam-se as famílias e morde-se
pela calada, mesmo que a mordedura seja estrepitosa
e a massa anónima dos cidadãos fique com a ideia
de que se arrumou a casa e ficaram as dívidas todas pagas.
ele há tanta maneira de apunhalar a pátria, tanta represália
que se pode promover, tantas calamidades
que nos caem em cima, tanto negócio obscuro,
tanta falta de vergonha, que me fico a pensar
no que realmente vale a pena neste exílio forçado
dentro do país, nesta faca que nos cravam pelas costas
e sai no peito depois de ter atravessado o coração, 
por esta fantasmagoria de gente traiçoeira
que nos quer deslustar o inconformado ofício
que pela beleza e o pão empreendemos.
queremos nitidez e ar lavado, a estreita fímbria
de uma praia de rochedos e areia clara, os deuses gregos
que velam por nós, a magia que existe nas palavras
se um outro mundo buscamos com paixão
e o que nos aparece são estas ratazanas com requintes
de pastosa malvadez,  a patentear-nos os cortejos fúnebres
de si mesmos, enquanto nos envenenam e assassinam.
comovo-me, choro, agasto-me por isto ser assim. 
sobre o meu país caiu densa tristeza, abalam-me as notícias
dos que têm que partir para não morrer à míngua, pelos velhos
a quem cortaram as pensões, pelas ajudas que agora não se dão
a desempregados, idosos, doentes, mães sem sustento com filhos
a crescer, deficientes da guerra colonial, homens e mulheres
que, sem mais remédio, acabam sem-abrigo a viver
na rua, antigos miseráveis e recentes que querem trabalhar
mas só lhes toca a humilhação, no vilipêndio que grassa
em toda a parte, asilos, casas, escolas, hospitais,
no comércio e na indústria, nos tribunais que fecham,
no rol de despedidos que não pára de aumentar, nas remotas
aldeias do interior, nas cidades, no campo, na montanha,
no litoral, nas ilhas. pessoas imoladas à hipocrisia
com que esta gente sobe a púlpitos e discorre
sobre o dinheiro, o valor do trabalho, a paz de um regime,
a que têm o despautério de chamar democracia,
em que a pobreza se amplia, como se lhes não coubesse
a culpa do esbulho, enquanto vão compondo o ramalhete
com grosserias destas, em que enchem a boca
sobre poetas e sobre poesia , como se dos seus iníquos
despachos estivessem a falar, ou alguma coisa
de poetas e poesia entendessem. cresce o poema e cresce
a minha indignação, ao fim e ao cabo perco a cada dia
a minha vida para que estas hienas enriqueçam
e cresça o enxovalho sobre quem já nem a esperança pode alimentar,
perdida há muito, no beco sem saída. nós, poetas,
devemo-nos uns aos outros o afecto de sermos próximos
do que é, a um tempo, humano e divino, talvez com pouca
glória, alguns, talvez sem mansuetude, outros,
mas com certeza indignos destes crápulas
que estão no meio de nós como uma ameaça
e que tudo fazem para que a devastação seja eficaz
e o país asfixie e morra. tu tinhas afirmado
que, na morte, não querias exéquias, faustos, apoteoses.
que a tua vontade era voltar a delfos ou cingir a alegria
da praia do teu mar, que eu tão bem conheço. que a poesia
é uma perseguição ao real que se deve empreender
para que as leis da beleza se instituam e o poema
que nos rege entregue a luz, aquele fruto vermelho
que vimos na infância e durante toda a vida está connosco
para que jamais esqueçamos a justa relação entre o homem
e a natureza. calhou que esta canalha nos governasse
neste tempo de agoiro insuportável, em que a tristeza
ofende e as crianças deixaram de nascer.
pego na minha enxada, a minha escrita, e escrevo contra isto.
por este insulto o meu espírito, pedindo-te perdão,
nenhum perdão te pede, mas pede-te indulgência, ainda assim,
porque alguma culpa terei por não ser a nossa pátria
a festa que sonhámos, uma manhã serena, uma tarde mansa,
uma noite que não seja só ruína. prometo que contigo
escreverei na nossa praia a ventura de querer emergir
da podridão que nos sitia e que procurarei a luz
que procuraste no amor, na perfeição, na poesia.



 © poema (inédito) e foto abaixo Amadeu Baptista








sexta-feira, 4 de julho de 2014

Homenagem a Sophia







PRAIA DA GRANJA

Pelo que quer que seja a exaltação habito aqui,
nesta casa de sete janelas,
com uma pequena porta e uma varanda verde.

A praia incendeia-me os olhos,
e chamo, chamo à mulher espiral do mundo.

Toco com um dedo o muro branco e acrescento
ao entendimento ervas amargas, animais solares
e obscuros, um antigo instrumento de trabalho,
o búzio, o barco, o arado,
um ramo de salgueiro, esta pedra incisiva,
uma maçã vermelha.

Guardo no coração uma voz que vai de lugar em lugar
a interrogar as sombras
e no poema murmura o poder das cintilações
sobre a cânfora,
a hortelã,
os figos,
o encantamento,
a cabeça da víbora.

A extensão desta casa é a dimensão desta praia
divina sobre as águas,
tal como é divina a mulher que me acompanha
e a quem chamo espiral do mundo
por ter criado um sortilégio assim,
uma casa grega,
branca,
nítida,
com sete janelas,
uma pequena porta e uma varanda verde

sobre o mar.


in A Sophia, Editorial Caminho, Lisboa, 2007 


 ©poema e foto abaixo Amadeu Baptista








Penso que a Sophia não teria gostado da ideia de lhe colocarem os restos mortais no Panteão Nacional. Abomino a pompa e a circunstância com que tudo foi levado a cabo e quem promoveu,  realizou, assistiu e discursou. Sei que Sophia teria gostado de uma última morada perto do mar - e que os livros fossem lidos, todos os livros, especialmente os de poesia, os dela e os dos poetas portugueses, que são constantemente omitidos por quem os deveria apoiar (não digo ignorados, porque o poder , qualquer poder, não tem qualquer consistência  para ignorar os poetas). Por mim, a Sophia está ali na praia da Granja – onde também já vivi – a recuperar todos instantes em que a beleza essencial não lhe estava próxima, embora a tivesse sempre no coração. Por Ruy Belo, Jorge de Sena e Sophia, orgulho-me por ser um leitor português de poesia, que também tenta acertar alguns poemas. Amadeu Baptista

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Zetho Cunha Gonçalves




Zetho Cunha Gonçalves, poeta convidado



DOIS POEMAS



A OITAVA LUA NOVA

                          À Glaura Cardoso



A flor do imbondeiro
cai
     do coração de um pássaro – esta
é a Noite que desmembra o Tempo,
selando seus astros, removendo
a escuridão na escuridão,
açoitando
o latir dolente dos cães − e à roda,
o silêncio dos leopardos.


A Noite é a única realidade,
desde os ancestrais: quanto mais negra,
mais verdadeira.
                        E eis que chega
a oitava Lua Nova, a Lua
dos ventos e da doença.


As magras águas dos rios
dementam os peixes, que sufocam
pela ausência da sua bússola lunar.


E loucos − loucos
de eternidade,
dançam os pés do vento sobre o mundo.


Por um tremor de céu,
os meus olhos inflamam como relâmpagos
a fulminar
sob as pálpebras. É o fim
da estação do cacimbo: as febres
estuporando os corpos, a Terra
submersa
por um tapete de cinzas
e árvores calcinadas.


Do coração de um pássaro
cai
     a flor do imbondeiro.









(In: Noite Vertical, no prelo)




FALAM, CONVERSAM O MUNDO


                          Para Arnaldo Santos
                          e José Luandino Vieira



Falam,
conversam o mundo.
E do segredo mínimo
das águas – correndo,
ascende o brilho
do ouro submerso.


Estão sentados no fogo antigo
da Terra – escavam,
retiram as palavras
do seu estado larvar,
atam seus cordões umbilicais a ventres
inaugurais e púberes:
− A palavra,
dizem: procura-a
na concha do ouvido.
Que ela cante – expedita e natural.


Estão sentados no fogo antigo
da Terra – a voz é o seu poder
e bordão:
caligrafia aérea e cantante
insculpida no sangue e sua dança
− batendo, fluindo, sustentando
a escultural melodia da Terra:
de geração em geração: o mundo,
nosso – canto,
poema.


E que a palavra seja –
modelando-se por águas noctívagas,
iluminadas,
ao rés do vento: epopeia breve
− que o tempo alonga,
acrescenta,
rememora – a voz.
E estas mãos:
sua inumerável herança.






(In: Noite Vertical, no prelo)




 © dos poemas: Zetho Gonçalves; foto abaixo: Amadeu Baptista





Zetho Cunha Gonçalves nasceu na cidade do Huambo, em Angola, em 1960. Poeta, autor de literatura infanto-juvenil, ficcionista, antologiador, tradutor de poesia e organizador de edições. Publicou, desde 1979, mais de 30 livros, entre os quais, de poesia, A palavra exuberante, 2004; Sortilégios da terra: Canto de narração e exemplo, 2007; Rio sem margem: Poesia da tradição oral, 2011; Terra: Sortilégios, 2013; Rio sem margem: Poesia da tradição oral. Livro II, 2013; Noite vertical, no prelo.
Literatura infanto-juvenil: Debaixo do arco-íris não passa ninguém (poemas), 2006; A caçada real (teatro), 2007; Brincando, brincando, não tem macaco troglodita (poemas), 2011; A vassoura do ar encantado (estória), 2012; Rio sem margem: Poesia da tradição oral africana, 2013; Dima, o passarinho que criou o mundo: Mitos, contos e lendas dos países de língua portuguesa (antologia), 2013; A Galinha-de-Angola que punha os ovos no telhado (poemas), no prelo. De poesia, traduziu O desejo é uma água, de Antonio Carvajal, 1998; Altazor: Canto II, de Vicente Huidobro, 2012; 3 Poemas, de William Carlos Williams, 2012; 22 Poemas, de Joan Brossa, 2012; 15 Poemas, de Rainer Maria Rilke, 2012; Sete poemas, de Friedrich Hölderlin, 2012. Organizou edições, entre outros, de Mário Cesariny, Luís Pignatelli, António José Forte, Natália Correia, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Manuel de Castro e Luís Carlos Patraquim. Como antologiador organizou: 35 Poemas para 35 anos de independência, 2010. Está representado em várias antologias, livros-catálogo e publicações colectivas. Tem traduções da sua obra para alemão, espanhol, hebraico e italiano, e colaboração dispersa por jornais e revistas de Angola, Brasil, Espanha, Moçambique, Itália e Portugal.
Vive actualmente em Lisboa, dedicando-se inteiramente à literatura.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Søren Ulrik Thomsen




Poemas de Søren Ulrik Thomsen


Irmã eu vi-te
vi-te
num espelho
como um barco
chegaste deslizando pelas minhas costas.

Estalou uma incrível tempestade,
também na tua casa rangem as portas nos seus gonzos,
como eu me escuto agora escutaste a ti mesma
e o pertinaz passo do sapo através do aguaceiro.

No teu interior levanta-se a imagem
de um jardim cheio de escuridão e giz,
plantas de sombra, musgo avermelhado,
também tu lindas com o quase nada.

Nye digte, 1987


Passou o tempo dos milagres,
o espaço povoa-se de sombras.
Outubro está aqui
diáfano como uma pedra fria e uma esperança.
Deitar-me-ei junto à irmã
até que as nossas faces ondeiem
como candeeiros numa silenciosa plantação.

Nye digte, 1987



Uma enorme música detém-se –
uma economia febril que fluía
do sonho até ao corpo e voltava uma
e outra vez
desliza.
Há canções que já não se podem cantar,
e canções que ainda não existem;
entre elas sopram notas inquietas
– nós mesmos somos sinais
negros e vibrantes
claves levantadas na pauta de setembro.

Nye digte, 1987



DENTISTA. TUMBA. ALIANÇA

Para Michael Strunge

Quando cheguei era outono, mas quando saí do dentista já era inverno. Paro diante do escaparates das lojas e sorrio abertamente à minha imagem reflectida, e os meus novos dentes de ouro relampejam da rosada escuridão das minhas mandíbulas, pareço um velho nazi de cinema. Nas necrologias assim escreveram que assim tinha que acontecer, mas eu não quero participar na cerimónia de dar algum sentido à tua morte que só pertence à vida. Compro uma rosa e procuro a tua tumba.  «Sinto-te a falta», digo e parece-me que sorris – mas é algo que apenas imagino. Aqui estou com as minhas primeiras brancas e o meu desejo de um anel de noivado. E aí está tu, num lugar entre demasiada terra e demasiado céu. Dentro da mina agitada cabeça.

Nye digte, 1987


Há um barco com as luzes apagadas
um livro aberto
na página do silêncio.
Não há atalho que leve ao mundo
na manhã cedo
enquanto cai a chuva
há um homem,
que sou eu,
na cozinha gelada.
Mas não um caminho
que saia do mundo.

Nye digte, 1987


Quanto mais viajo na zona red-light do meloso sul
(onde o que mais amo são as velas das sombrias catedrais)
mais descubro que até eu mesmo sou Cinzento,
cinzento como a Irlanda e as pesadas cracas
cinzento como essas duas semanas
em que o outono acabou e o inverno ainda não começou –
mas sobretudo cinzento
como o cinzento de Copenhague:
Como o corta-fogos do pátio traseiro
palpitando a 1000 x um desconhecido número de matizes de cinzento
indo e vindo por entre todas as cores e nenhuma
carregando cada uma com a sua incompreensível transformação
sob a luz grande e nervosa da tarde
que cai também sobre mim, sentado aqui no quarto que dá para o pátio
com o meu lápis e a minha dor de cabeça
balançando como um mar:
Copenhague é apenas um lugar/ onde chove
em gotas saltitantes
e eu sou só um homem/ como todos
um universo caótico e brilhante que existe
na sua velocidade
a caminho de outro mundo.

Nye digte, 1987



Porque levamos já sete dias de tempestade
e a luz se foi e não há aquecimento
e todos aqueles cabos
que mantêm o mundo unido numa rede fanática
(que nunca captura outra coisa que o vento que tomba tudo esta
noite)
partiram-se – por isso convidei a uma festa.
Um dos convidados de honra és tu, que me abandonaste
e me devolveste as minhas ânsias –
o outro és tu, cuja estranha casa abandonei
para deitar-me na minha cama saudosa.
Como entrada pede-se aos convidados que levem
o seu poema mais malogrado
sobre o que se construiu o melhor
o inesperado
o que tens na mão um dia qualquer
o que não quer deixar-te em paz
o que nunca poderás esquecer.

Nye digte, 1987



Cada manhã me levanto uma hora antes
para, escrevendo poesia, alcançar uma vida e outra:
será que pode haver uma sintaxe tão exacta
que possa apanhar o sol no espelho de uma folha
e rasgar o seu luminoso mar na ondulação das suas linhas,
uma palavra tão bela que possa despertar até a Bela Adormecida,
se se colocar como uma brasa sobre a sua azulada língua congelada,
uma frase tão clara, que queime um caminho
sobre a fronteira de treva em treva –
um poema que, pesado como sino fundido
na noite das Almas, anuncie que chegou a hora?
Se tu no poderoso manto da chuva
num dos primeiros autocarros
passares sob a minha janela, verás
uma vibrante imagem marcada de
aflição e concentração brutal.

Hjemfalden, 1991


A última hora é a melhor do dia.
Para tudo é demasiado tarde e demasiado cedo.
Bem poderia ser que fosse feliz,
mas também poderia ser o excesso de tabaco,
enjoa-me, e a mim nada me importa:
Porque de qualquer modo a cabeça me doerá pela manhã
já que me ocorre que inclusivamente tu poderás morrer.
O poema em que trabalhei toda a tarde
Não faz mais do que fumegar como uma velha lamparina.
Esvazio o cinzeiro e saio para mijar.
A cada dia acaba tudo.

Hjemfalden, 1991


Versão minha - © Amadeu Baptista





Søren Ulrik Thomsen, nasceu em 1956. O seu primeiro livro de poesia data de 1981. Poeta consciente dos valores do idioma é considerado como um dos mais notáveis da sua geração.