terça-feira, 8 de julho de 2014

Férias

Este blog vai entrar em férias. Espera-se que todos também vão de férias e que se divirtam. Até breve.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Sophia, de novo

transladação dos restos mortais de sophia
de mello breyner andresen



os políticos, e sobre todos os que têm
vendido a pátria ao estrangeiro todos os dias
e roubam ao povo o pouco que o povo já não tem,
quiseram, poeta, violar-te as ossadas, transladar-te,
pôr-te entre mortos  que nada te disseram
enquanto estavas viva, a ti, que só querias o liso, o puro,
a dignidade, a essência. puseram-se nos bicos dos pés
da mediocridade e chegaram com os seus carros negros,
os seus óculos escuros, as suas gravatas pretas, e afrontaram-te,
a ti, a nós, à poesia, a luz maior que ainda nos resta
perante quem é de tais benemerências que fez
com que a fome grasse agora por todo o território. esta soez
manipulação da alma de uma poeta calha-lhes bem, por certo,
que sempre precisaram de foguetório avulso
para que a romaria lhes faça algum sentido
e possam afirmar como protegem os vultos da cultura,
aqueles que, à força de talento, ergueram o país a outro horizonte
e foram vítimas dos poderes instituídos.
a esta corja não basta acobertar-se na desfaçatez
e vir, depois, altear a cabeça como os sáurios
sempre que abocanham, sabendo-se como de vozes
dissonantes se acobardam, gordurosos e maus,
sempre arrimados a lugares do estado e administrações
de empresas, além das prebendas com que uns aos outros
se obsequiam. a falta de vergonha é o seu zelo,
viciados que vão pelas carreiras,
a extorquir aos outros o que desperdiçam
na faustosa vida que mantêm. de vez em quando atacam
com a verrina de porem um artista no panteão, ou em preitos
vazios de conteúdo, à guisa de homenagem, onde querem exibir
uma ordem de grandeza que nunca hão-de ter,
mas de que se julgam iguais ou superiores. chegam rodeados
de polícias à paisana e segurança privada a protegê-los,
cientes de que o melhor, por tanta iniquidade
levada a cabo, será não arriscar a pose em que vegetam.
não têm as mãos limpas, mas têm da limpeza um conceito
que a qualquer dá nojo, hienas a nutrir-se do que os favorece,
abutres sempre prontos ao voo terrorista,
sujos de sangue e crimes contra a nossa humanidade.
metem-nos no coração sempre que falam porque sabem
que quanto maior for a hipocrisia maior será o engodo
para os que querem enganar vezes sem conta.
há dias, foi a vez de quererem conspurcar-te, a ti, poeta,
que sempre lhes disseste de frente o que pensavas
e fingiram que esqueceram o modo vertical como viveste
para, uma vez mais, tratarem das vidinhas.
sempre que podem entregam-se ao asco da empáfia
e dos salamaleques, eivados de ódio contra
os nossos semelhantes, a fazer de conta que respeitam
aqueles que detestam. com o jorge de sena,
não vai para muito anos, usaram de idêntico artifício,
quando fizeram que as ossadas do poeta viessem do brasil
para em maior esquecimento o enterrarem. maldosamente,
repetem a grotesca fantochada, as ossadas do sena
ficaram no calvário e as tuas, poeta, permanecerão
em santa engrácia, com o intuito de oferecer por dádiva
o desprezo que sempre manifestam, tratando-se de quem
amou a pátria com uma ética que a tudo ultrapassou e sobrepôs.
já em 66 do século passado transladaram, depois de terem, durante 
um ano e treze dias, andado com o féretro por parte incerta para as abandonar
logo em seguida, as ossadas do botto  no cemitério do alto de são
joão, para que o silêncio soterrasse tudo e progredisse
a crassa ignorância sobre quem foi este poeta, que versos produziu, 
como viveu. nem se discute com que razão e com que fito isto acontece,
intoxicado por suporíferos vários, televisão, futebol, demagogia,
o povo paga, apaziguam-se as famílias e morde-se
pela calada, mesmo que a mordedura seja estrepitosa
e a massa anónima dos cidadãos fique com a ideia
de que se arrumou a casa e ficaram as dívidas todas pagas.
ele há tanta maneira de apunhalar a pátria, tanta represália
que se pode promover, tantas calamidades
que nos caem em cima, tanto negócio obscuro,
tanta falta de vergonha, que me fico a pensar
no que realmente vale a pena neste exílio forçado
dentro do país, nesta faca que nos cravam pelas costas
e sai no peito depois de ter atravessado o coração, 
por esta fantasmagoria de gente traiçoeira
que nos quer deslustar o inconformado ofício
que pela beleza e o pão empreendemos.
queremos nitidez e ar lavado, a estreita fímbria
de uma praia de rochedos e areia clara, os deuses gregos
que velam por nós, a magia que existe nas palavras
se um outro mundo buscamos com paixão
e o que nos aparece são estas ratazanas com requintes
de pastosa malvadez,  a patentear-nos os cortejos fúnebres
de si mesmos, enquanto nos envenenam e assassinam.
comovo-me, choro, agasto-me por isto ser assim. 
sobre o meu país caiu densa tristeza, abalam-me as notícias
dos que têm que partir para não morrer à míngua, pelos velhos
a quem cortaram as pensões, pelas ajudas que agora não se dão
a desempregados, idosos, doentes, mães sem sustento com filhos
a crescer, deficientes da guerra colonial, homens e mulheres
que, sem mais remédio, acabam sem-abrigo a viver
na rua, antigos miseráveis e recentes que querem trabalhar
mas só lhes toca a humilhação, no vilipêndio que grassa
em toda a parte, asilos, casas, escolas, hospitais,
no comércio e na indústria, nos tribunais que fecham,
no rol de despedidos que não pára de aumentar, nas remotas
aldeias do interior, nas cidades, no campo, na montanha,
no litoral, nas ilhas. pessoas imoladas à hipocrisia
com que esta gente sobe a púlpitos e discorre
sobre o dinheiro, o valor do trabalho, a paz de um regime,
a que têm o despautério de chamar democracia,
em que a pobreza se amplia, como se lhes não coubesse
a culpa do esbulho, enquanto vão compondo o ramalhete
com grosserias destas, em que enchem a boca
sobre poetas e sobre poesia , como se dos seus iníquos
despachos estivessem a falar, ou alguma coisa
de poetas e poesia entendessem. cresce o poema e cresce
a minha indignação, ao fim e ao cabo perco a cada dia
a minha vida para que estas hienas enriqueçam
e cresça o enxovalho sobre quem já nem a esperança pode alimentar,
perdida há muito, no beco sem saída. nós, poetas,
devemo-nos uns aos outros o afecto de sermos próximos
do que é, a um tempo, humano e divino, talvez com pouca
glória, alguns, talvez sem mansuetude, outros,
mas com certeza indignos destes crápulas
que estão no meio de nós como uma ameaça
e que tudo fazem para que a devastação seja eficaz
e o país asfixie e morra. tu tinhas afirmado
que, na morte, não querias exéquias, faustos, apoteoses.
que a tua vontade era voltar a delfos ou cingir a alegria
da praia do teu mar, que eu tão bem conheço. que a poesia
é uma perseguição ao real que se deve empreender
para que as leis da beleza se instituam e o poema
que nos rege entregue a luz, aquele fruto vermelho
que vimos na infância e durante toda a vida está connosco
para que jamais esqueçamos a justa relação entre o homem
e a natureza. calhou que esta canalha nos governasse
neste tempo de agoiro insuportável, em que a tristeza
ofende e as crianças deixaram de nascer.
pego na minha enxada, a minha escrita, e escrevo contra isto.
por este insulto o meu espírito, pedindo-te perdão,
nenhum perdão te pede, mas pede-te indulgência, ainda assim,
porque alguma culpa terei por não ser a nossa pátria
a festa que sonhámos, uma manhã serena, uma tarde mansa,
uma noite que não seja só ruína. prometo que contigo
escreverei na nossa praia a ventura de querer emergir
da podridão que nos sitia e que procurarei a luz
que procuraste no amor, na perfeição, na poesia.



 © poema (inédito) e foto abaixo Amadeu Baptista








sexta-feira, 4 de julho de 2014

Homenagem a Sophia







PRAIA DA GRANJA

Pelo que quer que seja a exaltação habito aqui,
nesta casa de sete janelas,
com uma pequena porta e uma varanda verde.

A praia incendeia-me os olhos,
e chamo, chamo à mulher espiral do mundo.

Toco com um dedo o muro branco e acrescento
ao entendimento ervas amargas, animais solares
e obscuros, um antigo instrumento de trabalho,
o búzio, o barco, o arado,
um ramo de salgueiro, esta pedra incisiva,
uma maçã vermelha.

Guardo no coração uma voz que vai de lugar em lugar
a interrogar as sombras
e no poema murmura o poder das cintilações
sobre a cânfora,
a hortelã,
os figos,
o encantamento,
a cabeça da víbora.

A extensão desta casa é a dimensão desta praia
divina sobre as águas,
tal como é divina a mulher que me acompanha
e a quem chamo espiral do mundo
por ter criado um sortilégio assim,
uma casa grega,
branca,
nítida,
com sete janelas,
uma pequena porta e uma varanda verde

sobre o mar.


in A Sophia, Editorial Caminho, Lisboa, 2007 


 ©poema e foto abaixo Amadeu Baptista








Penso que a Sophia não teria gostado da ideia de lhe colocarem os restos mortais no Panteão Nacional. Abomino a pompa e a circunstância com que tudo foi levado a cabo e quem promoveu,  realizou, assistiu e discursou. Sei que Sophia teria gostado de uma última morada perto do mar - e que os livros fossem lidos, todos os livros, especialmente os de poesia, os dela e os dos poetas portugueses, que são constantemente omitidos por quem os deveria apoiar (não digo ignorados, porque o poder , qualquer poder, não tem qualquer consistência  para ignorar os poetas). Por mim, a Sophia está ali na praia da Granja – onde também já vivi – a recuperar todos instantes em que a beleza essencial não lhe estava próxima, embora a tivesse sempre no coração. Por Ruy Belo, Jorge de Sena e Sophia, orgulho-me por ser um leitor português de poesia, que também tenta acertar alguns poemas. Amadeu Baptista

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Zetho Cunha Gonçalves




Zetho Cunha Gonçalves, poeta convidado



DOIS POEMAS



A OITAVA LUA NOVA

                          À Glaura Cardoso



A flor do imbondeiro
cai
     do coração de um pássaro – esta
é a Noite que desmembra o Tempo,
selando seus astros, removendo
a escuridão na escuridão,
açoitando
o latir dolente dos cães − e à roda,
o silêncio dos leopardos.


A Noite é a única realidade,
desde os ancestrais: quanto mais negra,
mais verdadeira.
                        E eis que chega
a oitava Lua Nova, a Lua
dos ventos e da doença.


As magras águas dos rios
dementam os peixes, que sufocam
pela ausência da sua bússola lunar.


E loucos − loucos
de eternidade,
dançam os pés do vento sobre o mundo.


Por um tremor de céu,
os meus olhos inflamam como relâmpagos
a fulminar
sob as pálpebras. É o fim
da estação do cacimbo: as febres
estuporando os corpos, a Terra
submersa
por um tapete de cinzas
e árvores calcinadas.


Do coração de um pássaro
cai
     a flor do imbondeiro.









(In: Noite Vertical, no prelo)




FALAM, CONVERSAM O MUNDO


                          Para Arnaldo Santos
                          e José Luandino Vieira



Falam,
conversam o mundo.
E do segredo mínimo
das águas – correndo,
ascende o brilho
do ouro submerso.


Estão sentados no fogo antigo
da Terra – escavam,
retiram as palavras
do seu estado larvar,
atam seus cordões umbilicais a ventres
inaugurais e púberes:
− A palavra,
dizem: procura-a
na concha do ouvido.
Que ela cante – expedita e natural.


Estão sentados no fogo antigo
da Terra – a voz é o seu poder
e bordão:
caligrafia aérea e cantante
insculpida no sangue e sua dança
− batendo, fluindo, sustentando
a escultural melodia da Terra:
de geração em geração: o mundo,
nosso – canto,
poema.


E que a palavra seja –
modelando-se por águas noctívagas,
iluminadas,
ao rés do vento: epopeia breve
− que o tempo alonga,
acrescenta,
rememora – a voz.
E estas mãos:
sua inumerável herança.






(In: Noite Vertical, no prelo)




 © dos poemas: Zetho Gonçalves; foto abaixo: Amadeu Baptista





Zetho Cunha Gonçalves nasceu na cidade do Huambo, em Angola, em 1960. Poeta, autor de literatura infanto-juvenil, ficcionista, antologiador, tradutor de poesia e organizador de edições. Publicou, desde 1979, mais de 30 livros, entre os quais, de poesia, A palavra exuberante, 2004; Sortilégios da terra: Canto de narração e exemplo, 2007; Rio sem margem: Poesia da tradição oral, 2011; Terra: Sortilégios, 2013; Rio sem margem: Poesia da tradição oral. Livro II, 2013; Noite vertical, no prelo.
Literatura infanto-juvenil: Debaixo do arco-íris não passa ninguém (poemas), 2006; A caçada real (teatro), 2007; Brincando, brincando, não tem macaco troglodita (poemas), 2011; A vassoura do ar encantado (estória), 2012; Rio sem margem: Poesia da tradição oral africana, 2013; Dima, o passarinho que criou o mundo: Mitos, contos e lendas dos países de língua portuguesa (antologia), 2013; A Galinha-de-Angola que punha os ovos no telhado (poemas), no prelo. De poesia, traduziu O desejo é uma água, de Antonio Carvajal, 1998; Altazor: Canto II, de Vicente Huidobro, 2012; 3 Poemas, de William Carlos Williams, 2012; 22 Poemas, de Joan Brossa, 2012; 15 Poemas, de Rainer Maria Rilke, 2012; Sete poemas, de Friedrich Hölderlin, 2012. Organizou edições, entre outros, de Mário Cesariny, Luís Pignatelli, António José Forte, Natália Correia, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Manuel de Castro e Luís Carlos Patraquim. Como antologiador organizou: 35 Poemas para 35 anos de independência, 2010. Está representado em várias antologias, livros-catálogo e publicações colectivas. Tem traduções da sua obra para alemão, espanhol, hebraico e italiano, e colaboração dispersa por jornais e revistas de Angola, Brasil, Espanha, Moçambique, Itália e Portugal.
Vive actualmente em Lisboa, dedicando-se inteiramente à literatura.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Søren Ulrik Thomsen




Poemas de Søren Ulrik Thomsen


Irmã eu vi-te
vi-te
num espelho
como um barco
chegaste deslizando pelas minhas costas.

Estalou uma incrível tempestade,
também na tua casa rangem as portas nos seus gonzos,
como eu me escuto agora escutaste a ti mesma
e o pertinaz passo do sapo através do aguaceiro.

No teu interior levanta-se a imagem
de um jardim cheio de escuridão e giz,
plantas de sombra, musgo avermelhado,
também tu lindas com o quase nada.

Nye digte, 1987


Passou o tempo dos milagres,
o espaço povoa-se de sombras.
Outubro está aqui
diáfano como uma pedra fria e uma esperança.
Deitar-me-ei junto à irmã
até que as nossas faces ondeiem
como candeeiros numa silenciosa plantação.

Nye digte, 1987



Uma enorme música detém-se –
uma economia febril que fluía
do sonho até ao corpo e voltava uma
e outra vez
desliza.
Há canções que já não se podem cantar,
e canções que ainda não existem;
entre elas sopram notas inquietas
– nós mesmos somos sinais
negros e vibrantes
claves levantadas na pauta de setembro.

Nye digte, 1987



DENTISTA. TUMBA. ALIANÇA

Para Michael Strunge

Quando cheguei era outono, mas quando saí do dentista já era inverno. Paro diante do escaparates das lojas e sorrio abertamente à minha imagem reflectida, e os meus novos dentes de ouro relampejam da rosada escuridão das minhas mandíbulas, pareço um velho nazi de cinema. Nas necrologias assim escreveram que assim tinha que acontecer, mas eu não quero participar na cerimónia de dar algum sentido à tua morte que só pertence à vida. Compro uma rosa e procuro a tua tumba.  «Sinto-te a falta», digo e parece-me que sorris – mas é algo que apenas imagino. Aqui estou com as minhas primeiras brancas e o meu desejo de um anel de noivado. E aí está tu, num lugar entre demasiada terra e demasiado céu. Dentro da mina agitada cabeça.

Nye digte, 1987


Há um barco com as luzes apagadas
um livro aberto
na página do silêncio.
Não há atalho que leve ao mundo
na manhã cedo
enquanto cai a chuva
há um homem,
que sou eu,
na cozinha gelada.
Mas não um caminho
que saia do mundo.

Nye digte, 1987


Quanto mais viajo na zona red-light do meloso sul
(onde o que mais amo são as velas das sombrias catedrais)
mais descubro que até eu mesmo sou Cinzento,
cinzento como a Irlanda e as pesadas cracas
cinzento como essas duas semanas
em que o outono acabou e o inverno ainda não começou –
mas sobretudo cinzento
como o cinzento de Copenhague:
Como o corta-fogos do pátio traseiro
palpitando a 1000 x um desconhecido número de matizes de cinzento
indo e vindo por entre todas as cores e nenhuma
carregando cada uma com a sua incompreensível transformação
sob a luz grande e nervosa da tarde
que cai também sobre mim, sentado aqui no quarto que dá para o pátio
com o meu lápis e a minha dor de cabeça
balançando como um mar:
Copenhague é apenas um lugar/ onde chove
em gotas saltitantes
e eu sou só um homem/ como todos
um universo caótico e brilhante que existe
na sua velocidade
a caminho de outro mundo.

Nye digte, 1987



Porque levamos já sete dias de tempestade
e a luz se foi e não há aquecimento
e todos aqueles cabos
que mantêm o mundo unido numa rede fanática
(que nunca captura outra coisa que o vento que tomba tudo esta
noite)
partiram-se – por isso convidei a uma festa.
Um dos convidados de honra és tu, que me abandonaste
e me devolveste as minhas ânsias –
o outro és tu, cuja estranha casa abandonei
para deitar-me na minha cama saudosa.
Como entrada pede-se aos convidados que levem
o seu poema mais malogrado
sobre o que se construiu o melhor
o inesperado
o que tens na mão um dia qualquer
o que não quer deixar-te em paz
o que nunca poderás esquecer.

Nye digte, 1987



Cada manhã me levanto uma hora antes
para, escrevendo poesia, alcançar uma vida e outra:
será que pode haver uma sintaxe tão exacta
que possa apanhar o sol no espelho de uma folha
e rasgar o seu luminoso mar na ondulação das suas linhas,
uma palavra tão bela que possa despertar até a Bela Adormecida,
se se colocar como uma brasa sobre a sua azulada língua congelada,
uma frase tão clara, que queime um caminho
sobre a fronteira de treva em treva –
um poema que, pesado como sino fundido
na noite das Almas, anuncie que chegou a hora?
Se tu no poderoso manto da chuva
num dos primeiros autocarros
passares sob a minha janela, verás
uma vibrante imagem marcada de
aflição e concentração brutal.

Hjemfalden, 1991


A última hora é a melhor do dia.
Para tudo é demasiado tarde e demasiado cedo.
Bem poderia ser que fosse feliz,
mas também poderia ser o excesso de tabaco,
enjoa-me, e a mim nada me importa:
Porque de qualquer modo a cabeça me doerá pela manhã
já que me ocorre que inclusivamente tu poderás morrer.
O poema em que trabalhei toda a tarde
Não faz mais do que fumegar como uma velha lamparina.
Esvazio o cinzeiro e saio para mijar.
A cada dia acaba tudo.

Hjemfalden, 1991


Versão minha - © Amadeu Baptista





Søren Ulrik Thomsen, nasceu em 1956. O seu primeiro livro de poesia data de 1981. Poeta consciente dos valores do idioma é considerado como um dos mais notáveis da sua geração.




sexta-feira, 27 de junho de 2014

Astrid Hjertenæs Anderson




POEMAS DE ASTRID HJERTENÆS ANDERSON



CAVALOS SOB A CHUVA

Quando a minha mente está cheia de sonhos,
mais escuros, mais remotos
que o meu pensamento pode explicar,
mais selvagens, mais ardentes
 que o que pode compreender o meu coração,
quero apenas ficar sob a chuva
como os cavalos permanecem sob a chuva
numa planície extensa e fértil
entre pesadas montanhas, como as daqui.

Estar imóvel e sentir que o corpo suga
este frescor, esta força, esta humidade,
que em torrentes impetuosas me molha
a cara, o cabelo e as mãos.
Assemelhar-me ao bosque que mama,
como uma criança, os peitos do céu.
Assemelhar-me à planície, transbordante de doçura,
palpitante de pios desejos.

Como estão os cavalos sob a chuva,
inclinados, com os flancos molhados,
deixando que o cheiro a terra e humidade
lhes percorra com força e doçura e mente,
assim quero estar e unicamente ser
e deixar que caia o chuvisco do céu,
até que o pensamento livre já de febre
leve os sonhos à claridade
numa calma duradoura e silenciosa.

                De unge søylene, 1948


A MULHER E A DANÇA

Por que não me deixaram dançar?
A mim que posso levantar os braços para o ar
para que nasça o telhado luminoso do céu,
a mim obrigam-me a ficar estupefacta contra uma árvore
com os braços presos às costas!

Eu que posso estalar os dedos
e acender o cintilante voo da gaivota,
o mergulho da gaivota, o súbito encontro da gaivota com a água,
eu tenho que apoiar a nuca na árvore e ficar assim
com os olhos fechados e os dentes cerrados!

Eu que posso dar voltas ao meu braço
de modo a que reluzam os ilhéus na água do fiorde,
com as suas casinhas de verão cor de óxido
entre botões de junquilho amarelos e a vegetação rasteira dos ásperos amieiros,
eu tenho que sentir a casca da árvore a ferir-me a pele!

Mas eu posso ver com os olhos fechados!
Quando as praias se fundem e sangram as rochas,
posso dançar com o corpo trespassado,
posso tirar o pé para fora
para que se ilumine a costa!

                Strandens kvinner, 1955



PAISAGEM

O céspede da minha manhã iluminado pelo orvalho
está cheio de um novo jogo renovado

um envelope de ar de um sol azul violeta
vibra em torno das árvores nuas

ao redor de um lago transformado pela luz
crescem cisnes na fria erva:

Eu sou a paisagem que tu estás a ver.

                Pastoraler, 1960



O POETA RECITA O SEU PRÓPRIO POEMA

I
O poeta retorce-se no tapete de palha.
Os olhos deambulam em cruz.

Preferia ir de costas ao mar,
ser um eco rodopiante
do rochoso peito da noite.

Preferia estar calado e mudo
como a branca lua encalhada na escuridão,

como uma das outras luas petrificadas,
luas dançarinas, brancas como ovos
que estão ali fora na noite do vestíbulo.

Mas um trinado de pássaro
abre caminho pela garganta.

Há um pássaro pousado sobre a ramagem do seu coração,
condenado a sobreviver.


II

O poeta volta para a esquerda
como para um muro invisível.

O poeta volta para a direita
como a bailar com a sua própria sombra.

Agora sustém a respiração.
Agora bebe chuva.
De súbito põe-se em bicos dos pés
com a brisa matutina em volta dos joelhos.
De súbito cresce como uma árvore
com tronco e copa rumorosa.

Consegue-o: volta a ver os campos de sangue oxidado
e o fóssil do cérebro na praia deserta.

Reconhece a franja de erva sobre a qual está
e um contorno de noite envolve o abraço dos seres.

Consegue-o: há um pássaro pousado no seu ombro.
Numa paisagem de silêncio e de luz afastou-se a voar.

                Pastoraler, 1960



A ROSEIRA

Apenas a roseira branca resplandece na noite de verão.
Só ela e o gato branco o que arde sem chamas e resplandece
    na noite de verão.
São só os troncos brancos das bétulas que resplandecem
    a competir com o muro do palheiro.
Neste silêncio. Demasiado branco. Demasiado verde. O tempo
    está imóvel.

Assim guardo o tempo mas mãos. Com palavras verdes e palavras brancas.
É o que quis. Silêncio e palavras como rosas. Silêncio e palavras como ervas.
Mas de repente vem um pessoa a caminhar por um campo.
Não sei de onde vem. Nem quem é. Nem aonde vai.
É apenas a camisa que resplandece. Eu mesma não sei se resplandece.
Mais do que a casa o gato. Mais do que parede do palheiro e as bétulas.
Mais do que a roseira, o branco que resplandece na noite de verão.

                 Rosenbuskan, 1972



SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA

Entrego-me às verdes planícies.
As extensas e suaves linhas mórbidas que ondulam
e sussurram ao vento com as suas espigas de cereais.
Inclino-me perante as jovens bétulas da primavera
tão delgados e tão leves
em frente ao atraente mistério dos abetos.
Vejo-os bem. As vacas do novo verão
que pastam silenciosas sob a lua pagã.
A égua negra que vigia na erva
o filho primaveril. O potro de veludo castanho.
E tu meu amor que partilhas comigo
a tua primavera a tua respiração e os teus sonhos
reunir-te-ás comigo nesta luz alta.
Onde tudo o que é amor está profundamente unido.

                Et våroffer, 1976



GEADA E CÉU SUAVE

Chegou o céu
talvez como o dia por casualidade
com pálida luz azul e suave
e tranquila respiração.

A geada chegou
talvez por causa do céu.
Os arbustos respiram branco
com pérolas de orvalho geladas no seu cabelo.

Céu e geada encontram-se
como quando dois amantes
de repente se encontram pelos caminhos
e fazem tilintar cascáveis de prata.

Já ninguém sabe quem chegou primeiro.

                De tyve landskaper, 1980


NEGRA POÇA EM ABRIL

Uma caminhante sabe
que o olho negro
no rosto branco do inverno
sorve e atrai todas as criaturas para ele
como por artes mágicas.

Uma caminhante sabe
que transformação ocorre num alegre dia de abril
quando o inverno se converte num frio pesadelo quotidiano
para aquele que esteve preso no gelo até à cintura.

Uma caminhante sabe então
que o manancial do olho é uma dupla poça.
Para a alegria, cheia de vinho pagão.
Para a tristeza, cheia de lágrimas negras.


                De tyve landskaper, 1980



Versão minha - © Amadeu Baptista







Astrid Hjertenæs Anderson (1915-1985). Naceu em Horten. Primeiro livro de poesia em 1945. Nos seus poemas nota-se um feminismo decidido e vital. Tradutora de poesia inglesa e alemã. Prémio da crítica sueca em 1964.