sábado, 28 de junho de 2014
sexta-feira, 27 de junho de 2014
Astrid Hjertenæs Anderson
POEMAS DE ASTRID
HJERTENÆS ANDERSON
CAVALOS SOB A CHUVA
Quando a minha mente está cheia de sonhos,
mais escuros, mais remotos
que o meu pensamento pode explicar,
mais selvagens, mais ardentes
que o que pode
compreender o meu coração,
quero apenas ficar sob a chuva
como os cavalos permanecem sob a chuva
numa planície extensa e fértil
entre pesadas montanhas, como as daqui.
Estar imóvel e sentir que o corpo suga
este frescor, esta força, esta humidade,
que em torrentes impetuosas me molha
a cara, o cabelo e as mãos.
Assemelhar-me ao bosque que mama,
como uma criança, os peitos do céu.
Assemelhar-me à planície, transbordante de doçura,
palpitante de pios desejos.
Como estão os cavalos sob a chuva,
inclinados, com os flancos molhados,
deixando que o cheiro a terra e humidade
lhes percorra com força e doçura e mente,
assim quero estar e unicamente ser
e deixar que caia o chuvisco do céu,
até que o pensamento livre já de febre
leve os sonhos à claridade
numa calma duradoura e silenciosa.
De unge søylene, 1948
A MULHER E A DANÇA
Por que não me deixaram dançar?
A mim que posso levantar os braços para o ar
para que nasça o telhado luminoso do céu,
a mim obrigam-me a ficar estupefacta contra uma árvore
com os braços presos às costas!
Eu que posso estalar os dedos
e acender o cintilante voo da gaivota,
o mergulho da gaivota, o súbito encontro da gaivota com a
água,
eu tenho que apoiar a nuca na árvore e ficar assim
com os olhos fechados e os dentes cerrados!
Eu que posso dar voltas ao meu braço
de modo a que reluzam os ilhéus na água do fiorde,
com as suas casinhas de verão cor de óxido
entre botões de junquilho amarelos e a vegetação rasteira
dos ásperos amieiros,
eu tenho que sentir a casca da árvore a ferir-me a pele!
Mas eu posso ver com os olhos fechados!
Quando as praias se fundem e sangram as rochas,
posso dançar com o corpo trespassado,
posso tirar o pé para fora
para que se ilumine a costa!
Strandens kvinner, 1955
PAISAGEM
O céspede da minha manhã iluminado pelo orvalho
está cheio de um novo jogo renovado
um envelope de ar de um sol azul violeta
vibra em torno das árvores nuas
ao redor de um lago transformado pela luz
crescem cisnes na fria erva:
Eu sou a paisagem que tu estás a ver.
Pastoraler, 1960
O POETA RECITA O SEU PRÓPRIO POEMA
I
O poeta retorce-se no tapete de palha.
Os olhos deambulam em cruz.
Preferia ir de costas ao mar,
ser um eco rodopiante
do rochoso peito da noite.
Preferia estar calado e mudo
como a branca lua encalhada na escuridão,
como uma das outras luas petrificadas,
luas dançarinas, brancas como ovos
que estão ali fora na noite do vestíbulo.
Mas um trinado de pássaro
abre caminho pela garganta.
Há um pássaro pousado sobre a ramagem do seu coração,
condenado a sobreviver.
II
O poeta volta para a esquerda
como para um muro invisível.
O poeta volta para a direita
como a bailar com a sua própria sombra.
Agora sustém a respiração.
Agora bebe chuva.
De súbito põe-se em bicos dos pés
com a brisa matutina em volta dos joelhos.
De súbito cresce como uma árvore
com tronco e copa rumorosa.
Consegue-o: volta a ver os campos de sangue oxidado
e o fóssil do cérebro na praia deserta.
Reconhece a franja de erva sobre a qual está
e um contorno de noite envolve o abraço dos seres.
Consegue-o: há um pássaro pousado no seu ombro.
Numa paisagem de silêncio e de luz afastou-se a voar.
Pastoraler, 1960
A ROSEIRA
Apenas a roseira branca resplandece na noite de verão.
Só ela e o gato branco o que arde sem chamas e resplandece
na noite de verão.
São só os troncos brancos das bétulas que resplandecem
a competir com o
muro do palheiro.
Neste silêncio. Demasiado branco. Demasiado verde. O tempo
está imóvel.
Assim guardo o tempo mas mãos. Com palavras verdes e
palavras brancas.
É o que quis. Silêncio e palavras como rosas. Silêncio e
palavras como ervas.
Mas de repente vem um pessoa a caminhar por um campo.
Não sei de onde vem. Nem quem é. Nem aonde vai.
É apenas a camisa que resplandece. Eu mesma não sei se
resplandece.
Mais do que a casa o gato. Mais do que parede do palheiro e
as bétulas.
Mais do que a roseira, o branco que resplandece na noite de
verão.
Rosenbuskan,
1972
SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA
Entrego-me às verdes planícies.
As extensas e suaves linhas mórbidas que ondulam
e sussurram ao vento com as suas espigas de cereais.
Inclino-me perante as jovens bétulas da primavera
tão delgados e tão leves
em frente ao atraente mistério dos abetos.
Vejo-os bem. As vacas do novo verão
que pastam silenciosas sob a lua pagã.
A égua negra que vigia na erva
o filho primaveril. O potro de veludo castanho.
E tu meu amor que partilhas comigo
a tua primavera a tua respiração e os teus sonhos
reunir-te-ás comigo nesta luz alta.
Onde tudo o que é amor está profundamente unido.
Et våroffer, 1976
GEADA E CÉU SUAVE
Chegou o céu
talvez como o dia por casualidade
com pálida luz azul e suave
e tranquila respiração.
A geada chegou
talvez por causa do céu.
Os arbustos respiram branco
com pérolas de orvalho geladas no seu cabelo.
Céu e geada encontram-se
como quando dois amantes
de repente se encontram pelos caminhos
e fazem tilintar cascáveis de prata.
Já ninguém sabe quem chegou primeiro.
De tyve landskaper, 1980
NEGRA
POÇA EM ABRIL
Uma
caminhante sabe
que
o olho negro
no
rosto branco do inverno
sorve
e atrai todas as criaturas para ele
como
por artes mágicas.
Uma
caminhante sabe
que
transformação ocorre num alegre dia de abril
quando
o inverno se converte num frio pesadelo quotidiano
para
aquele que esteve preso no gelo até à cintura.
Uma
caminhante sabe então
que
o manancial do olho é uma dupla poça.
Para
a alegria, cheia de vinho pagão.
Para
a tristeza, cheia de lágrimas negras.
De tyve landskaper, 1980
Versão minha - © Amadeu Baptista
Astrid Hjertenæs
Anderson (1915-1985).
Naceu em Horten. Primeiro livro de poesia em 1945. Nos seus poemas nota-se um
feminismo decidido e vital. Tradutora de poesia inglesa e alemã. Prémio da
crítica sueca em 1964.
terça-feira, 24 de junho de 2014
David F. Rodrigues
David F. Rodrigues, poeta convidado
TRÊS POEMAS
1
que te chame hoje
camélia ainda em botão
consente
quero amanhã
abrir-te em minha mão
transfigurada
fugaz arco-íris de pétalas
efémera rosácea de sol
veemente
possa agora
depor em tua face repleta
de lábios meus beijos
como terna borboleta
2
revestirei o teu corpo
apenas com o pijama
incandescente
do meu em chama
a noite assim quero
em labareda viva
ainda em ti esperto
de novo adormecer
depois despir mas só depois
pacientemente como quem
subtis nós de seda solta
e prende um só corpo em dois
3
de novo amor hoje façamos
deste lençol de puro linho
a túnica breve do corpo vizinho
da candente euforia da noite
manhã cedo amanhã recordarás
a seara azul das flores imponderáveis
onde um dia lembras-te ao entardecer
as longas e lentas tranças entrelaçavas
e um primeiro ramo tímido de miosótis
inventei para te coroar no meu peito
© dos poemas: David F. Rodrigues; do desenho: pintor Salvador Vieira; da foto abaixo: Amadeu Baptista
sábado, 21 de junho de 2014
Luís Vaz de Camões
UM SONETO DE CAMÕES
Busque Amor novas artes, novo engenho
Para matar-me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Pois não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde;
Vem não sei como; e dói não sei porquê.
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
Para matar-me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Pois não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde;
Vem não sei como; e dói não sei porquê.
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
sexta-feira, 20 de junho de 2014
Um pouco acima da miséria
Tenho livro novo, acabado de editar na Galiza pela editora Espiral Maior, na sequência de ter ganho, no ano passado, o XXIX Prémio de Poesia Cidade de Ourense. Deste livro sairá muito em breve a edição portuguesa, que presumo será distribuída nos inícios de Setembro, com a chancela da &Etc.
Aqui deixo o poema que tem início na página 103:
UM SONHO DE JORGE LUÍS BORGES
A máscara pertence ao domínio
de quem vem ao palco agradecer três
vezes
e corre perigo demasiado tempo
para encontrar a essência.
Atrás da coluna a máscara conclama
os sátiros da república, a
procissão sacerdotal,
as linhas de angústia do real,
os bárbaros que estão no meio de
nós.
No proscénio, alguém usa a máscara
sob a fantasia
de coração arrebatado e credores à
porta,
enquanto a acção decorre alheia à
sedição
e o homem de joelhos suplica.
À luz contemporânea a máscara vai
de taberna em taberna à espera que
o absinto
volte de novo ao encanto
e às ramificações esplendorosas do
quotidiano.
A máscara do algoz será mais
requisitada
depois do curso unívoco dos nossos
predadores,
e em chapas metálicas de alumínio
reverterá em favor da eternidade.
Esta máscara simples e
surpreendente
é o litígio, os sete pecados
capitais;
em cada incandescência
a pantomina condena-nos à
excrescência.
Esta será a máscara de Keats, ou
mesmo de Pessoa.
Os poetas são da ciência obscura o
vaticínio,
haja ainda alguma estrela para ver
sob o céu sem estrelas que nos
coube.
Também a máscara do rigor se
apresenta
neste constrangimento;
o corpo escava a escarpa
e o ruído de fundo é o demónio a
marcar território.
Raiz e precipício é a máscara da
morte
quando corre o vinho pelas
gargantas
para contagiar quem vê e aplaude,
os dois dias da vida, os três do
carnaval.
Observe-se esta máscara quase
derradeira
que passa nos bastidores e não
entra em cena.
Morto de fome o povo vem atrás
e acena à prosperidade infinita da
cidade.
Em literatura a máscara ou a cabeça
induz à clonagem e à queimadura.
Sob o cérebro o olhar é mais severo
e a máscara prolixa, sempre
irreversível.
A soletrar um verso, não obstante
os centros comerciais e os bancos
ingleses,
vem a máscara de novo à cena
dizer que a vergonha engendra mais
vergonha.
A máscara expectante, a máscara do
drama.
Quando voltarmos a casa o filme a
cores enfada,
tornámo-nos gente impaciente a
afivelar
a máscara do sortilégio ausente.
A máscara da tragédia vem ao poema
corroborar a faca, a liga, o
sindicato.
Não é nunca a máscara mais que
ornato,
acontece tantas vezes no nosso
assassinato.
A máscara interior, o seu diálogo
perdido entre o onanismo e a
festividade:
tantas vezes vai o cântaro à fonte
que chove dentro de casa.
A máscara dos iníquos, a máscara
dos equídeos.
De vazio em vazio passamos
brandamente
e só o actor sabe como a cicatriz
reluz
e só a actriz sabe como cicatriza a
luz.
A máscara do amor: a secreta
paisagem
que nos traz aqui em busca da nossa
própria máscara.
Adeus penumbra e imensidão de
lágrimas,
cabe ao poeta a máscara da ternura.
(in Um Pouco Acima da Miséria. Espiral Maior, Corunha, Espanha, 2014)
© Amadeu Baptista
quinta-feira, 19 de junho de 2014
UM POEMA EM QUE SE FALA DE UM MONARCA ESPANHOL NO DIA DA PROCLAMAÇÃO DE FELIPE VI, NOVO REI DE ESPANHA
GOYA: A FAMÍLIA DE D.
CARLOS IV (1801)
(para Táti Mancebo e
Alfredo Ferreiro)
Assim como há o cinismo,
há uma gramática do cinismo.
Cada mestre usa o seu
à luz do seu compêndio,
com forças à deriva,
e consubstanciando
o alarde da pintura.
Tomemos o exemplo
da família real,
esta ou qualquer outra.
Se olharmos bem os rostos
vemos o que Deus
falha no mundo
– as insipiências
onde a criação é um malogro.
Mas o cínico sou eu,
embora o Príncipe
esteja talhado para a maldade,
com o corpo a três quartos,
olhando para trás,
sem profundidade,
mas a arrogância que é própria dos príncipes.
O Rei é uma amálgama de sucata,
que a idade sutura
e um certo ai que não
dói
que se escuta em toda a corte,
lavando-lhe as mãos
na promiscuidade,
enquanto acata as ordens da Rainha.
Esta, ao centro do painel,
é só os braços
que mostra por contraste
com a riqueza insultuosa do vestido
paramentado de rendas espanholas
e formas que, há muito,
exercem a lascívia
a bom recato.
O mais são tétricas figuras,
que uma Princesa apoia colocando a altivez
em contraponto com gente impaciente pelo almoço
e as fatias de presunto quando a tarde
os puser a caminho do curral.
Lamento que a pintura não faça ouvir
os ruídos da rua,
o povo com os sacos de carvão sobre os ombros
e as putas com os ombros sobre os sacos de carvão.
Lá fora o mundo é a mais valia
do conjunto,
sendo que tudo está lubrificado
para que se note o estupro
e seja Deus, Nosso Senhor, crucificado.
E o cínico sou eu.
Por isso, à esquerda,
onde há um ponto de luz
que a sombra alcança,
olho de esguelha o universo
e quase que parece que sorrio.
Não é verdade.
A esse canto,
onde fito como posso os que estão,
sendo que os vejo de frente
e de joelhos,
queixando-se do reumático,
apenas conjecturo
como há aberrações
que podem tudo.
Passei por Moncloa
a um fim de tarde,
começava Maio
e dos campos desprendia-se
o odor sereno e violento
que há na terra.
E vi
como os massacres são, ainda,
o pão de cada dia,
por mais ou menos cínicas
que sejam as pinturas,
ou as armas estejam prontas para o abate.
E o meu coração
anotou tudo:
– a luz, sempre vital,
o pelotão de anónimos
e as suas vítimas,
a centelha de fogo,
ou água,
no olhar do condenado.
E, já tendo visto tudo,
quero dizer,
já tendo visto em excesso
deste excesso de vergonha
sem vergonha,
aferi o meu lugar
na tábua rasa em que vivo,
e morro,
e, sem sonhos, durmo.
Preciso de água forte para dessedentar
o rumo a que o desespero obriga,
pincéis de cerdas duras,
espátulas cortantes,
paletas invisíveis
onde as cores, fortíssimas, latejem.
Preciso de fulgores
e circunstâncias
onde uma ardência nos olhos possa ser
um sinal
de redenção,
enquanto o povo
é à míngua que morre
e eu, cínico sendo,
página a página leio este compêndio
que os cínicos maiores que o meu cinismo
instituíram.
Pudesse eu regressar a Fuendetodos,
ou fazer pintura sacra,
cheia de entorses e nervos,
com o Cristo ladeado de ladrões,
como eu estou.
Provavelmente,
entre a maga
vestida e a desnuda,
preferiria chorar
até ao fim do mundo,
chorar
e abrir as veias:
para que o sangue corresse
e a pintura tomasse um outro rumo
de cores,
difusas, se possível,
repartidas.
Mas eis que a doença chega
e a vivacidade se esvai,
e estou cego
e totalmente surdo
e sou, assim, o cínico do retrato
a conferir ao mundo o mundo retratado
e os seus caprichos,
enquanto os desastres
e a guerra submeto
nas gravuras.
Já nem sei o que digo,
o tempo sobrevoa-me as têmporas
e onde estive não estou,
estando sempre
algures,
mais ano para a frente ou para trás,
mais cão ou menos cão nas telas,
mais cínico ou menos cínico
entre os cínicos.
O Príncipe, o Rei e a Rainha:
vesti-os de cores vivas
e, contudo, é de luto que está a minha arte,
porque, por esta comitiva,
nem para a eternidade
ressuscito.
Mas persisto.
Para isso é que o cinismo
recebe do cinismo
moedas de oiro,
e posso, quando posso,
com o branco de espanha
misturar azul cerúleo,
e ao verde-bétula
juntar óxido de ferro,
para que o esplendor da luz
seja o que é, na obra:
– fútil, sem glória,
como é cada guerra,
embora lute sempre,
e não lhes dê tréguas, nunca.
Este é meu tempo:
tomai e bebei.
Este é meu tempo,
tomai e comei.
Por mim, como sempre, estou
cheio de fome.
(pintura de Francisco Goya, 'A Família de Carlos IV', óleo / tela, 2.80 x 3.40 m, 1801, Museu do Prado)
quarta-feira, 18 de junho de 2014
Lennart Sjögren
POEMAS DE LENNART SJÖGREN
E a folha da bétula foi encontrada
longe no alto mar
lá onde descansava
no seu próprio barco verdejante
Havet, 1974
A ERVA
Não é a gadanha a que morde a erva
é a erva que por fim
Devora a gadanha convertendo-a numa folha finíssima sem aço
– anestesiada até ao óxido
logo adormece
na erva crescida.
Stockholms Central och
andra folklivsdikter,
1980
IMAGEM CIDADÃ
Vi uma cabeça de lúcio
levantar-se sobre a praça
vi um ganso grande, era mais alto
que a câmara municipal
e tinha mais poder.
Eu, visitante das
cidades pequenas do mundo,
senti que se me enrugava a pele
quando o lúcio a falar de mágoas
e da indescritível
alegria
de pascer a erva
da ribeira do rio.
Dagen före plöjarens kväll, 1984
O REMO
O que encontra um remo partido
não pode dizer com segurança
que tenha sucedido um naufrágio
mas é provável que um remador
tenha caído à água
pode ocorrer-lhe uma deslembrança
o seu nome
deixou-o ir na corrente
e renunciou às possibilidades do remo.
Dagen före plöjarens kväll, 1984
O NEVÃO
Não me perguntes como se detém o sangue
nas feridas que se não vêem
e não me perguntes onde
está essa pátria que ainda merece a pena defender
preferível é que me perguntes algo
sobre o nevão que cai
podemos reunir-nos
para falar de como o que não tem esperança
tem a sua própria esperança
e de como esses que estiveram tanto tempo angustiados
pela morte
se sentem arrebatados de alegria no tempo dos nevões.
I vattenfägelns tid, 1985
QUEM NÃO SONHA
Vi uma ratazana cruzar a estrada
tinha rosto humano
era uma rata pequena
menor que o meu sapato.
Perguntou-me que direcção tomar para ir ao lugar
onde pudesse morrer em paz.
Como ia responder-lhe a semelhante pergunta
que tão parecida era com a minha.
Tentei-o com uma palavras semi-bíblicas:
vai ao lugar onde os mortos enterram
os seus mortos – talvez seja no oeste.
Mas não serviu de nada
e quando as modifiquei:
vai ao lugar onde os nascidos
com os ainda vivos – talvez seja no este,
e inteira-te se aí podes conseguir
uma morte a preço razoável,
já tinha desaparecido.
E quem não sonha com uma morte serena
– quanto mais cedo melhor, dizem alguns,
mas com isso não querem dizer nada.
Tinha-se gelado aquele dia
ou era verão – não me recordo
mas os sonhos estavam alienados ao longo da estrada
não completamente diferentes de pássaros erguidos sem asas.
I vattenfägelns tid, 1985
ENCRUZILHADA
Compara a noite com um carro negro
e a manhã com um carro caído
mas que imagens cobrirão
a dúvida que surge
numa encruzilhada
como esta
em que uma criança cega guia
um cavalo de madeira.
Ormens tid, 1992
Sonhei
bastante tempo
que
viajava entre beduínos
caminhávamos
de manhã em manhã
e
de noite a noite
as
miragens rodeavam-nos
por
rezar a algum deus
era
o grão de areia
o
que punha os desertos em movimento
Ormens tid, 1992
Versão minha - © Amadeu Baptista
Lennart Sjögren
(1930). Nasceu na ilha de Öland. Estudou arte e é artista
gráfico. O seu primeiro livro de poesia data de 1958. A sua poesia está
centrada nos animais e na observação da natureza. Recebeu o prémio Carl Emil
Englund.
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