sexta-feira, 27 de junho de 2014

Astrid Hjertenæs Anderson




POEMAS DE ASTRID HJERTENÆS ANDERSON



CAVALOS SOB A CHUVA

Quando a minha mente está cheia de sonhos,
mais escuros, mais remotos
que o meu pensamento pode explicar,
mais selvagens, mais ardentes
 que o que pode compreender o meu coração,
quero apenas ficar sob a chuva
como os cavalos permanecem sob a chuva
numa planície extensa e fértil
entre pesadas montanhas, como as daqui.

Estar imóvel e sentir que o corpo suga
este frescor, esta força, esta humidade,
que em torrentes impetuosas me molha
a cara, o cabelo e as mãos.
Assemelhar-me ao bosque que mama,
como uma criança, os peitos do céu.
Assemelhar-me à planície, transbordante de doçura,
palpitante de pios desejos.

Como estão os cavalos sob a chuva,
inclinados, com os flancos molhados,
deixando que o cheiro a terra e humidade
lhes percorra com força e doçura e mente,
assim quero estar e unicamente ser
e deixar que caia o chuvisco do céu,
até que o pensamento livre já de febre
leve os sonhos à claridade
numa calma duradoura e silenciosa.

                De unge søylene, 1948


A MULHER E A DANÇA

Por que não me deixaram dançar?
A mim que posso levantar os braços para o ar
para que nasça o telhado luminoso do céu,
a mim obrigam-me a ficar estupefacta contra uma árvore
com os braços presos às costas!

Eu que posso estalar os dedos
e acender o cintilante voo da gaivota,
o mergulho da gaivota, o súbito encontro da gaivota com a água,
eu tenho que apoiar a nuca na árvore e ficar assim
com os olhos fechados e os dentes cerrados!

Eu que posso dar voltas ao meu braço
de modo a que reluzam os ilhéus na água do fiorde,
com as suas casinhas de verão cor de óxido
entre botões de junquilho amarelos e a vegetação rasteira dos ásperos amieiros,
eu tenho que sentir a casca da árvore a ferir-me a pele!

Mas eu posso ver com os olhos fechados!
Quando as praias se fundem e sangram as rochas,
posso dançar com o corpo trespassado,
posso tirar o pé para fora
para que se ilumine a costa!

                Strandens kvinner, 1955



PAISAGEM

O céspede da minha manhã iluminado pelo orvalho
está cheio de um novo jogo renovado

um envelope de ar de um sol azul violeta
vibra em torno das árvores nuas

ao redor de um lago transformado pela luz
crescem cisnes na fria erva:

Eu sou a paisagem que tu estás a ver.

                Pastoraler, 1960



O POETA RECITA O SEU PRÓPRIO POEMA

I
O poeta retorce-se no tapete de palha.
Os olhos deambulam em cruz.

Preferia ir de costas ao mar,
ser um eco rodopiante
do rochoso peito da noite.

Preferia estar calado e mudo
como a branca lua encalhada na escuridão,

como uma das outras luas petrificadas,
luas dançarinas, brancas como ovos
que estão ali fora na noite do vestíbulo.

Mas um trinado de pássaro
abre caminho pela garganta.

Há um pássaro pousado sobre a ramagem do seu coração,
condenado a sobreviver.


II

O poeta volta para a esquerda
como para um muro invisível.

O poeta volta para a direita
como a bailar com a sua própria sombra.

Agora sustém a respiração.
Agora bebe chuva.
De súbito põe-se em bicos dos pés
com a brisa matutina em volta dos joelhos.
De súbito cresce como uma árvore
com tronco e copa rumorosa.

Consegue-o: volta a ver os campos de sangue oxidado
e o fóssil do cérebro na praia deserta.

Reconhece a franja de erva sobre a qual está
e um contorno de noite envolve o abraço dos seres.

Consegue-o: há um pássaro pousado no seu ombro.
Numa paisagem de silêncio e de luz afastou-se a voar.

                Pastoraler, 1960



A ROSEIRA

Apenas a roseira branca resplandece na noite de verão.
Só ela e o gato branco o que arde sem chamas e resplandece
    na noite de verão.
São só os troncos brancos das bétulas que resplandecem
    a competir com o muro do palheiro.
Neste silêncio. Demasiado branco. Demasiado verde. O tempo
    está imóvel.

Assim guardo o tempo mas mãos. Com palavras verdes e palavras brancas.
É o que quis. Silêncio e palavras como rosas. Silêncio e palavras como ervas.
Mas de repente vem um pessoa a caminhar por um campo.
Não sei de onde vem. Nem quem é. Nem aonde vai.
É apenas a camisa que resplandece. Eu mesma não sei se resplandece.
Mais do que a casa o gato. Mais do que parede do palheiro e as bétulas.
Mais do que a roseira, o branco que resplandece na noite de verão.

                 Rosenbuskan, 1972



SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA

Entrego-me às verdes planícies.
As extensas e suaves linhas mórbidas que ondulam
e sussurram ao vento com as suas espigas de cereais.
Inclino-me perante as jovens bétulas da primavera
tão delgados e tão leves
em frente ao atraente mistério dos abetos.
Vejo-os bem. As vacas do novo verão
que pastam silenciosas sob a lua pagã.
A égua negra que vigia na erva
o filho primaveril. O potro de veludo castanho.
E tu meu amor que partilhas comigo
a tua primavera a tua respiração e os teus sonhos
reunir-te-ás comigo nesta luz alta.
Onde tudo o que é amor está profundamente unido.

                Et våroffer, 1976



GEADA E CÉU SUAVE

Chegou o céu
talvez como o dia por casualidade
com pálida luz azul e suave
e tranquila respiração.

A geada chegou
talvez por causa do céu.
Os arbustos respiram branco
com pérolas de orvalho geladas no seu cabelo.

Céu e geada encontram-se
como quando dois amantes
de repente se encontram pelos caminhos
e fazem tilintar cascáveis de prata.

Já ninguém sabe quem chegou primeiro.

                De tyve landskaper, 1980


NEGRA POÇA EM ABRIL

Uma caminhante sabe
que o olho negro
no rosto branco do inverno
sorve e atrai todas as criaturas para ele
como por artes mágicas.

Uma caminhante sabe
que transformação ocorre num alegre dia de abril
quando o inverno se converte num frio pesadelo quotidiano
para aquele que esteve preso no gelo até à cintura.

Uma caminhante sabe então
que o manancial do olho é uma dupla poça.
Para a alegria, cheia de vinho pagão.
Para a tristeza, cheia de lágrimas negras.


                De tyve landskaper, 1980



Versão minha - © Amadeu Baptista







Astrid Hjertenæs Anderson (1915-1985). Naceu em Horten. Primeiro livro de poesia em 1945. Nos seus poemas nota-se um feminismo decidido e vital. Tradutora de poesia inglesa e alemã. Prémio da crítica sueca em 1964.

terça-feira, 24 de junho de 2014

David F. Rodrigues




David F. Rodrigues, poeta convidado




TRÊS POEMAS



1

que te chame hoje
camélia ainda em botão
consente


quero amanhã
abrir-te em minha mão
transfigurada


fugaz arco-íris de pétalas
efémera rosácea de sol
veemente


possa agora
depor em tua face repleta
de lábios meus beijos
como terna borboleta





2

revestirei o teu corpo
apenas com o pijama
incandescente 
do meu em chama 

a noite assim quero 
em labareda viva
ainda em ti esperto
de novo adormecer 

depois despir mas só depois 
pacientemente como quem
subtis nós de seda solta
e prende um só corpo em dois





3

de novo amor hoje façamos
deste lençol de puro linho
a túnica breve do corpo vizinho
da candente euforia da noite


manhã cedo amanhã recordarás
a seara azul das flores imponderáveis


onde um dia lembras-te ao entardecer
as longas e lentas tranças entrelaçavas
e um primeiro ramo tímido de miosótis
inventei para te coroar no meu peito




 © dos poemas: David F. Rodrigues; do desenho: pintor Salvador Vieira; da foto abaixo: Amadeu Baptista






David F. Rodrigues nasceu em Março de 1949, em Mato-Ponte de Lima. Já viveu em Braga. Reside, desde 1985, na cidade de Viana do Castelo. Trabalhou, como estudante (1957-1974) e como professor (1972-2009), durante 52 anos consecutivos. É licenciado em Filosofia e Humanidades, pela Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa, e mestre e doutor em Linguística (especialidade de Teoria do Texto) pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Além de trabalhos de investigação realizados e de artigos (publicados) na área da sua especialidade, dedica-se também à criação literária, tendo publicado poesia e narrativas, com destaque para, no domínio do primeiro modo, O Rito do Pão (Coimbra, 1981), Dilúvio de Chamas (Porto, 1985) e O Que É Feito de Nós (Viana do Castelo, 1988); e, no domínio do segundo, Troféus de Caça (Coimbra, 1982) e Presépio de Pão (Viana do Castelo, 1984). Tem poemas, contos, crónicas, recensões e estudos publicados em páginas literárias de jornais e revistas de Portugal, Angola, Brasil e Galiza. Fez parte do Conselho de Redacção da revista Mealibra e das edições «Cronos/ Poesia» do Centro Cultural do Alto Minho, bem como da editora Límia. Coordenou o Conselho Editorial de IPVC-Academia, revista do Instituto Politécnico de Viana do Castelo. Aposentado desde 2009, morrerá, involuntariamente, na devida altura.

sábado, 21 de junho de 2014

Luís Vaz de Camões



UM SONETO DE CAMÕES



Busque Amor novas artes, novo engenho 
Para matar-me, e novas esquivanças; 
Que não pode tirar-me as esperanças, 
Que mal me tirará o que eu não tenho. 

Olhai de que esperanças me mantenho! 
Vede que perigosas seguranças! 
Pois não temo contrastes nem mudanças, 
Andando em bravo mar, perdido o lenho. 

Mas conquanto não pode haver desgosto 
Onde esperança falta, lá me esconde 
Amor um mal, que mata e não se vê. 

Que dias há que na alma me tem posto 
Um não sei quê, que nasce não sei onde; 
Vem não sei como; e dói não sei porquê. 

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"




sexta-feira, 20 de junho de 2014

Um pouco acima da miséria



Tenho livro novo, acabado de editar na Galiza pela editora Espiral Maior, na sequência de ter ganho, no ano passado, o XXIX Prémio de Poesia Cidade de Ourense. Deste livro sairá muito em breve a edição portuguesa, que presumo será distribuída nos inícios de Setembro, com a chancela da &Etc.


Aqui deixo o poema que tem início na página 103:





UM SONHO DE JORGE LUÍS BORGES

A máscara pertence ao domínio
de quem vem ao palco agradecer três vezes
e corre perigo demasiado tempo
para encontrar a essência.

Atrás da coluna a máscara conclama
os sátiros da república, a procissão sacerdotal,
as linhas de angústia do real,
os bárbaros que estão no meio de nós.

No proscénio, alguém usa a máscara sob a fantasia
de coração arrebatado e credores à porta,
enquanto a acção decorre alheia à sedição
e o homem de joelhos suplica.

À luz contemporânea a máscara vai
de taberna em taberna à espera que o absinto
volte de novo ao encanto
e às ramificações esplendorosas do quotidiano.

A máscara do algoz será mais requisitada
depois do curso unívoco dos nossos predadores,
e em chapas metálicas de alumínio
reverterá em favor da eternidade.

Esta máscara simples e surpreendente
é o litígio, os sete pecados capitais;
em cada incandescência
a pantomina condena-nos à excrescência.

Esta será a máscara de Keats, ou mesmo de Pessoa.
Os poetas são da ciência obscura o vaticínio,
haja ainda alguma estrela para ver
sob o céu sem estrelas que nos coube.

Também a máscara do rigor se apresenta
neste constrangimento;
o corpo escava a escarpa
e o ruído de fundo é o demónio a marcar território.

Raiz e precipício é a máscara da morte
quando corre o vinho pelas gargantas
para contagiar quem vê e aplaude,
os dois dias da vida, os três do carnaval.

Observe-se esta máscara quase derradeira
que passa nos bastidores e não entra em cena.
Morto de fome o povo vem atrás
e acena à prosperidade infinita da cidade.

Em literatura a máscara ou a cabeça
induz à clonagem e à queimadura.
Sob o cérebro o olhar é mais severo
e a máscara prolixa, sempre irreversível.

A soletrar um verso, não obstante
os centros comerciais e os bancos ingleses,
vem a máscara de novo à cena
dizer que a vergonha engendra mais vergonha.

A máscara expectante, a máscara do drama.
Quando voltarmos a casa o filme a cores enfada,
tornámo-nos gente impaciente a afivelar
a máscara do sortilégio ausente.

A máscara da tragédia vem ao poema
corroborar a faca, a liga, o sindicato.
Não é nunca a máscara mais que ornato,
acontece tantas vezes no nosso assassinato.

A máscara interior, o seu diálogo
perdido entre o onanismo e a festividade:
tantas vezes vai o cântaro à fonte
que chove dentro de casa.

A máscara dos iníquos, a máscara dos equídeos.
De vazio em vazio passamos brandamente
e só o actor sabe como a cicatriz reluz
e só a actriz sabe como cicatriza a luz.

A máscara do amor: a secreta paisagem
que nos traz aqui em busca da nossa própria máscara.
Adeus penumbra e imensidão de lágrimas,
cabe ao poeta a máscara da ternura.



(in Um Pouco Acima da Miséria. Espiral Maior, Corunha, Espanha, 2014)



© Amadeu Baptista








quinta-feira, 19 de junho de 2014

UM POEMA EM QUE SE FALA DE UM MONARCA ESPANHOL NO DIA DA PROCLAMAÇÃO DE FELIPE VI, NOVO REI DE ESPANHA


GOYA: A FAMÍLIA DE D. CARLOS IV (1801)

(para Táti Mancebo e Alfredo Ferreiro)

Assim como há o cinismo,
há uma gramática do cinismo.

Cada mestre usa o seu
à luz do seu compêndio,
com  forças à deriva,
e consubstanciando
o alarde da pintura.

Tomemos o exemplo
da família real,
esta ou qualquer outra.

Se olharmos bem os rostos
vemos o que Deus
falha no mundo

– as insipiências
onde a criação é um malogro.

Mas o cínico sou eu,
embora o Príncipe
esteja talhado para a maldade,
com o corpo a três quartos,
olhando para trás,
sem profundidade,
mas a arrogância que é própria dos príncipes.

O Rei é uma amálgama de sucata,
que a idade sutura
e um certo ai que não dói
que se escuta em toda a corte,
lavando-lhe as mãos
na promiscuidade,
enquanto acata as ordens da Rainha.

Esta, ao centro do painel,
é só os braços
que mostra por contraste
com a riqueza insultuosa do vestido
paramentado de rendas espanholas
e formas que, há muito,
exercem a lascívia
a bom recato.

O mais são tétricas figuras,
que uma Princesa apoia colocando a altivez
em contraponto com gente impaciente pelo almoço
e as fatias de presunto quando a tarde
os puser a caminho do curral.

Lamento que a pintura não faça ouvir
os ruídos da rua,
o povo com os sacos de carvão sobre os ombros
e as putas com os ombros sobre os sacos de carvão.

Lá fora o mundo é a mais valia
do conjunto,
sendo que tudo está lubrificado
para que se note o estupro
e seja Deus, Nosso Senhor, crucificado.

E o cínico sou eu.

Por isso, à esquerda,
onde há um ponto de luz
que a sombra alcança,
olho de esguelha o universo
e quase que parece que sorrio.

Não é verdade.

A esse canto,
onde fito como posso os que estão,
sendo que os vejo de frente
e de joelhos,
queixando-se do reumático,
apenas conjecturo
como há aberrações
que podem tudo.

Passei por Moncloa
a um fim de tarde,
começava Maio
e dos campos desprendia-se
o odor sereno e violento
que há na terra.

E vi
como os massacres são, ainda,
o pão de cada dia,
por mais ou menos cínicas
que sejam as pinturas,
ou as armas estejam prontas para o abate.

E o meu coração
anotou tudo:

– a luz, sempre vital,
o pelotão de anónimos
e as suas vítimas,
a centelha de fogo,
ou água,
no olhar do condenado.

E, já tendo visto tudo,
quero dizer,
já tendo visto em excesso
deste excesso de vergonha
sem vergonha,
aferi o meu lugar
na tábua rasa em que vivo,
e morro,
e, sem sonhos, durmo.

Preciso de água forte para dessedentar
o rumo a que o desespero obriga,
pincéis de cerdas duras,
espátulas cortantes,
paletas invisíveis
onde as cores, fortíssimas, latejem.

Preciso de fulgores
e circunstâncias
onde uma ardência nos olhos possa ser
um sinal
de redenção,

enquanto o povo
é à míngua que morre
e eu, cínico sendo,
página a página leio este compêndio
que os cínicos maiores que o meu cinismo
instituíram.

Pudesse eu regressar a Fuendetodos,
ou fazer pintura sacra,
cheia de entorses e nervos,
com o Cristo ladeado de ladrões,
como eu estou.

Provavelmente,
entre a maga vestida e a desnuda,
preferiria chorar
até ao fim do mundo,
chorar
e abrir as veias:

para que o sangue corresse
e a pintura tomasse um outro rumo
de cores,
difusas, se possível,
repartidas.

Mas eis que a doença chega
e a vivacidade se esvai,
e estou cego
e totalmente surdo

e sou, assim, o cínico do retrato
a conferir ao mundo o mundo retratado
e os seus caprichos,
enquanto os desastres
e a guerra submeto
nas gravuras.

Já nem sei o que digo,
o tempo sobrevoa-me as têmporas
e onde estive não estou,
estando sempre
algures,
mais ano para a frente ou para trás,
mais cão ou menos cão nas telas,
mais cínico ou menos cínico
entre os cínicos.

O Príncipe, o Rei e a Rainha:
vesti-os de cores vivas
e, contudo, é de luto que está a minha arte,
porque, por esta comitiva,
nem para a eternidade
ressuscito.

Mas persisto.

Para isso é que o cinismo
recebe do cinismo
moedas de oiro,
e posso, quando posso,
com o branco de espanha
misturar azul cerúleo,
e ao verde-bétula
juntar óxido de ferro,
para que o esplendor da luz
seja o que é, na obra:

–  fútil, sem glória,
como é cada guerra,
embora lute sempre,

e não lhes dê tréguas, nunca.

Este é meu tempo:
tomai e bebei.

Este é meu tempo,
tomai e comei.

Por mim, como sempre, estou
cheio de fome.



(in 'Doze Cantos do Mundo', Sintra, 2009)


© Amadeu Baptista







(pintura de Francisco Goya, 'A Família de Carlos IV', óleo / tela, 2.80 x 3.40 m, 1801, Museu do Prado)

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Lennart Sjögren





                                                    POEMAS DE LENNART SJÖGREN








E a folha da bétula foi encontrada
longe no alto mar
lá onde descansava
no seu próprio barco verdejante

Havet, 1974




A ERVA

Não é a gadanha a que morde a erva
é a erva que por fim
Devora a gadanha convertendo-a numa folha finíssima sem aço
– anestesiada até ao óxido
logo adormece
na erva crescida.

Stockholms Central och andra folklivsdikter, 1980



IMAGEM CIDADÃ

Vi uma cabeça de lúcio
levantar-se sobre a praça
vi um ganso grande, era mais alto
que a câmara municipal
e tinha mais poder.
 Eu, visitante das cidades pequenas do mundo,
senti que se me enrugava a pele
quando o lúcio a falar de mágoas
 e da indescritível alegria
de pascer a erva
da ribeira do rio.

Dagen före plöjarens kväll, 1984




O REMO

O que encontra um remo partido
não pode dizer com segurança
que tenha sucedido um naufrágio

mas é provável que um remador
tenha caído à água

pode ocorrer-lhe uma deslembrança
o seu nome
deixou-o ir na corrente
e renunciou às possibilidades do remo.

Dagen före plöjarens kväll, 1984




O NEVÃO

Não me perguntes como se detém o sangue
nas feridas que se não vêem

e não me perguntes onde
está essa pátria que ainda merece a pena defender

preferível é que me perguntes algo
sobre o nevão que cai
podemos reunir-nos
para falar de como o que não tem esperança
tem a sua própria esperança

e de como esses que estiveram tanto tempo angustiados
pela morte
se sentem arrebatados de alegria no tempo dos nevões.

I vattenfägelns tid, 1985




QUEM NÃO SONHA

Vi uma ratazana cruzar a estrada
tinha rosto humano
era uma rata pequena
menor que o meu sapato.
Perguntou-me que direcção tomar para ir ao lugar
onde pudesse morrer em paz.
Como ia responder-lhe a semelhante pergunta
que tão parecida era com a minha.
Tentei-o com uma palavras semi-bíblicas:
vai ao lugar onde os mortos enterram
os seus mortos – talvez seja no oeste.
Mas não serviu de nada
e quando as modifiquei:
vai ao lugar onde os nascidos
com os ainda vivos – talvez seja no este,
e inteira-te se aí podes conseguir
uma morte a preço razoável,
já tinha desaparecido.

E quem não sonha com uma morte serena
– quanto mais cedo melhor, dizem alguns,
mas com isso não querem dizer nada.
Tinha-se gelado aquele dia
ou era verão – não me recordo
mas os sonhos estavam alienados ao longo da estrada
não completamente diferentes de pássaros erguidos sem asas.

I vattenfägelns tid, 1985




ENCRUZILHADA

Compara a noite com um carro negro
e a manhã com um carro caído
mas que imagens cobrirão
a dúvida que surge
numa encruzilhada
como esta
em que uma criança cega guia
um cavalo de madeira.

Ormens tid, 1992




Sonhei bastante tempo
que viajava entre beduínos
caminhávamos de manhã em manhã
e de noite a noite

as miragens rodeavam-nos

por rezar a algum deus
era o grão de areia
o que punha os desertos em movimento

Ormens tid, 1992



Versão minha - © Amadeu Baptista







Lennart Sjögren (1930).  Nasceu na ilha de Öland. Estudou arte e é artista gráfico. O seu primeiro livro de poesia data de 1958. A sua poesia está centrada nos animais e na observação da natureza. Recebeu o prémio Carl Emil Englund.