quinta-feira, 19 de junho de 2014

UM POEMA EM QUE SE FALA DE UM MONARCA ESPANHOL NO DIA DA PROCLAMAÇÃO DE FELIPE VI, NOVO REI DE ESPANHA


GOYA: A FAMÍLIA DE D. CARLOS IV (1801)

(para Táti Mancebo e Alfredo Ferreiro)

Assim como há o cinismo,
há uma gramática do cinismo.

Cada mestre usa o seu
à luz do seu compêndio,
com  forças à deriva,
e consubstanciando
o alarde da pintura.

Tomemos o exemplo
da família real,
esta ou qualquer outra.

Se olharmos bem os rostos
vemos o que Deus
falha no mundo

– as insipiências
onde a criação é um malogro.

Mas o cínico sou eu,
embora o Príncipe
esteja talhado para a maldade,
com o corpo a três quartos,
olhando para trás,
sem profundidade,
mas a arrogância que é própria dos príncipes.

O Rei é uma amálgama de sucata,
que a idade sutura
e um certo ai que não dói
que se escuta em toda a corte,
lavando-lhe as mãos
na promiscuidade,
enquanto acata as ordens da Rainha.

Esta, ao centro do painel,
é só os braços
que mostra por contraste
com a riqueza insultuosa do vestido
paramentado de rendas espanholas
e formas que, há muito,
exercem a lascívia
a bom recato.

O mais são tétricas figuras,
que uma Princesa apoia colocando a altivez
em contraponto com gente impaciente pelo almoço
e as fatias de presunto quando a tarde
os puser a caminho do curral.

Lamento que a pintura não faça ouvir
os ruídos da rua,
o povo com os sacos de carvão sobre os ombros
e as putas com os ombros sobre os sacos de carvão.

Lá fora o mundo é a mais valia
do conjunto,
sendo que tudo está lubrificado
para que se note o estupro
e seja Deus, Nosso Senhor, crucificado.

E o cínico sou eu.

Por isso, à esquerda,
onde há um ponto de luz
que a sombra alcança,
olho de esguelha o universo
e quase que parece que sorrio.

Não é verdade.

A esse canto,
onde fito como posso os que estão,
sendo que os vejo de frente
e de joelhos,
queixando-se do reumático,
apenas conjecturo
como há aberrações
que podem tudo.

Passei por Moncloa
a um fim de tarde,
começava Maio
e dos campos desprendia-se
o odor sereno e violento
que há na terra.

E vi
como os massacres são, ainda,
o pão de cada dia,
por mais ou menos cínicas
que sejam as pinturas,
ou as armas estejam prontas para o abate.

E o meu coração
anotou tudo:

– a luz, sempre vital,
o pelotão de anónimos
e as suas vítimas,
a centelha de fogo,
ou água,
no olhar do condenado.

E, já tendo visto tudo,
quero dizer,
já tendo visto em excesso
deste excesso de vergonha
sem vergonha,
aferi o meu lugar
na tábua rasa em que vivo,
e morro,
e, sem sonhos, durmo.

Preciso de água forte para dessedentar
o rumo a que o desespero obriga,
pincéis de cerdas duras,
espátulas cortantes,
paletas invisíveis
onde as cores, fortíssimas, latejem.

Preciso de fulgores
e circunstâncias
onde uma ardência nos olhos possa ser
um sinal
de redenção,

enquanto o povo
é à míngua que morre
e eu, cínico sendo,
página a página leio este compêndio
que os cínicos maiores que o meu cinismo
instituíram.

Pudesse eu regressar a Fuendetodos,
ou fazer pintura sacra,
cheia de entorses e nervos,
com o Cristo ladeado de ladrões,
como eu estou.

Provavelmente,
entre a maga vestida e a desnuda,
preferiria chorar
até ao fim do mundo,
chorar
e abrir as veias:

para que o sangue corresse
e a pintura tomasse um outro rumo
de cores,
difusas, se possível,
repartidas.

Mas eis que a doença chega
e a vivacidade se esvai,
e estou cego
e totalmente surdo

e sou, assim, o cínico do retrato
a conferir ao mundo o mundo retratado
e os seus caprichos,
enquanto os desastres
e a guerra submeto
nas gravuras.

Já nem sei o que digo,
o tempo sobrevoa-me as têmporas
e onde estive não estou,
estando sempre
algures,
mais ano para a frente ou para trás,
mais cão ou menos cão nas telas,
mais cínico ou menos cínico
entre os cínicos.

O Príncipe, o Rei e a Rainha:
vesti-os de cores vivas
e, contudo, é de luto que está a minha arte,
porque, por esta comitiva,
nem para a eternidade
ressuscito.

Mas persisto.

Para isso é que o cinismo
recebe do cinismo
moedas de oiro,
e posso, quando posso,
com o branco de espanha
misturar azul cerúleo,
e ao verde-bétula
juntar óxido de ferro,
para que o esplendor da luz
seja o que é, na obra:

–  fútil, sem glória,
como é cada guerra,
embora lute sempre,

e não lhes dê tréguas, nunca.

Este é meu tempo:
tomai e bebei.

Este é meu tempo,
tomai e comei.

Por mim, como sempre, estou
cheio de fome.



(in 'Doze Cantos do Mundo', Sintra, 2009)


© Amadeu Baptista







(pintura de Francisco Goya, 'A Família de Carlos IV', óleo / tela, 2.80 x 3.40 m, 1801, Museu do Prado)

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Lennart Sjögren





                                                    POEMAS DE LENNART SJÖGREN








E a folha da bétula foi encontrada
longe no alto mar
lá onde descansava
no seu próprio barco verdejante

Havet, 1974




A ERVA

Não é a gadanha a que morde a erva
é a erva que por fim
Devora a gadanha convertendo-a numa folha finíssima sem aço
– anestesiada até ao óxido
logo adormece
na erva crescida.

Stockholms Central och andra folklivsdikter, 1980



IMAGEM CIDADÃ

Vi uma cabeça de lúcio
levantar-se sobre a praça
vi um ganso grande, era mais alto
que a câmara municipal
e tinha mais poder.
 Eu, visitante das cidades pequenas do mundo,
senti que se me enrugava a pele
quando o lúcio a falar de mágoas
 e da indescritível alegria
de pascer a erva
da ribeira do rio.

Dagen före plöjarens kväll, 1984




O REMO

O que encontra um remo partido
não pode dizer com segurança
que tenha sucedido um naufrágio

mas é provável que um remador
tenha caído à água

pode ocorrer-lhe uma deslembrança
o seu nome
deixou-o ir na corrente
e renunciou às possibilidades do remo.

Dagen före plöjarens kväll, 1984




O NEVÃO

Não me perguntes como se detém o sangue
nas feridas que se não vêem

e não me perguntes onde
está essa pátria que ainda merece a pena defender

preferível é que me perguntes algo
sobre o nevão que cai
podemos reunir-nos
para falar de como o que não tem esperança
tem a sua própria esperança

e de como esses que estiveram tanto tempo angustiados
pela morte
se sentem arrebatados de alegria no tempo dos nevões.

I vattenfägelns tid, 1985




QUEM NÃO SONHA

Vi uma ratazana cruzar a estrada
tinha rosto humano
era uma rata pequena
menor que o meu sapato.
Perguntou-me que direcção tomar para ir ao lugar
onde pudesse morrer em paz.
Como ia responder-lhe a semelhante pergunta
que tão parecida era com a minha.
Tentei-o com uma palavras semi-bíblicas:
vai ao lugar onde os mortos enterram
os seus mortos – talvez seja no oeste.
Mas não serviu de nada
e quando as modifiquei:
vai ao lugar onde os nascidos
com os ainda vivos – talvez seja no este,
e inteira-te se aí podes conseguir
uma morte a preço razoável,
já tinha desaparecido.

E quem não sonha com uma morte serena
– quanto mais cedo melhor, dizem alguns,
mas com isso não querem dizer nada.
Tinha-se gelado aquele dia
ou era verão – não me recordo
mas os sonhos estavam alienados ao longo da estrada
não completamente diferentes de pássaros erguidos sem asas.

I vattenfägelns tid, 1985




ENCRUZILHADA

Compara a noite com um carro negro
e a manhã com um carro caído
mas que imagens cobrirão
a dúvida que surge
numa encruzilhada
como esta
em que uma criança cega guia
um cavalo de madeira.

Ormens tid, 1992




Sonhei bastante tempo
que viajava entre beduínos
caminhávamos de manhã em manhã
e de noite a noite

as miragens rodeavam-nos

por rezar a algum deus
era o grão de areia
o que punha os desertos em movimento

Ormens tid, 1992



Versão minha - © Amadeu Baptista







Lennart Sjögren (1930).  Nasceu na ilha de Öland. Estudou arte e é artista gráfico. O seu primeiro livro de poesia data de 1958. A sua poesia está centrada nos animais e na observação da natureza. Recebeu o prémio Carl Emil Englund.






segunda-feira, 16 de junho de 2014

Vitor Vicente



VITOR VICENTE, POETA CONVIDADO


TRÊS POEMAS




KADISH PARA MAGDALENA W. 1971-2012 (QUASE EM KATOWICE)


Nunca a conheci, mas sei que sempre sentirei saudades suas.
Deste mundo, batido a teclado e entre um monitor e outro,
Guardarei as nossas memórias numa gaveta ou num guarda-roupa
Simbólicos, à semelhança da mobília dos quartos de hotel onde
Não nos amámos e que ficaram permanentemente pendentes.
Tínhamo-nos por irmãos. Tanto maior a irmandade, maior o
Incesto. Gémeos e génios, logo imperfeitos. Socialmente
Inadequados, separados no amalbençoado tempo do berço.
Serve todo este cinismo para que me seja permitido tratar o seu
Túmulo por tu. Ainda que nem no túmulo me dará honras de visita.
A seu pedido, suas cinzas serão levadas da Polónia e espalhadas
Nas colinas de Jerusalém. Onde, afinal de contas, daqui de Dublin
Ou de Katowice, vou todo o santo dia. Talvez por isto, tudo será como
Antes e continuaremos a conversar à distância. Sempre, sempre
Sem a ver e sem a ouvir. Sempre a senti-la de perto. Com a diferença de
Que, em vez de ansiedade por conhecê-la, sentirei saudades dela,
Sem que nunca a sequer tenha conhecido.




UM RELÓGIO CHAMADO ROSA (AINDA EM DUBLIN)

O ponteiro deste relógio é sem porquê. Sem que me
Dê uma resposta, o despertador toca. Volta a tocar,
Como quem riposta. Abro os olhos e vejo que os ponteiros
Estão deitados um sobre o outro e que ela não está mais a
Meu lado. Aquela que me tentava agarrar como uma (e cito-a)
“ Spider”. Ainda que não me tenha levantado, estou acordado.
Pelo menos, acordado para a pessoa que, algures na Foz do
Iguaçu, me deu este despertador e para o fato de, dias depois,
Ter começado a acordar ao lado de outra pessoa durante muitos dias,
Meses, mais de um ano, quase dois, o tempo suficiente para pensar
Que a seu lado iria acordar numa sucessão de dias que supomos
Ser infindável. Também estou desperto para o dia em que me
Despedi daquela me deu o despertador e que me disse:
“Vais sair deste quarto e nunca mais te vou ver”. Era verdade.
Confirmo, assim como, cabisbaixo, me envaideço e envergonho
Doutra verdade. Que, desde então, tenho sido despertado ao lado
De muitas mulheres que não voltei a ver no dia seguinte - algumas
Das quais não as voltei a ver nunca mais. O que não quer dizer
Que tenha aprendido a lidar com despedidas. Quando toca a
Pequena-morte, desmancham-se os mestres.




PRINCESA NEDA-MAIS-QUE-TUDO (DEBANDA DE BANGKOK)

Princesa de uma Pérsia mais que perdida,
Princesa sem preço, intocável. Exilada
No aparente distante reino da Tailândia.
Enquanto o seu principiado se esconde,
Atabalhoado,atrás das burkas, e, pelos
Buracos das ditas, espreita a réstia de estrelas
– Lá longe, ainda que no mesmo continente -
Ela veio à procura da vida. Quando a verdade
É que viver assim, encadeada pela alucinante
lâmina da lucidez, é viver sob o jugo do verdugo.




 © dos poemas; Vitor Vicente; da foto abaixo: Amadeu Baptista






Vitor Vicente, nasceu no Barreiro, em 1983. Em 2006 radicou-se em Barcelona e em 2010 em Dublin. Encontra-se em nova fase de mudança, desta vez para Katowice. Viajou por 50 países. Publicações: três livros de poesia, um diário e uma peça de teatro, além de crónicas e contos em revistas em Portugal, Brasil e Espanha. Blogs: autor de Diáspora de Dublin (http://portuguesevagamundo.blogspot.com/) e colaborador de Lisboa-Jerusalém (http://lisboa-telaviv.blogspot.com/)

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Claes Andersson




POEMAS DE CLAES ANDERSSON




CASO 232

Onde vamos dormir esta noite
Onde vamos aquecer as mãos roxas de frio esta noite
Se se é dois está-se um pouco mais quente
Apertamo-nos um contra o outro
Aquecemo-nos um ao outro as mãos entre as pernas
Avisa-me se sentes que estás a morrer
Porque então levas todo o meu calor e acordo gelado

Det är inte lätt att vara villaägare i dessa tider, 1969




O SOCIÓLOGO BURGUÊS COMO SALTADOR À VARA

Respira profundamente e arranja a gravata
Escarva ligeiramente com o pé e contempla a fasquia
que remonta nas alturas – a revolução estudantil –
Um último olhar para a tribuna, agora
inicia a corrida, acelera, coloca a vara
na fenda, eleva-se no ar
e fecha os olhos
Um momento depois, no colchão de espuma do fosso,
olha para o alto
A fasquia permanece no lugar

O público das tribunas aclama-o
Indiferente recebe os aplausos
Como não se deu conta ninguém
de que passou muito por baixo da fasquia?

Que nem sequer a roçou?
O público é míope e de idade avançada
Aos funcionários da competição pagam bem
Subam a fasquia! ordena displicente
Respira profundamente e arranja a gravata

Det är inte lätt att vara villaägare i dessa tider, 1969





Sob o esplendoroso verdor da bétula
entre resplandecentes lilases em flor, no meio de uma nuvem
de mosquitos está tombado um homem ilustrado a ler:
introdução à teoria económica do marxismo
Sente profundamente o aroma da bétula
O intenso perfume dos lilases adormece-o
e fica adormecido, com o livro
sob a cabeça, o imenso sonho
no coração.
Quando desperta já é outono
A bétula amarelece, os lilases estão murchos, os mosquitos
morreram de frio, os exploradores engordaram
Ele continua a ler de onde tinha ficado

Bli tillsammans, 1970





Amar é respeitar
A independência do ser amado
Assim concebo eu o amor
Onde raio se meteu esta mulher

Bli tillsammans, 1970




NÃO OLHAM A MEIOS

Acautela-te daquele que diz representar
a voz de muitos.
Talvez o faça.

Acautela-te daquele que diz falar
apenas por sua conta.
Talvez o faça.

Acautela-te daquele que só acena
com a cabeça.
Amanhã o aceno pode afectar-te a ti.

Acautela-te daqueles que só querem viver
a sua vida em paz.
Não olham a meios.

Rumskamrater, 1974





Roubai-nos e chamai-o economia nacional.
Tirai-nos as nossas casas e chamai-o planificação regional.
Humilhai-nos e chamai-o assistência social.
Ponde-nos loucos e chamai-o higiene mental.
Envenenai-nos e chamai-o conservação do meio ambiente.
Adormecei-nos e chamai-o ideologia de consumo.
Deixai-nos no desemprego e chamai-o reconversão.
Confundi-nos e chamai-o publicidade.
Vendei os nossos corpos e chamai-o liberdade sexual.
Enganai-nos e chamai-o política de rendas.
Coisificai-nos e chamai-o nível de vida.
Escarnecei do nossos trabalho e chamai-o reforma antecipada.
Menti-nos e chamai-o liberdade de expressão.
Tiranizai-nos e chamai-o democracia.

Rumskamrater, 1974




Numa só noite o jardim converteu-se em algo gelado e branco
As crianças saíram correndo para o jardim e transformaram-se em duas
estridentes bolas de neve que rodavam de um lado para o outro
Recordo a sensação que me provocou a sua alegria
Agora estou congelado até ao fundo como o arroio que se deteve
preso por um rio excessivamente violento
O que vamos fazer com tudo o que sabemos?
Os optimistas impenitentes não fazem ninguém feliz
Cada vez há mais gente que dirige os olhos para o seu interior, até essa
    deformação
As bolas de neve entram rodando e deixam pocinhas no chão
Não grito às crianças, poderia
chorar de alegria por tê-las comigo
um pouco mais de tempo
O que mais amamos é o que já estamos a sentir a falta
Na época dos ismos o vermelho era todavia a cor da esperança
Não o do sangue derramado sem sentido, não o dos khmeres,
não o do grandes arquipélagos…
No entanto eu não tenho forças para viver no passado e no futuro
todo o tempo, para ansiar o que desapareceu, recordar o futuro

Tillkortakommanden, 1981






(para Pentti Linkolla)

A certeza da catástrofe ecológica paralisa-nos
Reagimos de diferentes maneiras, tu crês no Baader & Meinhof
A alguns mete-se na cabeça que já nada significa nada
Outros pensam que agora o que importa é viver de verdade enquanto
reste algo para viver
Um odor como de ratazanas introduz-se furtivamente nas nossas
    conversas
Procuramos biombos, não queremos saber para nada das tuas ideias:
das guerras como algo necessário e desejável
da solidariedade como o mais factídico do ponto de vista ecológico
Adam Smith e Keines transformaram-se em fantasmas da nossa
    infância
A ideia de que apesar de tudo Malthus tinha razão tortura-nos, ao
    menos a alguns de nós
Eu apenas vi fotos das selvas do Brasil e das suas feridas
No entanto penso nelas como nos pulmões dos meus filhos
É simplesmente muito difícil renunciar ao humanismo, que
tantos privilégios nossos e dos nossos amigos legitimava
Se todos alcançam o meu alto nível de vida, dizes, acaba-se toda a esperança
Tu estás descontente com as nossas tentativas de cortar, como dizemos
Odeias-nos a nós que te levamos a sério, fazendo-nos por exemplo
    vegetarianos
Vamos a cursos de jejum, de meditação, ao solário, massagem eléctrica,
    body-building
Ponho uma fotografia do «homem mais gordo do mundo» em cima do
    frigorífico
O pior é o capitalismo e o socialismo têm o mesmo motor:
Mais! Maior! Mais depressa!
Estava-se melhor pois em 1848, inclusivamente em 1871. A Fé da Esperança e
    o Amor sentiam-se mais firmes
Já não nos perguntamos o que será de nós e dos nossos filhos
Somos a geração três mil de seres humanos, dizes
No entanto eu só tenho forças para pensar na três mil e um
As crianças pediram um vídeo como prenda de Natal~
No meu caso aí está o limite, pelo menos este ano

Tillkortakommanden, 1981





Quando nasci Helsínquia era uma cidade
de tamanho médio com ruas calcetadas
Uns anos depois estalou a guerra
Eu acabava de aprender a calar-me
Após os bombardeamentos havia senhoras idosas
dispersas pelas ruas Tratavam de nos matar a todos
Não havia ordem alguma
Numa das noites fanáticas em tudo ficou negro
a minha mãe levou-me para o refúgio
Depois desapareceu, ela não tinha olhos
Havia frio e humidade e escuridão
Notava-se nos pulmões
Ali havia uma porta de ferro que era proibido abrir
Quando fechei os olhos a casa transformou-se
num balanço de teia de aranha onde estavam suspensos
todos os mortos em compridas cordas no corredor do sótão
Justamente quando caiu ali perto uma bomba estavam-se a abraçar a mamã
    e o papá pela última vez
como num filme interditado a menores
As sirenes de alarme tinham-se posto loucas, entrevam-me
nos ouvidos através dos tampões
O papá nunca estava lá embora eu não pensasse nisso
Descia o meu gato branco à cave Estivemos ali
tanto tempo que ficou cego e fugiu
Alguém o encontrou com a cabeça esmagada num caixote
onde se punha Papel de jornal
Reconheci-o, claro, compreendi que
não se podia confiar em ninguém
Não chorei, estava completamente seco
Senti que me apartava de mim e vi-me
caído ali mesmo sem cabeça
Susti a respiração para que o meu gato recuperasse
Não o consegui
Os meus pulmões eram imprestáveis, em breve ia morrer
Vivíamos na água sob a capa de gelo
Eu era uma criança tranquila, desfazia a cabeça
às ratazanas com a minha espingarda de ar comprimido
Era demasiado doentio respirar
Algo se movia como um pêndulo de um  lado a outro
no fundo baixo da água
Pareciam os restos de uma criança pequena
com calças de golf que tinha ficado gelado sob o gelo

Under, 1984





Justamente agora encontro-me onde prefiro estar
            por cima de tudo.
Justamente agora a paisagem é o que prefiro contemplar.
A que dorme na minha cama é aquela com quem prefiro
            dormir.
Esta sanduíche sabe melhor que todas as demais sanduíches.
A erva do nosso lado da cerca é mais verde que a do
            outro lado.
Este verão é mais belo que todos os verões da infância,
            todas as outras enfermidades.
A minha nostalgia é maior que qualquer outra com que tenha topado.
Não mudaria o meu rosto no espelho por todos
            os espelhos do mundo.

Huden där den är som tunnast 1991





Toca a pele aí onde mais fina é.
Humedece com a língua os lugares mais sensíveis.
Não introduzas pregos no coração da tua amada.
Quando voam pássaros através de nós ganhamos asas.
O que tem forças para chorar não se afoga.
Não houve ninguém tão protegido como nós entusiastas.
Lá onde acontece cresce agora uma cama de flores.

Huden där den är som tunnast 1991





Uma pessoa congelada não se deve
            descongelar demasiado depressa.
As células transbordam, as paredes rompem-se,
            o coração pára.
Não ponhas nunca uma pessoa congelada
            no micro-ondas.
Põem-na numa cama dura num quarto
            que dê para o norte, abre todas as janelas.
Não lhe dês mantas nem almofadões,
            o que precisa é de firmeza.
Quando comece a pedir água aos gritos, atira-lhe
            uns pedaços de gelo.
Quando tiver fome, umas côdeas de pão.
Não estejas demasiado tempo no quarto
            para que não te tome o afecto.
Necessita solidão, isolamento.
Dá-lhe para se abrigar um pedaço de pano grosso.
Quando por fim tiver recuperado algum do seu calor
            falar-te-á de paisagens de uma
                        particular beleza e esterilidade.
Isto sabem-no todos os exploradores polares, os alpinistas,
    os sem-abrigo e os médicos dos cuidados intensivos.

Huden där den är som tunnast 1991


O que temos em falta nunca o perdemos nunca.
Ao que amámos sentimo-lo em falta sempre.
Não perdemos nunca o que amamos.
O que amámos amamo-lo sempre.

Dikter från havets botten, 1993



Versão minha - © Amadeu Baptista









Claes Andersson (1937). Nasceu em Helsínquia. É médico psiquiatra. Nos anos sessenta do séc. XX foi director da revista FBT. Foi presidente da Sociedade de Autores da Finlândia (de expressão sueca). Poeta, romancista, dramaturgo. Tradutor para sueco de autores finlandeses.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

OLE WIVEL




POEMAS DE OLE WIVEL




O PEIXE

Escondes-te
na forma lisa do peixe
e deslizas silencioso na água,
sobes e desces serenamente
com as tuas delicadas barbatanas.
O que vês
com os teus inexpressivos olhos?

À primeira vista sentimos-te
como se fosses hostil aos homens.
A tua boca vazia
conta-nos apenas o que existe
na límpida esfera da bolha
um segundo – e rebenta.

Não fazes mais do que sonhar
na água suave, até ao dia
em que o dia se levante e as ondas
chicoteiem a costa estrondosamente.
Lá jazes tu, ensanguentado
entre espuma e algas – e és o nosso salvador.

I fiskens tegn, 1948




CRIAÇÃO

A assombrosa paisagem sob as minhas mãos –
como um pássaro elevado sobre colinas e bosques,
como uma nuvem que vagueia pelo mundo e o divide
em fulgurações de sol e lagos de sombra
assim percorrem as minhas mãos as tuas ardentes formas.

Agora a tua paisagem inclina-se debaixo de mi na noite –
estamos de pé um contra o outro como céu e mar,
a tormenta arquejante chicoteia as trevas à nossa volta
convertendo-as em espuma branca de fugitivos pedaços de sonhos
e todos os barcos do dia cabeceiam na nossa tormenta.

Agora que o esquecimento nos libertou, já não nos recordamos
do que é névoa de chuva ou bruma de mar.
Atrás dos nossos olhos fechados descansa a madrugada
como uma andorinha que vá estender as suas asas
para nos transformar de novo em mundos separados.

Jœvndøgn, 1956




A CATEDRAL DE COLÓNIA

Os carros passam de largo.
Como um martelo de passado
através do verosímil
e da lei da evolução continua de tudo
vemo-la cicatrizada e explodida
entre as ruas.
Uma pedra sulcada de sonhos
ou melhor:
uma antena do passado
feita para captar as bênçãos do céu
que completamente ignoramos.
Fazemos barulho no seu interior arrastamos cadeiras
vendemos postais gritamos talvez
(como quando se raspa a unha numa pedra).
Mais valia demoli-la
sobrevoá-la
símbolo inútil de estados interiores
que ninguém reconhece (arcos de luz estendidos
sobre o espaço do silêncio). Esforço ultrajante
longe do lugar onde nos encontramos realmente
estes minutos opressivos
e finalmente a embriaguez da morfina.
Calma  e saudade unidas
Elevando-se para o
que é inacessível a análises e provas.
E no entanto ninguém ignora
a existência de sons
que o ouvido não capta.
(A idade e o tabaco debilitam
as papilas gustativas da língua.)
Soa a música sobre as nossas cabeças
E o que vemos
São as engenhosas e vazias estruturas das estantes de música.

Nike, 1958




BOCCA DELLA VERITÀ
Santa Maria de Cosmedin


Que ocultava o poço sobre o qual paira esta cobertura
como o rosto de um sonhador sobre um sonho –
lodo de cloaca lixo água de merda
ou água pura do diurno frio lunar das montanhas?
Agora cravada a um muro junto à porta da igreja
um grito afogado em mármore e olhos desorbitados
passas de longe ante a boca da verdade.

O sagrado sempre é traído por acção
denominação e veneração
Fazer-se imagens à sua própria imagem
cantar para esquecer
receber a hóstia para viver oculto
consagrado no corpo e sangue do sacrificado.
Escuta este arrepiante grito mudo
atrás de ti
renegados que fogem que não suportam
a boca da verdade.

Fora o ruído e a luz
gigantesco pesadelo da metrópole
cambalacho prostituição
necessidades filisteias da legalidade
alquimia da bolsa.
Mas cada um só
combatendo  em vão sob o fogo do sol
posto avançado na borda do abismo
denominado apenas por suportar o inominado
intocável com a morte nos ossos
e a marcha das formigas sobre os dentes nus.

Templet for Kybele, 1961





DI-AN

O presidente Nixon com os cabelos a flutuar ao vento
e barro vietnamita nos seus sapatos enlameados
troca palavras amáveis com
os soldados rasos.
É um dia de julho de 69 na base de Di-an
quando produz a seguinte proclamação
escutada no mais profundo silêncio:

Empreendemos uma tarefa difícil
e temos tido sorte.
Na história se escreverá creio
que nesta guerra de grande amplitude
os Estados Unidos viveram um dos seus momentos de maior glória.

Gravskrifter, 1970





INDIFERENCIADO

Grita-lhe, Job,
fedendo na sombra da morte,
desonrado
por esse déspota que se orgulha
do rinoceronte e do cinturão de Órion.
Grita-lhe
antes de te renderes,
ao indiferenciado deus-tigre
que ignora o grito da criança
em chamas.

Não fomos nós, velho
fanfarrão de baleia e bruxo de estrelas,
os que fizemos uma orgia
de sede de sangue.
O teu filho
expiou a nossa ira contra a tua omnipotência,
vítima-canibal
para que por fim pudesses esfumar-te
nas tuas brumas e névoas
e estender um sol misericordioso
nas marcas do crucificado,
secar  as suas sangrentos cravos
com as tuas lágrimas.




ÍCARO

Estar aqui ao sol
entre gaivotas e peixes,
ouvir o suave ressoar dos vermes
sob a erva.
Os caminhos desertos, as crianças longe
na escola com os inimigos da bola
e sacristães cansados.

Agora tem que ser,
gaivotas e peixes
usam o universo cada qual no
seu fluido elemento,
gritando ou silenciosos
tridimensionalmente
enquanto um don juan caído na praia
com as suas patinhas engorduradas
luta com um mosquito zumbidor.

Voo por entre campanários e ondas,
vejo nadar os peixes para trás
na água clara
entre medusas e algas,
equilibrados e sensíveis à luz
eu:
gaivota-aficcionada,
excelso ou o contrário,
caio para as profundidades
com coração palpitante
contra estas ondas de ladrilho
e voo para casa a coxear,

inválido agradecido. 



Versão minha - © Amadeu Baptista





Ole Wivel (1921- 2004). Nasceu em Copenhague, em cuja Universidade estudou literatura. Fundou uma editora de vanguarda, que publicou a importante revista literária Heretica, de que foi co-director. Estreou-se em livro como poeta em 1948. Professor numa Universidade Popular. Membro da Academia Dinamarquesa a partir de 1964.

terça-feira, 3 de junho de 2014

UM SONETO

os deuses portugueses


os deuses portugueses estão cegos.
recebem sacrifícios, mas vê-se que ignoram
que já não há celeiros nem campos semeados
e que o povo é uma dor com a cruz às costas.

os deuses portugueses estão surdos.
não ouvem como alastra no país
uma praga de impostos que o reduz
à condição de escravo às mãos do inimigo.

os deuses portugueses estão mudos,
como há muitos séculos sempre estiveram,
mas com a agravante agora de que deviam

trazer algum consolo e algum ânimo
aos que sofrem com a fome e a ignomínia.
os deuses portugueses estão loucos.

poema e foto - © Amadeu Baptista






segunda-feira, 2 de junho de 2014

Jorge de Sena

UM POEMA DE JORGE DE SENA



LAMENTO DE UM PAI DE FAMÍLIA



Como pode um homem carregado de filhos e sem fortuna alguma
ser poeta neste tempo de filhos só de puta ou só de putas
sem filhos ? Neste espernegar de canalhas , como pode ser ?
Antes ser gigolô para machos e ou fêmeas , ser pederesta
profissinal que optou pelo riso enternecido dos virtuosos
que se reveêm nele e o decepcionado dos políticos que com ele
não fazem chantage porque não vale a pena . Antes ser denunciante
de amigos e inimigos para ganhar a estima dos poderosos ou
dos partidos políticos que nos chamarão seus génios . Antes
ser corneador de maridos mansos com as mulheres deles fáceis .
Antes reunir conferências de S. Vicente de Paula para roçar
o cu da virtude pelas distracções das sacristias escuras e
e ter o prazer de acudir com camisolinhas aos pobres entre os quais
às vezes aparece um ou uma que dá gosto ver assim tão pobre por
por se lhe verem os pêlos pelos rasgões da camisa ou algo
de mais impressionante para o subconsciente que sempre está nos olhos
que docemente se comovem com a miséria . Antes ir para as guerras
da civilização cristã ou da outra , matar os inimigos da conta corrente
e das fábricas de celofânicas bombas . Antes ser militar .
Ou marafona de circo . Ou santo. Ou demónio doméstico
torcendo as orelhas dos filhos à falta de torcê-las aos filhos
da puta . Ou gato . Ou cão . Ou piolho : Antes correr os riscos do
DDT , das carroças que os municípios têm para os cães suspeitos
de raivosos como todos os cães que se vê não lamberem as partes
das donas ou mesmo dos donos . Antes tudo isso que assistir a tudo ,
sofrer de tudo e tudo , e ainda por cima ter de aturar o amor
paterno eos sorrisos displicentes dos homens de juízo
que deram pílulas às esposas , ou as mandaram à parteira secreta
e elas quiseram ir . Antes morrer .
Mas que adianta morrer ?
Quem nos garante que a morte
não existe só para os filhos da puta ? Quem me garante que
não lá , assistindo a tudo , e sem sequer poder chamar-lhes
filhos da puta , com o devido respeito a essas senhoras que
precisamente
se distinguem das outras por não terem filhos nem desses nem dos outros ?
Mas mesmo isso não consola nada. A quantidade , a variedade
gastaram a força dos insultos . E não se pode passar a vida ,
esta miséria que me dão e querem dar a meus filhos , a chamar nomes
feios a sujeitos mais feios do que os nomes . Como pode um homem
sequer estar vivo no meio disto , e sem saberem primeiro quem,
para não se inquietarem com o problema de terem morto por engano
um irmão , desfalcando assim a família humana de algum ornamento
que a tornava menos humana e mais puta.