segunda-feira, 19 de maio de 2014

Um poema de 'O Claro Interior'




Nem toda a ausência é ausência.

Conheço o tumulto da ausência no coração dos homens,
conheço o surpreendente silêncio da ausência
que irradia sobre a perenidade,
conheço a ausência em que o sonho
transforma a pedra em cristal,
um elemento vivo no coração.

De tanto esperar o homem fixa abruptamente o sol,
é uma cegueira atroz e benéfica,
olhar o sol fixamente é ver o ramo púrpura dos cíclames
onde o êxtase encontra um caminho,
um porto de abrigo.

Às vezes, encontro-me perdido na ausência,
na minha ausência todas as cores se recobrem
de finíssimas películas de ausência, pequenos focos
de luz onde está inscrita uma lágrima e o coração
resplandece no súbito silêncio.

Às vezes, a ausência é uma oração, uma palavra
vertida no sangue para que a escuridão se desvaneça
e da ausência irradie um feixe de relâmpagos
onde é ainda possível a salvação,
onde é ainda possível um brilho na obscuridade.

De tanto esperar o coração sobressalta-se,
o coração pode mesmo rebentar
por tanta ausência acumulada,
o coração é um animal selvagem e frágil
que percorre a ilusão do mundo
no espaço exíguo de um tronco e uma casa.

A minha casa é a ausência,
a minha ausência é a treva,
o fogo da minha ausência atravessa a noite
e extasia e consome o meu corpo,
um elemento vivo no coração.

Nem toda a ausência é ausência.

Conheço a transfiguração do silêncio no exercício da ausência,
conheço o sobressalto no coração quando a ausência
atravessa essa nesga de céu que nos separa,
essa nesga de céu que perscrutamos incrédulos.

De tanto esperar o homem fixa tremendamente o mar,
é uma cegueira atroz e benéfica,
olhar o mar tremendamente e encontrar a ausência irradiante
de um navio em direcção a um lugar
que apenas existe porque a ausência sulca.

Às vezes, a ausência encontra-nos perdidos,
a ausência quando nos encontra é um poderoso arco-íris,
uma finíssima película de ausência
que os anjos que passam plenos de brancura
connosco atravessam na fronteira da ausência,
a fronteira do mar.

Às vezes, a ausência é apenas um gesto,
um gesto e uma chama que ilumina o deserto,
e o deserto é a ausência,
a ausência é o deserto
onde todos os poderes invocam o silêncio
quando o silêncio é atroz
no sulfuroso tumulto que nos une e separa
e mancha a ausência com a nossa ausência.

De tanto esperar o coração sobressalta-se,
o coração pode mesmo rebentar,
um elemento vivo no coração ameaça chorar
de tanta ausência na ausência acumulada
quando nos encontra a ausência,
quando toda a ausência é a ausência
e o ramo púrpura de cíclames
não encontra o caminho, o porto de abrigo.

Nem toda a ausência é ausência.

Conheço a ausência que se transforma em luz
e queima no espaço ardente do coração,
conheço a ausência onde tudo é o êxtase
e ilumina com o oiro a salvação e a perda,
conheço a ausência que permanece e resiste
e faz da ausência o pássaro e a fogueira –
o pássaro é a luz,
a salvação a fogueira.

De tanto esperar o homem perscruta avidamente o céu,
é uma cegueira atroz e benéfica,
perscrutar o céu é ver além da ausência
onde o êxtase pacifica a ausência e tudo arde, e arde
arrebatadamente.

Às vezes, a ausência é apenas a tempestade
que prenuncia a bonança incontornável,
a ausência respira essa paixão extrema,
sucumbe e alastra,
sucumbe e amplia-se,
é o bálsamo em que a metamorfose ocorre
e o corpo se expande para a levitação dos nomes
onde o apaziguamento invade a luz.

Às vezes, a ausência é um círculo sobre a cabeça
e a perda transforma-se em dádiva e dúvida,
esse sinal arrebata o coração, e arde, arde,
transforma o cristal em estremecimento,
um elemento vivo no coração
que a ausência toca, cobre e alucina.



in O Claro Interior, Íman. Almada, 2004


© do poema e da foto: Amadeu Baptista





sexta-feira, 16 de maio de 2014

ELSA GRAVE



POEMAS DE ELSA GRAVE



Proteger-me
sob a tua couraça,
frio que reluzes na neve
e endureces sobre a água,

assim como o lago gelado
abraças folhas de nenúfar
e peixes,
abraça-me tu também a mim,
deixa-me descansar em ti
como num estojo transparente,
rígida e dormente

mas não me abandones nunca
por uns pujantes raios primaveris,
frio,
protege-me
para sempre
sob a tua dura couraça

Som en flygande skalbagge, 1945

EMBRIAGUÊZ  DE CISNES

O mar encrespou-se
e dois cisnes brancos
saíram a nadar para o acalmar
largos instantes permaneceram à sorte
e silenciosos na sua brancura
levaram a sua calma
sobre a crista das ondas
como frescas carícias.
Cresceu a escuridão sobre eles
e as nuvens turbilhonaram
e desceram
como um celeste rodovalho
até aos cisnes
e sugaram-nos
vorazmente
até que resplandeceram
acima das nuvens
como uma lua gémea
no seu fechado pátio
embriagada pela brancura dos cisnes

Isdityramb, 1960



ENQUANTO CHEGAVA A ESCURIDÃO

Enquanto chegava a escuridão
estava a lua esperando
 a lua estava silenciosamente armada
a lua esperava sem respirar
e eu perguntei
se à lua lhe agradava brilhar
ou se era por necessidade
perguntei
e a escuridão chegou
quando me voltei
um resplendor ensombreceu
o bordo da escuridão
e atrás de mim
parou a lua
parou a escutar.
Eu estou ligeiramente armada
esperando sem respirar
e a lua parou
e na escuridão diante de mim
perguntou-me alguém
se gostava de viver
ou o fazia por necessidade
Logo caiu o silêncio

Höstfärd, 1961



Duro é o homem
que aguenta a sua própria vida
e a sua própria morte
 que nunca chega ao limite
do insuportável

O repugnante
nunca basta ao seu asco
a morte não basta
para que se deixa matar
grande é o homem
e cruel na sua força
para suportar a sua própria vida

Hungersöndag, 1967



Não procures o tormento
numa imitação do sofrimento
alivia o tormento a dor
o sofrimento
afasta-te da compaixão lacerante
que parasita
a costa do sofrimento de outros
agora e desde há 2000 anos –
Procura remédio
alívio
não saias
a buscar o sofrimento
para sofrer e suportar
um sofrimento
em honra de alguém
não há qualquer dor
que mereça loa e honra
apenas aniquilação
é o que merecem o tormento e o sofrimento
todos
os que estimulam
ao sofrimento físico
contribuem para
a auto-destruição
a ânsia de dor
que esquece
o mundo exterior
encapsulado nas suas ameaçadoras
trevas
A ânsia de morte
é uma das vozes
a mais importante
e mais estridente na fuga para a auto-destruição
que o homem vocifera
em auto-aniquiladora embriaguez

Slutförbannelser, 1977



ANTI-ESPELHISMO

A vingança do mundo
e a morte das moléculas
fundem-se
nesta poderosa radiação
que se conseguiu construir
para que os homens
aniquilem os homens
e às suas respectivas nações
ninguém sabia a pesar da omnisciência
o que apareceria
nova vida
 vida
nova negativa
que com a velocidade das trevas
que é dupla
que com a velocidade da luz
se propagaria
pelo espaço
deslocando leis invisíveis
e ritmos inexplorados
Mas a inalterável lei
que a inescrutabilidade do sentimento
compreende
essa não pode perturbar
o homem:
Que cada vez
que matava o mal
matava também
o que mais amava.


Slutförbannelser, 1977


Versão minha - © Amadeu Baptista







Elsa Grave (1918-2003). Nasceu em Norra Vran (Escãnia), no sul da Suécia. Estudou arte e foi pintora. O seu primeiro livro de poesia data de 1943. Além de poesia, escreveu teatro e romance. É considerada como membro destacado da ‘geração dos anos quarenta’. Pela sua obra poética recebeu, entre muitos outros, os prémios Carl Emil Englund e o Bellman.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

João Tomaz Parreira

DOIS POEMAS DE JOÃO TOMAZ PARREIRA






HELENA DE TRÓIA




Helena de alvos braços 
Helena, divina entre as mulheres

Canto III, da Íliada, de Homero





Pela beleza dos teus olhos mil navios
fazem-se ao mar, pelo fogo
que o vento nos teus cabelos despenteia
mil olhos ficaram com insónias

Pelo amor inatingível do teu corpo
mil homens dão o peito à morte
e pelo ouro dos teus lábios, gritam
nas praias de Tróia mil heróis

Pela tua beleza transparente nos vestidos
erram ainda cegos pelos campos
à procura de vestígios.






'Helena de Tróia', por Evelyn de Morgan. 1898









A MULHER DE SAMARIA





Não é qualquer uma. É uma mulher ao meio-dia
De olhos no chão, equilibrando o cântaro
Frágil
Cada lágrima que esconde

É uma mulher que teve abraços
Beijos na sua face morena, escondida
Em silêncios

Não é qualquer uma, é uma mulher
Que conhece bem o seu rosto
No espelho triste do fundo do poço

É uma mulher ao meio-dia
Que resiste, mesmo que isso a torne
Invisível, para que outros não tenham sede.







'Mulher da Samaria', por George Richmond. 1828


© dos poemas: João Tomaz Parreira

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Steinunn Sigurdardóttir



POEMAS DE STEINUNN SIGURDARDÓTTIR



FLORA DO CÉU E DA TERRA

I
Transpor muitas vezes
os caminhos mais frequentados
cansar-se lentamente sob as árvores
ao longo das suas raízes

(As fontes fora do campo)

Ninguém cai
dão-te sempre a mão.
Etecetera.

II
Madrugada. Para o amanhecer
encaminhavas-te só
para a fábrica de estrelas.

Eu estarei atenta, como um casaco verde
moendo-te estrelas numa grande máquina.

Faremos um esforço
levantaremos o telhado da casa
e deixá-las-emos livres.

Verksummerki, 1979


NO MEIO DA MONTANHA MÁGICA

Os doentes da montanha
não podem descer
e muito menos subir.
Morrer morrendo
tal como os vivos. E ele leva-lhes flores.

No baile de máscaras, eles. Tu e eu.
Nunca antes.
Está em francês. Remendam o sonho.
A radiografia da sua prometida
guarda-a junto a si
horizontal no banco.

Tudo é confuso. Transtornado
Na Montanha Mágica
e continuará a piorar.

Verksummerki, 1979




VESTÍGIOS

Os que chegam ao vazio
vêem terras cor de fungo
árvores queimadas
água estagnada

pássaros no ar
degelo pela metade.

Ninguém sabe o que se passou
só o que se nota.

Verksummerki, 1979



DUAS MIL PEDRAS

Apagadas as paisagens juvenis.

Sobrevoadas as nossas rochas
perante o profundo abismo
sob nenhuma casa.

Estivemos lá em maio. Maio.

Agora a rocha são duas mil pedras
dispersas por colinas desconhecidas

nosso cerro, desolada ilha deserta.

Lembro que me beijaste suave suavemente.

Guardião do corpo.

Defensor da mente.

Não me chega uma vida para chorar-te como tu mereces.

Ninguém te substituiu
ninguém estava comigo
lá onde os sonhos circulam.

Amor de minha alma jovem

não chega uma vida…

Oh se pudesse renascer
dó para chorar-te.

Kartöfluprinsessan, 1987



CANÇÃO MATUTINA PARA TODO O ANO

A manhã promete, sem que saibamos nada do que trará o dia.

É humano contentarmo-nos perante a esfera vermelha
que assoma nos cumes. Embotado de sonho
e ao mesmo tempo ardendo de interesse.

É algo muito nosso perguntarmo-nos pela marcha
dessas massas de nuvens na sua viagem caótica
à largura e ao comprimento
dos pontos cardeais.

Aonde vão? Pergunta inútil.
Nós seguimo-las.

Kartöfluprinsessan, 1987



RECORDAÇÕES INVERNAIS

I
Hoje cabe lamentar-me do que esqueci:
as nossas mãos unidas, o céu avermelhado.

Hoje cabe recordar, foi aqui,
onde o mar começa, nas dunas, em março.

Não tínhamos casa aonde ir. Nem um tecto sobre as lágrimas.
Apenas nuvens sobre os beijos.

Agora duas crianças correm sobre patins, com um cão,
sobre um tanque gelado que aqui não estava.

Hoje cabe recordar, foi aqui
onde o mar começa, aqui é.


II
Já nada resta
excepto a recordação de uns lábios
sorridentes, risonhos, antes das tuas histórias
(e uns lábios tranquilos, antes do beijo).

Vejo o mesmo sorriso, mas já não há histórias.

A tua boca amada é agora um quadro
os teus lábios um objecto de arte
não tocar, não tocar.

Já nada resta
excepto a recordação de umas mãos
mãos na treva de um quarto de uma casa.

Já não te encontro mais numa casa
uma casa que foi demolida.

Apenas restam ruínas, informes, com arestas
e a recordação fugaz da tua mão na minha mão.

Já nada resta
excepto a recordação
daquele passeio de dezembro pelo caminho gelado.

Vento de terra dento alvoroçada
o cabelo e o rumor do mar enchia os ouvidos

a chuvarada do céu queimava as faces
presságio de umas lágrimas que caíram depois.

Kúaskítur og nordurljós, 1991



NOTÍCIAS DESTE INVERNO

As notícias deste inverno são:
que sopra a mesma nortada do teu tempo
que ainda tece a névoa mantos sobre a triste imagem
desta terra

que os homens e os animais se arrastam aterrorizados
pelo gelo

e que a minha ausência, por fim, se irá notar.

Kúaskítur og nordurljós, 1991


AUTO-RETRATO NUMA EXPOSIÇÃO

A minha alma era ontem um anão no baile
que esfregava contente os joelhos
e sacava as raparigas para dançar.

Todas se escandalizaram e rechaçaram aquela alma disforme.

Teve que contentar-se em refugiar-se no bar
e dançou só depois das duas
se a isso se pode chamar baile.

Kúaskítur og nordurljós, 1991


LUGARES HISTÓRICOS

Rumo ao sul encontramos um  pedaço do arco-íris
lua cheia saindo
de um monte triangular.

Exploramos a paisagem
à luz do escurecer.

Tínhamos ovelhas
e pássaros desertos e rios.

Tínhamos uma antiga história
que nos marcava o rumo
e encontramos um caminho novo.

E chegou a manhã ao nosso encontro, sol na parede
do cemitério
dia com céu azul na lava do páramo.

Tudo isso não te bastava. Querias uma aurora boreal
com as cores do arco-íris, querias uma montanha
redonda e uma espiral por sol.

Mas eu queria um pedaço de arco-íris
a lua cheia saindo
da montanha triângulo.

Já desapareceu tudo o que tínhamos, o sol, a lua
e a montanha.
Espera-nos uma cabana no promontório.
Inverno todo o ano.
E o mar gelado em volta.

Kúaskítur og nordurljós, 1991


Versão minha - © Amadeu Baptista




Steinunn Sigurdardóttir (1950). Retrata a vida quotidiana com inusitado sarcasmo. Escreve também sobre o amor e a relação entre sexos nas suas diversas formas, com palavras e imagens que maneja de forma original. O seu estilo é vivo e baseia-se no uso siples e inesperado da língua, carregado de ironia. Publicou livros de poesia, romance, muitos livros de crónicas e um livro sobre Finnbogadóttir, antiga presidente islandesa.








terça-feira, 6 de maio de 2014

Aniversário

POEMA DO SEXAGÉSIMO PRIMEIRO ANIVERSÁRIO

Do pai ausente quis seguir o exemplo
E cantar coisas que não podia ter,
Intrepidez, aventura,  insubordinação,
Lápis coloridos para pintar as rosas.

Gostava de ter tido uma mãe
Que me levasse ao colo, a ver os patos.
Mas nem essa sorte tive, os lagos
Congelaram no ano em que nasci

E nunca disso puderam refazer-se.
Aos meu filhos também disse adeus.
A água da comporta foi-me areia
Que se tornou com o tempo movediça.

Com os anos tudo o mais perdi.
Talvez porque cultivo versos
Perante a desonestidade idiota que me cerca.
Com a faca apontada ao peito,

O que me resta é apenas a montanha
Em que observo a junça a invadir
Os campos férteis. Volvidos os sessenta
Mijo para os sapatos com a mesma decisão

Com que compro cigarros. Não tenho
Emenda. Os pés inchados de nada
Me asseguram do que é errado ou certo.
Nem mesmo a morte, que virá não tarda.

Despeço-me das ravinas e dos canaviais.
As praias envolventes estão erodidas,
Assim como as sementes estiolam,
Lírios, delírios, tenacidades, perdas.

A noite é circular e é uma desvantagem
Espreitar de longe as transumâncias
Com que os meus contemporâneos
Se afastaram da fonte e do sonho original.

Queria conhecer o que é estranho
E da árvore da vida se recolhe.
Esta maçã tem bicho e não se sabe
Quem entre nós fomenta a desventura

Social, económica e financeira
E faz com que tudo remonte à decadência
Em que todos somos escravos de uns poucos.
Estou de joelhos, sobre a terra imposta.

Acompanha-me um cão e uma estrela.
O amor é um barco e sou um naufrago,
Que não sabe o que faça o coração.
Incompatível, avanço na ruína

Para escrever não sei se uma elegia,
Se uma ode. O meu maior desgosto
É ver que há séculos o povo morre à fome.
Não faço testamento. Quem vier por último

Que feche a porta e apague a luz.
Duas moedas tenho sob a língua
Para entregar ao barqueiro que me leve
Deste inferno para outro mais honrado.

Nesta zona onde os comboios param
E, sem remédio, os mais jovens partem
Para o estrangeiro, não me conteis alheio
Da revolta de ter nascido aqui.

Sem que saiba o que seja o real e a realidade,
Fui sempre um pessimista pró-activo.
À pátria nada devo, que me comeu a carne
E agora esmaga os ossos.

Dia de aniversário, dia de me agarrar
Ao corrimão porque a vertigem
É uma epidemia de pragas e uma rusga
Do que ao longo dos anos me roubaram.

A ninguém quero mal, ainda que  o bem
Que possa desejar seja limitado. Que os melhores
Prevariquem e que o rebanho tenha disponível
Um prado de azevém em que se ceve.

Continuarei a sangrar pelos ouvidos.
Entre o desterro e o exílio porém não pararei
De me rir muito e de chorar, às vezes.
O riso pela dor – o pranto digno.

Cadáver adiado não serei. A minha vez
Virá mas hei-de espernear como um danado,
A distribuir manguitos pelos que
A morte me acirram em cada dia.

Para o ano espero vir aqui de novo
Meter o nojo que há muito meto.
Não serei cão de cego, nem passarei ao largo.
Hei-de ladrar e morder a um só tempo

Como um bom cão de caça que, querendo,
Também sabe pescar no mar bravio.
Ignore-me a crítica e esses chanfrados
Que escrevem poesia no vácuo do vazio

Como se os atendesse o eterno e metessem
P’ra veia o ópio niilista do seu ódio
Para ficarem bem no pedestal. Não sou maior
Nem menor que os outros todos.

O alçapão que tenho é abrangente,
Cabe lá muita gente, amigos, inimigos,
E o mais que venha cair no meu expresso
Servido com açúcar pela manhã,

Assim que o sol se ergue e a sombra arde.
Por este desatino me decido, a aguardar
O decisivo enfarte que me leve. Hip hip
Hurrah! Sem exagero ou modéstia falsa

Digo que esta pomada é do outro mundo.
Bebamos, Lídia. Deixemos por instantes
Os astros, o governo das orbes, a indiferença.
São do Correia Garção os cristais limpos

E enorme a vontade que tenho de esquecer
O infortúnio de alguns convivas
Que mesmo assim beberão comigo,
Este tinto, este néctar, esta cicuta.

Que nada fique aqui por celebrar,
Os pastores que cantam nos montes,
As areias brancas da infância,
As mulheres magníficas que os sonhos

Perpetraram nos ermos da memória
Como bálsamo, bênção e alucinação
Que se há-de querer sempre até que morte
Seja a única carícia que se espera.

Por hoje fiquem as palavras que me deram,
Um livro, um búzio e umas sandálias
Que hei-de encher de areia para que o mundo
Vá nos meus passos para qualquer parte.

O mais há-de ficar como já está.
Ortigas nos lameiros e gatos nos telhados,
Cerejeiras em flor naquele pátio,
O encantador perfume dos limões,

A frescura das fontes e dos poços,
A luz que declina, toldada e leve,
Uma ou outra fogueira dos despojos da floresta
De nuvens que carrego sobre os ombros.




Nota: as palavras em itálico roubei-as a Correia Garção, poeta português do século XVIII



inédito © do poema e da foto: Amadeu Baptista





sábado, 3 de maio de 2014

Fragmentos Tunisinos




Com a devida vénia, reproduz-se o texto de Henrique Manuel Bento Fialho, no blog ‘Antologia do Esquecimento’, 27 de Abril de 2014, sobre o meu livro 'Fragmentos Tunisinos':



Uma leitura de ‘Fragmentos Tunisinos’, por Henrique Manuel Bento Fialho:


Há quem diga que o título de um livro é aquilo que o encerra, devendo o mesmo ser a página derradeira da obra publicada. Mas tomemos de princípio o título da mais recente recolha de Amadeu Baptista (n.1953), autor de uma das mais vastas obras da poesia portuguesa contemporânea com reconhecimento comprovado nos múltiplos prémios de que vem sendo objecto. É certo que no universo algo complexo da poesia portuguesa os prémios são, por vezes, vistos com desinteresse e até algum desprezo, não sendo, porém, de menosprezar a necessidade que impele o autor ao juízo dos júris. É assunto sobre o qual teríamos muito a dizer, embora seja mais importante sublinhar neste momento que, por ainda não terem sido premiados, estes ‘Fragmentos Tunisinos’ ocupam um lugar especial na extensa produção de Amadeu Baptista.

O título aponta para um espaço geográfico concreto, a Tunísia, outrora um dos mais importantes centros comerciais do Mediterrâneo a partir da mítica cidade de Cartago. Desses tempos, restam ruínas e vestígios. Ou seja, fragmentos. Que a este conjunto de poemas se tenha dado o nome de fragmentos é uma feliz decisão, pois assim interpretados os poemas surgem também como testemunho do contacto com uma herança cultural da qual nos restam meros resquícios.

A poesia de Amadeu Baptista mantém desde sempre um diálogo muito profícuo com a história e com a cultura, estando pejada de interlocuções onde o legado civilizacional se vai compreendendo a partir dos seus elementos mais consistentes: textos sagrados, obras de arte, ruínas. No entanto, estas interlocuções não se processam com uma intenção epopeica. São, entes de mais, sublinhados de um tempo que passou e nos ajuda a contextualizar a negra miséria em que nos encontramos. É imaginando o grande edifício a partir das ruínas que dele restam que melhor compreendemos o tempo e, com ele, a história, a nossa enquanto povo mas também como indivíduos.

De resto, esta compreensão estende-se à percepção que temos dos efeitos do tempo no nosso próprio corpo. Elemento essencial nesta poesia, o corpo aparece emoldurado em ambientes contrastantes. Se, por um lado, ele suscita a expressão de um forte erotismo, por outro lado arrasta o verso para reflexões onde o que parece estar em causa é a ameaça de uma vitalidade que o corpo, por múltiplas razões, já não exibe. Sucede assim em livros anteriores, embora nos poemas de ‘Fragmentos Tunisinos’ tão contraste não esteja tão presente. A segunda pessoa a que frequentemente se dirigem surge tanto presente como ausente, não sendo clara a sua definição.

E aqui cabe destacar a dedicatória que abre o conjunto: memória para al-Um’tamid Ibn’ Abbâd. Poeta luso-árabe, al-Um’tamid (Beja, 1040) personifica pela sua biografia a ruína de um homem, tanto pela trágica e histórica amizade com Ibn ‘Ammar como pelos anos do desterro, presídio e miséria. Cito Adalberto Alves: «Entre a memória de um passado auspicioso e um amargurado presente vive al-Um’tamid o seu drama pessoal, que exprime em versos de excepcional força lírica. Da adversidade faz uma elegia. Das tristezas do quotidiano extrai poesia: um bando de aves entrevisto das grades da cela; a grilheta que lhe rói o tornozelo…» (in O Meu Coração é Árabe). Creio que os ‘Fragmentos Tunisinos’ de Amadeu Baptista, asseguradas as devidas distâncias, reflectem um sentimento similar.

Ao lermos os 19 poemas, com títulos que convocam locais diversos da Tunísia (cidades, oásis, ilhas…), acompanhamos uma viagem que não ressoa apenas o deleite do turista embevecido com a paisagem - «Levo na Nikon os teus pés descalços / - os caminhos do sagrado / são insondáveis» (p.25) –,  sublinhando antes o sentimento ambivalente do nómada cuja errância é também uma profunda experiência de solidão, pela ausência e pela distância que experimenta face ao passado revisitado e ao presente vislumbrado. O léxico de alusões árabes disseminado pelos poemas apela à nossa imaginação, na mesma medida em que reconstrói paisagens das quais nos restam apenas fragmentos. Porque a viagem é também a experiência onde o imaginário desce à realidade:

MEDENINE

Deito a cabeça na terra ocre sem fim
e sou um gigante,
troglodita.


Para que lhos compremos, as crianças atiram-nos aos pés
pequenos colares feitos de miolo de pão
– os passos da civilização jamais reconheceram os pequenos troféus.


Entre as embalagens de película fotográfica
e o par de camaleões que a rapariga patenteia
passamos nós, como cordeiros degolados.


Nem para a turista alemã
a fascinação cessa
– contém o palmar a floresta negra.


Trinta dinares pediu Mohammed
à turista inglesa
– e ninguém regateou.

São ainda mais vastos
os grandes perigos do deserto
sem a tua presença.


Em nenhuma medina vi à venda
o azul
dos teus olhos.



(citações: in Fragmentos Tunisinos, Volta d’Mar. Nazaré, 2014)