sábado, 3 de maio de 2014

Fragmentos Tunisinos




Com a devida vénia, reproduz-se o texto de Henrique Manuel Bento Fialho, no blog ‘Antologia do Esquecimento’, 27 de Abril de 2014, sobre o meu livro 'Fragmentos Tunisinos':



Uma leitura de ‘Fragmentos Tunisinos’, por Henrique Manuel Bento Fialho:


Há quem diga que o título de um livro é aquilo que o encerra, devendo o mesmo ser a página derradeira da obra publicada. Mas tomemos de princípio o título da mais recente recolha de Amadeu Baptista (n.1953), autor de uma das mais vastas obras da poesia portuguesa contemporânea com reconhecimento comprovado nos múltiplos prémios de que vem sendo objecto. É certo que no universo algo complexo da poesia portuguesa os prémios são, por vezes, vistos com desinteresse e até algum desprezo, não sendo, porém, de menosprezar a necessidade que impele o autor ao juízo dos júris. É assunto sobre o qual teríamos muito a dizer, embora seja mais importante sublinhar neste momento que, por ainda não terem sido premiados, estes ‘Fragmentos Tunisinos’ ocupam um lugar especial na extensa produção de Amadeu Baptista.

O título aponta para um espaço geográfico concreto, a Tunísia, outrora um dos mais importantes centros comerciais do Mediterrâneo a partir da mítica cidade de Cartago. Desses tempos, restam ruínas e vestígios. Ou seja, fragmentos. Que a este conjunto de poemas se tenha dado o nome de fragmentos é uma feliz decisão, pois assim interpretados os poemas surgem também como testemunho do contacto com uma herança cultural da qual nos restam meros resquícios.

A poesia de Amadeu Baptista mantém desde sempre um diálogo muito profícuo com a história e com a cultura, estando pejada de interlocuções onde o legado civilizacional se vai compreendendo a partir dos seus elementos mais consistentes: textos sagrados, obras de arte, ruínas. No entanto, estas interlocuções não se processam com uma intenção epopeica. São, entes de mais, sublinhados de um tempo que passou e nos ajuda a contextualizar a negra miséria em que nos encontramos. É imaginando o grande edifício a partir das ruínas que dele restam que melhor compreendemos o tempo e, com ele, a história, a nossa enquanto povo mas também como indivíduos.

De resto, esta compreensão estende-se à percepção que temos dos efeitos do tempo no nosso próprio corpo. Elemento essencial nesta poesia, o corpo aparece emoldurado em ambientes contrastantes. Se, por um lado, ele suscita a expressão de um forte erotismo, por outro lado arrasta o verso para reflexões onde o que parece estar em causa é a ameaça de uma vitalidade que o corpo, por múltiplas razões, já não exibe. Sucede assim em livros anteriores, embora nos poemas de ‘Fragmentos Tunisinos’ tão contraste não esteja tão presente. A segunda pessoa a que frequentemente se dirigem surge tanto presente como ausente, não sendo clara a sua definição.

E aqui cabe destacar a dedicatória que abre o conjunto: memória para al-Um’tamid Ibn’ Abbâd. Poeta luso-árabe, al-Um’tamid (Beja, 1040) personifica pela sua biografia a ruína de um homem, tanto pela trágica e histórica amizade com Ibn ‘Ammar como pelos anos do desterro, presídio e miséria. Cito Adalberto Alves: «Entre a memória de um passado auspicioso e um amargurado presente vive al-Um’tamid o seu drama pessoal, que exprime em versos de excepcional força lírica. Da adversidade faz uma elegia. Das tristezas do quotidiano extrai poesia: um bando de aves entrevisto das grades da cela; a grilheta que lhe rói o tornozelo…» (in O Meu Coração é Árabe). Creio que os ‘Fragmentos Tunisinos’ de Amadeu Baptista, asseguradas as devidas distâncias, reflectem um sentimento similar.

Ao lermos os 19 poemas, com títulos que convocam locais diversos da Tunísia (cidades, oásis, ilhas…), acompanhamos uma viagem que não ressoa apenas o deleite do turista embevecido com a paisagem - «Levo na Nikon os teus pés descalços / - os caminhos do sagrado / são insondáveis» (p.25) –,  sublinhando antes o sentimento ambivalente do nómada cuja errância é também uma profunda experiência de solidão, pela ausência e pela distância que experimenta face ao passado revisitado e ao presente vislumbrado. O léxico de alusões árabes disseminado pelos poemas apela à nossa imaginação, na mesma medida em que reconstrói paisagens das quais nos restam apenas fragmentos. Porque a viagem é também a experiência onde o imaginário desce à realidade:

MEDENINE

Deito a cabeça na terra ocre sem fim
e sou um gigante,
troglodita.


Para que lhos compremos, as crianças atiram-nos aos pés
pequenos colares feitos de miolo de pão
– os passos da civilização jamais reconheceram os pequenos troféus.


Entre as embalagens de película fotográfica
e o par de camaleões que a rapariga patenteia
passamos nós, como cordeiros degolados.


Nem para a turista alemã
a fascinação cessa
– contém o palmar a floresta negra.


Trinta dinares pediu Mohammed
à turista inglesa
– e ninguém regateou.

São ainda mais vastos
os grandes perigos do deserto
sem a tua presença.


Em nenhuma medina vi à venda
o azul
dos teus olhos.



(citações: in Fragmentos Tunisinos, Volta d’Mar. Nazaré, 2014)


terça-feira, 29 de abril de 2014

Um poema meu, de homenagem a Vasco Graça Moura




NO DESAPARECIMENTO DE VASCO GRAÇA MOURA

Os que nos vierem fazer o elogio fúnebre
Jamais saberão do que estão a falar
Quando de nós falarem, nem quais as brumas

Que sobre nós pairaram na resiliência
Que nos fez viver, escrever, amar e aturarmos
Tudo o que nos coube ter que confrontar nos mais íntimos

Duelos que mantivemos connosco e com os outros.
Do mesmo modo com que nos desprezaram
Mais nos desprezarão pela laudatória fácil

A que nos vão submeter  aquando das exéquias,
A olhar-nos como sempre nos olharam, com os olhos
Trocados sobre nós, por sermos, ainda que mortos,

Melhores do que eles são, que há muito
Estão mortos sem que o saibam. A terra saberá, talvez,
Como tratar-nos, na primazia  de nos receber

Como cadáveres carregados de responsos
Que não mais do que nos desfeiteiam e apoucam,
Por nunca expressarem quanto fomos no despique

Que mantivemos com a vida, a pátria e a língua dela,
Sempre a achar que mais bela não teríamos
Noutro qualquer lugar, tornando-a ainda mais bela,

Se possível em cada dia de labuta incansável e dor extrema.
O esquecimento aguarda-nos, nenhum equívoco
Irá tirar o andaime à verdade nua e crua que nos vela

Depois de mortos, venham, ou não, discursos e fotógrafos
Relembrar quem fomos no imbróglio que foi termo-nos visto
Sitiados pela inveja e a hipocrisia. Correligionários que sejam,

Companheiros da mesma comandita partidária que durante
A vida mantivemos, gente da boa–fé que não lhes vimos
Antes, podem dar-nos missas, sermões salmodiados e capas

De revistas, que sempre ficarão aquém de entender-nos
As ânsias mais secretas, as paixões inconfessáveis, as perdas que tivemos,
As gratas alegrias que fruímos ao olhar o mar

Esmeralda da Foz Velha, a felicidade de ter sempre razão
Sem a ter nunca, o prazer que tivemos no Senhor de Matosinhos
A comprar louça, farturas e enchidos, quando éramos

Dados a esses tráfegos de adultos vulneráveis,
Ensimesmados poetas de um destino em que nos fomos matando
Para aproveitar o agridoce odor da brisa sobre as praias.

Querem de nós é que apodreçamos, que nos leve
A arruada do cortejo lúgubre com os gatos-pingados atrás de nós,
Que se feche a urna e o fogo nos esturre o corpo

Para que os dividendos do nosso óbito lhes dê algum lucro,
Notoriedade, aplauso, sem que a tarefa dê muito trabalho,
No âmbito das empreitadas a que pertencem.

Não nos perdoam o bem da iconóstase, a infância em Gouvães
Ou em Miragaia, a foda imaginária com a florista
Que num dado fim de tarde acinzentado se entreviu

No enquadramento de uma montra em Campo de Ourique,
O gosto pela pintura e pelos livros, a música erudita,
As múltiplas viagens pelo mundo, o desmedido amor a musas várias,

De meia preta e cabelos soltos no descapotável que não nos pertenceu,
Mas permanece ainda em descorçoados poemas rigorosos
Sobre o que é andar a descobrir no mundo amenas dádivas,

Hipóteses magnânimas de sobrevivência.
Não os tolero e aos seus falsos lutos, as gravatas malsãs
Que entre si reeditam como um palimpsesto de mau alfarrabista,

O seu decoro fanático, as suas lágrimas secas, conspurcadas
Do pó dos ministérios, das redações dos jornais, para as quais
Escrevemos sem que isso tenha a mínima importância

Para o que seja o supremo mistério da poesia, sorrindo-lhes embora
Pelo desagravo. Odeia-nos, essa gente, a fátua gente que vai
Aos crematórios ver-nos em faúlhas dispersas pelos ares,

A julgar-nos o método e a inteligência, as opções políticas,
A subestimar tudo o que somos no desregramento geral
Da sociedade, onde a fome é cada vez mais um atropelo

Aos que precisam mas não têm nunca quem os proteja.
Há também os que põem chama no que presumem o que nós possamos ser,
Nem sei se adeleiros, se alfaiates das nossas proporções,

Com a misantropia a calhar-lhes na veneta para que melhor se safem,
A dar-nos pelas costas palmadinhas e a girandolar nos nossos passos com os velhos
Pecados da má fé e da idolatria, por um gesto, um dito, um eco que ressoe

Do desaguisado feitio com que nos vêem calmos mas intranquilos perante os desafios
Do futuro, a saber de que Europa se construiu a Europa e de que ruínas os povos
Tiveram que erguer-se quando não podiam mais viver de joelhos.

Odeia-nos, essa gente, porque não sabe que, além do mais,
A um poeta cabe ser vaidoso dos deuses que escolheu, mesmo que esteja
Errado, mesmo se vier a dialéctica desmenti-lo de tudo quanto disse, jurou

Ou abjurou, ou pôs acima de seus próprios interesses, carreira,
Profissão, livros publicados, ou o que seja. Falam de nós
E ignoram que nunca temos nome, ou que o nome

Que na terra carregamos não nos pertence, ou só pertence a uma certa musa
Inexistente, a quem, no último sopro, pedimos a mão para atravessar
A estrada que vai do coração ao firmamento e não é mais

Que o nosso pesar, a nossa humanidade, o nosso desalento
Por tanto já ter sido o nosso alento mas ter chegado o fim terrível.
Vasculham-nos o espírito e o que dizem não faz qualquer sentido,

Não tem que ver com o canavial da nossa adolescência,
Ou com a intraduzível dificuldade com que nos confrontamos
Na tradução de Dante ou de Villon, o modo impertinente

Com que perscrutamos as aves da nossa solidão, o renque
De árvores que em Mateus foram connosco circundar o palácio
E ver o lago. Tal como eu me calo, quero que se calem para sempre.

Que nos deixem em paz neste momento em que não passamos
De uma oliveira que num monte aguarda a transmigração da alma,
Como se estivesse num desenho enigmático que Escher assinasse,

Ou um verso de um soneto de Camões que na eternidade
Buscasse a perfeição, sabendo como a podemos encontrar
Em qualquer parte se é com o coração que a buscamos

E dela seus escravos nos tornamos. Que nada mais
Digam acerca do que sabem e não sabem sobre nós,
Do bric-à-brac com que cometemos a nossa intemperança,

Actos falhados, emparelhadas rimas, referências ao real e às meninas,
A que borda, a que toca violino na sala ao lado, a que connosco
Visitou o Porto, a que se viu da janela de um comboio

Em Emilia-Romagna quando em trânsito entre Roma e Florença
Acordamos estremunhados e olhamos para fora
A tentar perceber onde estaríamos. Que não chateiem o poeta morto.

Que não abusem mais da paciência e da impaciência de quem ousou
Tentar cifrar o real e a realidade em outra coisa que não fosse
O banal elevado à circunstância e a mediocridade ao único ascetismo

De que nos nossos tempos se é capaz. Que não perturbem
Quem mais não quis do que levar as coisas a um lugar mais alto,
Com severas injunções, dignos reparos sobre o quotidiano

Que numa toalha branca se estendesse e fosse, por uma vez,
Um soneto, uma canção ou uma sextina na lição complexa
Com que cada poema amplia no universo

A nossa redenção e o castigo
De vivermos para morrermos com excessivas perguntas
Sem resposta sobre o que a morte e a existência representam.

Para trás os idiotas, os obscenos, os misóginos, os ministros, os canalhas,
Os literatos, os pulhas, os demagogos, os prosélitos que são como matracas
Que discorrem no orgulho da sua ignorância

Que os faz reproduzir até à exaustão
Lengalengas de almanaque culto,
Requebros diplomáticos de gente do poder acobertada,

Que do poder só sabe ser seu semelhante e desonrar os outros.
Chegada a hora, que o sossego venha.
Que na nossa despedida a paz se escute.



inédito © do poema e da foto: Amadeu Baptista








domingo, 27 de abril de 2014

Vasco Graça Moura 1942-2014







UM POEMA DE VASCO GRAÇA MOURA


AUTO-RETRATO COM A MUSA






1.


vejo-me ao espelho: a cara
severa dos sessenta,
alguns cabelos brancos,
os óculos por vezes
já mais embaciados.

sobrancelhas espessas,
nariz nem muito ou pouco,
sinal na face esquerda, 
golpe breve no queixo
(andanças da gilette).

ia a passar fumando 
mais uma cigarrilha
medindo em tempo e cinza 
coisas atrás de mim.
que coisas? tantas coisas,

palavras e objectos,
sentimentos, paisagens.
também pessoas, claro,
e desfocagens, tudo
o que assim se mistUra

e se entrevê no espelho, 
tingindo as suas águas 
de um dúbio maneirismo 
a que hoje cedo. e fico 
feito de tinta e feio.


2


quem amo o que é que pode 
fazer deste retrato?
nem sabê-lo de cor,
nem tê-lo encaixilhado, 
nem guardá-lo num livro,

nem rasgá-lo ou queimá-lo, 
mas pode pôr-se ao lado 
e ter prazer ou pena
por nos achar parecidos 
ou não achar. quem amo

não fica desenhado,
fica dentro de mim
e é quando mais me apago 
e deixo de me ver
e apenas me confundo,

amador transformado 
na própria coisa amada 
por muito imaginar. 
assim nem john ashberry, 
nem o parmegianino,

nem espelho convexo, 
nem mesmo auto-retrato. 
só uma sombra que é 
na sombra de quem amo 
provavelmente a minha.


3


quem amo tem cabelos
castanhos e castanhos
os olhos, o nariz
direito, a boca doce.
em mais ninguém conheço

tal porte do pescoço
nem tão esguias mãos
com aro de safira,
nem tanta luz tão húmida
que sai do seu olhar,

nem riso tão contente,
contido e comovente,
nem tão discretos gestos,
nem corpo tão macio
quem amo tem feições

de uma beleza grave
e música na alma
flutua nas volutas
de um madrigal antigo
em ondas de ternura.

é quando eu sinto a musa
pousando no meu ombro
sua cabeça, assim
me enredo horas a fio
e fico a magicar.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

terça-feira, 22 de abril de 2014

4º. ANIVERSÁRIO



Esta blog faz hoje 4 anos de existência. A todos os visitantes e colaboradores fica o meu agradecimento.

domingo, 20 de abril de 2014

Páscoa


Vasco Fernandes (Grão Vasco), 'Ressureição', óleo s/ madeira, 1501/6






RESSURREIÇÃO

Subo à terra.
Quanto mais subo à terra
mais benfazeja sei que a chuva é,
mais benéfico reconheço o sol que nos criou,
mais benigno o sobressalto
que a vida entrega. Eu sou a árvore,
e é nos elementos que encontro
a essência divina que há em tudo,
o único poder que nos redime.

(in Paixão. Porto, 2003)

© do poema: Amadeu Baptista