quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Rita Taborda Duarte





                                        RITA TABORDA DUARTE, POETA CONVIDADA



O dicionário ao lado

Escrevo-te este poema, o dicionário ao lado. 
Consola saber que já não são, 
nunca foram,  etéreas  as palavras   nem efémeras.  
Ocupam este espaço vazio na realidade da mesa 
e têm peso  as palavras   têm chão.
Pegasse eu num feixe delas com estas mãos recurvas,
estas mãos unidas    os dedos tão  cheios de unhas
− não deixasse eu cair  nunca  no rosto do mundo  este 
punhado de letras    longas dobras    arestas finas...
e pudesse lançar-tas com tanto amor e violência 
que te doessem as palavras contra o peito…

Escrevi-te o meu poema,  dicionário ao lado,
silabar de laje e de granito na gravidade da mesa.
Mas nem ao de leve te raspou a pele
sopro fátuo e lasso   agilidade de sombra sob o sol.
Sequer vento  emaranhando o teu cabelo.

      (in colóquio-letras, nº  182 )



Só Cotão e Pó

Revolvi os cantos ao dicionário: só cotão e pó
as  palavras  largam sempre tanto lixo… 

procurava uma palavra que te desse…         
guardara-a,  para ti, quando viesses 
mas não sei já onde a pousei      talvez 
entre uma metáfora
morta    e um oximoro gasto, muito velho,  
dizendo qualquer coisa como esta :  «a palavra
que mais diz é aquela que  calamos 
no silêncio», ou outra coisa, até, mais banal ainda

Da metáfora, não encontrei nem sobras, 
devo tê-la perdido,  por aí, no discurso vulgar do dia a dia.
       
Acontece-me , acontece-me muito, esquecer-me de palavras  
ao fundo da carteira, 
desfeitas entre bilhetes de metro,   sob o peso dos dias,  
das chaves do carro.

Passo tanto tempo a perder palavras como o tempo  que  gasto em procurá-las 
Depois… o cansaço de as inventar  de novo, de as soletrar de novo,
tropeçando  em consoantes       nas vogais …

Tão difícil, voltar a dizer as palavras que perdemos. 
Mentindo-lhes sentidos novamente… 

Por isso percorria à pressa o dicionário, hoje 
Para procurar uma outra palavra que te desse,  
ainda antes que chegasses,   de manhã

A palavra que te queria dar, perdia-a
não há tempo agora de a reescrever assim à pressa…
manhã alta, já, deves estar mesmo aí, a aparecer

Revolvi o dicionário:  tanto pó na esquina das palavras. 
Sempre tudo em desalinho: nem uma sílaba consigo ter em seu lugar.
Trago a língua tão desarrumada, tanto desleixo, sempre tudo tão sem jeito
E tu, aí,  quase à beira de chegar 

Tirei uma mão cheia de palavras ao acaso
Concha, lago, ternura, um pedaço arrancado à bruta da palavra amor
Mas tu chegaste-me entretanto,  com um  perfeito ramo de frases feitas
fingiste até nem reparar na  confusão  e
deitámo-nos assim mesmo na minha palavra ainda     por dizer 
                                                                                             
 (inédito) 




Nódoa branca em meu vestido claro

Sempre este querer de violência tanta
   e esta crença de que o canto estale
                                               ACC

O meu desejo é esta palavra branca no meu vestido claro. 
Nem se nota, eu sei; o vestido é quase transparente  
e o desejo de te ter, uma leveza de sombra, só, a amanhecer  ainda.
Névoa ligeira, como um salpico ao de leve no tecido:
não chega para o manchar, mesmo se lhe dá a luz de frente.

Tens os barcos que atravessam a saudade   
o rio em frente amodorrado ao cais.
O Tejo é o único rio imóvel, que nunca passa
nunca nos passa: 
régua de azul  inteiro  no rebordo da tarde.

E tens a calçada tão branca e tão viva 
a estalar na retina; não te deixa ver  
deter  mais nada,  quanto mais esta palavra debotada 
embainhada no meu vestido claro 
É teu, o lugar do crime, eu nem estou, 
eu nunca estive lá, sou só esta vaga mancha grácil
engordurada e baça;  não seduz   não envergonha .  

Nem só de lágrimas vive o homem, sussurrei-te e escureceu 
e nem arrefecera ainda, eu até nem tinha nenhum frio.
Mas tu despiste o teu casaco de homem
e pousaste-mo nos ombros    abafando 
a transparência branda do meu vestido  nu
E, de olhos no rio que não passava,
apagaste, distraído, a minha nódoa clara da luz do sol. 

     (in colóquio-letras, nº 182)


© Rita Taborda Duarte


Rita Taborda Duarte, nasceu em Lisboa, em 1973. É professora adjunta convidada na Escola Superior de Comunicação Social. Faz crítica de poesia e ensaio em diversas publicações da especialidade (Relâmpago, Colóquio–Letras, etc.). Desde 2010 que é membro da Comissão de Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian, publicando com assiduidade no site Rol de Livros da mesma instituição (www.leitura.gulbenkian.pt).
 Em 1998, publicou o seu primeiro livro de poesia, Poética Breve, editado pela Black Sun Editores, a que se seguiram Na Estranha Casa de um Outro: Esboço de uma Biografia Poética (Asa, 2006) subsidiado pelo Ministério da Cultura, com uma bolsa de criação literária e Dos Sentidos das Coisas (Editorial Caminho, 2007), com co-autoria de André Barata. Está representada em diversas antologias literárias.
 Em 2003, vence o Prémio Branquinho da Fonseca, atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo semanário Expresso, com o original A Verdadeira História de Alice e desde essa data tem publicado regularmente para crianças e jovens.
Além de vários livros publicados para crianças, tem publicados os seguintes títulos de poesia: Poética Breve, Black Sun Editores, 1998; Na Estranha Casa de Um Outro: Esboço de uma biografia poética, Lisboa, Asa, 2006; Experiências Descritivas: Dos sentidos das coisas/Círculos, Lisboa, Editorial Caminho, 2007  ( Co-autoria de André Barata); Papelada, Lisboa, Homem do Saco, 2013 ( plaquette de poema único)

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Karin Boye



                                            POEMAS DE KARIN BOYE


PEDI UMA COISA

Pedi uma coisa
profunda sinceridade
– o que foi a morte de muitos – .
Mas pedi no entanto uma coisa mais,
uma que só se concede aos fortes:
o mutismo do coração.

Moln, 1922



A UM AMIGO

Com as asas estendidas voa a águia pelos largos espaços.
Onde ela desliza o ar rarefeito torna difícil a respiração.
No ar desolado das montanhas invernais está muito só.
O crepúsculo e o frio são o seu séquito –
a sua única alegria,
a alegria de se sentir a voar com asas poderosas.

Assim no alto voas nos mais vazios céus invernais,
valente como a águia graças a uma vontade de relâmpago.
Renunciaste à busca da felicidade, elegeste caminhos
escarpados, que a nós, os débeis, nos assustam.
Que desesperado caminhas,
caminhas com passos rápidos e ágeis como o vento.

O meu mundo parece-se ao teu, e no entanto não se lhe assemelha.
Rindo-se dança a minha estrela entre mistérios estelares.
Á tua alegria cinzenta e férrea, amo-a na mais profunda distância.
Deixa-me caminhar a teu lado
e penetrar com o olhar
no teu mundo invernal e a tua vontade de relâmpago.

Gömda land, 1924



O DESTRUIDOR

A mim guia-me um olhar de serpente, fria, cruel,
olha-me fixamente da mais distante distância obrigando-me a ir
    ao seu encontro
dirige os meus passos na mais próxima proximidade,
mantém-me prisioneira num medo esmagador,
aprisiona-me a vontade…

Quem deu à serpente a sua terrível beleza,
a atracão pelo abismo,
a doçura da morte?
Quem deu ao terror o seu fatídico deleite
que nos tenta como uma escura felicidade?

Talvez no outro lado, junto aos eternos mananciais,
lá onde cabem os véus,
encontre o destruidor sob outra figura.
És tu, espírito do mal, a sombra de Deus?
O nocturno irmão gémeo de Deus?

Härdarna, 1927



DESPEDIDA

Queria despertar-te para uma desnudez como a de uma
                                          noite de precoce primavera,
quando as estrelas se derramam
e a terra arde sob a neve que se derrete.
Queria ver-te cair uma só vez
nas trevas do caos criador,
queria ver os teus olhos como um espaço aberto de par em par,
dispostos a encher-se,
queria ver as tuas mãos como flores abertas,
vazias, novas, expectantes.

Vais-te e não te deste conta de nada disso.
Nunca cheguei até onde o teu ser jaz nu.
Vais-te e não levas nada de mim –
abandonas-me à derrota.

Lembro outra despedida:
arrojaram-nos do crisol como um só ser,
e ao separar-nos, já não sabíamos
o que era eu e o que eras tu…

Mas tu – como uma malga de cristal foste-te da minha mão,
tão acabado como uma coisa morta e tão alterado,
tão sem outras recordações como as impressões digitais,
que se lavam na água.

Queria despertar-te da amorfia de uma bruxuleante chama informe
que encontra no fim a sua forma viva, a sua própria…
Derrota, oh, derrota!

For trädets skull, 1935



NO FUNDO DA COISAS

Li no jornal que alguém tinha morrido, alguém a quem
                                               conhecia de nome.
Ela vivia, como eu, escrevia livros, como eu, envelheceu e agora
                                               está morta.
Imagina estares agora morto e ter deixado já tudo para trás,
angústia, medo e solidão, e a culpa implacável.

Mas há uma grande justiça escondida no fundo das coisas.
Todos temos uma graça a esperar – um dom que ninguém vai roubar.

De sju dödssynderna, 1941



OS SERENOS PASSOS QUE ME SEGUEM

Se escuto, ouço escarpar-se a vida
agora cada vez com maior rapidez.
Os serenos passos que me seguem –
morte, és tu.

Antes estavas muito longe –
eu queria-te demasiado.
Agora já não te desejo,
agora estás aí.

Morte querida, há algo na tua essência
que consola docemente:
como questionas se alguém se fez grande
ou desperdiçou toda a sua vida!

Morte amada, há na tua essência
algo que te deixa limpa e transparente:
aquilo que é igual nos maus e nos bons
tu pões a descoberto, e o desnudas.

Vem comigo e deixa que te dê a mão,
tranquiliza profunda e boamente.
Ao formoso fazes essencialmente grande,
fazes o feio pequeno.

É como se quisesses algo de mim.
Claro que queres uma dádiva:
uma estranha chavinha –
a palavrinha sim.

Sim, sim, eu queria!
Sim, sim, eu quero!
A teus pés deposito a minha devoção –
assim cresce a vida.

De sju dödssynderna, 1941



AS ÁRVORES

Vivas como nós
e distantes, tão afastadas
que a nossa palavra «compreender»
devém fumo vão e vento.
Profundamente inacessíveis
a pensamentos e sentidos,
ainda que a vossa casca se sinta rugosamente
agradável no nosso rosto.

Sem olhos resplandeceis
num sonho visual e floral.
Por meio de que instrumentos
conheceis o vosso esplendor?
Graças a que secreta
sabedoria criadora
sois parte do poder
dos sentidos e os aromas?

Recostados contra o tronco
passamos despercebidos,
não nos é permitido entrar
no vosso mundo interior.
Ou será que nos alcança, cautelosa,
uma porção da nossa essência
desconhecida para nós
e digna de ser temida?


Ainda que nascidos sem dúvida
dos mesmos antepassados,
não vemos nem um rebate
do nosso instante comum.
Demasiadas aventuras
nos separaram depois,
demasiado impossível de conhecer
é o nosso simples chão.

Talvez no espere no entanto
um encontro futuro
nesse caminho em que a vida
torna a ser húmus.
Outra mão estendida
entre famílias separadas.
E damos graças à morte
por esta afinidade.

A matéria, sempre emprestada,
devolvemo-la.
Fundia-a no vosso molde!
Tomai e dai!
Troquemo-la entre nós
como dons amistosos,
profundas, formosas, desconhecidas
vidas fraternas.

De sju dödssynderna, 1941



Versão minha - © Amadeu Baptista
 
 
 
 

 
Karin Boye (1900-1941). Nasceu em Gotemburgo. Licenciada em Letras. Foi professora. Membro da revista Spektrum. Colaborou no jornal Arbelet. Poeta e prosadora. A sua vigorosa personalidade marcou profundamente a vida literária sueca dos anos 30 do século passado.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Bo Carpelan



                                             POEMAS DE BO CARPELAN



PEQUENO POEMA

O cata-vento gira ao vento,
o seu peso é o do vento.
Agora pára.
O silêncio devém pedra.
Cai através de ti
a tal velocidade, que acordas
aterrorizado, uma noite de verão.

Landskapets forvandlingar, 1957



JUNTO Á MESA A TUA FIGURA

Junto à mesa a tua figura,
sobre a tua mão a sombra da cabeça do menino, uma fruta,
o teu olhar fixo, através da janela, nos movimentos das árvores,
o movimento reflectido na faca que corta o pão, o uso
e a claridade das coisas.

Den svala dagen, 1960



PASSEIO OUTONAL

Um homem caminha pelo bosque
num dia de luz irisada.
Encontra muito pouca gente,
detém-se, contempla o céu outonal.
Dirige-se ao cemitério
e não o segue ninguém.

Den svala dagen, 1960



A árvore,
a luz ramificada.

73 dikter, 1966



Árvores invernais,
frágeis, o seu sossego
vi-o, não o vi
cedo.

73 dikter, 1966



Quando o verão tinha descarregado a sua chuva como folhas
e também as folhas tinham caído, tinha chegado Setembro,
vi deslizar um pássaro sobre a minha cabeça,
uma sombra de mim que vivia na terra,
presságio de Outubro, sem palavras, mas a mesma canção.

73 dikter, 1966



OUTONO

O outuno é a minha estação.
Os dias transparentes, os cinzentos crepusculares,
os caminhos inundados de água,
a suave névoa.
Não exijas nada, não prometas demasiado.
Ainda assim: há um cheiro a cadáver nas folhas que ardem,
podridão no feno,
gelo no barro,
um vazio nos grandes ventos
como mortalhas e velas.
Tudo morto, tudo se apagando, tudo quieto:
esta sensação não chegou demasiado cedo,
como uma sombra,
uma pedra, polida, depositada sobre os dias de junho?

Källan, 1973


O MANANCIAL

À distância, cruzando os campos
ouve-se, débil mas nitidamente
o manancial de primavera.
Escuto,
aproximo-me.

Pelos bosques estivais,
perfumados de sol e frescor,
soam os ecos da água ridentes.
Sigo o meu caminho,
procurando.

Já se vislumbra
por entre as copas das árvores outonais
o vale onde sussurra
o escondido arroio.
Tenho que descansar.

Como se houvesse neve no ar,
como se os passos fossem infinitos.
Escuto, estou perto.
A voz do manancial, mais débil,
continuadamente ali,
invisível.

Källan, 1973



A luz cai sobre as asas do pássaro
e o pássaro estende-as, afasta-se deslizando
e cria o espaço.

I de mörka rummen, i de ljusa, 1976



NO TERRAÇO DE AGOSTO

A mesa começa a ficar velha, sustem-se instável
sobre as torpes patas. As dobradiças cedem,
as superfícies envernizadas gretam, a mesa
range quando alguém lhe bate.
Também a tarde é velha, cheira a folhas velhas,
amieiros, matas de framboesas silvestres. É difícil
encontrar no verdor que começa a petrificar-se
uma flor, ainda que debilmente luminosa,
que aromatize, esquecida como o quarto de verão de uma estirpe morta –
um aroma a roupa velha, noz moscada ou serrim
sob o embrulho corroído pela humidade nas casas abandonadas.
Algo imóvel, cego penetra em mim através do pensamento:
já sereno com o entardecer de Agosto,
já inquieto ataque de imagens como se um estranho
me obrigasse a folhear rapidamente um álbum de fotografias
com grupos de pessoas – rara uma paisagem,
com uma vegetação selvagem como esta paisagem de agora,
os juncos nunca mais altos, a água coberta de pólen
e na mesa a lâmpada com  seu círculo de luz
sobre o copo, a revista, o caderno. Tudo velho.
De onde estou sentado vejo um caminho coberto,
anos que crescem de novo, silêncio que cresce de novo.
Alguém diz no rádio: «A URSS e os EUA não são estados
no seu significado corrente, são blocos de poder
que consideram óbvio possuir o mundo.»
E um pouco mais tarde: «A Finlândia não é um mau museu».
Anoitece rapidamente, desço um pouco o pavio,
permaneço sentado um instante e acostumo os olhos à noite.
Homens velhos agarram-se com força ao seu  bloco, por cansaço
e costume, e borboletas nocturnas atiram-se contra o velho
mapa tosco do ecrã da lâmpada.
Encontro-me num museu não demasiadamente mau.
Apago a chama. Faz-se escuro, depois cinza.
Alguém vem com a sua remada silenciosa, atraca
no cais de madeira apodrecida, entre os dois blocos
céu e terra. Um voz bem conhecida, querida:
«Vou-me deitar, não te demores muito,
vais ter frio.» Tomo uma toalha,
vou à praia, ajoelho no cais,
molho a cara. Calma, vento débil,
descanso que escuta


Dagen vänder, 1983



NÃO SABIA QUE PÁSSARO

Não sabia que pássaro
se encontrava nos matagais envoltos pela frescura da tarde –
o seu trinado assemelhava-se ao de um melro
mas com mais alento e anseio:
eu tenho muitas vozes, escuta,
fundidas em uma,
ascendente ao ascender o dia,
minguante ao pôr-se o sol,
faz-se uma com o bosque e a luz nocturna:
o espelho da baía, as ribeiras escuras
e uma calmaria feita para canções
que se fundem numa
nos matagais envoltos pela frescura da tarde.

Não soube que pássaro.

Dagen vänder, 1983


Vestida de branco como se tivesse querido caminhar invisível
entre os muros deslumbrantemente brancos – mas
o seu cabelo, a sua pele, os seus membros
resplandecentes, escuros.

Marginalia till grekisk och romersk diktning, 1984



Versão minha - © Amadeu Baptista
 
 
 
 

 
 
Bo Carpelan (1926-2011). Nasceu em Helsínquia. Doutorado em Letras com uma tese sobre a obre de Gunnar Björling. Trabalhou na biblioteca de Helsínquia, de que foi sub-director. Crítico literário no jornal Hufvudtadsbladet. Poeta, dramaturgo e romancista. É o poeta mais representativo da geração dos anos 50, do séc. XX, na poesia finlandesa.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Nelson Mandela 1918-2013




INVICTUS


Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

W. E. Henley (1875)

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Stefán Hördur Grímsson



                                        POEMAS DE STEFÁN HÖRDUR GRÍMSSON


O carro que trava na clareira
parece um negro insecto
descansa nas suas rodas aquecidas
enquanto as pessoas entram no bosque
enchendo o ar com risos de lata.

Atrás fica o caminho
larga serpente sinuosa.

Querida amiga, a das concavidades
e dos sinos de metal:
noutros tempos
aqui não havia caminho
aqui homens cansados e mulheres pálidas
caminhavam por trilhos tortuosos
sob o sol e a sombra
cobertos com escuros mantos
as mãos numa vara retorcida.

Nós, os que aqui viemos
para nos banharmos na espuma das cascatas
não estamos limpos
é nosso o velho sangue

eles são as nossas sombras
eles são as nossas sombras.

Svartálfadans, 1951



GUERRA

Os seus ferros são cinzentos
os seus ferros são afiados.

Sob a lua cheia
vieram ondas vermelhas
para morrer na praia.

Lágrimas nas flores
que murcharão.


Svartálfadans, 1951



DIA DE INVERNO

Olham o céu verde de Fevereiro
os olhos estalados dos lagos
da fria face da terra.

Das viagens dos ventos inquietos
à largura da abóbada celeste
ninguém teve notícia.

Impregnada de orvalho incolor
congela a quietude
sobre o peito dos brancos desertos.

Sob as conchas ocas do silêncio
soam com tom grave
as pulsações do coração do gelo.

Sobre as suas fracas pernas
atravessam os homens o glaciar
com os montes ao ombro.

Svartálfadans, 1951



VAN GOGH

O céu divino da cor tomba
sobre um prado cintilante
e arde no sangue do dia.

A sós, olho o sul,
vejo o meu amigo entre junco brilhantes
colhendo fogo e sol.

Giram numa vertigem louca
a magia, a alegria e a dor
de um criador de obras eternas.

Na gama cromática surge
uma estrela que brilha contente
sobre o dia e a noite.

Svartálfadans, 1951



CANÇÃO DE INVERNO

Tão duras podem ser as sombras da noite
que a pulsação da minha amada
se faz lenta e escura

tão duras podem ser as sombras da noite.

Svartálfadans, 1951



OLÁ, MINHA GATINHA SELVAGEM

Os teus cabelos
o sol dos desertos invernais

os teus olhos
esse azul que enche os arbusto em Agosto
os teus olhos.

Minha gatinha selvagem
fera cruel da profunda selva
olho escuro do medo nocturno
e riso do dia de junho

delícia do jardim da tarde
sabes quem te andou rondando esta noite?

Corre, perde-te
corre sobre as penas e perde-te

minha suave gatinha selvagem
que eu te procurarei.

Svartálfadans, 1951



A PESCARIA

Coberta: cadáver amarelecido sobre tábuas escuras.
Proa: que fende o lombo das ondas
Torno: que acompanha a nortada
Marinheiro: o que puxa um pedaço de corda
Patrão: o homem mais feio do barco, à janela.

No alto a espuma e nuvens desgarradas
e debaixo o abismo com os seus pálidos bosques.

Svartálfadans, 1951




O PRAZO


Em breve o homem deixará de se reflectir nos olhos do cão.
Já ninguém põe em dúvida a sua excelência
e o seu domínio cresce por toda a parte.

Já é o maior predador da terra.
Graças à sua rápida reprodução
destrói todo o vivo e o morto
na terra, nos céus e no mar.

Começou inclusive a mandar para as estrelas
as bactérias que cria
no seu fétido corpo.

Oh deuses, perdoai-me estes pedaços ruminados das revistas.
Que todos os lábios louvem a poesia e o amor
até aos confins do mundo.

Hlidin á slétunni, 1970



TREZA AMARELAS E UMA NEGRA

E críamos ser os bailarinos
acreditávamos participar no baile,
pisando o espelho com moldura de carvalho

O sábio negro pôs uma flor do cume dos Himalaias na
botoeira:

A juventude é como uma corola cheia de água
a velhice honrada recebe todo o peso dos aplausos

Tu, azul Atlântico,
gota amarga de suor da terra epiléptica
Orvalho quente da face
que ascende até à abóbada do salão de baile
e se funde com o pano de seda no fundo do bolso
das calças

Esta dança de sangue no cone de luz

Não é estranho que estejamos cansados
nós, cristalização do esgotamento
que se abateu sobre a terra febril
esse louco dançarino com a sua roubada luz no regaço

Nós, sal da terra

Suor de um pião

 Hlidin á slétunni, 1970



A TENDA BRANCA

Durante décadas tinha percorrido o mundo e agora tinha voltado, sem passado,
desembarcando no sul, da passagem para o norte, por volta do solstício de verão. Fizemos a viagem juntos através do páramo e decidimos continuar de noite. Pelas doze um sol vermelho batia-nos no rosto, fizemos uma paragem e disse-me que tinha deixado
a sua vida no estrangeiro e que ia ao norte em busca de certa sombra chamada Dúvida. Depois de me falar dessa sua sombra seguiu para o nordeste para cruzar os montes e eu pernoitei aqui, onde já não posso ver os glaciares por causa da sua sombra. Vós, que voais esta noite sobre o deserto, podereis ver sobre o páramo a sua tenda branca.

Hlidin á slétunni, 1970




HORA DE VOO

É o verão
que pinta de azul as empenas
do amanhecer.
Ninguém o pode negar.

A trombeta muda de som
quando é outono na montanha.
Canta, pássaro.

Ele coroou o vento de flores
que exalaram o seu aroma
desde que ela as viu.

Canta, pássaro
canta e afugenta os caminhos da noite.

Hlidin á slétunni, 1970



PAISAGEM

Seixos e ar.
Não há marcos que assinalem os caminhos
nas proximidades.

Neste lugar deserto
no silêncio sem caminhos
reanima-te a luaa de verão.

Caçadora e presa dos pensamentos
a névoa nocturna foge da tua face.
Brilham os cumes. Amanhece.
E tu desapareces na alba
por detrás da manhã.

Hlidin á slétunni, 1970



GLACIARES

No verão os glaciares saúdam o céu límpido
resplandecem alegres nos cálidos dias de sol
e enganam-nos por completo.

No inverno dizem a verdade
já não têm que fingir
e adaptam-se ao clima

Farvegir, 1981



ORAÇÃO

Chuva para o bosque jovem
sol para o bosque jovem
sol e chuva para o bosque jovem.

Farvegir, 1981



AMANHECER

É a hora
em que os sonhos se envergonham
perante a nova experiência
e o medo faz empalidecer as áreas de caça.

Manhã de segredos. Manhã de perguntas.
Recolho água do manancial da montanha
e refresco os meus olhos.
Manhã que chega com o vento primaveril.

Lá longe.
Uma rapariga sobre um cavalo negro
cumprimenta do caminho.


Farvegir, 1981



ORAÇÃO NOCTURNA

Brisa, caminha suave
sobre o teu páramo
desliza sobre o oceano
e não agites as lagoas.

Um espírito insone
procura-te um refúgio entre os juncos.
Olha, o oceano dorme esta noite
e brilham as estrelas sobre o seu suave ventre.

Tengsl, 1987



DOMINGO

Sobre os espelhos profundos
passa a rota
com a vela do pensamento
através das chamas
ao encontro dela
com um brilhante escudo contra todos os ventos

Não te apagues, chama
nos vos arrefeçais, incêndios.

Farvegir, 1981



TRÉGUA NOCTURNA

Quietude terrena. Apieda-te de mim por um instante.
Desperta no me sangue uma veia secreta
e faz que uma gota caia como mísera oferenda
sobre a suave terra.

Quietude do bosque concede-me uma paz inquieta
quando acordar,
enche o meu peito como sempre de ânsia viajante:

Da minha nobre nostalgia.

Yfir heidan morgunr, 1989



ANAIS

Então cantavam os bosques;
cantavam
isso dizem
os documentos.

É certo
que cantavam
mas era com o sol
e no final da época das chuvas.

E é que o bosque
cantava
mas os documentos
rangem.

Rangem
como flores murchas
ao secarem-se as fontes.

Yfir heidan morgunr, 1989



NA RIBEIRA

Somos homens em marcha
O peixe assustado oculta-se sob a margem.
Fujamos do seu medo
Fujamos!
A nossa morte está assustada.

Yfir heidan morgunr, 1989


Versão minha - © Amadeu Baptista
 
 

 
 
Stefán Hördur Grímsson, n. em 1920. Pertenceu ao grupo dos chamados poetas atómicos. O seu primeiro livro data de 1946, a que seguiram mais cinco. Original e complicado nas suas imagens, mas certeiro nas suas palavras. Os seus versos criticam a contaminação da natureza e o abuso da técnica, sem esquecer a vertente amorosa: Traduziu para o islandês poesia de inúmeros idiomas.