sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Nelson Mandela 1918-2013




INVICTUS


Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

W. E. Henley (1875)

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Stefán Hördur Grímsson



                                        POEMAS DE STEFÁN HÖRDUR GRÍMSSON


O carro que trava na clareira
parece um negro insecto
descansa nas suas rodas aquecidas
enquanto as pessoas entram no bosque
enchendo o ar com risos de lata.

Atrás fica o caminho
larga serpente sinuosa.

Querida amiga, a das concavidades
e dos sinos de metal:
noutros tempos
aqui não havia caminho
aqui homens cansados e mulheres pálidas
caminhavam por trilhos tortuosos
sob o sol e a sombra
cobertos com escuros mantos
as mãos numa vara retorcida.

Nós, os que aqui viemos
para nos banharmos na espuma das cascatas
não estamos limpos
é nosso o velho sangue

eles são as nossas sombras
eles são as nossas sombras.

Svartálfadans, 1951



GUERRA

Os seus ferros são cinzentos
os seus ferros são afiados.

Sob a lua cheia
vieram ondas vermelhas
para morrer na praia.

Lágrimas nas flores
que murcharão.


Svartálfadans, 1951



DIA DE INVERNO

Olham o céu verde de Fevereiro
os olhos estalados dos lagos
da fria face da terra.

Das viagens dos ventos inquietos
à largura da abóbada celeste
ninguém teve notícia.

Impregnada de orvalho incolor
congela a quietude
sobre o peito dos brancos desertos.

Sob as conchas ocas do silêncio
soam com tom grave
as pulsações do coração do gelo.

Sobre as suas fracas pernas
atravessam os homens o glaciar
com os montes ao ombro.

Svartálfadans, 1951



VAN GOGH

O céu divino da cor tomba
sobre um prado cintilante
e arde no sangue do dia.

A sós, olho o sul,
vejo o meu amigo entre junco brilhantes
colhendo fogo e sol.

Giram numa vertigem louca
a magia, a alegria e a dor
de um criador de obras eternas.

Na gama cromática surge
uma estrela que brilha contente
sobre o dia e a noite.

Svartálfadans, 1951



CANÇÃO DE INVERNO

Tão duras podem ser as sombras da noite
que a pulsação da minha amada
se faz lenta e escura

tão duras podem ser as sombras da noite.

Svartálfadans, 1951



OLÁ, MINHA GATINHA SELVAGEM

Os teus cabelos
o sol dos desertos invernais

os teus olhos
esse azul que enche os arbusto em Agosto
os teus olhos.

Minha gatinha selvagem
fera cruel da profunda selva
olho escuro do medo nocturno
e riso do dia de junho

delícia do jardim da tarde
sabes quem te andou rondando esta noite?

Corre, perde-te
corre sobre as penas e perde-te

minha suave gatinha selvagem
que eu te procurarei.

Svartálfadans, 1951



A PESCARIA

Coberta: cadáver amarelecido sobre tábuas escuras.
Proa: que fende o lombo das ondas
Torno: que acompanha a nortada
Marinheiro: o que puxa um pedaço de corda
Patrão: o homem mais feio do barco, à janela.

No alto a espuma e nuvens desgarradas
e debaixo o abismo com os seus pálidos bosques.

Svartálfadans, 1951




O PRAZO


Em breve o homem deixará de se reflectir nos olhos do cão.
Já ninguém põe em dúvida a sua excelência
e o seu domínio cresce por toda a parte.

Já é o maior predador da terra.
Graças à sua rápida reprodução
destrói todo o vivo e o morto
na terra, nos céus e no mar.

Começou inclusive a mandar para as estrelas
as bactérias que cria
no seu fétido corpo.

Oh deuses, perdoai-me estes pedaços ruminados das revistas.
Que todos os lábios louvem a poesia e o amor
até aos confins do mundo.

Hlidin á slétunni, 1970



TREZA AMARELAS E UMA NEGRA

E críamos ser os bailarinos
acreditávamos participar no baile,
pisando o espelho com moldura de carvalho

O sábio negro pôs uma flor do cume dos Himalaias na
botoeira:

A juventude é como uma corola cheia de água
a velhice honrada recebe todo o peso dos aplausos

Tu, azul Atlântico,
gota amarga de suor da terra epiléptica
Orvalho quente da face
que ascende até à abóbada do salão de baile
e se funde com o pano de seda no fundo do bolso
das calças

Esta dança de sangue no cone de luz

Não é estranho que estejamos cansados
nós, cristalização do esgotamento
que se abateu sobre a terra febril
esse louco dançarino com a sua roubada luz no regaço

Nós, sal da terra

Suor de um pião

 Hlidin á slétunni, 1970



A TENDA BRANCA

Durante décadas tinha percorrido o mundo e agora tinha voltado, sem passado,
desembarcando no sul, da passagem para o norte, por volta do solstício de verão. Fizemos a viagem juntos através do páramo e decidimos continuar de noite. Pelas doze um sol vermelho batia-nos no rosto, fizemos uma paragem e disse-me que tinha deixado
a sua vida no estrangeiro e que ia ao norte em busca de certa sombra chamada Dúvida. Depois de me falar dessa sua sombra seguiu para o nordeste para cruzar os montes e eu pernoitei aqui, onde já não posso ver os glaciares por causa da sua sombra. Vós, que voais esta noite sobre o deserto, podereis ver sobre o páramo a sua tenda branca.

Hlidin á slétunni, 1970




HORA DE VOO

É o verão
que pinta de azul as empenas
do amanhecer.
Ninguém o pode negar.

A trombeta muda de som
quando é outono na montanha.
Canta, pássaro.

Ele coroou o vento de flores
que exalaram o seu aroma
desde que ela as viu.

Canta, pássaro
canta e afugenta os caminhos da noite.

Hlidin á slétunni, 1970



PAISAGEM

Seixos e ar.
Não há marcos que assinalem os caminhos
nas proximidades.

Neste lugar deserto
no silêncio sem caminhos
reanima-te a luaa de verão.

Caçadora e presa dos pensamentos
a névoa nocturna foge da tua face.
Brilham os cumes. Amanhece.
E tu desapareces na alba
por detrás da manhã.

Hlidin á slétunni, 1970



GLACIARES

No verão os glaciares saúdam o céu límpido
resplandecem alegres nos cálidos dias de sol
e enganam-nos por completo.

No inverno dizem a verdade
já não têm que fingir
e adaptam-se ao clima

Farvegir, 1981



ORAÇÃO

Chuva para o bosque jovem
sol para o bosque jovem
sol e chuva para o bosque jovem.

Farvegir, 1981



AMANHECER

É a hora
em que os sonhos se envergonham
perante a nova experiência
e o medo faz empalidecer as áreas de caça.

Manhã de segredos. Manhã de perguntas.
Recolho água do manancial da montanha
e refresco os meus olhos.
Manhã que chega com o vento primaveril.

Lá longe.
Uma rapariga sobre um cavalo negro
cumprimenta do caminho.


Farvegir, 1981



ORAÇÃO NOCTURNA

Brisa, caminha suave
sobre o teu páramo
desliza sobre o oceano
e não agites as lagoas.

Um espírito insone
procura-te um refúgio entre os juncos.
Olha, o oceano dorme esta noite
e brilham as estrelas sobre o seu suave ventre.

Tengsl, 1987



DOMINGO

Sobre os espelhos profundos
passa a rota
com a vela do pensamento
através das chamas
ao encontro dela
com um brilhante escudo contra todos os ventos

Não te apagues, chama
nos vos arrefeçais, incêndios.

Farvegir, 1981



TRÉGUA NOCTURNA

Quietude terrena. Apieda-te de mim por um instante.
Desperta no me sangue uma veia secreta
e faz que uma gota caia como mísera oferenda
sobre a suave terra.

Quietude do bosque concede-me uma paz inquieta
quando acordar,
enche o meu peito como sempre de ânsia viajante:

Da minha nobre nostalgia.

Yfir heidan morgunr, 1989



ANAIS

Então cantavam os bosques;
cantavam
isso dizem
os documentos.

É certo
que cantavam
mas era com o sol
e no final da época das chuvas.

E é que o bosque
cantava
mas os documentos
rangem.

Rangem
como flores murchas
ao secarem-se as fontes.

Yfir heidan morgunr, 1989



NA RIBEIRA

Somos homens em marcha
O peixe assustado oculta-se sob a margem.
Fujamos do seu medo
Fujamos!
A nossa morte está assustada.

Yfir heidan morgunr, 1989


Versão minha - © Amadeu Baptista
 
 

 
 
Stefán Hördur Grímsson, n. em 1920. Pertenceu ao grupo dos chamados poetas atómicos. O seu primeiro livro data de 1946, a que seguiram mais cinco. Original e complicado nas suas imagens, mas certeiro nas suas palavras. Os seus versos criticam a contaminação da natureza e o abuso da técnica, sem esquecer a vertente amorosa: Traduziu para o islandês poesia de inúmeros idiomas.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Gustaf Munch-Petersen



                                          POEMAS DE GUSTAF MUNCH-PETERSEN


O PAÍS DE MAIS ABAIXO

                        Para fannie hurst

Oh que grande sorte
que grande sorte têm
os que nasceram no país de mais abaixo –
vê-los-eis em toda a parte
vagar
amar
chorar –
vão a toda a parte
mas nas suas mãos levam pequenas coisas
do país de mais abaixo –

- - -

oh maior que qualquer outro país
mais fabuloso
é o país de mais abaixo –
a terra torce-se para cima
em ponta –
e para baixo
para fora vai caindo
o sangue pesado e vivo
e penetra no país de mais abaixo

- - -

delgados pés prudentes
e membros raquíticos
e o ar é puro
pelos ascendentes caminhos abertos –
nas veias fechadas
arde o anseio daqueles
que nasceram lá em cima sob o céu

mas oh
deveríeis ir ao país de mais abaixo –!
oh deveríeis conhecer a gente do país de mais abaixo,
onde o sangue corre livremente entre todos –
homens –
mulheres –
crianças –
onde a alegria e o desespero e o amor
pesados e maduros
resplandecem em todas as suas cores sobre a terra
oh a terra é misteriosa como uma face
no país de mais abaixo –

- - -

vede-os por toda a parte
vagar
amar
chorar –
os seus rostos estão fechados
e dentro das suas almas há terra
do país de mais abaixo –

det inderste land, 1933



INVERNO

Bramam as tormentas –
o inverno faz a sua guerra –
o mar vagabundeia
ao largo das costas –
o céu segue-o
das alturas –
as casinhas amontoam-se
assustadas contra a terra –
o gélido olho da lua
olha fixamente através do muro da noite
os homens que andam a recolher carvão –

19 digit, 193



NÃO ME FALEIS

Silêncio
silêncio –
não me faleis –!

muito muito prudentemente
devo andar,
se quero encontrar algo –
e devo andar só
se quero encontrar algo –
não encontrei nada no entanto –
não encontrei
a minha casa
o meu amor
nem os meus campos –
devem estar
lá onde eu não estive no entanto –
já caminhei muito tempo –
talvez me reste muito caminho
por andar no entanto –

e tenho que andar só
e com terrível cuidado
tenho que andar
se quero encontrar algo –
mas tenho que encontrar
um lugar onde estar –

tenho que ter um lar em algum sítio
pois sei
que tenho a minha casa
e os meus campos em alguma parte –
o meu amor não pode estar a esperar-me até sempre
já caminhei muito tempo
não me faleis –
se ainda tenho que seguir andando muito tempo
talvez seja demasiado tarde –

silêncio – silêncio!
tenho que
encontrar o meu lar –

Samlede skrifter II, 1967



UMA PEQUENA CANÇÃO

Matei o deus de mary ann –
mary ann teme o meu deus –
amo mary ann –
quando a ardente negrura me aparece defronte
deixo mary ann
ao seu amor por mim –

quando sobe o pálido sol
com os seus olhos azuis matinalmente húmidos,
volto para mary ann
com o meu amor por ela –
pobre mary ann –
e pobre de mim –
mas temos um grande coração
juntos –
mary ann e eu –

Samlede skrifter II, 1967



O MILAGRE ESPECIAL

Todas as noites estava cansado,
e todos os dias fazia o que lhe diziam –
e sem armar escândalo
chegou aos trinta anos –
e bastante só –

e uma noite não tinha sono,
e naquela noite pensou
que algo
poderia acontecer-lhe –
especialmente –

e cedo na manhã
roubou cinco libras
e apanhou uma boa borracheira
com uma mulher que conhecia –
o dia, a noite e o dia seguinte

e tarde aquela noite
detiveram-no –
em silêncio, sem escândalo –
e depois de um tempo voltou –
mas oh –!

todas as noites dormia
e durante o dia fazia o que lhe diziam –
e junto com a mulher que conhecia
chegou sem escândalo aos
sessenta anos –
quando se falava da vida,
sorria –

Samlede skrifter II, 1967



Versão minha - © Amadeu Baptista
 
 
 




Gustaf Munch-Petersen (1912-1938). Nasceu em Copenhagen, onde estudou na  Universidade daquela cidade. Pintor e poeta surrealista. Estreou-se em 1932. Escreveu os seus poemas em dinamarquês, inglês e sueco. Para defender a República Espanhola alistou-se nas Brigadas Internacionais e morreu na batalha do Ebro. Alguma da sua poesia foi publicada postumamente.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Nicolau Saião


                                               NICOLAU SAIÃO, POETA CONVIDADO


                                                                  5 POEMAS INÉDITOS



ATÉ AO FIM

Quando entrei na sala vi num relance que o meu demónio 
estava deitado
A boca entreaberta, um resto de baba no queixo de quem 
Dorme justamente como um anjo.
A janela pouco cerrada e o sofá chegado 
à plena luz
A manta já antiga azul e amarela roçava o chão como se
Tivesse havido por ali discreta borracheira dominical. 
Congeminei
Que ele antes de reentrar vindo do etéreo passara 
por uma tasca ou que 
aceitara a oferta toma lá dá cá de um qualquer maltrapilho
Cheio àquelas horas entradotas de uma modesta
fraternidade bebedora.
Olhando bem via-se-lhe contudo no rosto 
uma vaga felicidade
Dizendo melhor uma centelha de contentamento 
ou alegria, ou
assim como que a sensação de quem vira o mundo 
no seu lugar real
Vamos a ver, no fundo a lonjura dominava
Como se visse o cavalheiro por uns binóculos ao contrário
Cheirava um pouco a flores e vagamente 
a desodorizante
Um livro tombara no chão, ficara à espera 
aberto anquilosado
Quando abri a porta da cozinha vi sobre 
o fogão um tacho com
Uma iguaria qualquer com que se entretivera 
certamente antes de cair no leito vencido
talvez pelas canseiras das últimas horas.
Se minha mãe estivesse viva decerto 
lhe teria aplicado um raspanete
Uma expressão em dialecto se calhar 
um tabefe levezinho. O meu pai
Poria na cara aquele sorriso suave dos dias sem idade
Lá fora estrepitavam ruídos da cidade barulhenta
Contos do dia e da noite, o irresistível 
fascínio do desconhecido.
Sentei-me, a angústia apoderara-se de mim. Uma frase estranha 
Revirava-se-me na cabeça. 
Quando olhei pela janela o horizonte 
pareceu-me uma linha ténue.
Mais tarde, pensei, falaríamos a preceito. Ou antes
por entre dentes eu diria talvez
coisas sobre a grande aurora ou então sobre a memória
Sibilina dos sobreviventes imutáveis.



AQUI, ALI, ACOLÁ

Não se vai longe correndo
não se vai longe
a carne é fraca
o vento quebra ao nosso lado   as visões  os sinais
as presenças de gente e de lugares  de grandes 
árvores solitárias
de portas que se abrem e de rostos sobre o seu 
rodapé   de suas cicatrizes na madeira em que se bate
não se vai longe
dói por dentro a memória
o desejo
os grandes passos  as passadas ferindo lume
chispas mordentes de cavalo ou de avestruz no deserto
nas ruas imprecisas
mortalmente atentas
Não
não se vai longe
o peito ressoa
a mão grita
o olho soluça
e é por dentro um motor sufocando nas bermas
o nosso crescimento implume
Por isso é necessário
e vivente como andar de coruja ou leopardo
como rapariga apaixonada num café de vila remota
ir devagar
passo a passo
devagarinho como um ribeiro na pradaria   entre
árvores de fruto e plantas campestres
pé ante pé
com os dedos adejando  com os lábios
rebrilhando
e soletrar fragmentos de uma palavra serena
sonora
breve
Ir devagar
como se adormecêssemos
como se habitássemos um bosque
como se de novo chegássemos à primeira luz.



VISLUMBRE

No bote, os polícias jazem amorosos
no virar da semana
com as suas adoradas em passeio
naquele jardim com o lago meio adormecido
em que depois de remarem, como os cisnes do parque
como a lua se tivesse caído na água
ficam no vazio, olhando os bancos e a relva 
dessas horas em que as ramagens cobrem
os corpos de quem descansa e os ausentes
comem sua merenda debaixo de outras folhas
em diferentes lugares.
No barco ou ao balcão do quiosque eles sustêm
na sua mão a mão de alguém que os prolonga.
Onde estão as crianças e a música? Quando não é manhã
os barcos vogam
em busca de um horizonte em que haja noite
dentro mesmo dos corpos, até do peito fendido
em que eu contemplo as silhuetas seculares
quase no fim dos bosques onde depois se amam
e se interrogam por um nada
bocejando aqui e além.
Tocas com essa mão a primeira palavra. E notas 
no céu negro figuras como havia
na tua adolescência sussurrante. Agora
olhas ao pé do castelo um pequenino embrulho
e foi há muito tempo que o sentiste
uma e outra hora e ainda uma outra hora, essas
que de repente param e tu sorris
na evidencia que te chama. E dizes, como se nada fosse
- Ouve, jovem polícia, o teu barco quedou-se ali
e por entre as pálpebras semicerradas
o teu amor esvoaça. Oito nove de noventa e seis
repara bem
o taumaturgo testa a tua sede. O teu raro momento
tão plácido e completo como um hall sem ninguém.
Vamos embora, meu Senhor. 
Seco e magro como um vislumbre
que estimula os quartos ao derredor
andas de continente em continente
e os risos aumentam e aumenta
o choro ao canto do jardim ensolarado.
Uma palavra em calão e uma reza, uma reza
saindo sem que o soubessem alegremente das trevas.



ANUNCIAÇÃO

As mulheres do vento   parado como um planeta extinto
as mulheres doentes   as mulheres que cantam com surpresa
o seu vestido estranho como uma renda   como uma absurda mancha
as mulheres do meu dia como um peso de cores distintas
entre mim e o céu
Entram pela minha boca e censuram-me docemente
Aqui, diz uma, puseste o horror de um velho instante
ali, diz outra, não deixaste repousar os devaneios
Há uma que paira, como se me fitasse a direito, com as mãos
junto da testa, perto dos olhos, os lábios palpitando
estremecendo como uma pétala sobre a água
Mulheres de negro, afagando pastas de couro em lojas improváveis
escrevendo em papéis antigos fórmulas de gentileza
Mulheres que a diabetes assolou como praga medieval
mulheres de pernas como lírios rosados
andando ao longo duma estrada francesa
as árvores coloridas formando uma cortina imprecisa
Job de rosto erguido amargo senhor das angústias
a sua face trémula tão igual à do Senhor na noite de suor e remorsos
a sua mulher por detrás, arrepanhando as vestes
Dizei-me mulheres  onde com que luz a vossa fotografia se encarquilhou
na madeira queimada das velhas casas onde medrava a guerra
Vós sois o sustento dos pontos cardeais
Lembro-me de ti, Marion, o rosto rodando como um guindaste
e o fumo que soltavas com um meneio elegante da mão esquerda
o fumo espalhado no parque abandonado
os olhos tranquilos frios
A rua solitariamente sob a noite de Junho
e o cão o velho cão dos bosques que trotava muito devagar
A vossa figura palpitante, mulheres, irisada obscura
à luz frouxa da manhã   e o frio subindo até às portas como um animal 
a morrer.



LEVANTAMENTO DE RANCHO

O meu sargento desculpe mas ali não havia sonhos
Nem sequer daquele arroz que a prima Maria fazia
Doce como os sonhos o meu sargento desculpe
Mas é tão estúpido tão escalabitano tão
A norte de Bafatá ou mesmo 
Castelo Branco o meu sargento é um nabo
Sonhos de ovos em castelo misturados na farinha
O meu coronel desculpe mas tive de o abater
O gajo não entendia que os sonhos eram os outros
Eu não ia gastar na tropa recordações de noites várias
E já agora também lhe digo que na bolanha entre as árvores
Há um ar em silencio extremamente melancólico
O meu capitão desculpe mas não chamei a amargura
De quando conheci a Domingas uma vez encontrei-a
Já havia muitos meses que me lavava a roupa
Junto ao mercado do Pixiguiti   chorava
Era sofrida como uma mulher
Doce e tão calada como um objecto partido
O meu capitão desculpe mas tive que o abater
É uma coisa que me chateia entrarem-me nos afectos
O que é que você sua besta sabia da ternura em comissão
De serviço   o senhor que olhava de alto os taratas e os mancarras
O meu major desculpe mas era chegada a hora 
Tantos anos depois ficaram todos em fila
A vingança é o que mais mora numa cabeça de soldado
Pensa-se nisso sempre quando se passa à peluda
De modo que foi assim   fiz levantamento de memórias
E o melhor de tudo foi que já não me podiam tocar
Eram nabos frios como o esparguete o arroz sensaborão
Ficaram todos em fila pois então
Mesmo que em sonhos   e agora estes não são
De ovos e farinha como almejava nesse tempo
Quando aguardava sem chegar uma encomenda familiar
Os olhos antigos tão fundos como o pego do rio Geba
E já agora que estamos com a mão na outra massa
Que é como quem diz com a pata na G3
O meu general vá à fava   palavra de civil tão sem galões
O meu general é um nabo como na caserna se dizia.


(do livro inédito 'Escrita e o seu Contrário')


© Nicolau Saião
 
 
 
 


Nicolau Saião – Monforte do Alentejo (Portalegre) 1946. É poeta, publicista, actor-declamador e artista plástico. Reside no agregado populacional de Atalaião.
Participou em mostras de Arte Postal em diversos países. Em 1992 a Associação Portuguesa de Escritores atribuiu o prémio Revelação/Poesia ao seu livro “Os objectos inquietantes”. Autor ainda de “Assembleia geral” (1990), “Passagem de nível”, teatro (1992), “Flauta de Pan” (1998), “Os olhares perdidos” (2001), “O armário de Midas” (Moçambique, 2005), “O desejo dança na poeira do tempo”, “Escrita e o seu contrário” (a publicar).
No Brasil foi editada em finais de 2006 pela Ed. Escrituras uma antologia da sua obra poética e plástica (“Olhares perdidos”) e, em 2011 o tomo em prosa “As vozes ausentes”. Fez para a “Black Sun Editores” a primeira tradução mundial integral de “Os fungos de Yuggoth” de H.P.Lovecraft (2002) que anotou, prefaciou e ilustrou, o mesmo se dando com o livro do poeta brasileiro Renato Suttana “Bichos” (2005).
Tem colaborado em espaços culturais de vários países: “Saudade”, “Bíblia”, “Bicicleta”, “Callipolle”, “A cidade”, “Petrínea”, “Sílex”, “Colóquio Letras”, “Revista 365”, “Jornal de Poetas e Trovadores”, “DiVersos” (Portugal/Bruxelas), “Albatroz” (Paris), “Os arquivos de Renato Suttana”, “Agulha”, Cronópios, “Jornal de Poesia”, “António Miranda”, “Laboratório de poéticas”(Brasil), “Espacio/EspaçoEscrito”, “A Xanela”(Espanha), “La Lupe”, “Decires”(Argentina), “Botella del Náufrago”(Chile), “Blanco Móvil” (México), “Mele” (Honolulu).

 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Mais 14 Fragmentos de Veneza




Caffé Paradiso: um vaso azul com uma avenca em cima de uma mesa
avisa que a partir deste bosque que brilha todos os nós de angústia
se desatam.

A inconfundível eternidade da água.
A excepcional eternidade da música.


A exemplo de Mantegna, estamos em Veneza
e somos trespassados por arte despedida,
tal como S. Sebastião.


Ah, o sirocco, esse vento que chega com uma moldura negra
para assediar Veneza – tal como o amor, como vimos
em Thomas Mann, via Visconti, o sirocco
é uma experiência religiosa que, no caso,
a música de Mahler ampliou.


Há-de ser possível tocar o chão de San Giorgio Maggiore com a polpa
dos dedos para que neles permaneçam as impressões digitais de Veneza.


Carnaval de Veneza: animais sumptuosos
que nos obrigam a respirar
a sombra.


Do que não reclamamos: esta paixão de obscura
volúpia sob o impulso silente dos putti
que do tecto do quarto nos observam
como se fôssemos anjos
em queda livre.


Poucas árvores em Veneza, mas não há
mais densa floresta do que esta.


Não me favorece o escrutínio da ausência,
nem as noites mal dormidas – o meu coração
abatido sabe que participou em assaltos,
mas que tudo perdeu na extensa deriva da batalha,
sem mais poder fazer do que regressar ao livro
para erguer a decifração do enigma,
tal como aconteceu com Veneza, que tudo desbaratou
sobre a paixão, ainda que nenhuma ruína patenteie
e o seu amor pertença a um reino inefável.


Adormeces enfeitiçada pelo sortilégio de Veneza
enquanto velo o que de ilegível  dorme em ti.


Disse Napoleão que seria um Átila para Veneza.
Mais cedo do que tarde os bárbaros acabam por chegar
para cobrir de luto o sortilégio das cúpulas douradas
e dos beijos fogosos.


A haver uma fractura poética que me sobressalte neste lugar
é saber como milhares de náufragos foram despojados
das suas túnicas brancas para que oscilassem os pallazos
sobre as águas mansas.


Numa parede da gare marítima de Veneza,
vi escrito: Te odio, Tomasino! Também num muro
de Ballymurphy Seamus Heaney leu:
«Haverá vida antes da morte?». Ah, os poetas
andam engalfihados numa luta amorosa
e o mundo cai em arrasadoras ciladas.


A despedida anuncia-se por um céu branco
e ondas intempestivas no casco do navio.
Fico na amurada a ver Veneza a fundir-se
aos meus empolgamentos, sem saber
se fiz esta viagem pelo rescaldo esmagador
dos nossos devaneios ou se o que aconteceu
foi apenas a breve pulsação de um delírio.
Ah, talvez o indizível não seja mais que este
estremecimento a que de longe aceno
pelas regras indeclináveis do abandono,
que nos retém, ainda.


Inédito - © (poemas e fotos) Amadeu Baptista
 
 
 

 

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Inger Hagerup


                                             POEMAS DE INGER HAGERUP


A PESTE

I

Levantemos uma bandeira negra sobre os países
e desenhemos uma cruz na nossa porta,
pois uma grande peste assola a terra.
Percorreu a árida terra de África sobre pés amarelados
    pela febre.
Desfilou pelas ruas de Berlim
ao compasso de tambores e música de vento.
Nos conventos de Espanha disse como os anciãos
o deslizante rosário das metralhadoras,
e nos arredores de Madrid escondeu o seu terrível rosto
numa máscara de gás último modelo.
Atirou sobre as suas empestadas feridas as capa do ditador
e cobriu o seu ventre inchado com uma casula vermelha de bispo.
Um dia nomearam-na catedrática em Jena.
E ela falou com uma boca bicuda e astuta atrás dos seus livros.
Em Xangai enforcou trezentos escravos que tinham pedido pão
e quando teve oportunidade de arrancar as unhas
    a um velho judeu
largou à gargalhada.
Olhos os seres humanos com olhos sanguinolentos
ferindo-os com a cegueira,
para não cultivem cereais na terra,
mas granadas nas fábricas,
para que não construam cidades levantadas até ao céu,
mas as incendeiem,
para que não saúdem o seu irmão,
mas o matem
– – –

     Levantemos uma bandeira negra sobre os países
e desenhemos uma cruz na nossa porta,
por causa da grande peste.

Jeg gikk meg vill i skogene, 1939



AS REDES DE FERRO

Três irmãs pálidas
dançam sem som à luz da aurora boreal.
Três irmãs pálidas
com vestidos de prata.
Onde põem os seus pontiagudos tacões
morre a última flor,
cai a folhagem amarelenta retinindo no chão,
quebram-se as valentes espadas das espigas.

Três irmãs pálidas
dançam sem som à luz da aurora boreal.
Na manhã seguinte restam as caudas dos seus vestidos de prata
sobre os prados orvalhados.


Jeg gikk meg vill i skogene, 1939



EU SOU O POEMA

Sou o poema que ninguém escreveu
Sou a carta que sempre se queimou.

Sou o caminho que ninguém tomou
e o som que nunca soou.

Sou a oração dos lábios mudos
Sou o filho de uma mulher não nascida,

uma corda que nenhuma mão estendeu
uma fogueira que ninguém acendeu.

Acordai-me! Redimi-me! Levantai-me já
da terra e disponha, de espírito e corpo e alma!

Mas quando rezo, só respostas incompletas.
Eu sou as coisas que não ocorrem nunca.

Jeg gikk meg vill i skogene, 1939




ODE ÁS VERDURAS

Pesadamente carregados como guerreiros vitoriosos
voltamos diariamente do nosso horto a casa.
Às verdes hordas das couves liquidámos,
separámos as suas grossas cabeças do corpo com uma aguçada
    faca
e colocámo-las em cestos.
Ao risonho leque das cenouras arrancámo-lo cuidadosamente,
e logo recolhemos os sangrentos cachos dos tomates.
Sob férteis bosques de folhas denteadas
explodiram os pepinos como peludos dedos de crianças.
Agora nadam em recipientes de vidro
para oferecerem aos nossos paladares avinagrada doçura no inverno.
Das flores de borboleta do feijão verde surgem
arqueados barcos vikings com minúsculos rosário de escudos na
    borda
(vagamente camuflados sob a tensa pele da bainha das ervilhas).
As frias cores da couve-flor, elegantemente apertadas como o ramalhete
nupcial dos anos noventa
misturam-se com redondas cebolinhas e minúsculos pepinos no frasco.
O nabo ergue-se a meio caminho da terra
no seu afã de servir e fastidiosa riqueza vitamínica.
Deixamo-los sem cerimónia no canto mais escuro do sótão
onde saberemos encontrá-lo de novo
quando os dias se fizerem curtos e pardacentos.
Mas as batatas, férteis como um chinês do condado da fome,
recolhemo-las aos centos, sim, aos milhares, da terra do nosso horto.
Porque a batata, esse curtido proletário dos nossos sótãos,
ressuscita a cada dia dourada e fumegante
convertida no sólido centro
à volta do qual se unem o arenque salgado e o jarro de água
sobre a toalha da nossa mesa.

Flukten til Amerika, 1942



 A MINHA AMADA CHEGOU A CASA ONTEM

A minha amada chegou a casa ontem
com brancos flocos de neve no cabelo.

A minha amada não é minha.
De outro é o seu coração.

Também a minha amada foi enganada.
Amargamente ontem a noite chorava

no sonho, quando me disse:
meu amor, quero-te tanto!

Videre, 1945



CREIO

Eu creio em muitas coisas. No sangue. No fogo.
Creio em caminhos onde não é possível perdermo-nos.
Creio nos sonhos dos que pertencemos.
Caminho às cegas. Não me leves a casa.
Deixa que a noite me guie sempre até adiante.
Em algum lugar na escuridão há uma porta entreaberta.
Em algum lugar num limite entre corpo e alma,
um lugar onde o próprio tempo diz detém-te
– lá onde talvez ardesse o meu coração?

Não me escutes. Todas as minhas palavras
são perigosos profetas, falsas pistas.
Sou muito diferente do que tu acreditas.

Videre, 1945



TAMBÉM O AMOR TEM QUE MORRER

Mata-me, disse ela, porque de qualquer modo
nos possui a morte.
Antes que ser abandonada pela vida
prefiro eu abandoná-la a ela.

O amor também tem que morrer
e não voltar jamais.
Meu amado, deixa-me ir em frente,
deixa-me morrer antes do amor.

Den syvende natt, 1947



INSTANTE

Como uma última súplica estende-se a mão dela
entre os copos chamando a dele.
No mais há bastante silêncio entre os dois,
silêncio bastante após a sua última valsa.
O coração sabe-o já, ainda que a mão deixe de suplicar:
Tão inapelável como a própria morta
é quando um corpo deixa de amar
e se despede sem palavras de outro corpo.

Sånn vil du ha meg, 1950



O MENINO LOUCO

Ao menino louco da casa ao lado
tinham-no preso. À noite ouvíamo-lo
a uivar. E eu sussurrava à minha almofada:
Obrigado, meu Deus! Ao menos eu estou livre.

O menino louco já não grita.
No entanto o grito acorda-me
nas noites negras sem estrelas.
Então não é o menino. Sou eu.

Fra hjertets krater, 1964



DETALHE DE UMA PAISAGEM INVISÍVEL DE NOVEMBRO

No meio do país de névoa que se chama eu
há um velho sinal de trânsito sem caminho.

Ali está assinalando com a sua carcomida flecha
até aos pântanos e quilómetros de neblina.

Em vão procuro nomes e sinais.
Nevões e chuvas tudo apagaram.

Ali esteve uma vez o caminho para que me encaminhava.
Quando desapareceu e quando me perdi?

Vou às cegas como um invisual até essa palavra
que me indicaria o caminho da minha casa.

No meio do país de névoa que se chama eu
há um sinal sem caminho que me assusta.


Fra hjertets krater, 1964


Versão minha - © Amadeu Baptista

Inger Hagerup (1905-1985). Nasceu em Bergen. Durante a ocupação alemã, refugiou-se na Suécia. Depois da guerra, foi crítico literário do jornal comunista Friheten. Escreveu também teatro e a sua poesia para crianças é muito conhecida. Traduziu Emily Dickinson.