quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Inger Hagerup


                                             POEMAS DE INGER HAGERUP


A PESTE

I

Levantemos uma bandeira negra sobre os países
e desenhemos uma cruz na nossa porta,
pois uma grande peste assola a terra.
Percorreu a árida terra de África sobre pés amarelados
    pela febre.
Desfilou pelas ruas de Berlim
ao compasso de tambores e música de vento.
Nos conventos de Espanha disse como os anciãos
o deslizante rosário das metralhadoras,
e nos arredores de Madrid escondeu o seu terrível rosto
numa máscara de gás último modelo.
Atirou sobre as suas empestadas feridas as capa do ditador
e cobriu o seu ventre inchado com uma casula vermelha de bispo.
Um dia nomearam-na catedrática em Jena.
E ela falou com uma boca bicuda e astuta atrás dos seus livros.
Em Xangai enforcou trezentos escravos que tinham pedido pão
e quando teve oportunidade de arrancar as unhas
    a um velho judeu
largou à gargalhada.
Olhos os seres humanos com olhos sanguinolentos
ferindo-os com a cegueira,
para não cultivem cereais na terra,
mas granadas nas fábricas,
para que não construam cidades levantadas até ao céu,
mas as incendeiem,
para que não saúdem o seu irmão,
mas o matem
– – –

     Levantemos uma bandeira negra sobre os países
e desenhemos uma cruz na nossa porta,
por causa da grande peste.

Jeg gikk meg vill i skogene, 1939



AS REDES DE FERRO

Três irmãs pálidas
dançam sem som à luz da aurora boreal.
Três irmãs pálidas
com vestidos de prata.
Onde põem os seus pontiagudos tacões
morre a última flor,
cai a folhagem amarelenta retinindo no chão,
quebram-se as valentes espadas das espigas.

Três irmãs pálidas
dançam sem som à luz da aurora boreal.
Na manhã seguinte restam as caudas dos seus vestidos de prata
sobre os prados orvalhados.


Jeg gikk meg vill i skogene, 1939



EU SOU O POEMA

Sou o poema que ninguém escreveu
Sou a carta que sempre se queimou.

Sou o caminho que ninguém tomou
e o som que nunca soou.

Sou a oração dos lábios mudos
Sou o filho de uma mulher não nascida,

uma corda que nenhuma mão estendeu
uma fogueira que ninguém acendeu.

Acordai-me! Redimi-me! Levantai-me já
da terra e disponha, de espírito e corpo e alma!

Mas quando rezo, só respostas incompletas.
Eu sou as coisas que não ocorrem nunca.

Jeg gikk meg vill i skogene, 1939




ODE ÁS VERDURAS

Pesadamente carregados como guerreiros vitoriosos
voltamos diariamente do nosso horto a casa.
Às verdes hordas das couves liquidámos,
separámos as suas grossas cabeças do corpo com uma aguçada
    faca
e colocámo-las em cestos.
Ao risonho leque das cenouras arrancámo-lo cuidadosamente,
e logo recolhemos os sangrentos cachos dos tomates.
Sob férteis bosques de folhas denteadas
explodiram os pepinos como peludos dedos de crianças.
Agora nadam em recipientes de vidro
para oferecerem aos nossos paladares avinagrada doçura no inverno.
Das flores de borboleta do feijão verde surgem
arqueados barcos vikings com minúsculos rosário de escudos na
    borda
(vagamente camuflados sob a tensa pele da bainha das ervilhas).
As frias cores da couve-flor, elegantemente apertadas como o ramalhete
nupcial dos anos noventa
misturam-se com redondas cebolinhas e minúsculos pepinos no frasco.
O nabo ergue-se a meio caminho da terra
no seu afã de servir e fastidiosa riqueza vitamínica.
Deixamo-los sem cerimónia no canto mais escuro do sótão
onde saberemos encontrá-lo de novo
quando os dias se fizerem curtos e pardacentos.
Mas as batatas, férteis como um chinês do condado da fome,
recolhemo-las aos centos, sim, aos milhares, da terra do nosso horto.
Porque a batata, esse curtido proletário dos nossos sótãos,
ressuscita a cada dia dourada e fumegante
convertida no sólido centro
à volta do qual se unem o arenque salgado e o jarro de água
sobre a toalha da nossa mesa.

Flukten til Amerika, 1942



 A MINHA AMADA CHEGOU A CASA ONTEM

A minha amada chegou a casa ontem
com brancos flocos de neve no cabelo.

A minha amada não é minha.
De outro é o seu coração.

Também a minha amada foi enganada.
Amargamente ontem a noite chorava

no sonho, quando me disse:
meu amor, quero-te tanto!

Videre, 1945



CREIO

Eu creio em muitas coisas. No sangue. No fogo.
Creio em caminhos onde não é possível perdermo-nos.
Creio nos sonhos dos que pertencemos.
Caminho às cegas. Não me leves a casa.
Deixa que a noite me guie sempre até adiante.
Em algum lugar na escuridão há uma porta entreaberta.
Em algum lugar num limite entre corpo e alma,
um lugar onde o próprio tempo diz detém-te
– lá onde talvez ardesse o meu coração?

Não me escutes. Todas as minhas palavras
são perigosos profetas, falsas pistas.
Sou muito diferente do que tu acreditas.

Videre, 1945



TAMBÉM O AMOR TEM QUE MORRER

Mata-me, disse ela, porque de qualquer modo
nos possui a morte.
Antes que ser abandonada pela vida
prefiro eu abandoná-la a ela.

O amor também tem que morrer
e não voltar jamais.
Meu amado, deixa-me ir em frente,
deixa-me morrer antes do amor.

Den syvende natt, 1947



INSTANTE

Como uma última súplica estende-se a mão dela
entre os copos chamando a dele.
No mais há bastante silêncio entre os dois,
silêncio bastante após a sua última valsa.
O coração sabe-o já, ainda que a mão deixe de suplicar:
Tão inapelável como a própria morta
é quando um corpo deixa de amar
e se despede sem palavras de outro corpo.

Sånn vil du ha meg, 1950



O MENINO LOUCO

Ao menino louco da casa ao lado
tinham-no preso. À noite ouvíamo-lo
a uivar. E eu sussurrava à minha almofada:
Obrigado, meu Deus! Ao menos eu estou livre.

O menino louco já não grita.
No entanto o grito acorda-me
nas noites negras sem estrelas.
Então não é o menino. Sou eu.

Fra hjertets krater, 1964



DETALHE DE UMA PAISAGEM INVISÍVEL DE NOVEMBRO

No meio do país de névoa que se chama eu
há um velho sinal de trânsito sem caminho.

Ali está assinalando com a sua carcomida flecha
até aos pântanos e quilómetros de neblina.

Em vão procuro nomes e sinais.
Nevões e chuvas tudo apagaram.

Ali esteve uma vez o caminho para que me encaminhava.
Quando desapareceu e quando me perdi?

Vou às cegas como um invisual até essa palavra
que me indicaria o caminho da minha casa.

No meio do país de névoa que se chama eu
há um sinal sem caminho que me assusta.


Fra hjertets krater, 1964


Versão minha - © Amadeu Baptista

Inger Hagerup (1905-1985). Nasceu em Bergen. Durante a ocupação alemã, refugiou-se na Suécia. Depois da guerra, foi crítico literário do jornal comunista Friheten. Escreveu também teatro e a sua poesia para crianças é muito conhecida. Traduziu Emily Dickinson.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Mais 12 Fragmentos de Veneza



Uvas negras deram lugar a este valpolicela que alegrou as nossas
libações nocturnas – mas não precisávamos de vinho para flutuar
em Veneza.


Os ladrões do imprevisto são uns rapazes que com berros
hidrópicos chegam a Veneza para agregar o tumulto ao infinito.
E assim é que Veneza a lua lhes entrega, para suprir mais furtos.


A treva bruxuleante,
a negra pupila dos teus olhos.


Apoucados que estamos pela libido
torcemos o coração até não poder mais.
De loggia em loggia e de espelho em espelho
vamos a procurar a beleza que, afinal,
está diante de nós a arrebatar-nos.
Fascina-nos esta luz sobre a paisagem,
a turva luz que faz dos vaticínios
o sonho (non sequitur) em que não acreditamos,
mas faz de nós pessoas transbordantes.


Ainda não aprendi a ver, ainda não aprendi
do mundo senão as profundas fissuras, os reflexos, a voz
hirsuta do mar, as casas, os cães, os cegos
que impõem as mãos sobre clarões para poderem ver.
Mas não subscrevo qualquer plano para salvar Veneza,
por saber que é impossível salvar a salvação.


A única vanguarda que me interessa é a vanguarda
do vento – por ele venho à estátua apreender
as formas sobre o mármore e a estranheza
com que o informe partilha a dádiva com a dúvida
para que fique a vida presa por um fio de chuva.


Depois dos turistas japoneses, chegaram os turistas alemães
com os seus relinchos desmesurados pelas ruas. Não sei se a despropósito
lembraste Carlos de Habsburgo, rei de Espanha e Imperador
do Sacro Império Romano-Germânico, que ao seu séquito muitas vezes
comentava: «falo castelhano com Deus, italiano
com as mulheres, francês com os homens
e alemão com o meu cavalo».


A afundar-se nas águas vinte e três centímetros por século
não tarda que Veneza pertença ao reino da Atlântida
– fascínios há a que se não escapa nunca.


Não sabemos os nomes de todos os que lograram exercer o poder sobre Veneza,
mas sabemos os nomes que já teve Veneza: Heneti, Veinziani,
Venecia, Veneciae, Venegia, Venegia, Venessia, Veneti, Venetia,
Venetiae, Venetici, Venetie, Venettia, Venexia, Venezia, Veniesia,
Veniexia, Venitiano.


A poesia: uma onda que morre na praia e outra
que nem à praia chega.

Digo que não há outro modo de pressentir a transparência
senão a partir de um coração transparente
na transparente Veneza – o mais é
a desconhecida transparência renitente
que o bravio Adriático retém nos dias claros.


Com um borsalino castanho escuro passou por nós Joseph Brodsky,
recém-chegado do sestiere de Cannaregio, perto da estação.
Por um túnel de nebbia se sumiu, quem sabe se a cismar
nalguma inefável mulher de Perugino de novo viva,
ou em como a água é o tempo que não cessa, primeira marca
e última.

Inédito - © Amadeu Baptista

                                                                                                Foto - © Pedro Amaral

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Hjalmar Gullberg


                                             POEMAS DE HJALMAR GULLBERG


VIRTUOSO

Aconteceu em algum lugar na metade de um tempo. Do seu violino
surgia o tema com esse timbre que era o seu segredo e ninguém podia imitar.
Então ocorreu que a corda com um estremeção se partiu em dois.
Só se ouviu um pequeno golpe seco.
Mas ele prosseguiu como se nada se tivesse passado, e de uma corda mais baixa
o arco foi obrigando a sair os tens aflautados
que críamos só poderiam tirar-se milagrosamente da corda mais aguda.
E quando tudo acabado e a torrente de aplausos encheu o salão,
a maioria sabia unicamente
que tudo se havia desenrolado com normalidade, como tem que ser.

Sonat, 1929



PENSO IR-ME NUMA LONGA VIAGEM

Penso ir-me numa longa viagem,
provavelmente tardará muito a que nos voltemos a ver.
Não é uma decisão precipitada, amadureci o plano durante muito tempo,
ainda que não tenha podido falar abertamente até agora.

Juntei uma grande quantidade de detalhes relacionados com a viagem,
preparei tudo excepto o itinerário:
aonde me levará finalmente, isso tratarei de ir descobrindo
a pouco e pouco.
Parto em busca de algo em mim mesmo que nunca encontrei aqui.
Parece que me chamam da distância, lá quero ir.
Creio-me capaz de afrontar um bom número de dificuldades para
chegar à minha meta.
Sinto um grande alívio no coração, desvaneceu-se o grande peso
que me oprimia o peito.
É como se uma grande alegria me esperasse em alguma parte.

Sonat, 1929



ARTE POÉTICA

I

Assim como quando uma pedra,
uma simples pedra banal
que atiraste ao lago, se afunda e desaparece no fundo,

sobe à superfície
uma onda vibrante e em à sua volta
se forma uma séria de círculos
que se vão estendendo em silêncio ao redor do centro submerso:

assim queria eu a minha canção,
assim queria que caísse na tua alma
a minha modesta canção!

II
Para que acrediteis um estilo
não basta
nem desenterrar uns quantos vocábulos adequados de um dicionário
nem retirar o seu idioma de um singular vocabulário.

Não, só vocês mesmos, do vosso mais profundo interior,
senhoras e senhores, poderão retirar
a originalidade capaz de encher com um sentido completamente novo
os pronomes pessoais e as formas dos verbos mais correntes.

Um verso de algum salmo antigo que todos conhecem
ou o texto de alguma canção popular que todos conhecem:
aí têm algo que aprender
no tocante à questão de fazer-se entender com a poesia.

E se algum dia tomassem como modelo dos seus versos a notícia
                                               de jornal bem escrita,
talvez enganassem os que não haviam notado a intenção
                                               para que se escutasse um pouco
o que vocês tivessem a dizer
sobre a eternidade e o mundo interior.

Sonat, 1929



ÊXTASE

Então o nosso corpo terreno
já não nos obstaculizará nem molestará.
Silencioso no vestíbulo está junto à moldura do espelho
o empregado do vestiário que liberta
o senhor e a senhora dos pesados casacos.

Enquanto ele vai colocando em cinco estantes
olhos, ouvidos, língua, nariz, pele,
está a nossa alma em oração e assombro.
Brilham estrelas na rotunda azul,
onde finalmente vamos encontrar Deus.

Andliga övningar, 1932



EU CRIA NUM DEUS

Eu cria num deus mas ele não o sabia,
nunca chegou a saber que eu cria nele
muitos anos após a sua morte.
Num profundo interrogatório comigo mesmo sobre o assunto
fiquei informado da verdadeira situação.
Oh, luz de estrelas apagadas que chega com atraso
aos olhos na noite! Eu contemplei ao meu deus
tal como era em sua glória antes da catástrofe.
Nunca chegou a saber que eu cria nele
e que não sabia que ele estava morto.

Dödsmask och lustgård, 1952


MÁSCARA MORTUÁRIA

Os olhos apagados, a boca rígida
e ele tristemente esvaziado em gesso das bochechas em molde…
Com cuidado e delicadeza levantaram as tuas mãos
do meu rosto o que cria que era o meu rosto.
Protestei não me toques!
Por que andas dedilhando a um morto as cavidades dos olhos,
deixa o meu rosto em paz.
Audazes de compaixão, as tuas mãos,
sem tremer, lenta e metodicamente ergueram
do meu rosto o que eu cria que era o meu rosto,
                                           o abalo dos anos da minha solidão,
                                  a minha máscara mortuária de lágrimas geladas.


Dödsmask och lustgård, 1952



NO CEMITÉRIO DE LEMNHULT

Aqui jaz o camponês Johan Magnusson
construtor de vinte e três órgãos na diocese de Växjö.
Em vida encontrava a suprema calma junto à corrente do moinho
nas tarde de verão. Elogiava a natureza
em versos rimados, um modesto aluno
do Senhor Bispo. Também sabia fazer pigmentos
e em consequência de uma humilde proposta desta paróquia
recebeu uma medalha real pela sua pintura.
Tinha aprendido com Hörberg e do seu amigo Marcus Larsson,
o incomparável pintor dos regatos cristalinos
e muitos sustêm que na igreja de Skirö
o seu retábulo, hoje trasladado, supera amplamente
o novo, pintado pela esposa do pároco.

Nascidas para o trabalho quotidiano nos bosques e nos campos
as mãos de um camponês – por que foram eleitas?
Quem investiga por que foram eleitas?
Quando a cor do céu precisou de novos instrumentos
para mostrarem maior volume e limpeza em Småland
confiou-se essa tarefa a Johan Magnusson.
Foi ele quem encontrou o harmónio para os salmos
em que se interpretaram grande quantidade de melodias cristãs
nas escolas em prol da piedade das crianças,
e todos os anos na praça de Växjö durante a feira de Sigfrid
havia um jornaleiro a vender as suas caixas de música.
Mas na plenitude da sua vida, aos quarenta e dois anos,
o autodidacta terminou um dos seus maiores instrumentos
de que ele, o poeta, costumava dizer:
O órgão pode dizer ao coração o que não conseguem as palavras. –
E Johann Sebastian Bach fez a sua entrada em Kråksmåla.

Aqui em Lemnhult realizou a sua última obra.
Cartas anónimas de leitores do diário Triaden
tinham exigido que o sapateiro se dedicasse aos seus sapatos;
mas essa frase, por certo, vê-a melhor um construtor de órgãos
que o diz a obra aplaudida de um mestre.

Durante o curso do trabalho melhorou o provedor
com imaginativos inventos as suas criações
e o organista da Catedral escreveu após uma inspecção
que a arte das suas mãos era mais do que ofício com que ganhar a vida.
Tão pronto quanto o seu patrono no seu quarto de trabalho
entoava Fugata, Principal, Fleur d’amour,
tinham que suspender-se todas as tarefas da propriedade de Nässja
– nada devia molestá-lo excepto o canto do regato.
A prazo isso não foi bom para a agricultura.
O que constrói um órgão para a glória de Deus
deixa que os seus campos se arruínem.

Em dioceses longínquas
encontraram sustento os sucessores do multifacetado camponês.
Dos seus órgãos conservam-se alguns
após cem anos. Um soa em mim.


Dödsmask och lustgård, 1952


APENAS AS PALAVRAS EXACTAS

Apenas as palavras exactas,
palavras com folhagem e trinar
de pássaros têm sombra como as árvores.

Sombra refrescante em que fechar
os olhos, enquanto a folhagem
canta as palavras exactas.

Ögon, läppar, 1959



OLHOS, LÁBIOS

Olhos que contemplastes, grande
de assombro e íntimos.

Lágrimas que recolher. Beijos que perder.
Lábios que sabem e podem calar.

Ögon, läppar, 1959




Versão minha - © Amadeu Baptista






Hjalmar Gullberg (1894-1965) Nasceu em Malmö. Licenciado em Letras.
Estreou-se em 1927. Logo desde o início transforma-se num dos poetas mais populares do país. O seu trabalho como jornalista e director de programas dramáticos da Rádio Suécia dá-lhe um lugar destacado na vida cultural sueca. Tradutor, verteu para sueco a poesia de São João da Cruz, Lorca, Gabriela Mistral e Juan Ramón Jimenez. Foi membro da Academia Sueca desde 1940.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Mais 14 Fragmentos de Veneza



Só tu sabes se o mar chegará aos cavalos de S. Marcos
ou se serão os cavalos de S. Marcos a chegar ao mar.
Talvez um dia desfaças o enigma: e voe o mar, e voem os cavalos.


Sob o peso da travessia da Ponte dei Suspiro
perguntas-me se haverá algo mais leve que um suspiro
e não sei que te responda, enquanto me sorris.


Para que serve o arco-íris que sobre a Laguna se formou
senão para sabermos que a inquietação é valiosa?


Canaletto abriu sobre Veneza as mais belas janelas
para que usufruíssemos das gôndolas e da luz
particular que as circunda. Tu chegas ao Hotel
e fechas as venezianas da única janela do quarto
para que eu usufrua da escuridão que te ilumina.
Ah, como se confina o mundo ao que se vê
e ao que não se vê.


A que distância fica Veneza do alto fogo do Etna?
Estando aqui, nada do que queima me deixa de interessar,
porventura por ti, que és o fogo mais abrasivo
que me foi dado conhecer. O fósforo ilumina-te o rosto,
ardem as pontes, irisam-se as ondas, as cúpulas,
as ilhas que ao longe delimitam a circunscrição do fascínio,
estes degraus húmidos e inflamados pela tua presença,
que desço como um guardião do que está perdido.


Todos os ingredientes do amor permanecem em Veneza.
Os amantes apressam-se a vir aqui surpreendê-los, a morada
pura que ainda resta, ainda que, como se sabe, tudo seja impuro.
Por isso os amantes partem com a recordação de terem conhecido
o estado de graça, com os olhos cheios de brilhos, encantados
até pelo desencanto. Ah, Veneza e os amantes, entidades lunares,
com destinos frangíveis.


Veneza é o lugar em que tudo pode acontecer, por desabridos
que possamos ser nesta viagem quase imaginária
em que procuramos a paz e só a desavença nos persegue.
A um poeta pouco cabe além de enaltecer a luz
para poder guardar-te em recônditos abismos, a bruma
que se estende pelos canais, os festões que enganalam as janelas,
a memória da noite  em que nos perdemos entre Torcello
e San Michele, a ilha dos ciprestes de onde Ezra Pound nos acena
e Stravinsky compõe a última sagração da primavera, com os ossos
para sempre abandonados ao infinito alvoroço da eternidade.
Longe de casa, numa cidade corroída pela água,
o que fazemos, com as lágrimas nos olhos?


A intratável fortuna que nos acompanha: transitarmos
entre a mais doce lascívia e a mais negra
melancolia.


Na montra da livrari Acqua Alta está um livro
de Saba – a cumplicidade com que nos olhamos reconhece
que naquele livro está o mundo.


É talvez equívoca a doçura carnal
de Veneza – mas até sob a bruma se pressente.


Imagens cegas que mãos desconhecidas
ampararam no circuito da sombria luz das galerias
do Palácio dos Doges – passamos por elas
como por ninhos vazios, onde um coração gelado
pulsa.


Os mosaicos, o santoral de ouro, os púlpitos de mármore,
os anjos rutilantes no telhado bizantino da basílica, o baldaquino
e a abóbada em que o Pentecostes se manifesta, com as concrescíveis línguas
de fogo sobre as cabeças – neste mistério,
o que significa um beijo, o claro céu, a tua mão na minha?


Nenhuma colina, escassa terra, mas uma grande
extensão de torres e cornijas, que o sol favorece
com dóceis pigmentos. Agora sei porque veio em 1562
Arcimboldo a este mercado comprar um cesto
de verduras a um velho de turbante
e com ele levou legumes magníficos para erigir em Veneza
o viço inverosímil.


A não mais do que dois passos da Universidade,
no Campo Santa Margherita, sob um toldo vermelho,
 um homem canta, afasta de nós o cálice da ameaça.


Inédito - © Amadeu Baptista



quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Caj Westerberg



                                          POEMAS DE CAJ WESTERBERG

Às vezes recompensa caminhar pelo bosque
                                   e escrever com o vento.
Como recompensa pode-se obter por exemplo
                                   uma cesta de cogumelos.
E isso sem necessidade de negociar com qualquer funcionário.

Kallista on já halvalla menne, 1975



Compra-se e vende-se
vende-se e compra-se
a nossa própria vida.
Pois, pois.
Bem cara é
e vende-se barata.

Kallista on já halvalla menne, 1975



Ela gostaria
que eu
cortasse a erva do jardim.
E eu que adoro
a erva selvagem.
Como a adoram as serpentes.

Kallista on já halvalla menne, 1975



O som mais simples,
o som do vidro
quando pousas o copo
sobre uma mesa de madeira, o sim da madeira
no vidro
            é como
um sinal de alegria
num rosto triste.

Reviirilaulu, 1978



Não tenho forças para esquecer, nem para recordar.
O rosto húmido da noite
lança-se de um lado a outro
tratando de agarrar algo
que jamais se escreveu.

Reviirilaulu, 1978


Quando cuida de falar
golpeia a cabeça contra o muro
tratando de expressar a sua angústia,
temeroso, cuidadoso, aterrado, num idioma
que talvez não exista,
portanto não poderia desvelar
a verdade nem para os seus olhos nem para os dos outros,
bem se vê,
                  e por um momento
                  não posso resistir à tentação de querer
que este mundo
seja um quarto
onde possa dar-se a volta,
abrir a porta, sentir os aromas da manhã e juntar-se com as cores,
onde possa descansar
sobre as distantes colinas.
O que diria:      Terrível é a situação do homem,
                          aqui a cegueira faz estragos
                          como dor desenho eu
                          as linhas das minhas experiências,
                          anoto os terrores da injustiça.

Reviirilaulu, 1978



A mim não me fazem dormir.
Depois da sauna bebo um copinho de aguardente
e sento-me a contemplar a abalada do sol.

Não é fácil
viver de verdade. Difícil
é morrer.

Reviirilaulu, 1978



Dois tímalos tinham caído na rede.

Ali estão enquanto remo
no fundo da barca sob a nevada
como os dois peixes de Jesus.
Ou eram cinco peixes e dois pães?
Não me lembro. E sinto
como se também me tivesse esquecido
de tudo o mais. A vida
leva como eternas cargas as suas recordações, o seu esquecimento,
logo será tudo
esquecimento, como a barca que desliza
através desta crua paisagem.
O esquecimento, cuja semente
é rara.

Da memória da terra logo terão caído
não apenas estes tímalos, de flancos de prata, logo
serei esquecido, oh, eu sou esquecimento
ainda que aqui não tenha tratado de me ajudar com
o ponto de vista da abóbada celeste,
e no entanto não posso resistir a falar de estrelas,
de estrelas que iluminam com uma luz que se desprendeu delas
há anos, decénios, séculos, milénios
milhões de anos
antes que se rompesse o manancial dos meus olhos.
Estrelas que agora
flamejam luz, raios que
possivelmente penteiam a areia
onde o meu crânio embranqueceu.
Abóbada celeste,
cês estrelado à noite,
e nada do que vi
era simultâneo, excepto em mm, não deveria
eu começar a tactear?
Oh arrepiante distância de anos luz
entre duas luzes
que bruxuleiam uma ao lado da outra
verde, azul, vermelho, amarelo,
gélidos estampidos de luzes de estrelas, simultâneas apenas
nos meus olhos.

E flamejavam
como se se tivessem repetido em mim
as auroras boreais
que flamejavam no céu varrendo estrelas.

E os peixes, os tímalos, os flancos prateados
que jazem sobre a madeira no fundo da barca e eu, remador,
e Jesus,
somos acaso outra coisa que
o corte de um instante, que luminoso cinde o universo da eternidade
e a eternidade do universo, para apagar-se
no ardente seio materno.

É o que me acontece
aqui remando sob o nevão
a vida
cada vez mais querida.
Cada folha ardente em
cada bétula anã.

Reviirilaulu, 1978


Se ao homem não se atormenta,
se não se o atormentou,
escolhe bem,
sempre.

Se ao homem se atormenta,
se se o atormentou,
escolhe mal
e altera-se.
Ou bem. Ou
abstém-se de escolher.

Um homem alterado
é como um ninho abandonado.
Alguém se aproximou sem cuidado.
E molestou o ninho.

Reviirilaulu, 1978



O pássaro nãos abe
como voa ou como canta.
O açafrão não sabe como brilha a violeta.
A rapariga não sabe como olha, como olha:
ou sabe-o, melhor
é que nunca voltes os teus olhos para ela, ou tudo
se complicará extraordinariamente.

Kirkars nimetön yö, 1985



Na noite
o lago põe-se sem um estremecimento
espelho do bosque, que suga o céu até às suas profundezas
A galinhola no seu voo solitário
desenha a sua sombra tremente sobre a pele do lago.
A tua pele
tremente agora.

Kirkars nimetön yö, 1985



Como dizer
isto de outro modo.
Trato de ver o teu olhar.
Mas nos teus olhos destrói-se
sempre tanta da minha luz
rapidamente
como a luz.

Kirkars nimetön yö, 1985


Versão minha - © Amadeu Baptista
 
 
 
 



Caj Westerberg, nasceu na cidade de Porvoo, em 1946. Estudou nos Estados Unidos. Foi marinheiro e empregado numa livraria.