sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Gunnar Ekelöf

                      
                                               Poemas de Gunnar Ekelöf


CADA HOMEM É UM MUNDO

Cada homem é um mundo, habitado
por seres cegos em obscura rebelião
contra o rei eu que nos governa.
Em cada alma há mil almas prisioneiras,
em cada mundo há mil mundos soterrados
e esses mundos cegos, subterrâneos
são vivos e verdadeiros, ainda que imperfeitos,
tão certos como eu sou real. E nós, reis
e príncipes dos mil possíveis que há em nós,
somos ao mesmo tempo servos, prisioneiros
de algum ser maior, cujo ser e essência
compreendemos tão pouco como o nosso superior
ao seu superior. Da sua morte e do seu amor
se tingiram os nossos próprios sentimentos.

Como quando um enorme navio passa
ao longe, sob o horizonte, onde o mar é
o espelho de entardecer.  – E não sabemos dele
até que chega o seu ondular à praia,
uma onda primeiro, depois outras e muitas mais
que rebentam num murmúrio até que tudo fica
como antes. – No entanto, tudo é diferente.

Assim somos nós, sombras, presas de uma estranha inquietação
quando algo nos diz que viajámos,
que algum dos possíveis foi libertado.

            Färjesång, 1941



Creio no homem solitário,
naquele que caminha solitário,
que não acorre como um cão farejar um homem,
que não foge como um lobo ao farejar um homem:
Ao mesmo tempo homem e anti-homem.

Como alcançar a amizade?
Foge do caminho superior e exterior:
O que é rebanho nos outros é-o também em ti.
Vai pelo caminho inferior e interior:
O que é fundo em ti é-o também nos outros.
É difícil acostumar-nos a nós mesmos.
É difícil desacostumar-nos de nós mesmos.

No entanto o que arrisca jamais se verá desamparado.
No entanto o que o faça continuará a ser um solitário.
O não prático é o único prático
sem medida.

            Färjesång, 1941




EUFORIA

Estou sentado no jardim, só, com o teu caderno de apontamentos, uma
    sanduíche, uma garrafa e o cachimbo.
É de noite e há tal calma que a luz da vela arde sem flamejar,
derrama a sua luz sobre as toscos tábuas da mesa
e brilha na garrafa e no copo.

Tomas um gole, enches o cacimbo e acende-lo.
Escreves uma linha ou duas e fazes uma pausa e contemplas
a franja de clarão vespertino no seu lento caminho até ao clarão
    matutino,
o mar de ramagens, espumando no seu branco verdoso sob a
    incerta luz da noite estival,
nem uma borboleta em torno da luz mas sim coros de mosquitos no carvalho,
as folhas tão imóveis contra o céu… E o álamo range na
    calma:
À tua volta derrama-se a natureza de amor e morte.
Como se fosse a véspera de uma longa viagem, pela noite:
Já tens o bilhete no bolso e por fim fazes as malas.
E podes sentar-te e sentir a proximidade de países longínquos,
sentir como tudo está em tudo, ao mesmo tempo o seu fim e o seu princípio,
sentir que aqui e agora são tanto a tua partida como o teu regresso,
sentir que morte e a vida são tão fortes como o vinho dentro de ti!

Sim, fazer-se um com a noite, um consigo mesmo, como a chama da
    vela
que me olha nos olhos com calma, inescrutável e tranquila,
como o álamo que palpita e sussurra,
um como o bando de flores que assoma da escuridão e
    escutam
algo que tinha na ponta da língua mas nunca consegui dizer,
algo que nunca quis trair ainda que o tivesse podido fazer.
E dentro de mim borbulha a mais pura felicidade!

E a chama ascende… É como se as flores se fossem aproximando, se fossem
aproximando mais e mais da luz, em luminosos ponto de arco-íris.
O álamo estremece rumoroso, o clarão vespertino
    prossegue
e tudo o que era indizível e distante é indizível e próximo.

    Eu canto o único que concilia,
    o único que é prático, igual para todos.

            Färjesång, 1941



NOTA A «DEDICATÓRIA»

Em atenção às exigências estéticas
(que também são as da funcionalidade)
os arquitectos fizeram as nuvens quadradas.
Sobre os bosques desolados estendem-se assim os subúrbios
Por cima das colinas, alinham-se as altas nuvens cúbicas
reflectindo-se profundamente no confiante lago florestal,
imensas filas de janelas vazias
sublinhadas pelo belo néon do pôr do sol.
Ali brincam, em montões de cúmulos piedosamente respeitados,
    saudáveis meninos
(jamais tocados por mãos humanas)
enquanto revoluteiam em volta deles com sombrinhas rotativas
amas municipais severamente remuneradas.
Cada dia se faz noite e assexuados trabalhadores vitaminados
chegam em rebanhos às suas casas, por turnos, segundo convénios colectivos
à sua vida privada, a Svea, a rainha das hormonas,
rigorosamente vigiada por guardas que inspiram segurança.


E faz-se noite e silêncio. Somente o helicóptero do lixo
sussurra devagar de porta em porta
conduzido por um futuro pária, um anarquista e poeta
perpetuamente condenado a retirar toda a pornografia da fantasia.
À distância parece um gigantesco insecto
zunindo perante o grupo de madressilvas rosáceas
por cima, oh, muito por cima dos saudáveis bosques dos
    desportistas
onde não vagabundeará jamais vagabundo algum.


N. do A.: Svea é um nome feminino, comum na Suécia, que deriva do nome da tribo que conquistou a terra que hoje é a Suécia.

            Non serviam, 1945





NON SERVIAM

Sou um estrangeiro neste país
mas este país não é um estrangeiro dentro de mim!
Não me sinto em casa neste país
mas esta país comporta-se como na sua própria casa dentro de mim!

De um sangue que não se pode aguar
tenho nas minhas veias um vaso cheio!

E o judeu, o lapão, o artista que há em mim
sempre procurará a sua consanguinidade: investigar nos registos,
dar uma volta em torno do fetiche lapão no ermo desolado
com uma veneração sem palavras por algo já esquecido,
cantar canções lapónias conta o vento: Selvagem! Negro! –
Lutar e protestar contra a pedra; Judeu! Negro! –
à margem da lei e sob a lei:
prisioneiro na sua, a dos brancos, e no entanto
– bendita seja a minha lei! – na minha.

Converti-me pois num estrangeiro neste país
mas este país instalou-se comodamente dentro de mim!
Não posso viver neste país
mas este país vive como um veneno dentro de mim!

Certa vez, a Suécia selvagem,
a dos instantes breves, suaves, pobres,
sim, foi a minha pátria! Enchia tudo!
Aqui, na estreita e confortável Suécia,
a dos compridos e bem abocanhados instantes
onde tudo está fechado para evitar correntes de ar… tenho frio.

N. do A. Non Serviam: frase latina atribuída a Lucífer como recusa de servir a Deus: ‘não servirei’.

Non serviam, 1945


A PROVA DA ÁGUA

Então disse-me:
Os únicos poetas que me interessam
são os que levam cuidadosamente
com mãos nervosas
um vaso cheio de sangue
em que caiu uma gota de leite
ou um vaso cheio de leite
em que caiu uma gota de sangue…
Agora que já o vi, agora quero ver
a firme captura de um vaso cheio até cima
de água do manancial.

Om hösten, 1951


POÉTICA

É o silêncio o que deves escutar
o silêncio escondido atrás de apóstrofes, alusões
o silêncio na retórica
ou na assim chamada perfeição formal
Isto é a busca de um sem sentido
e vice-versa
E tudo o que com tanta arte tento escrever
é por contraste algo sem arte
e todo o repleto está vazio
O que escrevi
está escrito entre linhas

Opus incertum, 1959



DE «O LIVRO DO SUICÍDIO»

Calma. Basta de palavras duras. Já não resta muito de mim
Não chores por mim. Aqui já não há fogo que apagar
Não me olhes. Sou uma ruína, em qualquer instante derrubar-me-ei
Não quero que ma vejas a derrubar-me
Já não resta sensação alguma do meu eu, do meu peso
Perco o pé, flutuo no ar. Aqui a força da gravidade da terra e
    a do céu anulam-se mutuamente
Já não me resta sensação alguma do que sou e do que não sou
Olho em volta: sou eu este? ou aquele?
Não chores por mim, aqui já não há fogo que apagar
Estou-me a repetir, mas isto que escrevo agora é tudo
    tudo o que tenho
Acaso é culpa minha? Apenas sou uma pedra que alguém atirou,
    um pedaço de madeira que alguém talhou
Desculpo-me. A culpa não é de ninguém, é minha e não de alguém
Escrevo isto lentamente, reflectindo: é tudo o que tenho mas
    não resolve nada
Mas a mim que me importa, eu amo-te
Tu és o meu formoso espelhismo
Lembro o tempo em que tu eras o meu formoso espelhismo
Tu és bela
Quis voar contigo, tal como voam todos, sim, como se foge voando
Mas os dois estávamos doentes e logo acabará tudo
Então, de que serve tudo isto?
Quero-te, logo me derrubarei
Acaso posso evita-lo? Estou a ficar invisível
Faço-te sinais com a mão, tu só vês a minha mão
A porta abre-se. é de noite, tarde
A luz se apaga, dei tudo o que tinha
Não guardei nada com que viver, por isso me estou a tornar
    cada vez mais invisível
Mas não morrerei
Algo fica: uma porta. Que outra coisa posso fazer senão sair de um
    quarto de mim mesmo
Não morro, simplesmente desapareço
Talvez, minha angústia, acorde um dia cheio de sabedoria e dúvida
então voltarei e buscar-te-ei.

Opus incertum, 1959


CONSIDERAMOS, PENSAMOS, SUSPIRAMOS, FALAMOS

Não posso contemplar os países meridionais
sem ver também o burro, o boi e a ovelha
as galinhas presas pelas patas em molhe, abandonadas
em ambos os lados da grelha da motocicleta
com as cabeças para baixo, paralisadas, cacarejando debilmente
o cordeiro com a carcaça aberta e depois cosido
com o espeto metido pelo cu e a dolente cabeça esfolada
sobre o carvão
e com os intestinos, kokorétsi, numa grelha próxima
o branco e manso boi sob o jugo, emparelhado com uma vaca
praticamente infinitos na Toscânia
ao asno gritando como uma porta de celeiro por olear
mas também trotando sob o peso de uma família inteira
ou sob um feixe de ramos grande como o universo
pássaros aos molhos que poderiam ter cheio o espaço com
    a nossa nostalgia
esses seres que nos alimentam, nos vestem, nos transportam
resignados sob nós, talvez perdoando-nos
esses são os verdadeiros cristãos!


N. do A. kokorétsi: em grego no original; kokorétsi é uma espetada de borrego
feitas as fressuras de borrego, preparada tradicionalmente para a Páscoa na Grécia

En natt i Otocăc, 1961



Vivo em virtude desta visão:
Duas torres
Um éden
Quatro caminhos
Uma entrada
Dois mananciais onde olhar-me
Uma fonte de que beber
Dois búzios a que escutar
e a que sussurrar
uma resposta a uma pergunta
que era uma resposta

Como se pudéssemos perguntar
como se pudéssemos sussurrar uma resposta
como se algum de nós perguntando respondendo
quisesse ter a confirmação de algo que não fosse
a imperfeição dos sentidos

No entanto o teu rosto é o jardim das minhas mãos cegas
Os teus seios são torres na sua sensibilidade dessa forma
que separa e une
A ta saída é a minha entrada
Os quatro caminhos são o nosso abraço
com braços e pernas:

Assim seremos oito
No entanto tu és uma deusa, intocada
e eu não sou mais do que um príncipe!

O que vale um príncipe
entre as tuas montanhas?
Um lugar que evitam os caminhantes

Partitur, 1969 póstumo


Versão minha - © Amadeu Baptista


Gunnar Ekelöf (1907-1968) Nasceu em Estocolmo. Estudou línguas orientais em Londres e Upsala, e música em Paris. Participou nas revistas literárias Spektrum e Karavan. Crítico literário de diversos jornais e revistas. Tradutor de T. S. Eliot, Rimbaud, Malraux. Ingressou na Academia sueca em 1958. Considerado um dos maiores poetas suecos do século XX.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Doze fragmentos de Veneza



DOZE FRAGMENTOS DE VENEZA

Estou certo que não voltarei a ver-te
em Veneza, esse exacto lugar das cintilações
e dos pequenos brilhos. No vaporetto
o nosso olhar cruza-se mais uma vez,
e notamos que, algures, nos palácios do mundo,
o nosso amor já não é sumptuoso,
embora pelos teus olhos tivesse lido
Saba e as paredes vermelhas da morada
de Casanova. O cais é largo, flutuam
as flámulas da república sobre as criptas,
mas não nos voltaremos a encontrar
no caminho de Murano, onde nos perdemos,
ainda de mão na mão.

….

Na gaveta de baixo, onde encontraste
o velho exemplar de uma Bíblia
italiana, guardaste a roupa interior.
Seguidamente, gravitaste pelo quarto, a perder
peças: uma saia vermelha, um lenço azul,
uma renda de um amarelo inexorável.
O banho foi demorado, de imersão.
Depois voltaste ao quarto, sublime,
com a toalha turca enrolada na cabeça
e os seios nus, húmidos e resplandecentes.


Ver-te dormir, esta última noite:
tens o mesmo sorriso de sempre,
o sorriso de quem está acordado.


A praça de S. Marcos recebe-te com o aplauso
de um ligeiro aguaceiro. Na esplanada
do Gran Caffè fica o timbre da tua voz
a invectivar a praga de turistas japoneses
que chegaram no Mediterranean  Princess
esta manhã e que, como tu dizes, não desarmam.


Vivaldi veio aqui com as suas noventas
órfãs tocar violino. Nos teus olhos
a música instala-se e sorris
como se estivesses adormecida.

O vento despenteia-te ou és tu
que despenteias o vento? Na tua mala
guardas todos os utensílios necessários
à logística da brisa.


Só mesmo tu podes comer uma fatia
de pizza com donaire. A tua língua
miúda é o adorno que falta a qualquer boca.


Nada há mais melancólico que as janelas
de Veneza: em nenhuma delas te encontro
a acenar.


Ao fim da tarde só existes tu
e um infindável acervo de jornais.
A lídima Europa não sabe o que fazer
a tanta população desempregada e transformas
a pergunta de Montale em afirmação veemente:
Credi che il pessimismo sia davvero esistito!



Na água podre do canal ocultam-se
reflexos de ouro: os teus cabelos soltos.


Onde estivemos para que nos perdêssemos?
Nem flores rutilantes nem estrelas de néon
marcaram a nossa passagem nesta cidade aquática,
onde tu e eu despedaçamos o coração. Agora,
há só lágrimas a cair das pontes de Veneza.


Aqui vamos, com as mãos desirmanadas
e o coração gasto por escolásticas e afins.
Sabíamos como todas as paixões são peripatéticas
e que o amor acabaria um dia, embora não aqui,
entre a ponte de Rialto e o Museu da Ca’d’Oro.
Agora, sigo atrás de ti, como um gato sem sombra
num beco sem saída enquanto a tristeza ilumina Veneza
e a púrpura se transforma em densa cinza.


Poema e fotos - © Amadeu Baptista
 
 
 

 

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Rabbe Enckell



                                                  POEMAS DE RABBE ENCKELL


Tinha uma flecha,
mas jamais encontrei arco para a lançar.

Então tomei a flecha e atei-a a um ramo
de uma planta jovem
para atestar o seu delicado lançamento
em direcção à luz.

Dikter, 1923


A primavera está sentada atrás de uma pedra
com neve na sombra.
Silva com uma dura folha de erva na boca
tão penetrantemente
que a cochonilha pergunta à formiga quem é,
tão penetrantemente
que os mosquitos começam a dançar sobre o pântano!

Flöjtblåsarlycka, 1925


Resplandecem sol e primavera,
Estou na cama.

Sol e primavera.
É como se alguém me estivesse esperando
não sei onde na distância.
Sol e primavera.

É como se alguém me estivesse esperando na rua do lado
com esperança e fé.

É como se alguém, alguma coisa,
não sei onde, aqui, ao lado da porta,
junto à minha cabeceira
quisesse alcançar-me na sua necessidade e angústia.
Sol e primavera.

Flöjtblåsarlycka, 1925



Tu e eu,
estamos sentados, enrolados como pinguins
num bloco de gelo
que anda à deriva por um deserto
oceano.

Um dia,
quando o gelo se tiver derretido,
quando as nossas almas congeladas de realidade
se tenham fundido
ao ígneo resplendor do sol que se aproxima,
derreteremos
ou voaremos!

Flöjtblåsarlycka, 1925




Ali está, um ouriço sobre pedras escorregadias.
Será uma tarde pesada
sobre pesados muros de pedra.
Junto a eles caminham os homens
vestidos de negro.
O próprio ar, uma grade de ferro.

Aí anda, um ouriço.
Os homens notam os seus agudos picos,
mas não sabem que os picos são como a seda.
Tão indefeso!

Eles notam: um animal longe do bosque.
Lá pode defender-se,
aqui não!

Agora ele vai arrastando por todas as ruas
uma angústia palpitante
com os suaves picos de dor às costas.

Flöjtblåsarlycka, 1925



A primeira vitela do verão olha para a terra com olhos brilhantes.
Nos seus grandes olhos negros nadam as nuvens e a espuma da
    impetuosa corrente
e o incolor mosquito da primavera foge da verde folha da
    bétula a reflectir-se neles
como se fossem águas cegas do bosque.

Vårens cistern, 1931


Ris-vos
dos meus pequenos poemas fósforos,
A sua inocuidade converteu-se na intriga das pessoas.
Mas é melhor ter uma caixa deles no bolso
que dormir com dez extintores de incêndio em casa.
Contentaram-se com
iluminar-me intensamente o rosto ao acendê-los
- e apagar-se.

Vårens cistern, 1931



MINIATURAS POÉTICAS

O orvalho da manhã depositou pequenos pesos
no cálice da alquemila – reina o equilíbrio.
Com trémulas lâminas controla a erva
o peso de cada gota.

Mas o sol toca com o seu dedo o orvalho e logo não resta nada.
E as ortigas da vala sabem muito bem
que o peso do orvalho não é mais do que a obra de um desajeitado
ao lado do imenso rio de Pernambuco.

Vårens cistern, 1931



A massa ensolarada
da Acrópole
não me assusta.
Eu vi
o celeiro cinzento
das colinas finlandesas,
as suas proporções
de templo
sem peso
levantar-se
até à extensão sem fim
do céu primaveril.

Vårens cistern, 1931



Poesia: uma risonha praça –
Aqui se libertaram as rosas da coação
mas com o odor de algum abismo
uma alma fugitiva entendeu-a.

Valvet, 1937



O mar dá voltas às suas recordações,
até que resplandecem luzidias:
e no entanto significam muito pouco.
Porque o mar é ele mesmo uma só
grande memória
um só grande agora.
Por isso: exige da frase
o suave brilho aveludado da folha perfeita
ou obriga-a a adquirir a forma de uma protuberância na rocha.
Que felicidade nada recordar
nada! E no entanto ser um testemunho
de alguma coisa passada – um testemunho da audaz linha
do rosto, da emancipação da mão,
na reserva da boca – um testemunho na voz.
E o que disseres é indiferente
como a casca de ovo partida no ninho abandonado.

Andedräkt av koppar, 1946



Só há uma verdadeira felicidade:
fazer-se mais consciente do seu próprio destino.
No inferno existe essa felicidade que irradia
um atónito resplendor em torno dos condenados.

Sett och återbördat, 1950



Para o velho pode ser um consolo
olhar-se na fonte da juventude
Quando alguém se vê nela
vê muito mais do que ela.

Flyende speget, 1974



A imagem também tem uma origem
No espelho mais além do reflexo
A luz cria uma origem
e a luz cria o espelho.
A escuridão – cria a luz?

Flyende speget, 1974



Perdido fio de Ariadne
O labirinto será eternamente o teu mundo
No final de tudo continuará a ser entrada
e a noite é a morada do universo.

Flyende speget, 1974



Quando te fazes velho
                    os dias fundem-se em um
e contas só com o tempo
                    que há sempre
enquanto vives
e o mesmo vento corre em todas as árvores
e o que vês é ao mesmo tempo
algo que recordas.

Flyende speget, 1974


Versão minha - © Amadeu Baptista
 
 
 

                                                                    Foto: © Amadeu Baptista
 
 
 
Rabbe Enckell (1903-1975). Nasceu em Tamela. Pintor, poeta, crítico de arte e de literatura, ensaísta e dramaturgo. Enckell forma com Edith Södergran, Diktonius e Björling uma geração poética que teve uma enorme influência na poesia finlandesa e sueca contemporânea. Recebeu o prémio Bellman em 1956.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Rui Almeida



OS LIVROS DOS MEUS AMIGOS MEUS AMIGOS SÃO



Leis da Separação é o novo livro de Rui Almeida,
que acaba de ser dado à estampa, com a chancela da Medula.


Fica o primeiro poema do livro:






Não digas a ninguém que estás contente,
Dorme, sossega,
Livra-te da vigilância
Dos que esperam demais de ti.

Não digas da alegria nem a ti próprio,
Amua, faz de conta
Que és mais rápido
Que a incoerência deles.

Dorme, pousa
A cabeça na incerteza
Do mundo e

Sossega a brandura das mãos.
Os que mandam são feitos
De papel reciclável.



(in Leis da Separação, s/l, Medula, 2013)








                                                                    Foto: © Amadeu Baptista

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Steinn Steinarr


                                                   POEMAS DE STEIN STEINARR


PROMETEO

Hoje sou um prisioneiro nos cárceres do capital,
com as mãos calosas, os cabelos grisalhos.
Nenhum vivente é mais odiado
nenhum vivente morrerá de morte mais horrível.

Aqui me têm.
O meu trabalho está feito.

Mas vencerá o povo
pois entreguei-lhe um fogo
que arderá eternamente
nos corações:

O ódio ao opressor.

                Ljód, 1937




CIMENTO

Construí um forte
e delimitei o meu campo
dentro da vossa vida.

Vistes como me levantava
com grandeza exaltante
dominando a cena
e gritastes:
admirável! admirável!

Um dia completarei a minha acção
endurecendo num silêncio inescrutável
nos vossos corações.

Ljód, 1937



LETRA SEM MÚSICA

Quis cantar
e era a minha voz tensa e rouca
como um ferro a oscilar
friccionado contra uma lima velha.

E voltei a tentar
e chorei e supliquei como uma criança
e o meu peito encheu-se de um canto
que não se ouvia.

E o meu peito tremia
bramindo como um mar enfurecido
e o meu sangue fervia e borbulhava
ao ritmo da canção:
o canto da vida atormentada,
enferma, enlouquecida
com a febre do dia,
e vós não ouvíeis.

Ljód, 1937



AUTO-RETRATO

Pintei um rosto na parede
de uma casa improvável:
o rosto de um cansado, de um doente,
de um homem solitário,
que olhava das paredes cinzentas
a luz esbranquiçada
um momento.
Era o meu próprio rosto
ainda que nunca o vísseis
porque pintei sobre ele.

Ljód, 1937



D. QUIXOTE

Um dia D. Quixote
selará o seu baio
e dirá a Sancho Pança:
Esse homem abastado
que assassina e incendeia
calcando com as suas botas
a terra dos pobres
deve cair
pois é meu inimigo.

Foi ele que nos seduziu
por desertos sem caminhos
e a nossa guerra santa
converteu em engano trágico
e a Dulcineia a bela
submeteu à servidão.

Foi ele. Foi ele.
E não o conhecemos.

Ljód, 1937



MAR

Caminhei sobre areias escaldantes
e o fragor dos mares longínquos
misturava-se ao rumor do meu sangue.

Parti de todos os portos
naveguei por todos os rios.

E no fundo do mar imenso
jazem a minha vontade e a minha consciência
e começo a duvidar
se o mar sou eu
ou se sou eu o mar.

Spor í sandi, 1940



FIM DO CAMINHO

Por fim após um dia pesado
termina o teu caminho. Sentado numa pedra
percorres com o olhar o panorama
um instante.

E recordas então
que uma vez, uma vez há muito tempo,
começaste a caminhar deste mesmo lugar.

Spor í sandi, 1940



PRELÚDIO

Tecei-me um manto de rosas silvestres
deixai que o vento acaricie os meus cabelos dourados
vou-vos encher o coração de cálidos aromas
e de um sol risonho.

Criatura, sou o teu Deus,
a tua tristeza será
a flor mais branca, a obra mais perfeita
que cingirá o meu rosto.

Spor í sandi, 1940



ASFALTO

Sob centenas de ferrados tacões
vi-te nos meus sonhos
a passear numa tarde de Outono
a tua dor silenciosa
com os teus gráceis passos
pelo escuro caminho
com os teus gráceis passos pelo único trilho
e sabes que te amo.


Spor í sandi, 1940



POEMA

Nada se salva, tudo, tudo morre
desmorona-se e deixa de existir.
Vã é a tua vida, pobre o teu saque
e o fim como se nada tivesse sido.

Como pó limpo de um vidro
são a tua alegria e a tua pena agora.
O teu rosto é uma máscara translúcida
que deixa ver o nada e o vazio.

Spor í sandi, 1940



SANGUE

O teu sangue flui cego, lento, exausto,
atrás das tuas obras, sonhos, pensamentos
misterioso e calado. E é a noite
morte em amanheceres de mil séculos.

A distância sem caminhos vela misteriosa e muda
e sabe da tua amarga e triste sorte:
o teu sangue, e o de todos, jovem, cálido,
vertido inutilmente aqui na areia.

Spor í sandi, 1940




FORA DO CÍRCULO

Caminho em círculo
em volta do que existe
e dentro desse círculo
está o teu mundo.

A minha sombra reflecte-se
no vidro.

Caminho em círculo
em volta do que existe
e fora desse círculo
está o meu mundo.

Ferd án fyrirheits, 1942



O TEMPO E A ÁGUA

(quatro fragmentos)

O tempo é como a água
e a água é fria e profunda
como o meu ser consciente.

E o tempo é uma imagem
que pintamos a meias
entre a água e eu mesmo.

E tempo e água
correm até esgotarem-se sem caminhos
dentro da minha consciência


            * * *

O sol,
o sol esteve a olhar-me
como mulher esbelta
de sapato amarelo.

A minha fé e o meu amor
dormiam no fundo
como flor bicolor.

E o sol pisou
– sapatos amarelos –
a flor na sua inocência.


            * * *

Diáfana e alada
vence de novo a água
a sua própria resistência.

Esse magma avermelhado
que fugindo me precede
não leva a nenhum rumo.

Sob os lábios cruéis
da matéria ardente
brota uma flor letal.

Num rectângulo
entre cone e o círculo
cresce a flor branca da morte.

            * * *


Eu era um rosto abatido
olhar azul profundo
era uma mão branca.

A minha vida deteve-se
igual a uma moeda
deixada a um canto.

E o tempo esfumou-se
como cai uma lágrima
sobre uma mão branca.

            Tíminn og vatinid, 1948




CHEGADA

Islândia, meu sonho, minha ânsia, minha dor
minha fraqueza e, à vez, minha força.
Este deserto alado de imensidão azul
ainda vive, está desperto.

Sim, este é o meu lugar, a minha vida, o meu destino,
inclino-me perante a minha herança e a minha nação,
guardada estultícia, desonra engalanada,
minha vergonha, minhas lágrimas, meu sangue.


26-5-1954


Versão minha - © Amadeu Baptista


Steinn Steinarr (1908-1958) Foi o pioneiro da lírica modernista na Islândia. O seu primeiro livro, dos cinco que publicou, data de 1934. Destaca-se a originalidade das suas imagens e a sua visão do homem num mundo sem Deus, sem objectivo e sem sentido.