quarta-feira, 16 de outubro de 2013
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Doze fragmentos de Veneza
DOZE FRAGMENTOS DE VENEZA
Estou certo que não voltarei a ver-te
em Veneza, esse exacto lugar das cintilações
e dos pequenos brilhos. No vaporetto
o nosso olhar cruza-se mais uma vez,
e notamos que, algures, nos palácios do mundo,
o nosso amor já não é sumptuoso,
embora pelos teus olhos tivesse lido
Saba e as paredes vermelhas da morada
de Casanova. O cais é largo, flutuam
as flámulas da república sobre as criptas,
mas não nos voltaremos a encontrar
no caminho de Murano, onde nos perdemos,
ainda de mão na mão.
….
Na gaveta de baixo, onde encontraste
o velho exemplar de uma Bíblia
italiana, guardaste a roupa interior.
Seguidamente, gravitaste pelo quarto, a perder
peças: uma saia vermelha, um lenço azul,
uma renda de um amarelo inexorável.
O banho foi demorado, de imersão.
Depois voltaste ao quarto, sublime,
com a toalha turca enrolada na cabeça
e os seios nus, húmidos e resplandecentes.
…
Ver-te dormir, esta última noite:
tens o mesmo sorriso de sempre,
o sorriso de quem está acordado.
…
A praça de S. Marcos recebe-te com o aplauso
de um ligeiro aguaceiro. Na esplanada
do Gran Caffè fica o timbre da tua voz
a invectivar a praga de turistas japoneses
que chegaram no Mediterranean Princess
esta manhã e que, como tu dizes, não desarmam.
…
Vivaldi veio aqui com as suas noventas
órfãs tocar violino. Nos teus olhos
a música instala-se e sorris
como se estivesses adormecida.
…
O vento despenteia-te ou és tu
que despenteias o vento? Na tua mala
guardas todos os utensílios necessários
à logística da brisa.
…
Só mesmo tu podes comer uma fatia
de pizza com donaire. A tua língua
miúda é o adorno que falta a qualquer boca.
…
Nada há mais melancólico que as janelas
de Veneza: em nenhuma delas te encontro
a acenar.
…
Ao fim da tarde só existes tu
e um infindável acervo de jornais.
A lídima Europa não sabe o que fazer
a tanta população desempregada e transformas
a pergunta de Montale em afirmação veemente:
Credi che il pessimismo sia davvero esistito!
…
Na água podre do canal ocultam-se
reflexos de ouro: os teus cabelos soltos.
…
Onde estivemos para que nos perdêssemos?
Nem flores rutilantes nem estrelas de néon
marcaram a nossa passagem nesta cidade aquática,
onde tu e eu despedaçamos o coração. Agora,
há só lágrimas a cair das pontes de Veneza.
…
Aqui vamos, com as mãos desirmanadas
e o coração gasto por escolásticas e afins.
Sabíamos como todas as paixões são peripatéticas
e que o amor acabaria um dia, embora não aqui,
entre a ponte de Rialto e o Museu da Ca’d’Oro.
Agora, sigo atrás de ti, como um gato sem sombra
num beco sem saída enquanto a tristeza ilumina Veneza
e a púrpura se transforma em densa cinza.
Poema e fotos - © Amadeu Baptista
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Rabbe Enckell
POEMAS DE RABBE ENCKELL
Tinha uma flecha,
mas jamais encontrei arco para a lançar.
Então tomei a flecha e atei-a a um ramo
de uma planta jovem
para atestar o seu delicado lançamento
em direcção à luz.
Dikter, 1923
A primavera está sentada atrás de uma pedra
com neve na sombra.
Silva com uma dura folha de erva na boca
tão penetrantemente
que a cochonilha pergunta à formiga quem é,
tão penetrantemente
que os mosquitos começam a dançar sobre o pântano!
Flöjtblåsarlycka, 1925
Resplandecem sol e primavera,
Estou na cama.
Sol e primavera.
É como se alguém me estivesse esperando
não sei onde na distância.
Sol e primavera.
É como se alguém me estivesse esperando na rua do lado
com esperança e fé.
É como se alguém, alguma coisa,
não sei onde, aqui, ao lado da porta,
junto à minha cabeceira
quisesse alcançar-me na sua necessidade e angústia.
Sol e primavera.
Flöjtblåsarlycka, 1925
Tu e eu,
estamos sentados, enrolados como pinguins
num bloco de gelo
que anda à deriva por um deserto
oceano.
Um dia,
quando o gelo se tiver derretido,
quando as nossas almas congeladas de realidade
se tenham fundido
ao ígneo resplendor do sol que se aproxima,
derreteremos
ou voaremos!
Flöjtblåsarlycka, 1925
Ali está, um ouriço sobre pedras escorregadias.
Será uma tarde pesada
sobre pesados muros de pedra.
Junto a eles caminham os homens
vestidos de negro.
O próprio ar, uma grade de ferro.
Aí anda, um ouriço.
Os homens notam os seus agudos picos,
mas não sabem que os picos são como a seda.
Tão indefeso!
Eles notam: um animal longe do bosque.
Lá pode defender-se,
aqui não!
Agora ele vai arrastando por todas as ruas
uma angústia palpitante
com os suaves picos de dor às costas.
Flöjtblåsarlycka, 1925
A primeira vitela do verão olha para a terra com olhos brilhantes.
Nos seus grandes olhos negros nadam as nuvens e a espuma da
impetuosa corrente
e o incolor mosquito da primavera foge da verde folha da
bétula a reflectir-se neles
como se fossem águas cegas do bosque.
Vårens cistern, 1931
Ris-vos
dos meus pequenos poemas fósforos,
A sua inocuidade converteu-se na intriga das pessoas.
Mas é melhor ter uma caixa deles no bolso
que dormir com dez extintores de incêndio em casa.
Contentaram-se com
iluminar-me intensamente o rosto ao acendê-los
- e apagar-se.
Vårens cistern, 1931
MINIATURAS POÉTICAS
O orvalho da manhã depositou pequenos pesos
no cálice da alquemila – reina o equilíbrio.
Com trémulas lâminas controla a erva
o peso de cada gota.
Mas o sol toca com o seu dedo o orvalho e logo não resta nada.
E as ortigas da vala sabem muito bem
que o peso do orvalho não é mais do que a obra de um desajeitado
ao lado do imenso rio de Pernambuco.
Vårens cistern, 1931
A massa ensolarada
da Acrópole
não me assusta.
Eu vi
o celeiro cinzento
das colinas finlandesas,
as suas proporções
de templo
sem peso
levantar-se
até à extensão sem fim
do céu primaveril.
Vårens cistern, 1931
Poesia: uma risonha praça –
Aqui se libertaram as rosas da coação
mas com o odor de algum abismo
uma alma fugitiva entendeu-a.
Valvet, 1937
O mar dá voltas às suas recordações,
até que resplandecem luzidias:
e no entanto significam muito pouco.
Porque o mar é ele mesmo uma só
grande memória
um só grande agora.
Por isso: exige da frase
o suave brilho aveludado da folha perfeita
ou obriga-a a adquirir a forma de uma protuberância na rocha.
Que felicidade nada recordar
nada! E no entanto ser um testemunho
de alguma coisa passada – um testemunho da audaz linha
do rosto, da emancipação da mão,
na reserva da boca – um testemunho na voz.
E o que disseres é indiferente
como a casca de ovo partida no ninho abandonado.
Andedräkt av koppar, 1946
Só há uma verdadeira felicidade:
fazer-se mais consciente do seu próprio destino.
No inferno existe essa felicidade que irradia
um atónito resplendor em torno dos condenados.
Sett och återbördat, 1950
Para o velho pode ser um consolo
olhar-se na fonte da juventude
Quando alguém se vê nela
vê muito mais do que ela.
Flyende speget, 1974
A imagem também tem uma origem
No espelho mais além do reflexo
A luz cria uma origem
e a luz cria o espelho.
A escuridão – cria a luz?
Flyende speget, 1974
Perdido fio de Ariadne
O labirinto será eternamente o teu mundo
No final de tudo continuará a ser entrada
e a noite é a morada do universo.
Flyende speget, 1974
Quando te fazes velho
os dias fundem-se em um
e contas só com o tempo
que há sempre
enquanto vives
e o mesmo vento corre em todas as árvores
e o que vês é ao mesmo tempo
algo que recordas.
Flyende speget, 1974
Versão minha - © Amadeu Baptista
Foto: © Amadeu Baptista
Rabbe Enckell (1903-1975). Nasceu em Tamela. Pintor, poeta, crítico de arte e de literatura, ensaísta e dramaturgo. Enckell forma com Edith Södergran, Diktonius e Björling uma geração poética que teve uma enorme influência na poesia finlandesa e sueca contemporânea. Recebeu o prémio Bellman em 1956.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Rui Almeida
OS LIVROS DOS MEUS AMIGOS MEUS AMIGOS SÃO
Leis da Separação é o novo livro de Rui Almeida,
que acaba de ser dado à estampa, com a chancela da Medula.
Fica o primeiro poema do livro:
Não digas a ninguém que estás contente,
Dorme, sossega,
Livra-te da vigilância
Dos que esperam demais de ti.
Não digas da alegria nem a ti próprio,
Amua, faz de conta
Que és mais rápido
Que a incoerência deles.
Dorme, pousa
A cabeça na incerteza
Do mundo e
Sossega a brandura das mãos.
Os que mandam são feitos
De papel reciclável.
(in Leis da Separação, s/l, Medula, 2013)
Foto: © Amadeu Baptista
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Steinn Steinarr
POEMAS DE STEIN STEINARR
PROMETEO
Hoje sou um prisioneiro nos cárceres do capital,
com as mãos calosas, os cabelos grisalhos.
Nenhum vivente é mais odiado
nenhum vivente morrerá de morte mais horrível.
Aqui me têm.
O meu trabalho está feito.
Mas vencerá o povo
pois entreguei-lhe um fogo
que arderá eternamente
nos corações:
O ódio ao opressor.
Ljód, 1937
CIMENTO
Construí um forte
e delimitei o meu campo
dentro da vossa vida.
Vistes como me levantava
com grandeza exaltante
dominando a cena
e gritastes:
admirável! admirável!
Um dia completarei a minha acção
endurecendo num silêncio inescrutável
nos vossos corações.
Ljód, 1937
LETRA SEM MÚSICA
Quis cantar
e era a minha voz tensa e rouca
como um ferro a oscilar
friccionado contra uma lima velha.
E voltei a tentar
e chorei e supliquei como uma criança
e o meu peito encheu-se de um canto
que não se ouvia.
E o meu peito tremia
bramindo como um mar enfurecido
e o meu sangue fervia e borbulhava
ao ritmo da canção:
o canto da vida atormentada,
enferma, enlouquecida
com a febre do dia,
e vós não ouvíeis.
Ljód, 1937
AUTO-RETRATO
Pintei um rosto na parede
de uma casa improvável:
o rosto de um cansado, de um doente,
de um homem solitário,
que olhava das paredes cinzentas
a luz esbranquiçada
um momento.
Era o meu próprio rosto
ainda que nunca o vísseis
porque pintei sobre ele.
Ljód, 1937
D. QUIXOTE
Um dia D. Quixote
selará o seu baio
e dirá a Sancho Pança:
Esse homem abastado
que assassina e incendeia
calcando com as suas botas
a terra dos pobres
deve cair
pois é meu inimigo.
Foi ele que nos seduziu
por desertos sem caminhos
e a nossa guerra santa
converteu em engano trágico
e a Dulcineia a bela
submeteu à servidão.
Foi ele. Foi ele.
E não o conhecemos.
Ljód, 1937
MAR
Caminhei sobre areias escaldantes
e o fragor dos mares longínquos
misturava-se ao rumor do meu sangue.
Parti de todos os portos
naveguei por todos os rios.
E no fundo do mar imenso
jazem a minha vontade e a minha consciência
e começo a duvidar
se o mar sou eu
ou se sou eu o mar.
Spor í sandi, 1940
FIM DO CAMINHO
Por fim após um dia pesado
termina o teu caminho. Sentado numa pedra
percorres com o olhar o panorama
um instante.
E recordas então
que uma vez, uma vez há muito tempo,
começaste a caminhar deste mesmo lugar.
Spor í sandi, 1940
PRELÚDIO
Tecei-me um manto de rosas silvestres
deixai que o vento acaricie os meus cabelos dourados
vou-vos encher o coração de cálidos aromas
e de um sol risonho.
Criatura, sou o teu Deus,
a tua tristeza será
a flor mais branca, a obra mais perfeita
que cingirá o meu rosto.
Spor í sandi, 1940
ASFALTO
Sob centenas de ferrados tacões
vi-te nos meus sonhos
a passear numa tarde de Outono
a tua dor silenciosa
com os teus gráceis passos
pelo escuro caminho
com os teus gráceis passos pelo único trilho
e sabes que te amo.
Spor í sandi, 1940
POEMA
Nada se salva, tudo, tudo morre
desmorona-se e deixa de existir.
Vã é a tua vida, pobre o teu saque
e o fim como se nada tivesse sido.
Como pó limpo de um vidro
são a tua alegria e a tua pena agora.
O teu rosto é uma máscara translúcida
que deixa ver o nada e o vazio.
Spor í sandi, 1940
SANGUE
O teu sangue flui cego, lento, exausto,
atrás das tuas obras, sonhos, pensamentos
misterioso e calado. E é a noite
morte em amanheceres de mil séculos.
A distância sem caminhos vela misteriosa e muda
e sabe da tua amarga e triste sorte:
o teu sangue, e o de todos, jovem, cálido,
vertido inutilmente aqui na areia.
Spor í sandi, 1940
FORA DO CÍRCULO
Caminho em círculo
em volta do que existe
e dentro desse círculo
está o teu mundo.
A minha sombra reflecte-se
no vidro.
Caminho em círculo
em volta do que existe
e fora desse círculo
está o meu mundo.
Ferd án fyrirheits, 1942
O TEMPO E A ÁGUA
(quatro fragmentos)
O tempo é como a água
e a água é fria e profunda
como o meu ser consciente.
E o tempo é uma imagem
que pintamos a meias
entre a água e eu mesmo.
E tempo e água
correm até esgotarem-se sem caminhos
dentro da minha consciência
* * *
O sol,
o sol esteve a olhar-me
como mulher esbelta
de sapato amarelo.
A minha fé e o meu amor
dormiam no fundo
como flor bicolor.
E o sol pisou
– sapatos amarelos –
a flor na sua inocência.
* * *
Diáfana e alada
vence de novo a água
a sua própria resistência.
Esse magma avermelhado
que fugindo me precede
não leva a nenhum rumo.
Sob os lábios cruéis
da matéria ardente
brota uma flor letal.
Num rectângulo
entre cone e o círculo
cresce a flor branca da morte.
* * *
Eu era um rosto abatido
olhar azul profundo
era uma mão branca.
A minha vida deteve-se
igual a uma moeda
deixada a um canto.
E o tempo esfumou-se
como cai uma lágrima
sobre uma mão branca.
Tíminn og vatinid, 1948
CHEGADA
Islândia, meu sonho, minha ânsia, minha dor
minha fraqueza e, à vez, minha força.
Este deserto alado de imensidão azul
ainda vive, está desperto.
Sim, este é o meu lugar, a minha vida, o meu destino,
inclino-me perante a minha herança e a minha nação,
guardada estultícia, desonra engalanada,
minha vergonha, minhas lágrimas, meu sangue.
26-5-1954
Versão minha - © Amadeu Baptista
Steinn Steinarr (1908-1958) Foi o pioneiro da lírica modernista na Islândia. O seu primeiro livro, dos cinco que publicou, data de 1934. Destaca-se a originalidade das suas imagens e a sua visão do homem num mundo sem Deus, sem objectivo e sem sentido.
sábado, 28 de setembro de 2013
Jens August Schade
POEMAS DE JENS AUGUST SCHADE
MULHER
De ouro e fogo é a festa do meu pensamento
por que há medo no teu coração?
atrás dos teus seios crescem flores
cheiras a maçãs e eternidade.
Den levende violin, 1926
O MEU JOVEM AMOR
O meu jovem amor deixou-me só não recordamos
como
como um barco deslizando para um horizonte azul
como uma nota que vai morrendo assim desapareceu ela
e o sonho abateu-se sobre mim e a terra fez-se distante
como um harmonioso globo de prata
mas apareceste-me em sonhos
a tua voz uma chuva refrescante
a tua boca uma fruta madura para ser comida
feita para um homem esfomeado
lembro-te triste e consoladoramente como uma canção
de pássaros e árvores
existem mulheres que amam a um homem
da mesma maneira que comem uma iguaria ansiada…
Den levende violin, 1926
A MINHA CANÇÃO
A minha canção sussurra na chaminé
a minha canção está em todas as partes
vagabundeia nocturnamente
tem ligações com as sombras
uiva pelos cantos da casa
e encontra-te como uma imagem
inesquecível do teu espírito nómada
as noites são um torvelinho de neve
o frio chora
o silêncio beija
a minha canção corre pelos caminhos
os postes telegráficos sabem-no
prodigalizam canções de amantes
o clima é meu
somos um
as noites de tempestade
o nosso amor é grande
múltiplas são as nossas carícias
e deliciosas oferendas
o mar tempestuoso
é um eco do meu sangue em ebulição
a minha mulher é ardente
e entrega-se
como a minha canção
Den levende violin, 1926
NO CAFÉ
Uma formosa canção
um pequeno milagre gracioso,
destila o fonógrafo
enquanto eu estou calado.
E perante o assombro de todos
tiro a cadeira de debaixo de mim
e fico-me sentado no vazio.
Diante de mim está uma rapariga
de dentes feios
e olhar esquivo.
Está calada
– Os dois sabemos
o que sente um no interior do outro
e com força de leões beijam-se as nossas almas.
Ela eleva-se pelo ar
e eu também,
suspensos sobre as mesas
fazemo-nos amigos.
E acompanhados de estrondo e aplausos
por cima do milagre da canção
entrelaçamo-nos
e saímos do café a girar em carrossel.
Hjerte-Bogen, 1930
DEUS CHEGOU Á CIDADE
Fragmento
É porque estou na Dinamarca que tenho o aspecto que tenho.
É o trajecto da minha lua por cima da Dinamarca que faz
resplandecer assim o meu rosto!
É o mau amor pela lua que faz que eu dê luz aos seus raios,
é o meu amor pelo amor o que faz que eu escreva poemas sobre ele!
É a minha nostalgia infinita de outras latitudes que faz que o meu coração
estremeça de alegria por ter nascido aqui onde nasci!
É a força em tensão do meu claro espírito o que faz que possa
imaginar o globo terrestre e manter-me em equilíbrio sobre ele!
É o poder que sobre mim tem o meu globo o que faz que eu o domine
– e muito mais do que isso.
_ _ _
Nada me é mais fácil do que mantê-lo abraçado à planta dos meus pés
e de o abandonar de um salto – e para ele, por sua vez, de juntar-se comigo
de um salto para abraçar-se estreitamente a mim –
escutai, como oscila a rua quando caminho por ela!
Não pode prescindir de mim e abraça-se a um dos meus pés tão prontamente
quanto me distancio com o outro!
Oh, isso é o delicioso da terra, que ama os seus filhos e não os deixa
afastar-se dela –
amo-a, porque tem uma cabeça dentro da que em que me encontro –
e essa cabeça parece-se com a minha a julgar pelo que se vê no espelho!
_ _ _
É porque nasci na Dinamarca que tenho o aspecto
que tenho – não poderia ser de outro modo,
é porque nasci na Dinamarca que a minha mãe me mandou
pelo mundo para que modestamente o olho e fale dele como
poeta!
É porque nasci na Dinamarca que escrevi o que escrevo os poemas
que escrevo! Não poderia ser de outro modo!
Jordens ansigt, 1932
NEVE
Olha, por fim chegou a neve,
e eu que acreditava que não íamos ter neve,
e agora parece realmente que vamos ter
uma considerável quantidade de neve
sem que passemos a vida pensando na neve,
sem que caia um floco.
Também o ar tem neve dentro,
está como que carregado de neve,
talvez haja uma grande tempestade de neve ao longe,
é como se alguém a sentisse dentro de si mesmo,
sem na realidade nada saber,
excepto que vem e então a poderá ver.
Estive o tempo todo à espera da neve,
é divertido que tenha chegado.
Sim, agora está ali mesmo
olha-a, que branca que é,
como esta neve me faz feliz,
eu acreditei todo o tempo, realmente, que ia chegar.
E então ela aparece de repente
é divertido que venha assim, inopinadamente,
sem que faça nada para o conseguir,
eu não sei se a arrebatou o ar,
veio assim por sua conta.
Kœllingedigte, 1944
NO CINEMA
Nós, dois delinquentes que gostam de ir ao cinema
enquanto milhares de pessoas trabalham com gás e marmelada
e coisas curiosas como formulários de declaração de impostos e outros,
sentimo-nos à vez como gangsters e reis,
quebrando, dessa maneira, as regras do mundo,
ali sentados soprando-nos mutuamente nos ouvidos e fazendo coisas
estúpidas
no cinema, olhamos as imagens
e toco-te as pernas debaixo do vestido,
pões a mão no meu braço e olhas romanticamente o tecto do salão
enquanto as imagens vão passando e se tornam estranhas,
ágis no corpo, e fazem outras coisas,
enquanto o mundo se arrasta ali em cima no cenário,
fechamos os olhos e pensamos noutras coisas, enquanto se beijam
um contido beijo de cinematográfico ali em cima, que nos afecta
profundamente pela sua inocência, também pela sua alma pura,
porque é ficção. É absolutamente falso
pagam-lhes para aquilo, ganham dinheiro daquela maneira,
enquanto nós estamos sentados e folgamos e o fazemos
de verdade,
nesse sentido somos delinquentes num mundo atarefado, uns beijos
mecânicos
propiciam-nos a grande inspiração
para um espectáculo autêntico em casa no nosso
pequeno teatro selvagem.
Helvede opløser sig, 1953
UM MORANGO
A misteriosa sensação secreta
de sentir um morango na boca
nunca se poderá comprar com dinheiro.
Não se conhece a razão
mas um morango fazer com que a alma
se ponha de vermelho vivo, até ao fundo.
Este morango, deram-mo esta manhã,
faz-me tão faliz
que ouvi o espaço celeste falar
a coisa mais deliciosa que saboreei.
Schades højsang, 1958
Versão minha - © Amadeu Baptista
Jens August Schade, nasceu em Skive, em 1903. Fez breves estudos universitários, entra vida de grande boémia. O seu livro de estreia é de 1925. É um dos renovadores da poesia dinamarquesa do séc. XX. Além de uma abundante obra poética, escreveu romance e peça de teatro que indignaram a burguesia pelo seu conteúdo erótico. Faleceu em 1979.
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