quarta-feira, 22 de maio de 2013

Matti Rossi


POEMAS DE MATTI ROSSI


TRAGÉDIA FINLANDESA

Fartou-se, partiu,
                        com os seus pecados, com as suas virtudes, o cão
            uivou muito tempo na tumba, depois morreu,
        como morrem os cães, de fome.

A casa ficou vazia, a mulher
                        tinha partido há muito
            com Fredrikson, os filhos
andavam pelo mundo, um para os Estados Unidos.

A família sofria dos pulmões e era propensa
                        à loucura, uma das suas tias tinha visto
            Jesus Cristo no tecto do armazém de batatas,
desde então esperava a chegada de um noivo.

Um tio foi operário no Cazaquistão,
                        um velho comunista,
            fugiu dos brancos em 1918, intermediou
uma rapariga alemã, construiu uma sauna, pegou-lhe
            fogo em plena bebedeira e morreu.

Os filhos embarcaram, um
                        esfaqueou o maquinista do barco em Estocolmo
            e ainda está na cadeia, outro
perdeu o juízo nos Açores, foi a nado para a Finlândia,
            não chegou ao seu destino.

À filha viram-na pela última vez no centro finlandês de Fitchburg
            com sete filhos; o marido,
            Lobo Caçador, tinha desenterrado o machado de guerra,
            tinha assaltado um comboio de whisky e está agora
                        com Manitu.

As sorveiras estão em flor. Muitas bagas,
                        será um inverno brutal.
As rosas silvestres trepam formando um arco
pelas paredes da casa. A porta está aberta, os maçaricos gritam
                        no pantanal.

Näytelman henkilöt, 1965




– Como um cavalo voador, dizes, sonhadora.
      – E às vezes como um urso. Primeiro metia-me medo,
              sim, sim, tenho muita imaginação,
sentia a tua mão como uma
pata grande e tosca, tratava de imaginar
como seria repousar contra o teu peito peludo.
Esta manhã eras como um cavalo,
e agora mesmo começo a sentir-te
como se fosses um leão.

Cansados, mulher feliz, bem formada
cadela negra, com que
agilidade saltaste para a minha cama, tinhas comido e bebido
acreditavas que ias fazer o teu ninho.
Se soubesses quem eu sou.
Sou uma serpente de sangue turco e amanhã devorar-te-ei.

– Amanhã, devorar-te-ei, murmuro a meia voz.
– Meu amor, respondes.

Leikkeja kahdelle, 1966




Imagina, se um deles ficasse louco agora
e ardêssemos aqui
quando estão a construir um mundo melhor:

como rãs
no barro do terciário
sorrimos
mais além de milhões de anos
                        postos contra a parede
                        em algum bom museu,
                        – Isso é o que faziam antes – diz o guia,

tu sorris agradecido – Conseguiram-no
            de novo,
um gracioso acontecimento assim
no meio da tagarelice.

Leikkeja kahdelle, 1966




O PARQUE

Meu filho, isto é um parque, e aqui na sombra
está o silêncio, é um amigo teu, aprende a conhecê-lo.
Ali está a tristeza, só, com a lua ao ombro,
e ali a alegria, de mão dada com o amor, a dar voltas ao sol.
E a esperança anda por ali devagar luzindo a sua gravidez a caminho
    do jantar.

Meu filho, isto não é um parque, isto é
a zona da euromorte, a segunda, ou a terceira,
só a velocidade a que se morre a diferencia de outros parques,
tudo está calculado em alguns papéis de cinco pontas.

Não é um parque mas um campo de tiro, na erva ferros retorcidos,
cristais, corpos calcinados,
as pedras cheias de cruzes gamadas,
numa árvore um louco dispara a tudo com uma bomba de bicicleta
no lago um gato pendurado com um peso na pata,
sob os olhos salientes outro par de olhos mais malignos.

Hoje meu filho deste os primeiros passos
e caíste de bruços na gravilha. Lembra
este lugar: ruptura, sangue, lágrimas,
o gesto do teu punhinho
contra a chuva que corre ao vento chicoteando
o teu cabelo demasiado longo sobre os olhos.

Hiljaiisuus já matkatoverit, 1980




AMOR NA NEVE

Era uma manhã de domingo de finais do inverno,
o rapaz e eu respirávamos sol congelado
                        resplandecente de cristais de gelo
e soletrávamos um escrito na neve, uma antiga
caligrafia, estranha mas claramente legível:
                        Amo-vos a todos.

Naquela manhã, depois do nevão,
pôde-se ler na límpida neve dos parques de Helsínquia:
                        Amo-os.

Oh amor em declives de montanha, em lagos,
em parques infantis, em muros de pedra cobertos de gelo,
níveo amor para todos, sem consideração a ninguém
                        inesgotável
quando o indulgente inverno cobre os sujos matagais
onde se depositaram as lágrimas e os pecados de todo o mundo.

E ao pé da encosta dos trenós, rodeado por uma multidão de crianças,
                        o escrevedor:
um canzarrão grande e velho, o focinho na neve
a anotar as contas da sua vida canina:
                        Amo-vos a todos.

Bom cão, modesto, sincero:
bom ser humano, a ladrar o seu amor espontâneo
a seres iguais, sem olhar à cor da pele.

Hiljaiisuus já matkatoverit, 1980




NESTE LADO DO CORAÇÃO

Neste lado do coração ainda é noite: beneficia dela.
O menino vem aos teus braços, desenha um pássaro no ar,
o menino e tu começais a chorar quando se vai a voar.
Mas volta, traz outro consigo, lembras-te
aquele que desenhaste uma tarde,
aquele que o tempo afastou. Ris
e o menino ri-se quando voam os pássaros
para este lado do coração, e na tarde alada
distingue-se o aroma de muitos lares.

Neste lado do coração chove, é uma noite vulgar,
os pássaros foram-se, o menino dorme.
Alguém não encontra a sua casa, alguém não regressa,
alguém acaba de partir, a porta fez um estrondo,
o coração abre-se, fecha-se, chuva e mais chuva
e só se ouve um sussurro de palpitações longínquas
quando os pássaros de antanho chegam, se voltam,
voam rápidos para o outro lado do coração.

Amanhece: um espaço iluminado, cheio de solidão.
  Quando o menino acorda desenha um pássaro na tua mão.

Hiljaiisuus já matkatoverit, 1980



EM CASA MAIS DO QUE NUNCA

Quando tiro a venda dos olhos
e não me conheço a mim mesmo nem aos demais
não digas,  – Ele não está hoje em casa
ou, – Está cansado e dorme.
porque eu estou em casa mais do que nunca,
comigo mesmo, na mesa em frente àquele
                                   que era como eu
mas agora é outro, estranho, distante,
com as suas razões para isso.

Sei que o tempo passa e desaparece
e que tudo o que o menino diz é verdade e será verdade,
mas eu estou agora mais em casa do que nunca
e vejo nos olhos dos demais, vejo-me a mim mesmo
no que acabou de me incorporar,
e ele não me coage, parte, eu sei,
mas não se vai em segredo, eu vigio.

Meu amor, eu estou em casa mais do que nunca
mas o outro vai-se, eu sei,
porque o outro destes dois é inutilizável, está partido,
por isso esperamos junto à nossa mesa comum
que alguém se afaste, não eu.

Alguém se afasta, não eu,
quando tiro a venda dos olhos não tentes dizer que me fui
porque eu estou aqui, era apenas um como eu,
e agora já se foi, alguém como eu,
estranho a mim mesmo, infrequente, distante.

 Não me procures, meu amor, estou aqui,
com os olhos abertos, em casa mais do que nunca,
à minha própria mesa, aí, em frente a nós.

Hiljaiisuus já matkatoverit, 1980

Versão minha - © Amadeu Baptista




Matti Rossi, nasceu em Sortavala, em 1934. É licenciado em Letras, bolseiro nos Estados Unidos e no Instituto Shakespeare de Stratford-on-Avon; trabalhou durante cinco anos na secção finlandesa da BBC. Foi director da revista Kulttuurivihkot, entre 1978/79. É um dos poetas mais destacados da poesia política da década de 60, do séc. XX. Agora escreve uma poesia inspirada na lírica mais tradicional, como a Kavala, de que existe uma excelente tradução portuguesa.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Clauder Arcanjo




UM CONTO DE CLAUDER ARCANJO


QUANDO O DIA CHEGOU...

(para Amadeu Baptista )

Quando o dia chegou, o vento leste não veio. Não vindo o vento leste, a noite derradeira ficou. Ficou e deixou o seu manto de lamúrias no alpendre da velha casa.

O cachorro Piau, a coçar suas pulgas, fugiu para debaixo do tamborete do velho Benedito da Conceição, que mascava, desde a madrugada, a mesma pele de fumo. “Quieto, bicho!”
Madalena abriu, com força, a janela da frente; o ruído da tramela pôs mais medo nos pelos de Piau, que fingiu um rosnar de coragem. “Quieto, bicho!” Ao perceber que até os capotes ainda não haviam descido das copas das árvores, Sinhá Madalena chamou pelos bichos. “Ti, ti, ti, ti, ti...”

Com o manto de lamúrias ainda posto na entrada, nenhuma ave nem criação deixaram o seu canto. Apenas o sardento cão, inquieto com tanto silêncio, mastigou um fiapo de rosnado. “Quieto, bicho!”

Benedito nem deu com a presença da mulher, os olhos perdidos nas lonjuras do sertão, a catar coisas por entre a vista cansada. Tudo parado demais, estranhamente vazio. Como se prenúncio de coisa ruim. De repente, um sacolejar de ossos embaixo do assento. Era Piau, tomado pela sezão do medo. “Quieto, bicho!”

Madalena bateu panelas, mexeu nas cabaças e nos pratos de ágata, a fazer, de propósito, o barulho que a manhã não trouxera. Rasgando a alvorada à força. Nada, tudo em vão. Uma névoa esquisita sobre a mataria, a pasmaceira a encobrir os mofumbos do oitão da frente; o gado, todo deitado, nem sequer a ruminar. As ovelhas e as cabras no aprisco, paradas, como se mortas. Piau correu do alpendre para debaixo de uma cadeira junto ao fogão de lenha. Na certa, à procura do calor do fogo, na tentativa de esquentar o corpo, banindo, da courama, o tremor do medo. “Quieto, bicho!”

Quase ao meio-dia, um sol, pálido, pôs seus raios na vazante do Riacho das Mulas. Piau esticou as orelhas miúdas, Madalena fez o sinal da cruz, e o velho Benedito da Conceição ajuntou as forças e levantou-se, a mão esquerda no cajado, e a direita, em pala, sobre os olhos. Estes, na direção do plantio de milho e feijão.

Um estralado esquisito na plantação, como se a quebrar as espigas e arrancar as vagens. Movimento de pressa e loucura, desespero e força, consumindo tudo. Benedito recuou para junto da porta, pegou a espingarda e convocou Piau: “Vem cá, bicho!” Quando percebeu que não seria atendido pelo cão, desceu, sozinho, os degraus da casa, metendo-se por entre os marmeleiros. Lembrou-se do conselho do caboclo Batista, e segurou no cordão com a imagem de Santo Expedito. Deu a volta no roçado, na busca de se aproximar pela parte alta.

A zoada a aumentar, como se pegasse força quanto mais a roça era destruída. Benedito caminhando quase acocorado, nem sentindo o rasgado dos espinhos na pele. “Valei-me, Santo Expedito!”

Ao chegar à ponta de trás da vazante, na ribanceira mais alta, carregou a lazarina e apontou na direção do rebuliço. A coisa devastava tudo, num chafurdo infernal. Sentiu que vinha na sua direção, tirou, então, o cordão do santo do pescoço, enrolando-o na mão da mira, cuspiu na do gatilho, e calibrou bem a vista.

Os pés de milho vinham sendo derrubados, as ramas arrancadas, numa fúria nunca vista. Quando faltavam
duas fileiras de milho e feijão entre aquilo e o velho Benedito, este aprumou-se para o tiro. A coisa surgiu à sua frente: o corpo peludo coberto com rama verde, a boca de dentes enormes e afiados, restos de espigas amarelas nos caninos. Mirou na testa larga, entre os olhos. “Quieto, bicho!” Mas, aqueles olhos...

— Meu Deus!... Valei-me, Santo Expedito!

© Clauder Arcanjo

Nota: Publica este blog este conto de Clauder Arcanjo, que me vem dedicado, com a gratidão devida pela homenagem que o seu autor me quis fazer. Fica demonstrado que, mesmo entre desconhecidos, há laços que se podem e devem estreitar, para lá de todas as distâncias.



Clauder Arcanjo é natural de Santana do Acaraú, um município do Ceará. É cronista, resenhista literário e colaborador de sites, revistas e jornais. Em 2007 publicou o seu primeiro livro de contos, 'Licânia'.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Sigbørn Obstfelder



POEMAS DE SIGBØRN OBSTFELDER


VEJO

Vejo o branco céu
vejo as nuvens azul acinzentado
vejo o sol sangrento.

Então é isto que é o mundo.
Então é isto que é o lar dos planetas.

Vejo as casas altas,
vejo as mil janelas,
vejo o distante campanário.

Então é isto que é a terra.
Então é isto que é lar do homem.

As nuvens acinzentadas amontoam-se. O sol desaparece.

Vejo os senhores bem vestidos,
vejo a senhoras sorridentes,
os cavalos inclinados.

Quão pesadas ficaram as nuvens acinzentadas.

Eu vejo e vejo…
Terei chegado a um planeta errado!
Aqui tudo é tão estranho…

Digte, 1893


TORMENTOS

O que quereis de mim, rosas malditas?
Maldita lua, malditas árvores!
Sorrisos femininos por todos os lados!
Sussurros femininos, mãos femininas!

Vagabundeei entre urze e pântanos, –
eu – um deus?
O meu coração sangra, – retorce-se, encolhe,
Ela ondula as suas ancas em suaves mantas, –
ela – uma rameira!


Chorei na terra húmida, –
eu – um deus?
Ela é tão formosa – branca, branda, ardente –
o pescoço branco na almofada branca,
o cabelo castanho ondeia exuberante, ondulante –
Por que tremeis, lírios?

Ela fez deslizar as suas mãos em torno do meu pescoço –
Morte e inferno, por que estais a tremer?

…Tormentos, – tormentos que se acercam furtivamente, –
tormentos venenosos, fatigantes!

…Numa tumba à luz da lua está sentado
no cemitério entre os mortos
com uma sombra longa trémula
um homem enregelado.

Estrelas.

Vós, estrelas –
lá longe, aí onde andais,
há aí paz?
Pureza?

Caminhais tão silenciosas.
É como Deus, que respira,
as estrelas os seus pensamentos.

…As estrelas os seus pensamentos…

Dedos brancos, seios redondos, pupilas brilhantes,
– mas sem espírito algum!

Milhões de esplêndidas flores tem o campo,
milhões de radiosas borboletas,
brilham e morrem, desaparecem.
A brancura de uma mulher amarelece.

Como flores carmesim sem aroma,
os sonhos dos sentidos não têm espírito.
Como estrelas são os olhares de espírito a espírito,
como sóis os sorrisos de alma a alma,
como o calor do mundo é o abraço
entre um homem nobre e uma mulher nobre!

…Já não há lua.
Também as estrelas se apagaram.
As rosas e os lírios dormem.
Olha, o casto resplendor da alba beija,
beija a agulha do campanário.

Amanhecer!
Há na terra entre as mulheres uma
casta?

Digte, 1893


PODE FALAR O ESPELHO?

Pode falar o espelho?

O espelho pode falar!

O espelho olhar-te-á em cada manhã,
                inquisitivo,
olhar-te-á como o olho profundo, inteligente,
               –  o teu!
saudar-te-á com o olho azul escuro, cálido.
              És puro?
  És fiel?

Digte, 1893



A ROSA

A rosa!
Eu amo a rosa!

Todos os lábios jovens do mundo
beijam rosas, beijam rosas.

O palpitante sonho da jovem donzela
– ninguém pode conhecê-lo
excepto…
a rosa.

Todas as mulheres do mundo mesclaram a sua respiração
com o aroma das rosas, sussurraram, como lábios trémulos,
as palavras doces, as palavras ardentes que não conhece ninguém,
ninguém excepto a rosa, que é o tremor mais ardente.
–  –  –  –  –  –  –  –  – 

Efterladte Arbeider, 1903



ROSAS

Sim, rosas! Murchai!
Murchai!

                                               *

Foi a meio do inverno, em pleno dia. Os repiques dos
sinos da igreja agrupavam-se lá em cima e desapareciam. Ali
em cima, onde o ar é puro.
    Eram cor-de-rosa e vermelho e nevavam pétalas de rosa.

                                   Carmesins da primavera,
                                   louras do Outono,
                                   brancas do inverno,
                                   amarelas do verão.

                                               *

Não! Eu não posso!
Oh – assim como – assim como – quando – –  morre!

                                               *

    Ela tinha os olhos mais doces, sim, os mais sorridentes. Estava muito
longe. Chorava.

                                               *

    Reúnem-se sobre ele, caem, gotejam, gotejam, lançam-se e agrupam-se,
reúnem-se sobre ele para formar um suave – as pétalas brancas, as pétalas vermelhas – um doce beijo de rosa, beijo de pétalas de rosa.
    No rosto, na boca, no pescoço.

                                               *

    Ai, eu não posso, não posso – eu só quero –
    Suavemente queria eu morrer! Queria sentar-me nos joelhos e beijá-la e abraçá-la e morrer como um menino obediente que fica a dormir.
    Nela, que é a morte.

                                               *

    O seu vestido fora tecido de rosas e cosido com caules. A sua respiração era
o aroma das rosas. O seu sorriso era o sorriso das rosas. Mas, os olhos?
    O seu pranto era o pranto das rosas.

                                               *

    Neva. Rosas do sol. Rosas das estrelas, milhões de rosas de meteoros que perderam o rumo. Sobre o coração deposita-se o manto de rosas e o coração aquece e palpita ligeiro.

                                               *

                                   Folhas e folhas –
                                   Palpita. – Palpita
                                   Botão após botão.
                                   Palpita. Palpita.

                                               *

    Há muitos olhos. Há tantos olhos como rosas. São olhos moribundos.

                                               *

    Não, são dois olhos.

                                               *

                                   São dois. São dois
                            p.     Palpita – Palpita.
                                   São dois. São dois.
pp.          Palpita. Palpita. ~

*
                                 
                                   Magnífico.
                                   Estou cego. Não vejo.

                                               *

                                   Deus.

                                               *

                                   São dois. São dois.
                                   Morre.
                                   São dois. São dois.
                                   Morre.

                                               *

                                   É um.

                                               *

    Ele jaz num mar de rosas. O mundo é – rosas, tudo é rosas, os pensamentos são rosas.
    Escurece. O sol oculta-se. Tudo se faz um. Não há ar nem água nem terra nem gentes. Há apenas um ser humano – e rosas.
    O coração aquieta-se. O coração converte-se numa – rosa – que murcha. E a seiva seca. E as pétalas encolhem.
    Selvaticamente até ao horizonte, rosas, selvaticamente fixa o olhar, selvaticamente, rosas, rosas, (furioso) pétalas de rosa, botões de rosa:/:cálices de rosas:/:aroma de rosas, pranto de rosas, rosas – cores de rosas – (mor.) rosas.

                                               *

                                               Eu?

                                               *
    Selvaticamente fixa os olhos no horizonte olhando para – rosas. E morre.

*      *
    *

Tu?

[Escrito em 1892]


TREMULA O CENTEIO

Que é aquilo que se move ali no centeio?        
                        O centeio treme.
É o vento de este que balança as espigas,
                        O centeio treme.

Que é aquilo que serpenteia ali no centeio?
                        O centeio treme.
É a noite que chega com sombras curvas.
                        O centeio cresce.

Que é aquilo que se levanta ali no centeio?
                        O centeio treme.
É a nossa filha que se desonrou no centeio.
                        O centeio treme.

                                                                      [Escrito em 1899]



Versão minha - © Amadeu Baptista

Sigbørn Obstfelder (1866-1900). Nasceu em Stavanger. Estudou filologia e mais tarde fez-se engenheiro de máquinas. Trabalhou nos Estados Unidos durante algum tempo. Passou os últimos anos da sua vida a vagar de um lugar para outro na Noruega e no continente europeu. É o percursor do modernismo na lírica norueguesa.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Pär Lagerkvist



Poemas de Pär Lagerkvist



A angústia, é minha herança a angústia,
a ferida na minha garganta,
o grito do meu coração no mundo.
Agora as nuvens de espuma petrificam-se
na tosca mão da noite,
agora elevam-se os bosques
e as rígidas alturas
esterilmente até à abóbada
encolhida do céu.
Que duro é tudo,
que rígido, negro e sereno!

Às cegas vou por este escuro espaço
sinto as arestas cortantes das pedras nos meus dedos,
contra os gelados pedaços das nuvens
golpeio-me até que sangram as mãos levantadas ao céu.
Ah, arranco as unhas dos dedos,
lacero as mãos, doloridas
contra montanhas e bosques sombrios,
contra o ferro negro dos céus,
e contra a terra fria!

A angústia, é minha herança a angústia,
a ferida na minha garganta,
o grito do meu coração no mundo.

                Ångest, 1916



Pequena mão, de que não sou dono,
de quem neste largo mundo foste?
Na sombra te encontrei. Não sou o teu dono
Mas de uma pessoa escuto eu o gemido.

Aonde estão os teus olhos? O teu peito?
Quem é o que soluça no escuro?
Pequena mão minha, não chores. No meu calor te fecho.
Tu não estás só no escuro.

Pequena mão minha, os teus olhos eu provavelmente
encontrarei quando clarear a manhã.
Pequena mão minha, que choras, tu és-me bastante,
ainda que nunca, nuca chegue a ser manhã.

Ångest, 1916


É no entardecer quando maior é a beleza.
Todo o amor que abarca o céu
está reunido numa luz de penumbra
sobre o mundo,
sobre as casas da terra.

Tudo é ternura, tudo acariciado por mãos.
O próprio Deus extingue longínquas margens.
Tudo é próximo, tudo é distante.
Tudo foi dado
ao homem de empréstimo.

Tudo é meu e tudo me será tirado,
dentro em pouco tudo me será tirado.
Árvores, nuvens, a terra, o chão onde caminho.
Caminharei –
só, sem deixar marcas.

Kaos, 1919



A minha amada não voltará,
mas o meu amor voltará a mim.
O que vivi não voltará,
mas a minha vida volta a estar em mim.

Den lyckliges, 1921



A vida tem uns olhos tão formosos,
olhos de corça,
tristes, profundos,
que no entanto reflectem o instante do verão,
o mudo olhar que brilha, vigia,
cintila na penumbra das árvores –

O caçador deixa os seus utensílios de caça
na erva fresca da manhã
para seguir o rastro tímido,
seguir uns olhos escuros, brilhantes
na profundidade do bosque
no luminoso.

Beber do mesmo manancial,
profundo e claro,
onde ela bebeu.

Vid lägerld, 1932



Nas vielas da alma,
onde os candeeiros estão longe uns dos outros,
o que dificulta encontrar os números das casas.
Lá procurei o largo tempo.
Em vão.
Talvez procurasse números demasiado altos,
que não existem.
Talvez.
Agora cheguei ao fim do trilho
e olhos com os olhos secos uma noite
que já não me assusta.


Atrás vociferam os que encontraram o que procuravam,
os números que todos havíamos encontrado,
e a gritaria enche os prostíbulos onde o membro viril
                                   cospe os seus humores
e a alma sonda as profundidades,
as definitivas,
no meio do estrépito de dos mictórios e dos baldes
e o cacarejo das canalizações no seu caminho até aos esgotos
na ruela das Almas.

***

Mas a ruela parece-me
o poderoso sexo da vida,
misterioso e oculto.
Como uma amante, disposta a tudo,
nua e estendida na sua cama
para aquele que dela necessite.

Mas com o rosto suspenso nas trevas da noite
sob as estrelas
numa indizível solidão e dor.

Virgem e mãe,
rainha do céu com uma coroa de espinhos estrelados na cabeça,
junto a ti quero velar
esta noite.

Quem te crucificou neste quarto,
para que pudéssemos viver.
Quem cobriu a noite do teu rosto,
para que não nos angustiássemos.
Mater dolorosa.
Doce é o teu regaço,
onde encontramos consolo.
Doce como os prados floridos que um sol ardente aquece.
Avidamente procuramos-te com as mãos.

Mas o que é o teu corpo nu,
que são os teus membros lascivos,
que é o teu sexo aberto de par em par –
perante a terrível nudez do teu rosto,
que tu nos ocultas.

Abandona-te a mim,
a mim que te desejo!
Entrega-te a mim tu mesma,
tal como és!
A mim que anseio a tua nudez
como os animais do deserto anseiam a água.

                                   ***

E como numa visão contemplo o teu rosto…
Gasto e enrugado, marcado por todos os sofrimentos
e todos os vícios.
De nostalgia, luxúria e dor.

Mas completamente imóvel.

À única luz de uma melancolia infinita, indizível,
ela sorri-me.

Como uma mãe terrena.

Vid lägerld, 1932



O BARCO DA VIDA

Em breve vais estar morto e não vais saber que te afastas
deslizando no barco da vida até outras paragens
onde a manhã te espera em escondidas margens.

Não te preocupes. Não temas o momento de zarpar.
Uma mão benigna prepara tranquila as velas do barco
que te vai conduzir do país da noite ao do dia.
Caminha sem medo até ao silêncio da margem,
pelo trilho suave através da erva do ocaso.

Sång och srid, 1940



Quem passou pela frente da janela da minha infância
e deixou o seu bafo no vidro,
quem passou de longe na profunda noite da infância,
que ainda não tinha estrela alguma.

Com o dedo desenhou um sinal no vidro,
no vidro manchado,
com a ponta do dedo,
e seguiu o seu caminho ensimesmado.
Deixou-me abandonado
para sempre.

Como ia eu poder interpretar o sinal,
o sinal desenhado na névoa do seu bafo.
Permaneceu um instante, mas não o bastante para que
                                   eu o pudesse interpretar.
A eternidade das eternidades não teria bastado para
                        o interpretar.

Quando me levantei de manhã o vidro da janela
                        estava translúcido
e eu só via o mundo tal qual é.
Tudo me parecia estranho nele
e atrás do vidro a minha alma transbordava de solidão e angústia.

Quem passou de longe,
de longe na profunda noite da infância
deixando-me abandonado
para sempre.

Aftonland, 1953



Se tu crês em deus e não existe nenhum deus
então a tua fé é um milagre ainda maior.
É de verdade algo inconcebivelmente grande.

Por que jaz lá em baixo nas trevas um ser chamado
                                   para algo que não existe?
Por que são assim as coisas?
Não há ninguém que ouça que alguém chama nas trevas.
                                   Mas por que existe o grito?

Aftonland, 1953


Eu sou a estrela que se reflecte em ti.
A tua alma tem que estar imóvel,
se não eu não posso reflectir-me nela.
A tua alma é o meu lar. Não tenho outro.

Mas como vais poder permanecer imóvel se a minha luz
                                   palpita na tua alma.

Aftonland, 1953


Versão minha - © Amadeu Baptista




Pär Lagerkvist, nasceu na região sueca de Småland, em 1891. Estudou em Upsala. Foi doutorado em História da Arte, escreveu poesia, romance e teatro. Em 1940 foi eleito para a Academia Sueca e em 1951 foi-lhe concedido o prémio Nobel de Literatura. Faleceu em 1974.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

O Bosque Cintilante # 80

Franz Liszt: Consolação

Não se extinguem os sinais da tristeza
para aquele que parte. O coração
talvez exulte com a partida,
mas a tristeza é enorme
para o que não tem regresso
e mesmo se regressa se obstina
em pensar tudo o que perdeu.
Não há consolação para quem ama
e em silêncio se despede
do que não é plausível reconsagrar.


O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista




quarta-feira, 1 de maio de 2013

1º de Maio




a beleza da luta de classes está em frente
a nós, que dobramos as costas sob o fardo
e exultamos se uma palavra ou outra
encontra o súbito alcance de uma bala

é uma beleza impura e circunscrita
à desordenada rebeldia com que vemos
a ideia de justiça a recompor-se
de séculos de opróbrio e tirania

o suor do trabalho é um animal calado,
mas nele subjaz uma harmonia intensa
feita de paióis e amenidades várias
onde o rosto dos homens acaba a reluzir

não há acaso no silêncio vasto
quando o passado é largo e incendiário,
o trilho que alguns de nós passam
com as mãos acima das cabeças

vemos esta beleza com a firmeza
de quem mais não pode fazer que rejubilar
pela extensão da luta e os seus brilhos
no esforço refulgente das cidades


(Inédito) © Poema e foto: Amadeu Baptista