sexta-feira, 3 de julho de 2015

Os Selos da Lituânia / 4

naquele tempo, a vida indescritível do quintal
sulcava no meu peito os mais profundos sortilégios.
os dias pareciam ser intermináveis e era possível
sentar-me numa pedra a ver correr as horas
num lento êxtase
pelos muitos planos que os muros fixavam
entre as várias escadarias e as sombras
de um extenso jardim de rosas e agapantos.
um dos cães da casa era um cão cego,
negro, com as patas brancas e castanhas,
que dormia num recanto entre alguns sacos
de carvão vegetal e guardava
as coisas num silêncio que sempre me pareceu
atroz, seguindo com a cabeça os ínfimos ruídos
que suspeitosamente à sua volta vinham
perturbar a prestação guardiã.
após as escadas e um corredor
sombrio havia um tanque de água cristalina
e um outro mais pequeno circundado
por tufos de avencas e de pássaros
entre o silêncio das plantas e da pérgula
onde inúmeras trepadeiras formavam
uma pequena selva, com flores cor de fogo,
de pétalas diáfanas, irradiando clarões
pela tarde dentro. num minúsculo barraco,
quase destruído, guardavam-se as alfaias
e a minha aventura era ampliar
a serventia daqueles instrumentos,
sendo um ancinho a imagem de um dragão,
um carrinho de mão um carro de combate
e uma pá o símile de uma espada
que numa antiga batalha me tivesse transformado
num herói  absolutamente incontestado.
uma ameixoeira branca ampliava o encantamento
do lugar. nas suas folhas entrevia brilhos
que pareciam chuva, embora não chovesse.
o que era irreal mostrava-se, de súbito,
a única custódia possível para os olhos.
havia também um largo patamar
onde as mulheres da família se sentavam
a coser os vestidos ou a bordar
uns panos que me pareciam asas de algum anjo
vagamundo, no lugar em que mãos ladinas
e cruéis matavam as galinhas para o domingo próximo,
enquanto o cão cego permanecia a um canto
com os olhos brilhantes,
como dois topázios.

n Os Selos da Lituânia, Lisboa, & Etc, 2008

© do poema e da foto: Amadeu Baptista




quinta-feira, 25 de junho de 2015

Os Selos da Lituânia / 3

estão doze imagens iluminadas
por fraca lamparina de azeite
e há uma cómoda negra no canto do quarto.
na primeira gaveta, uma mancha
vermelha para guardar
e, no gavetão de baixo, uma cama
para dormir. o pequeno cobertor
cheira a lavado e em volta do meu sono
uma luz protege-me,
embora não consiga adormecer
e oiça passos ao longe, e o som surdo de vozes
a bater nos meus pulsos
como se tivesse que os cortar
pelo mundo ser injusto
e além de um oratório este lugar
ser exactamente o sítio onde durmo.
se pudesse ir à rua neste instante
procurava entre as mulheres a minha mãe
e pedia-lhe que me levasse para onde
fosse possível chorar e a memória fosse
uma passagem para a vigília surpreendente
que há nas coisas inesperadas.
mãe, mãe, cometeste o pecado de não me veres
dormir, a minha alma hesita, sou apenas
esta tábua que ao longe range
e atravessa o quarto onde nenhum lençol me abriga
e os santos e os anjos pontificam
para que perdure o alarme e os olhos ceguem
nesta lâmpada incólume, esta ameaça
que continua a pairar sobre esta cama
e faz com que te chame em cada noite
e tu não estejas, 
e tu não venhas livrar-me
da roda do martírio, enquanto
reclamo a carícia perdida,
a criança que fui,
do primeiro vagido ao derradeiro.


in Os Selos da Lituânia, Lisboa, & Etc, 2008

© do poema e da foto: Amadeu Baptista




quinta-feira, 18 de junho de 2015

Os Selos da Lituânia / 2

não tive pai nem mãe, no sentido
bíblico do termo. creio bem
ter nascido de uma pedra, em volta
havia o perfil da magnólia
e era extenso o azul do firmamento,
ao derredor da cabeça, tocada e doce. o mundo,
o mundo a que cheguei, não era mais
que uma pedreira, de onde os homens
partiam em silêncio para os campos
em que a solidão recrudescia, a solidão
inúmera dos campos onde os bois
partilhavam o destino com as fontes
e viam, muito ao longe, as ânforas
e a lâmpada, a corça e o veado,
as torres das cidades sitiadas.
a estrela que me coube
era pobre e distante. num momento
não pude mais fazer que recolher
sombra das sombras com as mãos,
à procura de um rumor que incitasse
ao êxtase e à aventura, procedendo
como se não fosse mais que um desconhecido
a perguntar ao vento e à geada
pelo significado oculto que entrevia
no rosto dos meus contemporâneos.
não tive pai nem mãe, sobre a ternura
só aprendi o que havia
de recolher de um vaso, muitas vezes
apenas sangue, muitas vezes
o descorado clamor dos céus,
quando a chuva molhava os meus cabelos
como se fossem peixes fora de água.
não tive pai nem mãe, o que recuso
é dessa direcção que sempre vem
e aqui se demora para que a magnólia
transfigure os seus frutos em furacões.



in Os Selos da Lituânia, Lisboa, & Etc, 2008

© do poema e da foto: Amadeu Baptista



terça-feira, 9 de junho de 2015

Os Selos da Lituânia / 1

escrever pode ser, naturalmente, ter três anos,
estar na praia num dia muito quente
e sentir que alguém nos apanha pela cintura
e mergulha nas ondas violentas
de um mar revolto, vendo num relance
a multidão em volta, toucas amarelas,
biquínis coloridos e o homem da bolacha
americana, de boné enfeitado com uma âncora,
a percorrer o areal em toda a extensão
que vai do paredão à casa do banheiro.
vir num soluço à tona de água e voltar
a submergir com um grito preso na garganta
para ver do mar o fundo, aquelas algas
ameaçadoras num bailado aquoso
que as lágrimas ainda mais adensam.
se não for isso, pode ser, exactamente,
ter um profundo conhecimento da palavra
garrotilho, ter estado de cama com sarampo
e a janela para a rua resguardada
por um pano vermelho que vai do chão ao tecto,
sentindo muita sede, sem poder
sequer molhar os lábios. ou, então, ouvir
a tarde toda os gemidos de alguém
a quem diagnosticaram esclerose múltipla, a regredir
na idade e a ir morrendo aos poucos
de drageias brancas. escrever pode ser, exactamente,
ter um medo mortal de ir à escola, e sofrer
os efeitos maiores da crueldade
que os mestres manifestam nas crianças,
as páginas à deriva entre a baba e o ranho,           
as pernas aflitas por todo aquele pânico,
doridos nós dos dedos e o coração
aos saltos. não sendo isso,
escrever pode ser, provavelmente,
um ajuste de contas com o passado,
ou até mesmo a lembrança dessa noite
em que o vento varreu o nosso quarto
e destelhou as casas circundantes, vitimando
o garboso pundonor do gato que cruzou
a estrada e foi atropelado por um balde
amolgado. não sendo isso, pode ser o cavalo
inquieto que no prado, certa vez, se vislumbrou, ou animais
degolados, com as vísceras entrançadas
num novelo no alpendre, perto da roupa
pendurada na corda de secar. ou a noite,
imensa e perdurável, em que alguém
bateu à nossa porta e não entrou,
e nós com a lanterna tentámos ver
sob a chuva que vergasta ainda
as sebes que há em volta do cercado,
o cata-vento em forma de avião, os cardos
do baldio. se não for isso, será, precisamente,
aprisionar o rosto a um lugar
para não ceder, ir com o corpo adiante procurar
o ritmo das paixões, as mais vorazes,
as que podem produzir assassinatos, estontear
as cabeças, irromper de um céu de sombras
verdadeiras, mesmo que não haja céu,
mesmo que não haja sombras
e nas letras resplandeça
pouca coisa.



in Os Selos da Lituânia, Lisboa, & Etc, 2008

© do poema e da foto: Amadeu Baptista







quinta-feira, 28 de maio de 2015

João Tomaz Parreira


NOTÍCIA DO CERCO DE BIZÂNCIO




Assim foi que, estando a cidade sitiada
Mais do que os baluartes guarnecidos,
Era urgente distinguir o sexo
Dos anjos, a forma exuberante
Das suas asas, se o seu corpo
É o da mulher jovem com um busto fresco
Ou o do mancebo com músculos rectilíneos
Assim foi
Quando era preciso que rezassem com os joelhos
Dobrados, os monges discutiam
Com a harpa do sexo escondida nas cabeças.




20-05-2015

© João Tomaz Parreira, do poema; da foto: Amadeu Baptista




sexta-feira, 22 de maio de 2015

Isabel Cristina Pires






POEMAS DE 'CIDADE DAS IMAGENS'





INQUÉRITO A UM ANJO HERÁLDICO


(Anjo Heráldico,
Mestre dos Túmulos Reais, séc. XVI)


Sofre de asma psicossomática? – Sim.
É orgulhoso? - Sou exatamente como você.
Tem comichão nas asas? – Sim.
Quer comentar? – Não.
Qual a diferença entre anjos e arcanjos? - Os olhos.
Como? - Os arcanjos usam rímel.
Qual a sua peça de teatro favorita? – Hamlet.
Porquê? - Precisam todos de mim.
E o seu livro favorito? - Os Peanuts.
Porquê? - Partilham bem o vácuo.
Se fosse água, seria o quê? - O lago Baikal.
Porquê? - Soa-me a lodo.
E se fosse um animal? - Seria um crocodilo.
Perdão?? - Estou farto de ser o mister nice guy.
Porque usa duas faixas cruzadas sobre o peito? - Para me lembrar que não sou um crocodilo.
E se fosse uma árvore?... - Seria uma escada de bombeiros.
Mas uma escada de bombeiros não é uma árvore! - Vê-se que nunca salvou um gato.
Acredita que existe? - Não, mas acredito em respostas.




JOÃO BAPTISTA

(João de Ruão, séc. XVI)

Nu. Pior que nu, está esfarrapado.
Pior que esfarrapado, está indiferente
ao olhar. Está longe das próprias vísceras,
e a viagem que faz perante nós
só tem partida. Os braços e as mãos
foram traídos pelo escultor, os pés em ferida
não têm mando ou destino,
é uma nuvem sem cor que o arrasta
sem fome nem sede nem desejo.
Não é no mundo dos vivos
que um dia irá morrer, apesar
da mão de Salomé, aquela que viu tudo
inalcançável. João transformou-se no deserto
e só ele caiu na eternidade - é esse o olhar
com que nos ignora, são esses os farrapos
que apodrecem .
A dor, a grande dor que não se vê,
é o alimento dos deuses
e dos homens.



PIETÀ

(Frei Cipriano da Cruz, séc. XVII)

I
Quem não tem a sua Pietà dentro do peito?
Quem não viveu o grande Nunca Mais?
Quem não viveu?


II
Mas como se mostra um filho morto?
Esta lava, esta nudez, este estupor
da carne abandonada?
A dor é simples e letal, e só depois
se abre o teatro do obsceno.
A mãe desaparece e fica a diva,
o filho não morreu, não vai morrer,
não vai nunca morrer, a mãe não sabe
deste happy end da salvação, do volte-face
após três dias, e chora e ergue os olhos
e tiram então fotografias que vendem mil jornais
e levam a todo o lado aquela injusta
tragédia. A morte vende sempre, dizem eles.


III
Stabat Mater. Eis a mãe dolorosa
exausta de existir, com o corpo
dissolvido em ácido sulfúrico. É uma dor de bicho,
que mata todo o pensamento, toda a Terra.
Para lá da madeira, da pintura,
o íntimo vapor de um ser humano
queima a alma.


IV
O pesadelo aconteceu.
A mãe que abraça um filho morto
perde-se do mundo para sempre.
Nunca mais, repete. Nunca mais.
Nunca mais existe toda inteira:
a mão esquerda de Deus
cortou de mais.


V
São estátuas dentro de estátuas
num duplo silêncio que sepulta.
Esta é uma morte escancarada
que faz cair a casa onde moramos.
O Cristo arrefece de hora a hora
num corpo nu e azul todo estendido:
a morte que vejo é sem esperança.


VI
Se ressuscita, não sei - a tirania
do agnosco ! Sei
que lhe festejam a vinda
num domingo solar da primavera,
quando tudo sai da terra num triunfo.
Conheço o grande aleluia
e os paramentos de festa.
Do Cristo ressurrecto nada sei.


VII
Só sei
que tudo ressuscita.



ODE A UM EXTINTOR DO MUSEU
OU ACERCA DA INVISIBILIDADE

Cheguei carregada de sulcos e de nuvens.
Ao meu lado direito, um objeto sem ânsia,
o mais sujo degrau de um sistema de castas
com o seu aço vermelho de palhaço.
Encosta-se à parede com um abstruso
bico aberto, e ali permanece o dia inteiro
feito de horas que o lambem com vagar,
como uma gata que lambe os seus gatinhos.
Este extintor é o soldado necessário
que me dá e que me tira um mundo inquebrável
e ausente. Mas ele é o que é, nada consente, saiu
de uma sarjeta e foi elevado à assepsia
brilhante da cidade, um esgoto de platina, o balde
e a vassoura de ir ao baile, o brado obsceno
no chão da catedral. Aqui não o distingo
como coisa: vivemos para ser cegos num museu,
ou depressa morreríamos no rigor maníaco do dia.
Mas hoje vi. Ninguém tão exilado, tão leal, tão sem
cartas de amor e sem ninguém que olhe o bom criado.
E o facto de estar só, e invisível, e tão longe de todos,
sendo de todos talvez o salvador,
transforma-o, aí está, num ser humano




in 'Cidade das Imagens', 2015



© Isabel Cristina Pires





© das fotos: Amadeu Baptista

segunda-feira, 4 de maio de 2015

HOMENAGEM A LUÍSA DACOSTA





DEPOSIÇÃO DAS CINZAS DE LUÍSA DACOSTA
NAS ÁGUAS DE A-VER-O-MAR




Não sei, querida, se de onde estás agora
consegues ver o mar.

Não sei se nesse lugar os teus amigos
te visitam e entregam finalmente
a faca que aos gritos reclamaste
na casa onde estavas para morrer.

Não sei se o céu te recebeu e agora tudo
não é mais do que uma letra
que falta contornar.

Onde estás escuta-se o Nocturno
para Orquestra, op.70, de Martucci?

As aves são as mesmas que tu viste
a progredir no azul da praia?

Há aí crianças?

No termo dos teus dias pedias aos amigos
uma faca para te matares.

Uma razão benigna cobria-te o espírito
porque o que tinhas era insuportável
e não há o que tenha gumes mais desesperados
do que a lucidez.

Quem morre há-de saber o que encontrar.

Após a luz uma outra luz existe,
que é mais profunda e chega de mais longe,
o oculto brilho que habita a faca que pediste.

Com muito poucas sombras à tua porta,
tu cerzias a escrita, enquanto os pássaros
te tocavam a cabeça
e um esbracejo de mulheres se afadigava
a estender a migalha de sargaço
que a nortada trouxe.

Sabias bem como atravessar os campos da noite
e que, algures no tempo, deixaremos
de cá estar para registar a perda.

Sabias bem, querida,
que na polpa do corpo só o desejo resta
e que a sede permanece e não se extingue.

Subiste às árvores durante toda a vida.

Por ti subiu o fogo e às águas vens,
para que o tudo e o nada se consumam
e de ti façam uma árvore de vento.

A tua escrita, querida, ficará
cerzida a essa árvore, com a bênção
das marés que hão-de vir,
onda após onda sobre o areal
de tudo quanto amaste.

A palavra é sagrada,
escreveste, um dia.

E assim há-de ser para todo o sempre,
até que nunca mais haja partida.



 © da foto e do poema (inédito) Amadeu Baptista








quinta-feira, 23 de abril de 2015

Árvores no Coração # 10

CUPRESSUS LUSITANICA

Nenhuma ferida fica quando a árvore ocupa o coração.

Árvores no coração, uma tigela de caldo, uma pedra onde pousar a cabeça,
Os seixos rolados que a serra entrega e, depois, a tarefa de contar
Cada um dos morros cor de argila que a enchente trouxe de longe
Com as boas ervas em redor, a saxífraga, a segurelha, o sésamo em flor.

Escrever é contar o que fica após a ausência, há dias em que a solidão
Desarvora em planícies em que nunca estive, florestas inimagináveis,
Bosques eternos, e o que fica são sempre as árvores, da copa à raiz,
Sombras que se entrelaçam às sombras e dão ao corpo um motivo
Para, ainda assim, resistir.

Espero cegar para poder ver, o ar enche-se de aromas e os ramos
Prometem frutos que escondo nos bolsos para mais tarde
Morder com a avidez de quem cria cada encruzilhada,
Porque cada árvore é um rumo, um crescimento a capturar
O que se encontra perdido, o tronco derrubado que vai reflorescer.

Clareiras há a que me entrego sem quaisquer rodeios,
Mas é às árvores que peço uma resposta, uma resposta definitiva
Para o que se não pode perguntar, o que em silêncio nos abraça,
O que tem um austero sal a envolver-nos, o que é um panorama
Que nos enche de vertigens, e aflige, e sufoca para que tudo aconteça
E tudo se possa rememorar como algo que sob a terra pulsa.

Nenhuma ferida fica quando a árvore ocupa o coração,
Ainda que tudo arda e o incêndio se propague às folhas mais íntimas
De cada árvore, esta que se partilha, esta a que sorrio de longe,
Esta que se levantou muito cedo para tocar a transparência e os enigmas
Do vento, esta que se plantou há séculos para não haver tempo,
Esta que abriga o cão sarnento que não faz mal a quem passa.

Tantas vezes espero que tu chegues que passo a ser o único interlocutor
Da ausência, o carro avança e as árvores fertilizam-me,
Sento-me num banco do jardim e é como se estivesse na floresta
Negra num desvario de palavras que não sei conter, tudo o que coração
Alcança nesta morte lentíssima, nesta morte emboscada
Que me espera enquanto a memória sobrevive e tudo o mais são árvores.

Vou-me à ravina, a precariedade da luz é o que ainda resta,
Crescem hoje estas árvores para que eu diminua, como há muito
Foi escrito, será de granito o mar, de cinza a minha cidade,
De cavalos que correm no planalto num tropel vertiginoso,
De conchas que se fecham com o sonho dentro delas, mas as árvores
Abrirão o círculo, a seiva que tiverem vingar-me-á, o remanescente
Tesouro, o cipreste que assinala a última casa e o último desejo.

Desejo que as árvores ocupem o coração e que nenhuma ferida reste
Para que possas chegar com a luz que as árvores guardam.



 © (inédito) Amadeu Baptista




arte de Agostinho Santos

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Árvores no Coração # 9

CERCIS SILIQUASTRUM

Começaram a chover árvores vermelhas no meu pátio esta manhã.
Pequenas árvores, dizem que do diabo, não sei bem porquê.
Provavelmente porque é assim que se manifesta o diabo,
Logo pela manhã, com árvores floridas que rompem os céus
Para que caiam nos mais inusitados lugares, um pátio, um corredor
Sem fim, uma área restrita delimitada por uma corda onde estão
Peças de roupa branca a secar e um tanque com água.

Onde está a criação está o diabo, o que não se sabe é onde
Estamos nós na criação que nos cabe, um pintor talvez saiba
A que voz responder quando estende na telas os seus pigmentos,
Mas um poeta, que pode um poeta arrancar do silêncio avassalador,
Que pode fazer para exorcismar a inquietude, as letras que não sabe,
As figuras que vê em queda no horizonte infinito?

Um pintor mais não faz que seguir o curso da maldição, vê as árvores
E circunscreve-as à interrogação do desenho, o pincel enche-se
De filamentos, enche-se de acções corrosivas, de circunvoluções
Que tomam a árvore por um animal para que tudo possa ser visto,
Mesmo que jamais se veja. Mas um poeta, que pode um poeta

Fazer na derrogação que lhe cabe assim que acorda e atravessa o pátio,
Esse lugar obscuro onde a luz prevalece, que pode o poeta
Quando chovem árvores vermelhas no chão árido da casa, no chão
Pejado de fantasmas e de sombras? Que pode o poeta nesse promontório
Em que recrudescem as visões e o que se faz vem de um lugar
Onde tudo é um confinamento de frio e desrazão?

Começaram a chover árvores vermelhas no meu pátio esta manhã.
Cada voz que se interroga é um diabo que voa, o pintor
Sabe que a vida é um delírio, que tudo se faz pedra a pedra,
Pelo que pinta sempre muito mais do que vê, gritos nas árvores,
Cabelos nas linhas que separam e aglutinam as imagens,
Traços em que há monstros discordantes, olhos que faíscam,
Bocas que uivam, desconformes, hiantes, temerárias.

Só o poeta sabe que é perda a perda que tudo se faz.
Está em queda, nunca se há-de encontrar, não se admira
De que lhe chovam no pátio árvores vermelhas como se fossem
Diabos, observa tudo e sabe como há ofícios terríveis
Que nunca se completam. O pátio esta manhã está cheio
De árvores que dizem ser do diabo e fica o poeta aterrado
Por não saber que lado da verdade assinalar para que persista
Deus no plano de construir aguaceiros sobre árvores sem resgate,
Fica sem saber que árvores escolher na desolação permanente,
Que vozes escutar quando tudo morrer para voltar a nascer.

O pintor, geral pelas minúcias, acrescenta efeitos no real,
Aparelha as árvores com engastes brilhantes, erupções de folhas,
Lugares, rostos, escadas, trepidações de peixes a subir os ramos,
Bichos estrondosos nas raízes, mãos nos troncos, corações vegetais.

Quanto ao poeta, olha. Não mais do que olha. E vê como choveu Deus
No pátio esta manhã como se fossem árvores o que caiu do céu,
Como se fosse a árvore de que se diz ser a árvore do diabo
O que choveu toda a manhã sem mais detalhes além da roupa branca a secar
E um tanque com água onde as árvores caíram ininterruptamente.



 © (inédito) Amadeu Baptista 



arte de Agostinho Santos

quinta-feira, 26 de março de 2015

Árvores no Coração # 8

PLATANUS ACERIFOLIA

Árvores de perseguição, é preciso correr para a janela para agarrar
A intensidade destes verdes, destes ocres, destes vermelhos,
Para saber que a vida é a predestinação dos relâmpagos, por mais
Janelas cegas que encontremos. Árvores de correr atrás, pela copa,

Para que o mundo se anime e tu voltes de onde estás, mistério
Que só estas árvores desocultam quando tudo é cinza em redor
E a desolação do horizonte a única certeza. Árvores de abraçar,
De respirar, por já não termos qualquer atenuante, por ser escura

A negligência desta hora, por tudo estar desabitado
Na extensão dos astros e o soluço do homem se ouvir
A léguas de distância, a séculos e séculos de ausência.
Árvores de fazer uma cama para dormir, para não dormir de todo,

Árvores de velar todo o dia e toda a noite na humanidade que delas
Se desprende, francas e humildes no seu mistério de árvores
Que não sabem o que seja a solidão ou a eternidade. Árvores
De tocar as raízes, de colocar na cabeça como uma coroa,

De fazer levantar os braços para cima para que seja
Um troféu que instiga a permanecer. Árvores de lamber
O tronco, a seiva, a infinita doçura que empreendem, catedrais 
De um silêncio sem fim que desdobra nas coisas sussurros

Incessantes, brilhos celestes, potestades que ajudam.
Árvores cobertas de ouro que a treva não destrói, a revivificar
O chão de húmus e sortilégios, pequenos vendavais que se amontam
Na berma dos caminhos. Árvores de gestos cautelosos,

A que é preciso ouvir como a uma criança,
Uma vereda que se atravessa, uma insónia contínua,
Um trovão que se talha, um animal que perscruta a selva
Para atravessar a cidade. Árvores a que prender fitas

Tal como tu atas o cabelo para que o possa desprender,
A que dançar de roda como se a exultação surgisse
Na soberania de ver crescer estas árvores de sombra,
Esta emocionada abundância de cintilações.

Árvores de guardar no coração e nos olhos, no corpo e no espírito,
Para dar guarida ao que divino se ergue em cada um dos plátanos
Que aqui proliferam como se mais nada houvesse,
Ou nada mais bastasse. Árvores em que escrever no tronco

O teu nome com uma navalha para que nenhuma árvore
Se abata, para que nada se ignore, para que cada um
Dos teus nomes corresponda a um outro nome

E nada se aniquile senão a solidão no universo destas árvores.


© (inédito) Amadeu Baptista 



arte de Agostinho Santos


terça-feira, 10 de março de 2015

Árvores no Coração # 7

CASTANEA SATIVA

O incessante ramalhar dos castanheiros no souto imaginário.
Ser ainda criança deve ser este movimento ampliado no tempo,
Para saber-se que não há recuo sobre os caminhos, enquanto as folhas
Destas árvores aguardam os dias luminosos do outono.
É geral esta ênfase das coisas que buscam a perenidade,
Da encruzilhada chegam as sombras dos castanheiros e sabemos

Como há um prenúncio de aves a iluminar o céu, uma delonga
De sinais que os deuses espalham sobre a terra, como se tudo
O que teve início voltasse ao princípio dos tempos e a criação
Voltasse a nascer. Sobre estas árvores deita-se a criança e o poeta,
Deita-se o pintor e tudo o que toca o torpor em que a génese está inscrita,

Velhos troncos a suster a claridade e as sombras de modo a que a clorofila
Solidifique nos pulmões e possa instituir-se sob os predomínios da arte
Esse sopro em que alguma coisa se acrescenta ao que já existe, ainda
Que imaginariamente, num gesto, numa sílaba, numa cor que se expande
Do que nunca existiu mas é nosso de súbito, agregador e tangível.

Nunca se afasta de nós, a criança. Está deitada sobre a terra
E a luz do souto embranquece-lhe os cabelos, é certo que envelhece,
Mas esse fechamento é uma abertura para o que não pára de surpreender,
Uma criança, um poeta, um pintor que uma floresta restrita protege
De todas as tempestades e de todas as bonanças, como se o que houvesse
A salvar não fosse mais que o incessante ramalhar dos castanheiros

Do souto imaginário. O que passa por aqui não tem salvação,
Mas acrescenta milagres entre lagos e montanhas ao que vive do sol
E da neve, acrescenta prodígios ao que confia na ordem celeste
E sabe que vai morrer, o que pastoreia sonhos, ilusões, incertezas
Sobre cada sombra, cada silêncio, cada uma das árvores da mata imaginária.

A arte é este souto. Estamos a dormir e alguma coisa canta nos interstícios
Do mundo, responde-nos a perguntas que nunca foram feitas, a questões
Que se tornam transparentes e translúcidas sob este crescimento,
Esta jornada mortal que retoma o eterno e a imortalidade, este jogo
De hipóteses que se reformulam sem fim, como se nenhum desfecho
Houvesse, nenhum outro destino na desassombradas veredas.

A criança vive desse nome agreste, tal como o poeta e o pintor
Não mais esperam que um casulo em que possa frutificar, uma ronquidão
De árvores a avançar no solo agreste, o souto imaginário
De que as aves surgem como sombras espantosas, em busca
De uma nova fadiga, uma viagem ao centro do desconhecido,
Uma transposição de cânticos de que os vínculos do universo
Se resgatam sob as imperfeitas desinências da infância e da morte.

Tudo se faz com um compromisso, o que entre os dedos se prende
É o que se perde entre os dedos, a arte é o que de inadiável os castanheiros
Anunciam, um fruto opaco que um obstáculo guarda e protege
Para que haja depois uma proximidade a retribuir, a alimentar, vinda

De um souto imaginário, uma dúvida perpetua, o trânsito de um corpo.


© (inédito) Amadeu Baptista 



arte de Agostinho Santos

quarta-feira, 4 de março de 2015

Árvores no Coração # 6


 SALIZ SALICACEAE

Digo que são salgueiros o que vejo da minha janela. Digo
De que destas árvores vem um uivo que se escuta muito longe
E que o ar se dissolve nas lágrimas sumptuosas destes ramos.
Digo que o mistério é sermos das árvores e que tudo

O que se amplia em nós vem desta reminiscência inaudível. Digo que o rio
Abençoa estas árvores, e a chuva, e todas as tempestades do universo,
E que a magia é saber que existes algures, muito para lá do desaforo
De tudo ser pertença do silêncio. Onde estes ramos tocam a minha cabeça

Estou eu com um clarão a invadir-me, a ver estas árvores
Como cavalos rudimentares e solenes, como frutos inusitados
Que ascendem da treva. Digo que há um desabrigo de ossos
Na presença destas árvores, um abismo, uma casa em ruínas

Que decompõe a noite em partes coloridas, simétricas. O pintor
Toca-as, põe-lhes olhos e bocas, reparte-as pela tela, invoca
O que elas têm de implacável, talvez um anjo, talvez um demónio,
Por certo uma parte de sombra que o coração não sabe como acolher

Mas vela as coisas com agudo discernimento. Os salgueiros
Que vejo da minha janela improvisam pactos e concordâncias,
Não sabemos porque choram, porque uivam ininterruptamente,
Nem eu sei onde estás, em que lugar me proteges,

Em que caminhos abres o coração ao que te rodeia e faz de nós
Seres absolutos e frágeis, seres sem mais comedimentos do que a esperança.
Talvez a natureza não seja mais do que uma interrogação, o que cresce
Nos ramos dos salgueiros em direcção à terra sem que nenhum mensageiro

Se anuncie, sem que nenhuma dor deixe de assinalar, do mesmo modo
Que os salgueiros tomam o rio como um rumor verdadeiro, um cântico,
Uma peroração que nunca cessa. Digo que os salgueiros
São o que somos a cada momento, sede que não se mitiga,

Fome que não se apazigua, ainda que os campos em volta se iluminem
E a cada hora os pássaros reprimam a fadiga de aqui estarmos.
Digo que os salgueiros são a minha janela, tu estás longe,
Tudo está longe quando a beleza sem mácula não me assiste

Mas sobre a terra caem pequenos milagres, pequenas núpcias
Que transformam o desencanto em encantamento, feitiço
De árvores que evoluem ao longo da minha janela e te trazem
Para perto de mim na crucial desolação do universo.

Não sei que abandono seja este, o amor é ubíquo, os salgueiros
São a constelação esperada, segue o rio o seu curso de ser mais do que rio,
Tudo em volta reverdece, ainda que destas árvores chegue um uivo que não cessa,
E tu e eu sejamos a grande colheita em que tudo é fulgurante silêncio.


© (inédito) Amadeu Baptista 





  arte de Agostinho Santos







terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Árvores no Coração # 5

OLEA EUROPEA

Estrelas fixas, estas árvores de prata. Progrido no extenso olival
Para que alguma coisa valha a pena, quem sabe se as aves que o sobrevoam,
Quem sabe se a luz remota que aqui cai para que os milagres se sucedam
E possam chegar os homens com as suas varas para beber a terra.

Em cada oliveira vejo um rosto, há rostos de muitos séculos que habitam
Estas árvores, estão nelas como graça e espírito, a escrever em cada folha
O nome que sempre tiveram e ninguém conseguiu ler, nomes do início
Do universo, em marcha, sempre em marcha para que o há-de ser limpo
E vem, de novo, expandir-se nos brilhos de que cada sombra.

Um ofício impaciente adensa cada um destes ramos, tudo parece feito
De lentidão, como a natureza institui, mas o enigma
Fez para outras rasuras e outras intensidades, como vi em Djerba,
Como vi em Atenas, como vi em Oran, rápidas essências
Que sobem das planícies como se mais nada houvesse
Que um laço repentino a unir todos os laços, todos os céus.

Os óleos destas árvores existem para que rejubilemos, a mesa é franca,
Em volta dela avistamos os rostos de sempre, o rosto das árvores,
Que são como de homens, estrelas fixas a escutar os nomes dos séculos,
O que alguns preservam nas ramificações de cada cor, como faz a mulher que passa
Na bicicleta vermelha que amplia na paisagem sobre esta prata, este verde,
Este cinzento, este talismã que responde aos mais ténues ecos do coração,
No fulgor da noite constelada em que cada alma se faz bênção.

Os reis do mundo são estas árvores sem fim, nenhum outro poder
Se revela senão por este sol que contêm, sol de sóis, milhares de sóis
A tecer luz para que vejamos na treva e tudo fique limpo e isento
Como estas árvores pelas quais passo e a que abraço o tronco
Para que a vitalidade sobrevenha e tudo tenha um nome.

Por que choro quando toco estas árvores? Por que se me enchem
Os olhos de lágrimas quando entrevejo este verde marginal
Que me toma o coração? Por que sinto, entre a ramagem,
Fios de frio que me fazem sangrar e ter vertigens? Por que nave
Tomo as oliveiras, estes seres frágeis que a custo respiram,
Mas o ar constrói para que respiremos melhor? Por que corre
Mais rápido o sangue nas veias por esta frescura ímpar, este viço?

Ah, as folhas adejam, adeja sobre as nossas cabeças a branca
Queimadura destas árvores, oliveiras de  Elêusis, de Tiro, de Alepo,
De um lugar a sul do meu corpo, onde todo o azeite se derrama
De ânforas antigas e há homens que comem pedaços de terra
Em grandes pratos de bronze enquanto cantam a agrura
De não terem nome, ainda que o seu nome esteja inscrito
No tronco destas árvores, nestas densas bagas verdes,
No horizonte sem fim que transfigura a vida e agita o vento.



  arte de Agostinho Santos

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Árvores no Coração # 4

CUPRESSUS LUSITANICA


Vivi a infância rodeado de cedros. Talvez a infância
Seja esse odor que ficou nos meus dedos, que sempre pouso
O olhar em coisas longínquas, mesmo quando as vejo perto.
Talvez viver a infância rodeado de cedros me tenha preparado
Para este recrudescimento da mágoa perante as coisas, por mais
Cheias de graça que cheguem, perto ou longe de mim.
Talvez cada um de nós tenha um cedro inesquecível na infância
Como uma avalanche ou um sonho, e a infância não seja
Mais do que isso, um lugar que se torna desabitado assim que termina.

Que pode um cedro? Pergunto hoje, que desenrolei a infância
nas sombras longínquas. Um cedro pode levar-nos longe,
Doce que é, e rude, exactamente como longe me levou a infância,
Sempre aqui perto e sempre tão distante. Que se passou
Na minha infância para que eu tenha este ofício de impaciência
Ao que perdi, ao que tive e nunca foi meu? Que pode a infância?

Lembro-me que havia um cedro no centro do mundo.
Que o meu bairro era feito de ruínas assombradas,
Que as ruas em que passei eram habitadas por raparigas assombrosas
E uma montanha de sombras intransponíveis.
Onde estou eu nessas ruas, na transcendência dos quintais
Dos meus antigos vizinhos, nos terraços onde estive
A assobiar longos momentos, esse lugar de enlevo
Em que os cedros me respondiam com a transfiguração dos ventos?

Saí do paraíso para nunca mais voltar, os cedros pontuavam
A minha alegria, iam as nuvens no céu como redes de pesca
Que alguém desenrolava, os meus vizinhos sabiam
O que fosse o inferno, gemiam de noite, atiravam pedras
Aos candeeiros, faziam longas excursões a lugares que não existiam,
Esperavam o milagre da multiplicação dos cedros em pequenos
Oratórios onde era a escassa a luz, mas espessa, sublime.

Onde estou eu naqueles cedros que a minha infância perdeu?
Que privilégio de mágoas posso se os recordo, se me vejo
Nos campos que circundavam a minha casa, naquele
Rumor de ventos inacessíveis, desbragados, a tanger
A minha inocência e a minha nudez? Onde estou na lonjura
Em que tudo falhei, reminiscência e caos em que os cedros
Estão mergulhados agora, como se fosse a solidão
A única imunidade que resta?

Dá nisto ter vivido a infância rodeado de cedros, o passado
É uma coisa branca que se crava na memória, na carne.
A imagem da vida cede a esse vislumbre, continuo a morrer,
Mas tenho comigo os cedros da infância, o incessante percurso
Do deslumbramento, este chão flagrante em que a humildade se abisma.

Tudo é grave e miúdo, agora. Tudo é diminuto neste tempo
Difuso, mas há uma hora em que me lembro dos cedros
Da minha infância, árvores brilhantes que é impossível ver,
Mas se sentem, sentem-se como um luminoso obstáculo,
Um obstáculo que ajuda a progredir, a perdurar, a intuir
Que é impossível adormecer na restrita faixa de luz que ainda resta.

© (inédito) Amadeu Baptista 



                                                                                      arte de Agostinho Santos














quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Árvores no Coração #3

ALNUS GLUTINOSA

Uma fila infinita de amieiros corre ao longo
Do rio e tudo mexe aqui. Pudesse eu e correria
Com essas árvores magníficas e por elas cantaria a cada passo,
Como se não mais existisse o silêncio avassalador
Que vai de margem a margem deste rio.

Inscrevo na terra a minha sombra, no rio
O meu reflexo. Há uma doce violência que me faz
Percorrer a selva, sob o escarcéu das aves que se refugiam nos ramos
Como se acabasse o mundo de nascer ou de morrer.

Entretanto, há o sol, o milagre a que pertencemos,
Eu, tu, as aves, os amieiros, a divindade que assestamos
No que cremos para que tudo se perca e tudo se transforme,
A multidão de verdes que arde em volta, a tarde que voa
Em obscuras transparências que tudo cobrem e tudo desafiam.

Crer no silêncio e nas aves que cantam há-de ser da ordem
Da origem do universo, o contraditório que invocamos,
Esta escrita que se espalha no coração da luz, esta luz
Que se lança de amieiro em amieiro para compor o bosque
Para que haja uma última possibilidade de salvação na clareira imprevista.

O que posso deter da beleza? O que detenho destes amieiros
Quando a noite chega e tudo não é mais que um extenso obstáculo
De treva? Que detenho das raízes deste rio, destes sons, destes arcos
Levantados em cada encruzilhada, onde, sem apelo nem agravo,
Me crucifico? Duro ofício é o de prevalecer, a morte
Chega em fluxos intermitentes, acode-nos, acorre-nos,
Corre connosco como esta fila de amieiros que se ergue
Ao longo do rio e, dentro da treva, são como um rio solar
Que queremos navegar.

São as árvores que fazem as aves voar ou as aves que incitam
Ao voo todas as coisas que existem? A fila de amieiros voa
Na densidade propulsora da noite, ou sou eu que voo
Nos interstícios da noite, sem que mais nada possa fazer
Do que escrever? Escrever é uma arte intangível, tal como o voo
De uma árvore é não mais que um percalço de treva sobre a terra?

Lado a lado com os amieiros, corro. Não importa se corro
De jusante para nascente ou de nascente para jusante, se do nascimento
Para a morte, se da morte para o nascimento. Faço tudo ao contrário
Do que seja plausível, as minhas expectativas são o que ocorre
Escrever a cada passada, uma a mais ou a menos para a morte.

Importa é que haja rio, árvores, aves, voo,
Como se acabasse o mundo de nascer ou de morrer.
Corro alegre e desesperadamente, corro ao lado das árvores
E desprendo-me da terra como estes amieiros que correm na margem do rio
Para que posse ser ave, e árvore, e criador.

Ah, uma infinita fila de interrogações vai comigo, ramagens
De extrema fragilidade que dão sombra, sol, sentido ao que apraz
Precaver no denso itinerário em que transito de um lugar a outro,

Para que me leve esta espessa luz que no coração hei-de guardar para sempre.


© (inédito) Amadeu Baptista 


                                                                                      arte de Agostinho Santos

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Árvores no Coração # 2

PINUS PINASTER

Não esperávamos que o desapontamento nos ferisse
E, no entanto, essa sombra vem tolher-nos.

Tanta coisa, que nos bate no ouvido, tanta agulha
Que os pinheiros largam na senda sinuosa. Lentamente,
As águas vão subindo. Promete este domingo um desabrigo
De prédios demolidos e tu, como sempre, desamarras
O bálsamo para que não alastre a treva sobre a pele,
Pões os teus dedos sobre a minha boca.

Escrevo sobre coisas que já aconteceram,
Ou sobre coisas que nunca poderão acontecer?

Ao meio-dia cai a luz implacável e tudo é chumbo
Que se não pode cunhar. Entretanto, pergunto
Pelo que saberão os pinheiros do destino, que arroubos
Podem, que ventania acumulam em cada uma
Das suas pinhas circunscritas. O silêncio arrebata-os,
Só podem mesmo construir florestas,
Para que haja barcas, odores, antigos cofres
Onde se acumulem tesouros, sonhos, o que seja.

Talvez a escrita seja a resina que a alma exuma.

Por esta dúvida há poetas que se matam, a cidade
Pouco ou nada sabe da angústia de quem vai
Pela floresta e, por estar perdido, não pode recuar.

Domingo? As águas sobem. Tal como a memória
A cidade é um estendal de circunstâncias, tábuas
Que ardem, desordens que rebentam, enquanto tu
Continuas presente e ausente permaneces
Sobre a ferocidade das coisas, sem que saibas
Que avalanches nos sitiam, o que seja o chumbo,
Ou o cunho que não há, mas poderia ter havido
Se houvesse um outro mundo.

Não sei o que vale uma palavra, o que contém
O bálsamo para que sobre nós perdure a aliança?

Pousas os teus dedos sobre a minha boca.

Na proximidade do pinhal a brisa prenuncia
Os teus cabelos, a tua mão na minha, os teus lábios
Nos meus. A senda é sinuosa, doloroso
Este domingo que nunca mais acaba,
Mas talvez nos salve este pinhal
Com as suas sombras, este dédalo de ramos

Que entre nós circula e nos aproxima num ponto ainda longínquo.



 © (inédito) Amadeu Baptista 




 arte de Agostinho Santos

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Árvores no Coração # 1

TILIA PLATYPHYLLOS

As tílias, esse manancial de odores,
Com as suas sombras devolutas e acesas,
Chamam por mim, para que me lembre
Que tu, ainda que distante, estás aqui.

Eu abençoo as tílias, esta harmonia excelsa
Que a cidade alimenta à custa do erário
Dos sonhos que ainda restam, olhando-as
Como manancial ininterrupto de cintilações,
Irmãs dos mais íntimos brilhos dos teus olhos.

Quem inventou as tílias está doravante perdoado
De tanta coisa correr mal nas alamedas,
Crimes de sangue, estupros, o brutal drama
De uma criança desaparecida há meses,
A tua ausência, a cada dia mais insuportável.

O nevoeiro faz com que a paisagem
Seja um prolongamento do mistério se há tílias
Por perto, sombras que se adensam de luz,
Fulgurações que carregam de fogo a arte escura
De haver árvores assim, frágeis mas robustas
Na circum-navegação do mundo.

Por este renque de tílias acedo ao que de ti
Existe no universo paralelo em que eu existo
E sei que o teu cabelo tem este cheiro ameno
A árvores altas que, mesmo longe do mar,
É maresia que entregam, a extensa maresia
Em que mergulhas as mãos, este perfume
Que as tílias soltam, a estabelecer connosco
Um pacto divino.

Tal como tu, as tílias são divinas. Passei demasiado
Tempo sem saber o que seria o teu mistério,
Que sortilégio te habita, até que soube
Que ias pela noite recolher o fascinante aroma destas árvores
E o colocavas no mais recôndito lugar do teu coração.

Só alguém divino pode decifrar o enigma
Que nas tílias arde, só alguém como tu
Pode conhecer a substância pagã que em ti persigo,
Sempre que ando em volta das tílias dos meus sonhos.

Só alguém como tu pode estabelecer um tal pacto
Com a realidade e com a irrealidade, talvez porque,
Apesar da tua silhueta de corsa ou de gazela,
És como as tílias, estas árvores frondosas
Que a natureza acolhe como princípio
E fundamento de tudo quanto existe.

Não sei se és tu quem vai pelo caminho das tílias
Ou se são as tílias que construíram o caminho onde passas
Para que tudo tenha algum sentido. Não sei
O que serei sem o benefício da sombra destas árvores
Que fazem da luz a amenidade do teu corpo
E a bênção procurada desde que me conheço
E não sei de mim, pelo devastador silêncio que me cerca.

Não sei que nome tem esta casa de bálsamos e sementes,
Onde cada fragrância corresponde a uma porção de ti,
O tronco o teu peito, as folhas os teus lábios, as raízes
Tudo o que cresce além de ti no teu espírito,
O espírito das florestas e dos bosques, o espírito

Que habita a secreta densidade do teu sexo,
O jardim das delícias a que acedo quando enlaço
Cada um dos teus ramos, cada um dos enigmas
Que te descrevem. Sei que agora falo com as tílias,
Este deslumbramento de árvores que responde pelo teu nome.

Sei que agora não mais falarei só, que tu e as tílias
Respondem ao que pergunto e que há um odor poderoso
E inebriante na claridade que entregas,
Igual ao destas árvores que nos amam.



 © (inédito) Amadeu Baptista 






 arte de Agostinho Santos