terça-feira, 24 de setembro de 2013

António Ramos Rosa 1924-2013



NÃO POSSO ADIAR O AMOR


Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o rneu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

(in Viagem Através de Uma Nebulosa)

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Kristofer Uppdal

                                  
                                                POEMAS DE KRISTOFER UPPDAL


GARGALHADA DE SÁURIO

                           Um poema sobre a loucura e para ela

Não eu não morro.
Viverei
até à Eternidade.

Ouvi as minhas asas de chifre,
batem,
retumbam pelo Espaço.

Sou um sáurio voador.
E as asas de chifre
alcançam o mineral das estrelas.

Enlaço as minhas asas.
Convertem-se em culatras de chifre,
assesta cornadas
ao sino das estrelas,
até que o mundo inteiro dobra e ressoa.

É o que eu sabia,
eu tinha vivido
na primeira manhã de névoa,
quando tudo era humidade e mais humidade.
Eu era algo brando, mole,
informe,
como os meus suspiros,
esse vagidos de morte
como quando o barro suspira sob os sapatos.


Mas da humidade, do mole,
surgiu um sáurio
com asas de chifre, asas de pedra.

E eu senti crescer pedras e rochas
do mole, do brando
na minha alma
e senti-as estenderem-se sobre a costa
como altas cordilheiras.

Sim, agora sei-o.
Sou um sáurio
que não morrerá nunca.
As minhas garras dobram-se,
enraízam-se
na cinzenta humidade, informe
na manhã matinal.
E as minhas montanhas de chifre
levantam-se
da noite
e da grande escuridão
que flui de todos os tempos.

Sou um sáurio.
E a minha gargalhada
são os golpes das asas de chifre
contra os sinos das estrelas.

Solbløding, 1918



CANÇÃO DO FERROVIÁRIO

Um país azul pardo, na divisão entre noite e dia,
e com a primeira luz diurna no cinzento.
As pessoas levantam-se, como germens de uma húmida terra nocturna,
tomam forma e erguem-se
como pedra de negro azulado contra o pardacento céu matinal,
sonolentas como animais que são despertados.
E olham, assombrados de existir.

O ferroviário emerge da noite,
vagabundo, caminhante sem qualidades.
Caminha só. E em rebanho.
E é em todas as partes a força masculina.
Casa-se raramente. E por isso raramente traz filhos ao mundo.
A corporação de ferroviários extinguir-se-á e desaparecerá,
sem novo sangue de outras classes sociais.
O ferroviário não é proletário de nascimento, nem está marcado pela
    servidão.
É o desafio ansioso de liberdade das outras classes sociais
que abre caminho para a completa liberdade.

Caminham juntos,
e na sua ânsia de liberdade formam unidos o paradigma de ferroviário.
E estão como que carregados de electricidade.
E da sua linguagem faíscam como fluorescências marinhas,
e soam, não só as palavras, mas também o silêncio entre elas.
E se as palavras não chegam, os gestos falam ainda melhor
das suas entranhas e da sua alma.

São como animais de borrasca, se lhes acariciam a pele,
e saltam chispas de filamentos azuis de fogo.

Pele sensível perante toda a injustiça. E lançam-se
contra a injustiça num salto de felino
e obrigam a pôr-se de joelhos forças maiores.
Caminhando. De tarefa em tarefa.
E entre tanto sem nada que fazer.
Jogam às cartas e ganham e perdem.
E sempre fazendo apostas.

O ferroviário encontra pessoas que são permitidas a sair do cárcere
e aprende uma ou outra coisa.
O que aumenta o seu interesse e converte a vida em algo que vale a
    pena.
Apanha o novo do ar vazio que o rodeia
e vigia os movimentos políticos e encoleriza-se.

Os formosos corpos jovens enrijecem.
E é como se o brilho do aço se torna-se azul nele
e como se cantasse no aço.
A enfermidade não pode com ele. Só algum acidente mata de vez
    em quando.
Dando lugar a outro membro da sociedade.

Inúmeras vezes encontra e recolhe algo da sua época
e da sociedade cultural.
A fantasia leva-o u a um mundo de mentira.
E a fé inata de que de todo é capaz
fá-lo escrever poemas e cantar canções de amor
no mesmo ritmo pesado do seu corpo.

Anda à deriva. E a inquietação mando-o
de um lugar a outro, como uma pena ao vento.
Caminha dias e noites sem que lhe chaguem os pés.
Numa taberna da cidade embriaga-se
e nessa noite sente menos o frio da neve.
E logo se embriaga com frequência para poder dormir quente
    na neve.

E o trabalho. E o baralho. E a comida por muitas semanas de fome.
E combates, como quando lutam os animais
só pela luta e para aclamar o mais forte.
E logo se curam mutuamente as feridas
e deitam-se a dormir na mesma cama.

O ferroviário caminho pelo caminho-de-ferro adiante
e pouco a pouco vai ficando com a sensação de que todos estão contra ele.
E movimenta-se contra todos.
Uma mão contra todas as mãos contra ele.

No seu caminhar escreve poemas e constrói o país.
Coloca pedra sobre pedra construindo casas e cidades.
E nas cidades que construiu perde-se.
Mas sempre encontra a saída. E continua escrevendo e criando.
Constrói ferrovias, de um extremo ao outro do país.

E vai como clandestino nas ferrovias que construiu.
Levanta fábricas para tecer e fazer roupa
para aquecer e ornamentar o homem.
E segue o seu caminho semi-nu e gelado
e com um aspecto miserável envolto em farrapos.

Chega o camponês e cava profundamente a terra
e lavra novos campos e fá-los germinar
para alimentar as pessoas e os animais.
E ele segue o seu caminho com um estômago vazio que lhe grita.

Participa na construção de grandes barcos.
E tem ganas de fazer uma viagem a um país longínquo.
E precipita-se com os fechados para tudo o que lhe apetece.

E um dia acorda numa mina do outro lado do mundo.
Entre gentes semi-selvagens, no mais profundo da Austrália.
E permanece aí um tempo, e melhora a cepa.
E um dia de inverno está nos bosques da América,
assombrado perante todo o novo e inesperado que vê.

Escreve e cria constantemente.
A sua vida é uma escritura construída de manhã à noite.
Um mundo matinal cinzento azulado fora do nosso.
E tudo desperta no génesis.
E tudo é cinzento azulado.
E com algo enorme negro que se ergue.
Os homens, os novos homens,
constroem o seu próprio mundo.

Herdsla, 1924



NÃO NOS ACORDEIS

    Vivos, mas como que adormecidos, andamos, apressamo-nos, corremos
pela margem de horríveis abismos, e escalamos escarpados cumes.
    E nenhuma vertigem nos afecta, vamos tranquilos e seguros.
    Porque estamos como que adormecidos
    e não vemos os perigos.

                                   Mas se despertamos –
                                   se alguém nos desperta –

    Não nos acordeis!
    Porque então veríamos e assustar-nos-íamos tanto que veríamos
os perigos.
    E precipitar-nos-íamos de cabeça às profundidades.

    Não nos acordeis!

Jotunbrunnen, 1925



O CRISTAL

Loucura?
Duas classes.
Um crepúsculo que se faz noite.
E uma brasa tão intensa que queima e funde tudo.

No fogo encontra-se o génio.

            *  *  *

Efémero e eterno.
Efémero par ser eterno.
O fogo – a vida, ambos se apagam e morrem.
Mas da cinza surge o cristal,
com o fogo e a vida eternamente no seu brilho.

Jotunbrunnen, 1925


A NATUREZA

    Tudo sussurra e te fala.
Os raios da aurora boreal.
Bosque em lúgubres pântanos.
Orvalho nas flores.
Neve recém caída.
Tudo sussurra e cria o seu labor comum.
Um céu para que a tua alma repouse.

            *  *  *

    O jogo das luzes é sempre vida.
    O jogo das luzes reinventa o morto, consegue tirar
um sorriso, treme ligeiramente como o primeiro pranto.

            *  *  *


    O cinzento é uniforme e por isso nada mais que massa.
    Do cinzento surge aquele que se diferencia –  linhas e traços.

Jotunbrunnen, 1925


A LAGOA

Aí está a lagoa intensamente negra.
Em véus de orvalho matinal.
O homem e a mulher!
Saem do banho.
E estão na praia
Da lagoa.

Dois corpos nus!
No sol matutino!
Homem e mulher!
Deus e Deusa no mundo!
As gotas de água!
Perlam e resplandecem.
Nos corpos de ambos.

A mulher levanta um joelho.
Está ali de pé a tocar o pé.
A água está fresca.

Então apercebem-se deles mesmos.
Na lagoa.
Ali estão um instante no esquecimento.
E reflectem a sua parte dianteira.
Na água.
E estão tão absortos nisso,
de olhar
as suas próprias sombras.
Cada um por seu lado.

Apenas se viram mutuamente.
 E não se viram a si mesmos,
até hoje no espelho de água.
Não se parecem um ao outro em tudo.
E vêem-no.
Estão nus
e não o vêem.

Os dois ali na superfície!
Agora se vêem mutuamente.
No assombro.

Hestane mine, 1963 (póstumo)


Versão minha - © Amadeu Baptista

Kristofer Uppdal (1878-1961). Nasceu em Beistad. Órfão aos nove anos, foi trabalhador agrícola, pastor, e executou diversas tarefas na construção de linhas férreas. Activista sindical. Estreou-se como poeta em 1905. É o criador do romance proletário norueguês, com uma notável descrição do movimento operário.





terça-feira, 10 de setembro de 2013

Harry Martison



                                               POEMAS DE HARRY MARTISON



NAVIO LANÇA-CABOS

Içamos o cabo submarino entre Barbados e Tortuga,
mantivemos ao alto os faróis
e cobrimos com borracha nova a ferida das suas voltas,
15 graus de latitude norte, 61 graus de longitude oeste.
Quando encostamos a orelha ao ponto desgastado
ouvimos como zunia dentro do cabo.

– São os milionários de Montreal e de Saint-John que falam
sobre o preço do açúcar cubano e da diminuição dos
nossos salários, disse um de nós.

Ali permanecemos um largo momento pensando, num círculo de faróis,
nós, pacientes operários,
depois submergimos o cabo reparado deixando-o no seu sítio,
nas profundidades do mar.

Nomad, 1931



FORÇA

O engenheiro está sentado junto à roda
lendo na tarde de junho.
A central eléctrica murmura introvertida nas turbinas,
espessamente embutido pulsa o seu coração tranquilo e poderoso.
Nem sequer tremem
as folhas da grande bétula branca que se ergue timidamente junto
    à fonte próxima da barragem de concreto.
O ouriço segue cavando ao longo do rio.
O gato do vigilante da ponte escuta esfomeado o gorjear dos
    pássaros.
A silenciosa e vertiginosa força voa sibilante por cabos de centenas
                                         de quilómetros
antes de alvoroçar em pretensiosas cidades.

Natur, 1934



O JOGO

Quando quiseres acreditar que
                                          navegas facilmente conta a corrente,
sobe a correr à ponte numa noite de luar.


A ponte de pedra zarpa imediatamente conta a velha corrente
    de prata.
Nunca tens tempo de chegar, mas na vida muito
tem que ser jogo para que possa viver-se.

Passad, 1931




SONHO INVERNAL

Sonhei que era negro.
Fui preso no hostil bosque invernal
da poderosa brancura:
o clã dos ginetes
dos abetos carregados de neve.
Chegaram aos milhares com os seus pontiagudos capuzes de neve,
foram-se aproximando, cada vez mais densos e brancos,
agarram-me numa clareira do bosque,
untaram-me com breu durante o caminho
e fizeram-me rodar na colina
sobre a infinita quantidade de penas do inverno glacial.
E os risos retumbavam estrondosamente quando eu andava à cegas,
e me distanciava coxeando embebido em humilhação
ao longo do caminho aberto por numerosos passos.
E o eco de vozes brancas
e o eco de brancas montanha ressoava
quando todos me gritavam na orelha besuntada:
Olha, olha! Agora dá gosto viver!
Olha, agora é inverno no mundo!

Cikada, 1953



LI KAN EXPÕE A SUA OPINIÃO SOBRE OS GALOS

Até ao último momento o galo forte continua
a fazer exibições perante a forte e cega vida
para demonstrar que está à sua altura.
Mas o galo que se atreve a ser débil não força nada.
O que opina a vida não pode opiná-lo ele.
O que lhe dá a vida aproveita-o pacificamente
como o frango perseguido a bicadas no bosque da vida.

O seu conceito de vida não é negação, nem ódio, nem desprezo,
mas a triste aceitação, que às vezes pode misturar-se com a alegria
de existir, não obstante, por um breve tempo.
Canta tristemente sobre a tumba do galo forte.

Cikada, 1953



O ESCRAVO DE ASSURBANIPAL

Ser escravo do grande rei Assurbanipal,
o senhor do Universo,
era melhor que ser seu conselheiro ou o seu rei vassalo.
O posto de conselheiro era particularmente inseguro.
A ira do grande rei era a do leão sanguinário.
Numerosos conselheiros foram esfolados.
O trabalho de escravo era, pelo contrário, tolerável, devido a
    uma disposição do grande rei,
segundo a qual escravos, cavalos e cães deviam ser tratados por igual
e estar, além disso, bem alimentados e patentear um aspecto agradável durante
    a sua permanência no palácio.
Como esta disposição se cumpria escrupulosamente
e como os próprios escravos contribuíam para dar uma impressão
    de limpeza,
sobrevivi, enquanto escravo, a muitos bons conselheiros.
Nem sequer o astuto Kasabuk
– perito em fúrias de leão –
logrou sobreviver-me.
A sua pele foi estendida no muro da Ira
enquanto a minha pele era jungida diariamente para o serviço de sentinela.
Eu pertencia à Guarda Aromática.

Cada dia à hora da lavagem
limpavam-me e tratavam-me
com a mesma escrupulosidade dada a um cavalo de caça
                  ou um cão do palácio.
Assim pude viver muito tempo
enquanto muitas notáveis personalidades
eram queimadas como diligentes traças
pelo Grande Rei,
a Lâmpada das lâmpadas.

Gräsen i Thule, 1958


O CONSELHO DE LI TI

Se tens duas moedas, disse Li Ti durante uma viagem,
compra um pão e uma flor.
O pão é para teu alimento.
A flor que comprares significa
que a vida merece ser vivida.

Gräsen i Thule, 1958



A IMPOTÊNCIA

Certa vez encontrei um machado cravado na terra
até ao ferro.
Era como se alguém tivesse querido cortar o mundo inteiro em dois
bocados de um só golpe.
A vontade não tinha faltado, mas tinha-se partido o cabo.

Gräsen i Thule, 1958



O MUNDO SENTIMENTAL DA UTILIDADE

Desterraram o antigo sofrimento, a antiga dor.
Levantaram o jugo que sobrecarregava o boi da lavoura.
Mas imediatamente após levaram também o boi.

Assim acontece quando a que liberta é a mão da utilidade.
Nas aldeias do país não queda já jugo algum,
mas tão-pouco ficam os bois.

Vagnen, 1960



VIVER DE VERDADE

Viver de verdade é atrever-se a eleger as próprias opiniões
mais do que permitir que obriguem alguém a eleger a sua realidade.
Aconselho-te a que vomites pela boca a realidade que odeias.
Sonha voluntariamente e de preferência o que não quer a tua época.
Separa-te do característico dos tempos vindouros e predecessores.
Os tempos vindouros estão violados e carregados de todas
                as grilhetas inimagináveis
sobretudo as da utilidade e as do insípido bem-estar
com a sua acolchoada segurança, de tão pouco valor para o espírito,
      e os seus carrinhos de brincar para todos.

Vagnen, 1960



NOITE

Inclina-te e olha. Há estrelas no manancial.
Entre os reflexos da folhagem dos eleitos
brilha silenciosa a resplandecente Vénus.
É uma noite de vigor terreal.
Estrela junto a estrela assomam-se
radiantes como uma janela de terra.

Vagnen, 1960




O PRESSÁGIO

Os tártaros detiveram as suas caravanas e fixaram as suas tendas
    de campanha.
De límpidos mananciais descobertos em arvoredos acolhedores
levavam água. Um fresco arroio corria pressuroso e dava-lhes
    peixes.

De uma árvore desceu uma ave de belíssima plumagem.
Pelos seus olhos e o seu pescoço via-se que amava a vida.
Puramente envolta em dúvidas e estremecimentos, deixou-se matar.

Uma vez assada jazia com as patas atadas presas ao corpo.
Todos a olhavam preparando-se para o prazer de a saborear.
Os poderosos paladares estalavam em torno dos bocados,
os dentes moíam surdamente como os próprios moinhos da vida.

Quando já era demasiado tarde os tártaros deram-se conta
do erro que tinham cometido:
tinham assado a ave Fénix e tinham-na comido,
a ave que precisamente naquela época do era mortal e fácil
    de caçar:
a ave da bela plumagem Fong de Tsin.

Antes que tivessem tido tempo para se arrependerem
caiu sobre o mundo uma imensa treva
o sol começou a apagar-se.

Os aterrorizados feiticeiros consideraram o sucedido
como um presságio
e os tártaros mataram vários prisioneiros à chicotada.
Então apareceu o sol e todos os que se tinham escondido
saíram rapidamente das tendas de campanha a gritar de júbilo.
Mas nesse mesmo ano o Khan perdeu a guerra
perante o general de Tsin.


Dikter om ljus och mörker, 1971



A borboleta-limão levanta voo e tange uma campânula.
As palavras poéticas apressam-se para ver se algo se passa.
Mas quase todas as palavras que rodeiam as formosas visões estão
    lastradas.
Já não faz a beleza nenhum obséquio com elas.

Coisas e formas foram choradas equivocadamente.
Lamentozitos sem sentimentos
destruíram os campos poéticos em volta de pardais e campânulas.
Regaram a terra com óleo doce e melaço
lançaram sumo de lírios no meimendro, falsificaram.
Constantemente, os que agora cantam
têm que manter a guarda alta
contra o tonel de melaço e o cântaro de mel.

Da revista Lyrikvännen, 1992 (póstumo)


Versão minha - © Amadeu Baptista
 
 
 


Harry Martison (1904-1978). O seu pai faleceu quando o poeta era ainda criança. Após esse falecimento a sua mãe abandonou o lar: depois de anos de solidão e abandono, ainda muito jovem, alistou-se na marinha como grumete, tendo vindo a ser, mais tarde, fogueiro. Como marinheiro percorreu todos os mares. Foi o primeiro auto-didacta a ingressar na Academia Sueca (1949). Além de poesia, escreveu também romances e cultivou o desenho e a pintura. Em 1974 foi galardoado com o prémio Nobel de Literatura. Com a chancela da D. Quixote, existe uma extensa recolha da sua poesia: Comboio Camuflado, D. Quixote, Lisboa, 1974 (tradução do sueco por Silva Duarte).
 

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Jóhannes úr Kötlum


                                            POEMAS DE  JÓHANNES ÚR KÖTLUM

CHEGOU

Se estamos mortos é que estamos mortos
a noite e o silêncio reinam na nossa tumba
    mas se estamos vivos gritam o céu e a tormenta
à terra e ao mar
e à nossa vida.

Se estamos vivos avançamos a atravessar a negra noite
um archote na mão
subimos ao estreito cinturão radiante
que cinge todos os mares do mundo
    negamo-nos a seguir os mortos à tumba.

Deixemos que os mortos enterrem os seus mortos
enquanto a tormenta explode no nosso cérebro
e o fogo no nosso coração
e elevemos esta esfera ardente, a nossa Terra,
até à imensidão sem limites de um novo dia.

O dia chegou e espalha sol sobre as tumbas
chegou
o dia dos vivos chegou.

Sjödaegra, 1955



RESSUREIÇÃO

Chegam os mortos
com véus brancos
surgem da escura terra

como uma onda dourada
brilha na madrugada
a vida eterna

a vida que deram por nós.

Sjödaegra, 1955



HOMO SAPIENS

Nasci para lutar contra os elementos
estátua bípede de barro com o sopro do seu autor
nas narinas.

Queima-nos o sofrimento: no crisol retiraram-nos a escória
as lágrimas, o sangue… e tudo voltará aonde nasce a fonte
originária

até que nasça o sol. Porque o sol surge do oceano
da desesperança
e na praia os meus filhos recolherão conchas: as conchas
que eu antes tinha quebrado e perdido.

Inteiras as levarão inteiras ao reino da luz
que se avizinha
e os elementos, atirando-se aos seus pés,
abençoarão a minha culpa.

Sjödaegra, 1955


TERREANALIDADE

De ti provenho, maravilhosa terra:

como luz brilham os meus olhos nas tuas flores
como neve se fecham as minhas mãos nas tuas pedras
como brisa agita a minha respiração as tuas ervas
como peixe nado eu na tua água
como pássaro canto no teu bosque
como cordeiro durmo no teu matagal.

Em ti me converterei, maravilhosa terra:

como furacão me movimentarei na tua tormenta
como gota cairei com a tua chuva
como casca arderei no teu fogo
como pó me espalharei no teu barro.

E ressuscitaremos, maravilhosa terra.

Tregaslagur, 1964



ATRÁS

Atrás da demência da guerra
esconde-se uma semente que cresce no deserto
e bebe dos amenos peitos da terra
junto à origem e à fonte
das desgraças do povo enlouquecido
sobe ao sacrifício de umas mãos que cegas
curam as nossas desgraças mais amargas
com centeio ou com rosas

dos grilhões infernais do ódio e do desprezo
liberta-se o amor das almas que procuram
e acende sobre o sofrimento da terra
a luz tão ansiada.

Tregaslagur, 1964



PRUDÊNCIA

Se nos falamos morre a poesia.

Morre a poesia se nos compreendemos
    se nos atrevemos a olharmo-nos nos olhos
ou a esquadrinhar isso que estamos
a procurar sem saber o que é.

Morre a poesia se caminhamos demasiado depressa
    se pisamos com demasiada força a terra
a caminho da meta
    se o barulho dos nossos sapatos desperta as perigosas
forças que dormem na escuridão da noite.

Morre a poesia se desprezamos o silêncio
    se agredimos o secreto
    se forçamos o santuário
e intentamos arrebatar Deus.

Tregaslagur, 1964




PRESSÁGIO

Pátria:

Olho-te com os olhos insones
e acolho-te no teu desmaio invernal.

Língua materna:
O teu manancial canta-me na raiz da língua
e ressuma as suas gotas pelo labirinto.

Mas, oh pátria!, oh língua:

oprime-me o medo
há um corvo pousado no beiral a grasnar horrivelmente
que pressagia esse pássaro negro?

Ný og nid, 1970



CRUCIFIXO

Estendi os meus braços ao mundo
e então viu o Sol
que eu tinha forme de cruz
e carregou o martelo de fogo
e os seus dardos ardentes
e cravou-me a humanidade mortal.

Oh, tu, sofrida humanidade dolente:
em piedade desta tua pobre cruz.

Ný og nid, 1970



A SÓS

Finalmente regressei ao templo dos meus glaciares
flautista das noites de São João
uma florinha vermelha na borda da placa de gelo
lançou as suas raízes
os arroios amenos do degelo bifurcam-se nos meus tornozelos
o panorama muda a cada passo
terminou a fuga
a luz preenche as superfícies do tempo e do espaço
o engano e a dúvida
não jazem escondidos
e já não tenho medo
entrego-me ao deus da terra e não pergunto nada.

Ný og nid, 1970


ENTRE A MAÇA E A PEDRA

O primeiro artífice
de pé perante um penhasco desgastado
prepara o golpe.

No ar
trememos indefesos
entre a maça e a pedra.

N. do T.: a expressão ‘Entre a maça e a pedra’ é o equivalente islandês da expressão portuguesa ‘Entre a espada e a parede’.

Ný og nid, 1970


Versão minha - © Amadeu Baptista
 
 

Jóhannes úr Kötlum (1889-1972). O seu primeiro livro de poemas data de 1926, de tom neo-romântico. Aderindo às ideias socialistas fez reflectir a sua ideologia em muitos dos seus poemas, ainda que tenha sempre usado uma veia lírica para cantar os sentimentos da natureza. Publicou 15 livros de poesia e alguns livros para a infância. Escreveu também romance e ensaios e artigos sobre literatura, cultura e política.
 

sábado, 31 de agosto de 2013

Seamus Heaney, 1939-2013



                                                     

I was four but I turned four hundred maybe
Encountering the ancient dampish feel
Of a clay floor. Maybe four thousand even.
Anyhow, there it was. Milk poured for cats
In a rank puddle-place, splash-darkened mould
Around the terra cotta water-crock
Ground of being. Body’s deep obedience
To all its shifting tenses. A half-door
Opening directly into starlight.
Out of that earth house I inherited
A stack of singular, cold memory-weights
To load me, hand and foot, in the scale of things.


quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Gunnar Björling



                                               POEMAS DE GUNNAR BJÖRLING


Desliza uma barca entre as folhas, alvorece em torno das águas
onde se demora a noite.
    Silêncio, como de golpes de remo não ouvidos. Desliza uma barca
águas acima.
    À sua volta estão os mil olhos: uma barca afasta-se
deslizando.

Korset och löflet, 1925



Eu sou frio, húmido, sentimental, como um ramo. E inteligente –
como uma mosca. O meu riso é a palhaçada do macaco, a minha seriedade a do
polícia. Tenho dentes de roedor e pata de cão perdigueiro, cérebro de
perca e coração de lúcio. O meu humor é o do populacho, o meu orgulho
o de um bandido no cadafalso.
  O belo ergueu-se da toca do leão.

Korset och löflet, 1925



Eu serei compreendido
com olhos, coração, cérebro –
compreender-me-ão com umbigo e unhas,
sairei da tua pele de couro de rastros
e esticarei a pele
como se para cordas de harpa.
Darei numa igreja o concerto
do eternamente novo.

Solgrönt, 1933



Quero viver na cidade como deve ser
com retrete, luz eléctrica, cozinha com gás
e ruas limpas
e jardins de pessoas ricas uma esquina sim e outra não
e palácios e cafés, riqueza exposta nos escaparates,
e por cinco marcos ou dois marcos um rectilíneo
esplendor.
Um mar de luz e diversas cores
e rostos, destinos
e a luz do céu – um estímulo de ideias
    e luta e amor recém guardado
para cada um
e para todos, todos!
ser como uma planta num prado primaveril
estar como uma árvore entre as árvores
ocupar um lugar como uma pedra entre as pedras
da construção,
saber que milhares de pessoas se amam e se alegram, têm preocupações
e os mesmos belos olhos riem lágrimas e ardem e
     se inundam, sonham, tropeçam, sucumbem,
mas irão para um reino de gloriosas façanhas
    com luminosa perspectiva.
– Rejubilo da existência das ruas das cidades, das suas fábricas
e a beleza está fora e dentro.
O céu e a água são iguais
e a noite não é tão escura sob os faróis que rodeiam a rua e a
    água.
Ao vazio chegam sons do baile dos amontoados, gritos, desespero,
    e a solidariedade com o multiplamente conhecido,
e solitário está o destino entre milhares de olhares que suportar,
    e lutar no pulular das gentes
é como estar sob a carregada abóbada do bosque
com a abóbada das estrelas escondida no coração.
O retumbar das cidades – tudo!
um igual e um irmão de todos
e a luta por mil até mil
e a luta contra todos
e por fim esses olhos, muitos olhos
conhecidos,
não conhecidos,
que levamos como uma tigela
que não se deve derramar.

Solgrönt, 1933


Eu não escrevo literatura, eu procuro o meu rosto e os meus dedos.
Cheguei como a sombra da alegria dos meus esforços,
cheguei como a ânsia pelo grande poema da vida
e eu levava o meu poema
como um dia de vida despedaçado,
como um dia de vida que flutuava em novas formas, rico e
    milagrosamente curado,
como um rumor de dias somados,
dos homens com quem vivo.

Fågel badar snart i vattnen, 1934



Limpa, limpa-te
tu, a tua palavra
limpa tu
silhueta, tu não a podes
explicar.

Sê o que és
sê essa música
sê tu, tu mesmo
como um concerto de palavras
sê tu, como alguém escondido
na mudez do mundo
um concerto
sonhado.

Dar jag vet att du, 1938



Neve e como num caminho do bosque
branco
no espaço um sussurro
e aqui
e faz uma hora
e correndo um cãozinho castanho claro
e como estrelas resplandecentes a luz de candeeiros resguardados
de súbito cresce só no espaço o sussurro do vento de tempestade
neve e como num caminho do bosque
branco.

Angelägenhet, 1940



Tu, chamo-te
a ti, luz nos dias cinzentos
em duras noites de inverno
chamo-te na ténue luz do verão
tu, chamo-te a ti
hoje
no tempo de infância dos anos
no verão da tarde
ainda,
tu, tu mais calado e próximo
tu, tu sussurras em volta de mim
ou silvas, gritas
és o rumor da noite
e o sentido do dia
tu, o sentido do meu próprio coração
tu, meu lar, minha casa
– a palavra de um homem
uma mão, uma voz
a luz de olho
como todos.

Ohjälpligheten, 1943


Silencioso verão entre as árvores
e na praia, sem estrelas
sem onda nem vento
e todas as coisas são
todas as coisas um instante
tudo o que foi, e será
e é –
um pássaro grita
uma luz passa pelas águas
a luz oculta de uma lua
o silêncio de uma canção
a sombra do contorno de uma ilha
– eu estou tão próximo da luz
como a luz das flores nos escuros territórios dos túmulos.

Ohjälpligheten, 1943



Virão tempos
o poder calca as nossas tumbas
o pensamento hoje dá remédio
ninguém sabe o pensamento amanhã
virão tempos
nós teremos desaparecido
sem eco nem resposta
mas é dia na terra
e foi
virão tempos
ninguém sabe o pensamento amanhã
a vida é eco e resposta
o silencio oferece o eco do verão
e a cria da andorinha marinha grita a sua resposta.

Ohjälpligheten, 1943


É hino
são palavras
sem palavras
são olhos e a mão
ar é e luz.

Luft är och ljus, 1946



Agora afastam-se todos os barcos deslizando
Agora afasta-se tudo vibrando
num vento sem vento
agora cai a calma sobre a baía e o mar e os golfos
agora está a morrer o sol de verão
e o branco velame dos iates
agora lateja a luz
jubilosa pela última vez no verão
agora – como nas brumas
luz de brumas
luz
da doçura do dia cinzento
apagamento não apagado
na tarde de setembro
luz
ressoante e audível, e
não exactamente
– não escutes, não a olhes
mas no entanto mais clara
soante e audível.

Ett blkyertsstreck, 1951



Estão a apagar-se as luzes e as pessoas saem em tropel
é já o crepúsculo, acabou o trabalho
o tropel estende-se pela praça
figuras negras
e caminho e sombras
vão-se apagando janela após janela
a névoa demora-se cinzenta nos telhados
é primavera e bonança
o crepúsculo
no entanto continuam a sair as sombras em tropel
e a luz estende-se por caminhos e campos.

Allt vill jag fatta i min hand,, 1974



As minhas palavras são tão simples, nascem da claridade
nascem da minha vida, do pensamento e da vontade nascem
do desespero de viver. As minhas palavras e a minha voz.

Allt vill jag fatta i min hand,, 1974



UM SÓ POEMA

Um só poema o meu livro
um só poema são todos os meus livros
um poema a minha vida
a minha vida, a tua e a de todos
um poema, e tudo é vida
tudo isso e é e foi
um poema
ao longo de anos e dias
cada época levanta-se e em todas as mãos
um poema – a tua vida
e o meu poema esta vida:
a tua vida, a minha vida
um poema – a minha vida, toda a vida.

Allt vill jag fatta i min hand,, 1974


Versão minha - © Amadeu Baptista


                  Gunnar Björling (1887-1960) Nasceu em Helsínquia. Licenciado em Letras.
                       É uma das grandes figuras do modernismo finlandês em língua sueca.