segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Georg Johannesen



POEMAS DE GEORG JOHANNESEN

PROPOSTA DE EXPERIÊNCIA

Quando tu que abres o meu coração
como um rogo
não encontrares mais do que respostas
é culpa minha

Quando tu que abres o meu coração
com uma faca
não encontrares mais nada que sangue
é culpa da faca

Dikt 1959. 1959



OS MAUS TEMPOS
(Uma conversa (segundo Brecht)

Tu:
Nos maus tempos
só falam os inteligentes
Dizem: aqui podem
salvar-se uns poucos

Nos maus tempos
só cantam os tontos
Cantam assim: É formoso
que a erva seja verde

Eu não canto
Eu não falo
Os sábios calam
nos maus tempos

Eu:
Nos maus tempos
eu não sou sábio
Canto e falo
dos maus tempos

Dikt 1959. 1959



GERAÇÃO

I
Nascido quando o desemprego estava nos 33 por cento
atiro-me a todos os trabalhos
com dois terços de força, para não parecer
que nasci como um privilegiado
com uma colher de ouro na mão

II
Antes que Hitler tivesse assassinado cem judeus
já sabia eu contar até cinquenta e sessenta
Com maior rapidez que Franco a conquistar Madrid
conquistei a arte da leitura. (Tínhamos
aulas sobre Nero e os cristãos no dia
em que Lorca foi fuzilado, junto com
cinco mil culpados e inocentes
Apesar disso continuamos a estudar)

Dois anos depois vi três cadáveres autênticos:
uma velha e duas crianças vestidos de verde
numa casa sem paredes, no meio de fumo sem fogo
Mas os pirómanos de então chamavam-se a si mesmos bombeiros
a guerra chamou-se então guerra

Aprendi a ler jornais
Contei até seis milhões
e até cem mil e até zero

Assim que chegou a paz, encontrei um revólver
saquei-o na aula de história, expulsaram-me
da escola, e não voltei nunca mais
Apaixonei-me pela primeira vez
Foi pouco depois de Hiroshima e
trauteávamos uma melodia americana
para sublinhar a nossa confiança

III
A minha primeira foda
teve lugar durante a guerra da Coreia
Amava-a
Ela amava-me
e a nossa cama foram jornais:

Desde que não houvesse guerra.
Desde que não houvesse paz
com desarmamento e depressão
prometíamo-nos mutuamente

Queríamos dar-nos baixa do mundo
mas não conseguimos todos os formilários

IV
Não me recordo
de nada inolvidável.
Com antecipações e pagamentos diferidos
vou conquistando os meus anos

Logo terei a mesma idade
de Jesus quando morreu
e peço à casualidade
que me livre da cruz colectiva

Dikt 1959. 1959


MIDAS UM VELHO POETA

I
Famoso pela minha pena
pela minha juventude sábia
a pedra e água apodrecida
afasto-me agora coxeando


II
Lembro tudo o que quero esquecer:
Os escuros olhos de alguém
Sorrisos que se apagaram
Esfomeados que voltaram a casa
Sangue repentino
Irmãs que morreram quando
pariram filhos sem pai
Irmãos que se afogaram no poço
porque não lhes larguei a mão

Vejo tudo o que esqueci:
Vejo que digo adeus
a uma mulher vestida de negro
a outra mulher que se volta de costas, e a
uma terceira que me ensina
a parte detrás de uma pequena imagem

Sei tudo o que esqueci
mas não sei a quem
roubei a minha outra vida
a vida posterior ao meu primeiro suicídio.

III
Famoso pela minha morte
que me permitiu sobreviver
aos parentes das minhas vítimas
famoso por aquela ceia
em que me comi a mim mesmo
famoso por aquela ceia
em que o sangue se fez vinho

entrei agora no deserto para
tocar a campainha do leproso

daí que os meus gritos:
Não venhais aqui
Não vos aproximeis
Não me escuteis

atraem os pássaros
atraem os esquilos
atraem as crianças
atraem todas as boas pessoas
até onde estou a tocar

famoso pelas minhas
melancólicas melodias
famoso pelos meus
gritos de aviso

famoso por um eco
de um tambor de crânio
que imita um
palpitante coração humano

famoso e solitário
porque os meus lábios
sabem a ouro

porque as minhas palavras são
incuravelmente belas

Dikt 1959. 1959



SEMANA PEDAGÓGICA

Segunda-feira (saudação do bobo, segundo Confúcio)

Esqueci as minhas penas
Recordo que ninguém pode voar
Eu sou bom se tu és bom

Eu sou forte se tu és débil
Não corras, não pares, não fales
não te cales, tudo é demasiado perigoso

O meu cajado escreveu, o meu pé apagou
que ninguém pode agarrar a luz
e ninguém pode livrar-se da sombra


Terça-feira (segundo Safo)

Os de Lesbos dormem
A lua pôs-se
As Plêiades desapareceram

Logo terá passado a noite
A vida passa depressa
Estou na cama só

Foi um disparate pensar
que poderia tocar o céu
com as duas mãos


Quarta-feira (segundo Palladas)

Um pagão em Alexandria
pensa sobre a vida enquanto a multidão cristã
aniquila a velha cultura:

  É certo que nós, os gregos, realmente morremos
e só parecemos vivos depois da morte
porque cremos que os sonhos são vida? Ou:

somo nós quem vive enquanto a vida é assassinada?
O grego que escreveu isto viu
queimar a maior biblioteca da antiguidade.


Quinta-feira (segundo Blake)

Qual é o preço da experiência?
Compram-na os homens por uma canção?
Ou a sabedoria por uma dança na rua?

Não, compra-se com tudo o que tem um homem:
Casa, lar e família
A sabedoria vende-se no mercado deserto

a que nunca vão os clientes
e no pedregoso campo em que o camponês
ara em vão em busca de pão


Sexta-feira (segundo Brecht)

Nem sequer o Dilúvio durou eternamente
No final as águas negras retiraram-se
Na realidade, poucas coisas duram tanto tempo

A árvore explica por que não deu fruto
O poeta explica por que escreveu maus poemas
O general explica por que perdeu a guerra

Quadros pintados em telas podres
Diários de expedições, confiados ao esquecimento
Arrojada conduta de quem ninguém se deu conta.


Sábado (segundo Brecht)

Deve-se usar o vaso rachado como urinol?
Deve-se interpretar a tragédia ridícula como farsa?
Deve-se pôr a amante velha a lavar os pratos?

Abatidos sejam os que abandonam as casas em ruínas
Abatidos sejam os que fecham a porta a amigos perdedores
Abatidos sejam os que são capazes de esquecer um projecto irrealizável


A casa foi construída com os materiais disponíveis
A rebelião levou-se a cabo com os rebeldes disponíveis
O quadro pintou-se com as cores disponíveis.


Domingo (segundo Brecht)

O salgueiro prateado: uma beleza local
Hoje: uma velha bruxa
O lago: um prato de água de esfregar, não lhe toqueis

Fúcsias e dentes-de-leão: baratos e berrantes
Por quê? À noite em sonhos vi dedos
que me apontavam como a um leproso

Estavam gastos e quebrados
Não sabeis nada! gritei
com consciência de culpa

Ars Moriendi eller de syu dødsmåter, 1965




LI PO

«Mas o meu poema dura eternamente
eu sei-o, Li Po!»

O sol dura mais do que um olhar
A árvore dura mais do que o meu corpo
A roupa dura menos do que a pele
Os sapatos duram menos do que o meu caminho

O relógio dura mais do que o meu pulso
O poema dura mais do que a minha boca:
O calendário é o único livro
que teria gostado de escrever.

Nye dikt, 1966


Versão minha - © Amadeu Baptista



Georg Johannesen. Nasceu em Bergen, em 1931. Licenciado em História da Literatura. Professor Universitário. Estreou-se em 1957, com o romance Høst i mars. Além de poesia, escreveu também teatro e preparou diversas antologias poéticas. Traduziu Eurípedes e Brecht. Faleceu em 2005.


domingo, 4 de agosto de 2013

Artur Lundkvist



POEMAS DE ARTUR LUNDKVIST

Deixai-me ser uma trompete em que a vida toque atoardoras marchas.

Deixai-me ser um alarido cor de cobre ao despontar a alva, quando
    todos dormitam mas os caminhos sentem a falta dos seus caminhantes.

Não me deixeis andar vacilante, amodorrado – não: deixai-me saltar de
    súbito como mola de aço comprimida!

Oh, convertei-me num flautista de mão peludas, que retira a sua
    melodia de uma madeira rica em seiva!
E que todos os pálidos ruboresçam e que dancem todos!

Cortai a carne flácida dos meus membros.
Dai-me músculos – músculos palpitantes, ansiosos, ansiosos de
    actividade, felizes por poderem trabalhar como máquinas jovens (máquinas
    com brilhantes peças de aço banhados num óleo azul!)

Glöd, 1928



DAI-NOS UM SONHO

Trabalhamos ali em baixo, nas profundezas, como numa mina.
  Temos os olhos cheios de pó de carvão. As nossas mãos apegam-se à
  picareta e ao cabo tosco do martelo.

Dai-nos um sonho luminoso que nos acompanhe como uma boa
  irmã que esteja ao nosso lado nas trevas, que nos sussurre
  palavras vivas e que ponha a sua fresca mão nas nossas frontes.

Dai-nos um sonho de um sol resplandecente na distância, de um vento
  com cheiro a flores e a terra molhada após a chuva, de árvores altíssimas
  que aprumem as suas belas copas, de casas felizes, de risos de crianças

quando se lavam pela manhã e quando os últimos balões dançam
  sob as estrelas ao entardecer.

Dai-nos um sonho luminoso – e as nossas mãos continuarão a agarrar a
  picareta e o cabo tosco do martelo. Trabalhamos ali em baixo, nas
  profundezas.
  Precisamos de um sonho. Luminoso.

Glöd, 1928



Não me obrigueis

a negar
a verdade que vi em sonhos,
os sonhos que vi na realidade.
Não me obrigueis
a acariciar os lobos
ou a encher vulcões com jornais.
Não me obrigueis
a caminhar com botas de ferro ou sapatos de pregos.
Se dependesse da erva
os que mais longe chegariam seriam os que andam descalços
ainda que se possa leva nos braços, como a uma criança,
uma árvore de cinco anos.
Nego-me a eliminar os olhos esfomeados,
nego-me a anular as palavras vermelhas das crónicas das existências.
Lançarei paus em chamas para os quartos escuros e decrépitos.
Pisarei os piolhos que avançam com o seu rei à frente
como um exército remoto.
Afogarei as máquinas caça-níqueis
com o escuro algodão das mulheres negras.
Nego-me a escutar ciclones debaixo de água
e a dar de comer peónias aos polvos.
Prefiro saltar da torre condenado à morte
e salvar uma lápide de bosques em chamas.
Pavimento um céu crepuscular com andorinhas
e bebo a beleza do rio das ratazanas de água.
Mas não me obrigueis a negar a visão
de uma justiça recta como o bambu
nem a poesia cálida, rosada como a neve nas copas dos
  pinheiros.

Liv som gräs, 1954



As formigas

estão a conquistar o mundo.
O chão cede sob o pé
e o pé afunda-se nas galerias dos formigueiros
    e é imediatamente atacado.
As formigas esvaziam as paredes e as casas colapsam.
Encham as lâmpadas até que a luz se apaga.
Introduzem-se nos orifícios do corpo humano
e devastam-no todo como um fogo negro.
Aparecem nas devoradas pupilas do retrato.
Deixam-se cair pelos ramos das árvores até às cavidades do peito
de tal modo que os cavalos disparam.
De manhã vemo-las aposentadas nos sapatos
e só se podem expulsar com fortes jorros de água.
Introduzem-se nos cofres e devoram os papéis de valor.
Atacam as impressoras e aí substituem os tipos por formigas.
Inundam os railes e fazem descarrilar os comboios.
Invadem as cidades e os refúgios não servem para nada.
Não há protecção alguma contra os exércitos de miríades de formigas.
E não há nenhum lugar para que se possa fugir.
Morrem aos milhares de milhões mas jamais se sentam derrotadas.
São mais eficazes que os maçaricos de soldadura.
O seu trabalho vai tornando-as mais fortes,
cada dia são maiores e mais irresistíveis, com corpos e olhos blindados.
Continuam a atacar ainda que tenham esmagado meio corpo.
Comem borracha como se fosse pão, bebem leite e whisky indistintamente.
São implacáveis como o céu e o fogo juntos.
Triunfam sobre todas as coisas
talvez sem sentir sequer o prazer do poder.


Liv som gräs, 1954


Sou um homem que olha de uma ponte e se vê reflectido na água
  que corre,
não me reconheço, poderia ser qualquer caminhante,
sou um filho que tentou ser o seu próprio pai, uma blasfémia contra toda
  a origem,
tal como uma árvore eu não tenho história, simplesmente cresci à minha
  maneira, com o vento e contra ele,
por todo o lado tentei amar as pedras e encontrar a mesma
  cor de olhos em todas as águas,
talvez seja a fome a minha verdadeira herança, uma fome sem consolo ou
  confiança,
fome em si que é fome em mim, um lobo que encontra a sua neve em
  todo o lado.

Sou um enteado deste país, nunca volto a casa, ando errante,
  em círculos,
enteado sem tubérculo algum que desenterrar da terra, só
  a neve se abre um momento
e fecha um portão, silhuetas tisnadas sobre um dia leitoso,
vozes irreconhecíveis ensurdecem na distância sem produzir eco,
o céu deixa que se fundam as pedras com um suspiro como quando
  o ar sai da massa que está a fermentar,
mas é um suspiro que não se dirige a mim.
O pacote de agulhas do pensamento brilha como se eu estivesse
  na margem de um lago à contra-luz,
mas a terra esconde-se sob as árvores, até que o bosque não me deixa
  ver as árvores,
o caminho avança alto como um dique, o tráfego alvoroça entre as
  copas das árvores,
a quinta está lá em baixo, entre o matagal verde e lambe as suas feridas,
  como uma menina que tivesse envelhecido,
e o vento silva no trinco de uma dobradiça sem cancela.

Ögonblick och vägor, 1962



Milhares de deuses rastejam pelo solo, elevam-se em espiral, enchem o ar
  de redemoinhos e de penas,
um conjunto de deuses que do cume da montanha se precipita
  para o mar,
deuses que comem e vomitam, ordenam furtivamente, pisam a terra,
  pegam fogo aos bosques,
escondem roupas, derramem leite, carbonizam colmeias, desbaratam açafrão,
constroem os seus templos de raios sobre a cidade, deixam que as
  serpentes piquem os anzóis e os tubarões chorem como
  crianças nos bancos de areia.
Que difícil é viver com os deuses, que impossível é viver contra eles!
Quem será o pobre herói humano que empreenda o combate com os deuses,
que machado chegará às suas raízes, as raízes dos deuses inumadas em cada
  homem,
quem as arrancará da carne, do fundo da água dos sonhos e das
  trevas do sangue,
deuses que fogem para voltar por lugares imprevistos,
deuses com a sua perigosa felicidade e as suas chaves de fogo,
deuses com umbigos de ar e olhos que flutuam como borbulhas na água.
Mas, arranca-o, arranca do ninho das entranhas o deus que grita,
como se arranca a dor da raiz do dente!
A primeira liberdade é libertar-se dos deuses, depois vêm as demais
  liberdades, também a libertação do tirano,
que é o mesmo que libertar-se do medo (o homem que se deixa morder
  por uma cobra
é um tirano, o homem que se senta no meio do fogo pintado de cal
é um tirano, o milagre é poder e o poder é vida subjugada):
arranca as sangrentas raízes dos deuses ainda que gritem
  como as mandrágoras das lendas!

Ögonblick och vägor, 1962



O poema
é inimigo do poeta como o filho do pai,
o poeta deve morrer para que o poema viva.
O poeta é a alta rocha
de onde a vida se contempla a si mesma
duvidando entre precipitar-se ou não para o fundo do abismo.
O poema mostra-nos que uma grande montanha
é sempre um mistério,
tal como a pena de um pássaro.
O poema tem asas que não precisa de usar,
talvez o que mais se lhe assemelhe seja um cavalinho verde.
No poema uma tonelada não pode escravizar um grama,
nem tão pouco um grama pode escravizar uma tonelada.

O poema é o único anjo que cai
velando tanto aos que dormem como aos que velam.
O poema tem mãos largas que chegam à meta
que outros não alcançam.
O poema desce às cloacas subterrâneas,
um salvador com altas botas de água.
O poema sente o esqueleto
em que delicadamente descansam os altos edifícios
(também ouve falar na cave o carvão ventrículo).

O poema suspende o seu farol de vaga-lumes no desfiladeiro,
é a ratazana de pele prateada que corre entre os montes de lixo.
O poema abre os olhos à criança que há no adulto,
escreveu-se na palma da tua mão antes de teres nascido.
O poema sai com foices e gadanhas à colheita da revolução,
o seu jovem corpo está tatuado com imagens
que abrem os seus mil olhos para o mundo.

Texter i snö, 1964



Uma máquina na neve.
Lá está negra e quente a meio da brancura.
Um indomável corpo negro entre montões de neve.
Em flocos silenciosos, em bandos, agrupados, cai sobre ela a neve,
impotente contra a máquina.
Crepitando ligeiramente, a máquina devora a neve.
O desafio da neve pô-la com um humor excelente.
Segura da sua vitória, confiante em si mesma, quente e negra.
Anda, atreve-te, velha e estúpida neve!

A máquina continua a aquecer-se, a barriga cheia
de chamas e de brasas, sente-se bem
como um enorme pastel de ferro fermentado.
As rodas gozam da sua quase imperceptível velocidade
e a neve deve ter cuidado para não queimar os dedos.
Os eixos riem a girar no seu oleado brilho,
superiores, mais perigosos que uns nus braços de mulher.
Os cilindros campeiam no seu poder,
estômagos de ferro que são, também, músculos.
As bielas preservam o seus ritmo desapiedado,
mete-tira, mete-tira, que coito mais excitante!
Que jogo de forças que não se aniquilam!
Não há qualquer piedade para a neve angelical.
A máquina trabalha impertérita entre os montões de neve,
dança sem sair do sítio, goza excitada pela violência.
A máquina é ao mesmo tempo mais ou menos que um ser vivo,
escravo que goza de si mesmo
enquanto escraviza o seu tirano.

Mas, foi derrotada a neve pela máquina?
A neve tem à sua disposição espaços incomensuráveis,
lapsos de tempo ilimitados, paciência infinita.
Não trabalha da mesma forma da máquina,
a sua força é diferente, obedece a outras leis,
extensas, ilimitadas, impossíveis de abarcar com a vista.
Na sua estratégia calcula em milénios,
um trabalho ameno em favor do silêncio e da brancura.
A neve contempla-se a si mesma de todos os lugares
com o seu branco olhar imperturbável,
sem paixão, abaixo de zero,
um poder cuja suave moderação é o seu mistério.

Texter i snö, 1964



Caminho entre raios, a mim não me deterão!,
entre raios que arrojam o seu laço sobre os rebanhos e fazem arder
    as pedras,
raios cujas línguas de víbora brotam das gargantas das garças,
raios como fendas nas lousas dos alunos,
raios como cabelos em chamas e angélicos rostos carbonizados,
raios com o seu alfabeto árabe sobre o asfalto da noite,

enquanto jogam a canasta no chão com os tapetes desviados,
jogam a canasta dentro dos roupeiros com as portas fechadas,
ou na copa de um pinheiro gigante que está para ser abatido pela
   moto-serra,
jogam a canasta voltados do avesso no grande espelho do tecto
e na cave onde a água já chega a meio da perna,

caminho entre raios que plantam árvores em flor e bebem mananciais
    num único beijo,
raios que levantam pó como os colchões de inverno quando são
    sacudidos no pátio,
raios como ferramentas sem cabo, raios sem firmeza,
raios que se retorcem como saca-rolhas no topo das chaminés
    das fábricas,

enquanto jogam a canasta no inóspito cimento que no entanto não
    gastaram os corpos dos homens
e nas escadas, sobretudo nas escadas, acima e abaixo, e também
    no meio,
jogam a canasta nas cozinhas entre chamas de gás e panelas,
entre peixes recém pescados que ainda mexem de vez em quando,
jogam a canasta os mendigos sob as pontes e os mergulhadores na água,

entre raios como paliçadas postas de lado, raios como os cravos
    torcidos das ferraduras,
como o lançamento do pescador de cana com a sua colher de ouro,
    como bétulas sem casca,
como placas de zinco arrancadas por um redemoinho do telhado de uma
    igreja, como uma meada de aterrorizados vermes brancos,
como uma estria de nata derramada num poço, raios, raios,
enquanto os pilotos jogam a canasta na cabina do avião que
    procura um caminho no névoa,
jogam a canasta na erva antes que tenha secado o orvalho,
no enorme ventre da mulher à hora do parto,
nas bancadas do estádio quando se está a decidir a partida de
    futebol,
diante do tractor de colheita que sega o trigo,
nas fumegantes crateras das bombas durante as tréguas dos
    combates,

entre raios peludos como panças de gatos e palpitantes como nervos
    arrancados a um corpo surpreendido,
raios como roscas no parafuso das nuvens,
como arame farpado molhado em leite,
como espigas de trigo cortadas com navalhas de barbear,
como a queda da lâmina da guilhotina,
como jactos de água lançados contra poços de petróleo em chamas,
raios como a secção de uma pedreira de cal,
como pestanas trémulas no orgasmo e tigelas que se sobrepujam,

raios, caminho entre raios, estou rodeado de raios,
a mim não me deterão!,
(mas em toda a parte jogam a canasta, jogam a canasta).


Besvärjelser till tröst, 1969


Versão minha - © Amadeu Baptista





Arthur Lundkvist (1906-1991). Nasceu em Oderljunga tendo, a partir de 1926, vivido em Estocolmo. Publicou o seu primeiro livro em 1928. Poeta, romancista, ensaísta, autor de livros de viagem, crítico e tradutor de vários idiomas, dedicou especial atenção a autores de língua castelhana: Pablo Neruda, Miguel Ángel Astúrias, César Vallejo, Octavio Paz, Jorge Luís Borges e Vicente Huidobro. Foi eleito membro da Academia Sueca em 1968.




sábado, 13 de julho de 2013

FESTIVAL DE POESIA DE LODÈVE





UM POEMA DE ' OS SELOS DA LITUÂNIA'
COM TRADUÇÃO FRANCESA DE FRANÇOIS-MICHAEL DURAZZO





écrire peut être, naturellement, avoir trois ans,
se trouver sur la plage un jour de grande chaleur
et sentir quelqu’un nous prendre par la taille
et nous plonger dans les flots violents
d’une mer déchaînée, en jetant un regard
sur la foule tout autour, les bonnets jaunes,
les bikinis colorés et le vendeur
de cookies, avec sa casquette ornée d’une ancre,
qui arpente la grève de long en large
depuis la roche jusqu’aux cabines de douches.
remonter dans la houle à la surface et de nouveau
plonger en étouffant un cri dans sa gorge
pour voir le fond marin, ces algues
menaçantes dans leur ballet aqueux
que les larmes rendent encore plus dense.
sinon, à part ça, ce peut être, précisément,
avoir une connaissance profonde du mot
laryngite, rester cloué au lit par la rougeole
derrière une fenêtre sur rue à l’abri
d’une toile rouge du sol au plafond,
mourant de soif sans même pouvoir
mouiller ses lèvres. ou bien passer l’après-midi
entier à entendre quelqu’un atteint
d’une sclérose multiple gémir, retomber
en enfance et peu à peu mourir
de dragées blanches. écrire peut être, précisément,
aller à l’école avec la peur au ventre, et souffrir
les terribles conséquences de la cruauté
des maîtres envers les enfants,
les pages de copie à la dérive entre bave et morve,
les jambes qui flageolent à force de paniquer,
les doigts endoloris et le cœur
battant. ou encore,
écrire peut être, probablement,
régler ses comptes avec son passé,
ou même le souvenir de cette nuit
où le vent fouetta notre chambre, fit voler
les tuiles des maisons environnantes, tuant
l’élégante dignité du chat qui traversa
la route et fut renversé par un seau
bosselé. sinon, ce peut être le cheval inquiet
parfois aperçu dans la prairie, ou des animaux
égorgés, aux viscères entrelacés
en écheveau sous l’appentis, près du linge
séchant sur l’étendoir. ou la nuit,
immense et perdurable, où quelqu’un
frappa à notre porte sans entrer, quand
à la lueur d’une lanterne nous tentions de distinguer
sous la pluie encore battante
les claies qui entouraient l’enclos,
la girouette en forme d’avion, les chardons
du terrain vague. sinon, à part ça, ce peut-être,
précisément, emprisonner son visage quelque part
pour ne pas céder, partir torse bombé en quête
du rythme des passions, les plus voraces,
celles capables de pousser au meurtre, de tourner
les têtes, irruption d’un ciel d’ombres
vraies, même s’il n’y a pas de ciel,
même s’il n’y a pas d’ombres
et que dans les lettres ne resplendisse
que peu de chose.


© François-Michael Durazzo et Amadeu Baptista

Mais informações sobre o Festival: http://www.voixdelamediterranee.com/




terça-feira, 9 de julho de 2013

Ólafur Jóhann Sigurdsson



POEMAS DE ÓLAFUR JÓHANN SIGURDSSON


VARIAÇÕES SOBRE UM SONHO DE UM FILÓSOFO CHINÊS

Cri ser uma borboleta num estranho sonho,
vogava entre as flores libando nas suas corolas.
Mas parecia-me divertido e estranho
não ter no sonho as minhas velhas sapatilhas.

Agora que estou desperto neste mundo cinzento
cumpro com o meu trabalho e estou são e contente.
Creio que sou um homem, mas vejo-me às vezes
como uma borboleta dourada que sonha que é um homem.

Ad laufferjum, 1972



ONDE LEVA ESSE CAMINHO?

Onde leva esse caminho
que abris para as máquinas
à largura e ao comprimento
por ermos e povoados?
Onde está o templo das fadas?
Onde a pedra dos anões?
Onde o arroio que rodeava a aldeia?
Onde a fonte de prateadas ervas?

Onde leva esse caminho
que abris para as máquinas?
Onde estão os ninhos do pântano?
Onde está a saxifraga e o junco?
Por que não se ouvem já
a narceja nem o maçarico?
Por que não emite já os seus gritos
o bico vermelho do tringa tonatus?

Onde leva esse caminho
que abris para as máquinas?
Onde o silêncio e a tranquilidade
que te ensinaram sonhos e anseios?
Onde o rumor calado das bétulas?
Onde o sopro do ar entre as flores?
Onde está a espumante catarata
que te ensinou a cantar?

Com o pó da gravilha
com o barulho dos aços e das rodas
nas tuas entranhas vivas
chegou a insanidade.
Onde leva esse caminho
que abris para as máquinas
à largura e ao comprimento
por ermos e povoados?


N. do A. Tringa Tonatus: maçarico de perna vermelha.

Ad brunnum, 1974



RECORDAS AQUELE POÇO

Recordas aquele poço mais profundo que nenhum.
Em fragmentos confusos conserva-se ainda em ti
e só se completa se a dor e o perigo
nidificam no teu peito. Mais profundo do que os outros

guiava-te como se em transe pelo céu e o mundo,
a gigantesca abóbada, a terra, as plantas e os animais.
A luz diurna, o frio e a silenciosa obscuridade
lias no seu fundo. O sol e as estrelas,
unidade do rio escuro da terra e da noite:
nada podia roubar-te a paz do fundo poço.
Paterna protecção na treva, ternura maternal,
suavidade e quietação, embora a vida dura,

brotam ainda das suas ondas quando te ferem
se o teu refúgio no instante incerto
está ainda no poço mais profundo que nenhum.

Ad brunnum, 1974



NOSTALGIA

Além das casas, fora da cidade,
olha ainda as montanhas,
os caminhos obscuros que costumas percorrer.
Além dos montes
escutas o cair das folhas
das altas sorveiras na margem da corrente.

Ad brunnum, 1974



A PROCURA

Procuraste muito tempo
a fonte fresca e clara
o poço rumoroso
na sua espera prateada.

Voaram para o sul os pássaros ontem à noite
enchendo a treva com o seu bater de asas.
Hoje o prado é geada
e o páramo está vermelho.

Ainda não encontraste o poço
nem encontraste a fonte.
A tua procura passada
é uma foto amarelecida.

Sobre o teu pensamento plana a tristeza
procuras inutilmente?
Gelam os teus cabelos
mas há que seguir em frente:

As águas são mais claras
nos outonos frios
e é mais fresca a fonte
que mana sob o gelo.

Ai. se acaso existisse o poço reluzente
beberias sem descanso.

Ad brunnum, 1974





NA PONTE

Inundada na primavera.
E a água chama o sonho
que abre no teu peito um canal
em que ressoar.

Calado, sobre a ponte
contemplas a corrente
e pensas naquilo
que uma vez existiu.

Ad brunnum, 1974



CANTO DO PÁSSARO

Até onde penetras o meu pensamento
quando o orvalho escarcha na erva?

Sabes onde voo
quando estiolam os meus bosques?

Não, deixa já de me chamar
teu amigo, o pássaro cantor.

Virki og vötn, 1978



A BARCA

A barca abandonada balança na baía.
A minha cana está presa à última tábua
e a tua na proa, querido companheiro.

A barca abandonada! Mas no meu dormitar
lembro que o meu amigo descansa há tempo
no horto calado de que já não regressa.

Por que já não me vejo a mim mesmo na barca
jovem e esperançoso a manejar a cana?
Por que vejo apenas uma imagem turva

a perder-se no crepúsculo? Porque a barca escapa
para fora da baía, ainda que reine a calma.
Dobrando o promontório vai para a noite… e ao fundo.

Virki og vötn, 1978



O MENINO

Não te assusta o ranger nem o silvar quotidino
do aço afiado, das balas certeiras.

Nem tão pouco entendes os gritos das cidades
assaltadas por tropas que invadem a sangue e fogo.

Pois as flores do campo envolvem-te nos seus braços,
a luz da primavera oferece-te a sua promessa.
Protegem-te a erva e os sonhos inocentes
e essa protecção é poderosa e total.

Virki og vötn, 1978


Versão minha - © Amadeu Baptista





Ólafur Jóhann Sigurdsson. Nasceu em 1918 e faleceu em 1988. Publicou cinco livros de poesia, tendo sido dois deles premiados com o Prémio de Literatura do Conselho Nórdico, em 1976. Usou a métrica tradicional para cantar com doloroso sentimento a natureza virgem islandesa. Escreveu também alguns romances realistas.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Solveig von Schoultz



POEMAS DE SOLVEIG VON SCHOULTZ



DESPEDIDA

As  crianças dormiam, e o marido, quando ela partiu
secreta, descalça, como que adormecida.
Deixou a sua ternura junto ao homem para que o consolasse
com o seu aroma como uma seca convalária muda
que guarda junho no seu interior até bem dentro do outono.
E enquanto a luminosa respiração das crianças
se elevava em volta dela como brisa de trevos
depositou lentamente o seu choro junto a um,
o seu riso em outro, a sua canção em outro
e ficou ali de pé e olhava e não se atrevia a olhar
e retirou rapidamente uma curta madeixa de cabelo
e deslizou com os olhos fechados até uma porta,
até uma porta da noite, uma porta que levava para fora
onde a lua esperava, fria, clara e audaz.
Agora tinha dado até ao seu último alento.
Já não lhe restava nada mais do que o corpo
e a angústia na decisão desse corpo.
Na porta, mais além do seu passado,
olhou ao seu redor e soube o que tinha feito.

Eko av ett rop, 1945



CORAÇÃO

Dávamos-lhe centeio, não muito,
o suficiente para que não se cansasse,
dávamos-lhe água, um dedal,
para que tivesse que recordar o manancial,
abríamos a porta, ligeiramente
para que o céu lhe golpeasse o olho
e fixamos um bocado de espelho na sua gaiola
para que visse directamente a nuvem.
Imóvel permanecia com asas palpitantes.

Nattlig äng, 1949



O VALE

Ninguém te pegou na mão e disse:
aproveita.
Isto é agora.
O vale que vês com águas serpenteantes
com bosques misteriosos e ar suave
com prados e verdes mananciais
este vale tem o nome de Amor.

Ninguém disse:
vê devagar.
Tem cuidado e não caminhes demasiado depressa
nem acredites noutro vale
um maior de que tenhas ouvido falar
não há nenhum outro
não para ti
demora-te
grava cada folha na tua memória.

Ninguém disse:
isto é agora.
É muito.
É suficiente.
Completamente só atravessei o vale correndo
e até que não me dei a volta não compreendi:
esse era o seu aspecto.
Era esse.

Nätet, 1956



Velozes tacões
velozes como a oscilação da saia,
velozes olhos,
velozes anos antes que
os leves seios se façam pesados.

Terrassen, 1960



REPOUSO

Dentro da desgraça tudo é calma, todos passaram de largo,
todas as portas estão fechadas, não se ouve som algum.
Poucos móveis, sem ventilação e escuro
mas repouso,
rosto e corpo contra o duro chão
mas repouso
e um estranho sonho sobre Deus.

Sänk dott ljus, 1963



UM ESPINHO DESCONHECIDO

Um espinho desconhecido cravou-se-me no peito
e ali ficou imóvel enquanto o pássaro bebia
e eu estava imóvel
quase sem dor
enquanto o pássaro mergulhava o seu bico no sangue
e chupava com crescente intensidade
eu não sabia
se estava a esvair-me ou se a converter-me num pássaro.

Klippbok, 1968
 

SAPATOS

Estava ela sentada num tamborete
inclinada sobre os sapatos
provando-os, descartando-os
recordava e esperava
como uma mulher
com muitos amantes
estava sentada entre os seus sapatos
– aqui, os mais cómodos
usados, gastos.
Mas, adquirir uns novos?

Klippbok, 1968


CONVERSAÇÃO

Quarenta anos tinham vivido juntos
e a linguagem ia-se fazendo mais difícil de entender
no princípio tinha sabido algumas palavras
logo se foram contentando com movimentos de cabeça:
cama e comida.
Durante quarenta anos permaneceram assim na sua vida diária.
Os seus rostos foram adquirindo calma, a das pedras.

De quando em vez aparecia um intérprete ocasional:
um gato, um pôr-do-sol extraordinário
Escutavam com clarão de inquietação
tratavam de responder
                                   eram já dois mudos.

Klippbok, 1968



À TERRA

Porquê tanta pressa por chegar à terra?
Por que não por etapas?
    primeiro transformar-se em vaca
    reflexiva, ruminando
    o passado à sombra
reflectindo no olhar tudo o que passa por lá
        (como eu fiz)

   depois um gato
   com as unhas bem recolhidas
       (tal como as minhas)
   suave, com a pupila contraída
   a levar as suas crias com a boca
   logo um rato do campo
   já com o odor a terra no focinho, rápido
   já mais pequeno

   depois um verme
   cheio de terra e lento.

Klippbok, 1968



O ANJO

Na minha estante está um anjinho de madeira
com asas douradas e a auréola como um guarda-chuva.
Ofereceu-mo faz tempo
alguém que acreditava nos anjos
     então eu precisava
de um anjo da guarda (a necessidade não diminuiu).
Teve um duro trabalho.
     Perdeu
uma asa, caiu da estante
num combate com Satanás (não desconhecido por aqui)
e o dourado foi-se descascando.
     Mas a sua obstinação
é tão grande como a de Satanás, ele continua a estar
onde prometeu estar, um anjinho
com uma asa partida e uma auréola como um guarda-chuva.

De fyra flöjtspelarna, 1975



REENCONTRO

Caramba, alegria, puseram-te escondida
como antes se escondiam os loucos na sauna
tinham-te a pão e água
realmente esqueceram-te lá
onde recusavas a escuridão
– bem, agora abriu-se a porta
estás branca como o gérmen do inverno

mas, estás no umbral!

Bortom träden hörs havet, 1980


A RUA

Sempre se vê a mesma senhora na mesma rua
com o guarda-chuva aberto
sob o sol mais esplendoroso
a deslizar sob o beiral tão colada à parede
com grandes botas negras tão apressada quanto pode:
          isso do guarda-chuva
          é bem sensato
          a qualquer momento pode cair qualquer coisa:
          ditos, calúnias
          sinistra morte repentina
          ou simplesmente uns velhotes.

Bortom träden hörs havet, 1980



AS MORTES

Não o entendo
não chegarei nunca a compreende-lo:
a morte individual
a morte de muitos.
Pode-se somar a morte?
Pode o indivíduo sofrer mais mortes do que a sua?
Pode morrer nos seus tendões seus nervos seu sangue
a morte de outro?
É a morte maior porque a partilham muitas pessoas
onde cada um tem a sua?
Pode-se somar o sofrimento?
Não o entendo.
Pode alguém morrer por todos?
Pode Cristo?
Ou é simplesmente algo em que crêem

que lhes dá valentia
aos que estão nos crucifixos?

Bortom träden hörs havet, 1980


A ALEGRIA

Por fim ela tratou de deixar de agradar
a quem não fosse deus ou a morte, ambos muito distantes,
permitiu-se ser o que era
(e como ele dizia)
uma maldita velha.
Pôs-se quase bonita de alívio
mandou às ortigas o cuidado com o cabelo e a roupa
dizia o que lhe apetecia.
Os homens não eram mais do que criancinhas
que alguém tinha parido certa vez,
preocupações sobretudo, e a chupeta de consolo.

Bortom träden hörs havet, 1980



ZONA PRIVADA

Perdoar porque se esquece
acontece como na natureza
onde até o galho mais espinhoso morre
esquecer porque se perdoa
acontece no território de deus
a que poucos têm acesso.

Vattenhjulet, 1986


Versão minha - © Amadeu Baptista





Solveig Von Schoultz nasceu em Borgá, em 1907. Trabalhou como professora no Instituto de Helsínquia. Escreveu poesia e romance e está considerada como uma das melhores escritoras da geração que se segue à grande explosão do modernismo escandinavo. Faleceu em 1996