quarta-feira, 12 de junho de 2013

Björn Håkansson



POEMAS DE BJÖRN HÅKANSSON



O FUTURO

Alguém, uma pessoa que conhecia,
estava preocupado com o futuro.
Dizia-me que costumava ter terríveis pesadelos
Com que sonhas? perguntei-lhe
Sonho que tudo continua como antes
e que o que se transforma
se transforma de modo como tina podido prever
Não seria culpa tua nesse caso, respondi-lhe
Também essa resposta fazia parte do sonho, disse
Agora não há saída alguma
onde possa despertar

Rymd for ingenting, 1962



JESUS

Descuidadamente pregado estou
trato de me desentender da minha responsabilidade pelo futuro
Em verdade não fui suficientemente claro
Os zelotes acusavam-me de timorato
e os saduceus de loucura revolucionária
enquanto os romanos me tomavam por um zelote
que queria derrubar os estado
Eu aceito o estado, por agora,
à espera de se faça algo supérfluo
Aceito o sofrimento, por agora,
enquanto as armas apenas sejam cravos
Mas espero ter sido claro ao menos num ponto:
o poder de César não vem de Deus
e nós não somos maus.
É César quem nos consome, não nós,
são os seus caprichos que satisfazemos
incluso quando cremos actuar livremente
Com frequência confundimos mutuamente com ele
interrompemo-nos a meio de uma conversa e dizemos
friamente: a minha cabeça mantenho-a eu, muito obrigado–
não confundamos amabilidade com abnegação
Então escuta-se o obsessivo pulsar do seu coração
Tenhai cuidado, para que não fiqueis surdos por isso
Tenhai cuidado, para que não cuideis que é o vosso
Mas ninguém escuta; o tilintar das moedas enche
os ouvidos, a mais a mim que me dão por morto
Tenho de me convencer a mim mesmo para deixar de perguntar:
É acaso pecado a falta de clareza? Ou ainda mais
esclarecimentos fizeram de mim um maldito incompreendido?
O muro é branco como um muro com veias incrustadas
Discípulos e proclamadores, olhai para aqui. Tenho sede!
Fazei uma soma da minha situação
dai-me a vida eterna.

Kärlek i Vita Huset, 1967



DESTINATÁRIO: OLOF PALME

Querido companheiro de partido!
O produto nacional aumenta dia a dia
e os prédios de apartamentos surgem da terra.
Não nos queixamos, porque estamos bastante bem,
mas de vez em quando pomo-nos a pensar.
Agora, por exemplo, a Esso anuncia que procura cozinheiros e empregados de quarto
e criadas, mulheres de limpeza, recepcionista,
também massagista para a sauna, a tempo parcial,
e maquinista, com a missão concreta de cuidar
da piscina coberta. Há ginásio, bar
e locais para reuniões e congressos, ao que parece.
(Anexamos o anúncio.)
Congratulamo-nos, obviamente, pelos postos de trabalho
que graças à localização regional desta construção
nos contenta (ainda que a força de trabalho,
sobretudo na cozinha, seja italiana).
Gastos da construção: quatro milhões.
O jornal local fez uma magnífica reportagem.
(Anexamos o artigo).)
Não nos interpretes mal, somos socialistas leais.
Cremos pois
na necessidade de ter prioridades no sector social
e, em geral, das vantagens em fazer economias.
Cremos
nas vantagens da paz laboral e da solidariedade
entre as classes sociais, caso continuem a existir.
Cremos
que a colaboração com algum grande capital nacional
é a condição para uma óptima planificação de recursos
tendo em conta a actual estrutura da nossa sociedade
e a divisão do poder no campo da economia.
Mas perguntamo-nos, talvez pelos demais,
que talvez perguntem: quem decidiu, realmente,
que a Esso possa construir um hotel com semelhante envergadura
para viajantes comerciais e, no verão, para turistas,
enquanto nós, que vai para quatro anos vivemos em 1700 andares
e carecemos de sauna, praia, serviços, lojas, pub,
berçários, farmácia, banco, polidesportivo e locais
tanto para os nossos hobbys como para as nossas reuniões?
Há um quiosque junto à auto-estrada em que as crianças compram
chiclete com cromos coleccionáveis todos os dias
Agora perguntamos – e não o tomes de modo pessoal –
se tu ou o governo têm algo a ver
no plano de prioridades de serviços acima mencionado
ou se tudo continua a estar dirigido como sempre
dos Estados Unidos. Agradecendo-te antecipadamente a resposta
assinamos
                                   Quatro trabalhadores eleitores de Löten



Mellan två val, 1969


COM A MINHA FILHA

Em Novembro as sombras são
delicadas
como esqueletos infantis.
Desenham-se
sobre os vestígios da folhagem
carnosa do verão
Sob as árvores, junto ao muro,
estou com a minha filha
Ela assinala, eu respondo:
mejengra, gorrião, chapim-azul
A sua mão é tão frágil
que me dá vontade de a levar
à boca, de a beijar
e dizer: Não saias de ao pé de mim!
O mundo não é mais do que uma fina película
que apenas deixa que passe
o sol
Fica comigo
Aquece-me, para que a minha sombra
nunca tenha que encolher-se
dentro do frio.

Fronter i Tredje Världskriget, 1975



PARA A MINHA MULHER NO SEU ANIVERSÁRIO

O orvalho gelado deposita uma cintilação
sobre a erva
Os passarinhos esvoaçam com viveza
nos arbustos de bérberis
Uma mosca desesperada procura
uma abertura na janela
É outono
sem que haja dano como antes
Nas nossas conversas mencionamos
exemplos de filamentos
auréolas
e clareiras inesperadas
onde o bosque descansa
A rotina é um perigo
mas ninguém se queixa de que o coração
pulse regularmente
O hábito põe um selo
Se se quebra
a inspiração não terá sítio
onde dançar
O trabalho é o centro da família
Temo-nos um ao outro
mas se faltar o trabalho
não nos bastaremos
um ao outro
E não te queixes de que quase tudo
caia sobre o abismo.
Vento e água levam
os nossos fracassos
e depositam-nos
na boa terra.

Fronter i Tredje Världskriget, 1975



MONSTRO

Em Creta procuramos o labirinto
No labirinto procuramos o Minotauro
No Minotauro procuramo-nos sós
um ao outro
e quando encontramos o que procurávamos
e matamos o que não compreendíamos
começamos a procurar novos monstros
como se fosse uma saída
o perder.

Utanför familieboken, 1992

Versão minha - © Amadeu Baptista


Björn Håkansson, nasceu em Linköping, em 1937. Licenciado em Letras. Além de poesia escreveu romance e foi crítico literário em jornais e revistas. Poeta comprometido dos anos 60.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Portugal

SONETO EXPOSTO

Os desengonçados trânsitos cavernícolas.
A eterna crise com os dentes afiados.
Um país de paisagens marítimas e vinícolas,
em que uns são filhos e outros enteados.

O recorte da serra na distância.
Os pardais semoventes sobre as praças.
Alguns homens sombrios com a ânsia
de não serem roídos pelas traças.

O redil organizado como um caos.
Uns quantos menos bons e outros muito maus.
Uma planície, uma cidade, um chaparral.

E em volta disto o mar, sempre indiferente
do que queira ou não queira a sua gente.
E fica no soneto exposto Portugal.


© de Amadeu Baptista

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Prémio de Poesia Cidade de Ourense

Notícia do jornal Faro de Vigo, de hoje:

«El escritor portugués Amadeu Baptista ha sido el ganador del XXIX Premio de Poesía Cidade de Ourense por la obra Un pouco acima da miseria. El jurado lo califica como "un libro de excepcional personalidad. Una respiración poética amplia, un trabajo minucioso de lenguaje, que está en la base de una tensión poética intensa". Amadeu Baptista nació en Oporto en 1953. Cuenta con una amplia bibliografía. Colaborador habitual de periódicos, revistas, libros colectivos y antologías en diversos países de Europa y América.»

Para os amigos e visitantes deste blog deixo um poema do original 'Um pouco acima da miséria', que acaba de vencer a edição deste ano do Prémio de Poesia Cidade de Ourense e que conta, desde já, com a publicação da obra a concurso em Espanha:



MURMURAÇÃO DE LEÓN TROTSKY NO SEU LEITO DE MORTE

Natália Sedova, olha-me, peço-te que me olhes fixamente
– de mim não escutarás um único gemido, mas dir-te-ei
que a última flor do terrífico é a beleza, como te disse há muito,
como repetidas vezes te disse e agora repito neste meu último fôlego:
o terrífico é a beleza, tal como tudo é neve em nós,
de vitória em vitória, ou derrota em derrota,
ou um verso aterrador de Pushkin ou Maiakovski.

Não vês a revolução permanente neste trapo vermelho
enrolado à volta da minha cabeça, enquanto ponho
os olhos num infinito não muito distante?

Que te parece este exílio, estes dias luminosos de tequila e mezcal,
estes encontros com Frida, que de tudo fala como se pintasse,
enquanto tu cozinhas deliciosamente e eu escrevo sem parar
como se não haja em nós senão comoção?

Nesta cama, onde já só aguardo a morte,
porque é de morte que estou ferido,
não te parece que tudo em mim potencia a neve e o degelo
em contraponto à dor, esse axioma de múltiplos postulados
que a dialéctica acabará por resolver,
tal como resolverá a luta de classes?

Não te parece que, desde que o mundo é mundo, o mundo
é só mudança e que para a revolução revertem
todos os sacrifícios e todos os sonhos?

Não me viste a conduzir
os exércitos entre Kazen e a Ucrânia
e como, de acordo com Lenine, o encadeamento
das batalhas faz todo o sentido?

Deixa que olhe o tecto desta casa estranha e que veja o que vejo:
com certeza é mágoa o que diviso, mas, ainda assim, deixa
que veja um exército alucinado sempre em marcha, um exército
em busca de futuro, mesmo que não haja futuro, ou não haja
soldados quando a guerra terminar.

Deixa que sinta este arrepio a percorrer-me o corpo
como uma ventania poderosa que varresse a estepe
e nunca mais parasse,
e fizesse de mim um homem retemperado e livre.

Inquieta-te ou não te inquieta o esgar
que me modela o rosto, agora que a morte
penetrou o meu crânio e nada mais poderei fazer
do que sentir estas dores intratáveis e a ligadura
a encher-se de sangue, enquanto tu, Natália Sedova,
pões os olhos em mim e ouves comigo o riso longínquo de Estaline
a celebrar, não a morte de um inimigo de classe,
mas a classe de um inimigo – eu mesmo neste leito,
sem temor, sem pavor pelo fim, apaziguado
pela benignidade revolucionária de quem está a morrer?

Digo que é preciso acautelar as coisas, cada clarão, cada
gesto suspeito, e que não devemos confiar se alguém
se apresentar em nossa casa como sendo um amigo,
um amigo belga que não é belga, mas alguém insidioso
que quer ter uma história para contar, uma história
tremenda, a história do meu assassinato,
e quer frequentar a nossa intimidade para nos matar,
porque no Kremlin governa Estaline e, com ele, está a neve,
a neve implacável que sem tréguas nos persegue
e é um curso sangrento, entre sápatras e sequazes,
um curso de brancura que nos quer eliminar.

Creio na fuga, no exílio permanente.
Talvez a revolução seja isso, ter um inimigo
às costas e nunca lhe ver os olhos,
e ter de dormir com a eficácia de um fugitivo,
juntando as botas a um canto, e os filhos,
e toda a parafernália de pensamentos
que aliviem, ainda que por instantes,
o medo e o paroxismo de ser acossado
por uma mão invisível e omnipotente, uma mão
mais poderosa que a mão do acaso, ou a mão de Deus.

Abro a cigarreira e é neve o que encontro,
a caneta que uso é com neve que a encho,
e, quando escrevo, é neve o que alastra
no papel, neve a expandir-se sobre a terra,
enquanto a minha boca é neve que cospe,
a neve da proscrição, a neve da Sibéria,
da Turquia e da França, neve infinita
como a única amargura de quem não pode permanecer
em qualquer lugar que esteja e, em cada sombra,
apreende uma ameaça, em cada ruído, em cada
estalido das juntas de madeira da cama em que dorme.

O que digo é que uma sombra pode soterrar um homem,
uma sombra entre as sombras pode envenenar
a alma de um homem, e que as sombras são como a neve,
estendem-se à frente dos olhos e é como se a luz
favorecesse a ameaça, e fosse a revolução a  própria ameaça,
e nada mais houvesse que essa ameaça a perseguir-nos a cada instante
e em todos os lugares, de Kronstadt à Cidade do México,
de todos os lugares em que estive até todos os papéis que escrevi,
do mais simples panfleto até à sentença de morte de um desertor
ou de um burguês contra-revolucionário.

Creio na fuga, digo. Na fuga há uma tensão que favorece
o improviso, e a vida é isso mesmo, um improviso perpétuo
para sobreviver: junta-se um fio a outro, e outro a outro,
até que fica pronta a bagagem que essa corda
há-de prender –  nessa mala depomos tudo o que é nosso,
os livros que escrevemos, as mulheres que amamos,
as sombras que a nossa intimidade reconheceu
e a corda do improviso ata a esse passo decisivo,
a fuga que é preciso empreender porque as sombras, tal como a neve,
podem adquirir qualquer forma para quem é ameaçado,
a forma de um punhal, de uma pistola, de um copo
de veneno, de uma picareta de alpinista, de pontas aguçadas,
pronta a ser desferida sobre a nossa cabeça.

Digo que o exílio é como a neve, sempre e sempre
a adensar-se sobre nós, por mais que o fogo abrase,
ou nos incendeiem a casa, ou, no ímpeto da fuga,
passemos de um país a outro, e no novo país a que aportemos
tudo seja mais cálido, mais confiável, mais acolhedor.

Ah, mas o certo é que pomos um pedaço de neve no samovar,
preparamos o chá e a água fervente, o infusor de prata,
e é sempre neve o que bebemos, a neve perpétua
de nos querermos aquecer por dentro, a conhecer
o frio permanente de quem é acossado
e atrás de si pressente a perseguição implacável.

E os nevões sucederam-se, nevava em Alma Ata,
nevava nos contra-fortes dos montes Tien-Shan,
nevava em Prinkipo, a ilha predilecta da minha afeição,
onde ficou perdido o melhor cão que já tive,
nevava na Noruega – assim como nevou em todas
as casas do precário asilo que me foi permitido,
até mesmo aqui em Coyoacán, sobre a minha mesa de trabalho,
nestes lençóis, sobre a colecção de cactos que iniciei
para aquietar a fadiga da perseguição, da angústia, do desgosto.

Ah, Natália Sedova, está a nevar nesta cama e eu sei
que é o sangue que neva da minha cabeça que alaga as almofadas
e inunda o soalho e as tuas mãos, e que Rámon Mercader, a mando de Estaline,
conseguiu o queria, dar-me o golpe que a todos recompensa, por esta neve
infalível que sempre me acompanhou e me há-de levar
ao sepulcro e ao tempo futuro.


© de Amadeu Baptista

terça-feira, 4 de junho de 2013

Jóhann Hjálmarsson



POEMAS DE JÓHANN HJÁLMARSSON

TARDE EM BARCELONA

Lá chegam as sombras
verdade de árvores verdes
e sob as palmeiras
António está a pensar
como as sombras são tristes.

O pão branco na mesa
e o vinho na garrafa
são a carne e o sangue
de António o de Granada

Formigas diligentes
anunciam a mensagem
dos homens que encontraram
na terra de Espanha
semente de esperança

Praça da Catalunha
arrulham as pombas
e esqueço no crepúsculo
que são tristes as sombras

Malbikud hjörtu, 1961


O ÁCER

Caem à terra no bosque as folhas do ácer:
palmas vermelhas de deuses com mensagens do céu.
Um homem com um cajado vai pelo estreito caminho.
Alcança-o a carroça do reino dos mortos
com umas poucas almas rumo ao infinito
lá onde o caminho alarga: já escurece.
O ancião coxeia pelo caminho gelado
detém-se, olha para trás. A árvore
sonha noites de inverno e luz azul de lua.
Transcorreu o tempo; nunca tinha estado aqui:
apenas o fugaz instante. Correm os esquilos
com o seu focinho assustado, pele da veleidade.
O ancião tenta procurar nas suas recordações
a sua memória leva-o muito longe deste bosque:
uma nuvem violeta num silêncio eterno.
Olha para trás. O que era o que viu
e onde estão os pássaros que cantavam outrora?
Procura com o seu cajado na chuva de folhas,
a sua alma sobe à árvore. E fala o ácer
com a voz de uma vida esquecida.

Mig hefur dreymt thetta ádur, 1965


CÂNTICO

No final desta tarde penso de outra maneira
porque em mim entrou o cântico da madrepérola.
O anjo do álcool sussurrou-me ao ouvido
como roca que fiasse em negro alcantilado:
Vives como um meteorito entre as estrelas
sem que possas desfazer-te ou cair no vazio.

Desço para a praia entre as margaridas.
Vejo um raio do céu cair sobre o espelho do mar
o amarelo mundo da areia abre as sua corola de pedras
e com o ruído de remos de um ignoto barco
revela-se-me então a solução do cântico,
a promessa do anjo.

Mig hefur dreymt thetta ádur, 1965



TRÊS FACES

Três faces da noite.
Quero ver-te adormecida
sob as laranjeiras.
Tu és o meu medo
que já não teme nada,
o meu grito que desgasta os troncos.
Eu sou o animal e o suave zéfiro.
Sou tudo o que quer alcançar-te,
e absorver-te e banhar-se na tua seiva,
e morrer uma morte viva na tua carne.
Colho-te e transfiro-te para a minha desesperança
e o meu desejo é um criador de mundos.
A minha primeira face é propriedade tua.
A minha segunda face é propriedade tua.
A minha terceira face é propriedade tua.
A minha falta de rosto é o riso da destruição
que faz em pedaços os sorrisos
e não lhe importa a procriação.
Quero estar a teu lado
para dissolver-me na noite
e para acordar com a manhã
num mundo em luta,
a tua voz
encerrada numa árvore rugosa.
Oh, nascimento e luta, breve vida animal.

Nytt lauf, nytt myrkur, 1967



PRAIA CATALÃ

Esta praia tão extensa
aonde leva?
Ouço os peixes
e a areia que se queixa
sob os meus pés.
Caminho pela margem
e as ondas voam sobre o mar
brancas, de peito azul.
Eu quero caminhar por esta praia
até que anoiteça
e quando a noite encher a terra
com aromas de anis
sentar-me-ei
e descansarei um instante
até que o novo dia
chegue pelo areal.
Praia do meu coração e praia da minha alma.
Alguma coisa no ar diáfano
recorda o nascimento
de um menino, redentor
da nossa desesperança
e da insónia
do pinheiros.

Nytt lauf, nytt myrkur, 1967



ILUSÃO

Aqui estás,
imaginação, ilusão.
Tenho-te não te solto.
És-me fiel
ainda que às vezes te faças
esperar
muito.
Por fim vens
a mim
e os teus pretendentes
perdem-te
e choram
em silêncio
ou com rugidos redobrados.

Tenho-te a meu lado
e no teu sorriso vejo
que não partirás,
soprem como soprarem os ventos,
respirem como respirarem as árvores,
e morram como morram os fogos.
Tu vives nas asas das borboletas
e no meu resplandecente desespero
nas ruas de outro país
e no quarto escuro
da dúvida.

Nytt lauf, nytt myrkur, 1967



SALMO

Há alguma coisa que não cresce
alguma coisa nas árvores e na luz do sol
e em todas as colunatas escuras.

Há alguma coisa em todos os nossos peitos,
que não dominamos,
que não pode crescer.

É algo
que não podemos perder.

É a presença de Deus?

A fé?

Nytt lauf, nytt myrkur, 1967




O RIO

Todo o dia estive a tentar
aproximar-me dos livros,
repousando numa cadeira estofada
do salão claro.
Estão nas prateleiras
em ordenadas filas
belamente encadernados.
À vista estão os nomes
famosos, tentadores.
Mas não me levanto
nem vou à biblioteca
nem acolho um livro na mão.
Há um rio caudaloso
entre eles e eu
que chega até ao jardim
com as suas flores, as suas árvores, o seu sol.

Athvarf í himingeimnum, 1973


FUGA

O encontro com a multidão era demasiado para ele.
Voltar a ver as casas,
os automóveis, sentir as calçadas
e ouvir o estrépito,
rodeado de velocidade,
propósitos, deveres.
Encontrava-se num mundo estranho
onde tudo era demasiado familiar
para poder reconciliar-se
com tudo o que era estranho a si.
Era demasiado para ele
voltar a nascer nesse mesmo mundo.
Deu apenas alguns passos.
E assim começou a fuga.

Athvarf í himingeimnum, 1973

  

PRIMAVERA ISLANDESA

Os dias crescem. Deixou de fazer frio.
O sol e a calma sobem
à montanha coberta de gelo
recordação do inverno;
nas nossas veias derrete-se o passado:
testemunho da noite
e do gelo, esta estação inicial
e interminável. A terra com a sua cruz
que temos feito
com a nossa conveniência
o nosso inferno.

Ákvördunarstadur myrkird, 1985



É A MORTE A ÚNICA SAÍDA (Octavio Paz)

É a morte a única saída?
A meta, além dos mares e das montanhas.
A montanha é o eco da morte, a água é o reflexo
da morte.
E no entanto a morte é brisa, sopro no desfiladeiro,
onda na superfície da água.
É a morte a única saída?
A história tem o rosto da morte,
tudo o que se mostra aos nossos olhos,
tudo o que tocamos, pertence à morte.
No marco miliário está a morte
e na estrema das palavras.
O esvoaçar do mergulhão
no mais alto do páramo
revela-nos algo sobre a morte.
É a morte a única saída?
Nenhum caminho leva longe.
Mas quando nos detemos,
e não podemos continuar
a nossa vontade acompanha a morte
e as duas, incansáveis,
seguem caminho.

Ákvördunarstadur myrkird, 1985



COSTAS

                A vida é sonho (Calderón)

Despertar nesta ânsia:
ver os mares e oceanos,
rochas, algas, areia amarela.
E recordá-lo aqui, na praia branca
junto a outro oceano, outro mar.
A calma da tarde transborda
sobre as mesas, os pratos, as mãos, os olhos.
Há proximidade e distância no ar,
um pouco de impaciência, e sobretudo
saudades de ontem.

Gluggar hafsins, 1989



A REPETIÇÃO

A repetição está no vento cálido
que esta noite não arrasta consigo
senão lembranças, lembranças, lembranças.
O vento é repetição, o canto é repetição.
Recordarás
que esta noite era cálido o vento.
Após muitos anos e muitas repetições
serás mais velho que esta noite
e importar-te-á ainda menos
se a lua andaluza ali em cima
que interrogas
está cheia ou não
ou se é visível.
Agora está no minguante,
essa voz da repetição
por cima de nós
e no mais íntimo de nós
branca de orvalho
como uma cúpula longínqua –
onde não chega o vento cálido.

Gluggar hafsins, 1989


CÂNTICO

No final desta tarde penso de outra maneira
porque em mim entrou o cântico da madrepérola.
O anjo do álcool sussurrou-me ao ouvido
como roca que fiasse em negro alcantilado:
Vives como um meteorito entre as estrelas
sem que possas desfazer-te ou cair no vazio.

Desço para a praia entre as margaridas.
Vejo um raio do céu cair sobre o espelho do mar
o amarelo mundo da areia abre as sua corola de pedras
e com o ruído de remos de um ignoto barco
revela-se-me então a solução do cântico,
a promessa do anjo.


Versão minha - © Amadeu Baptista


Jóhann Hjálmarsson, nasceu em 1939. O seu primeiro livro, de 1956, causou sensação no panorama literário islandês. O seu estilo é muito variado. Os seus versos são umas vezes simples e directos e outras vezes cheios de imagens complexas. Publicou 14 livros de poemas.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

William Heinesen


POEMAS DE WILLIAM HEINESEN


EM CASA NA TERRA

Conheço um país
onde o dia invernoso sobre o mar
é como o crepúsculo entre velhas tumbas.

Aqui, em frente a uma ceia de pão e peixe
há uma velha e magra anciã sem carnes
de mãos venosas e dedos retorcidos
mas com um coração transbordante de formosos sorrisos.

De novo estou em casa.
O leite sabe a feno e a fumo de turfa.
A chaleira borbulha compenetrada sobre o fogo.
Lá fora cantam
incompreensivelmente muitos milhões de toneladas de água.

Lá fora revoluteiam alegres bandos nocturnos de estorninhos invernais.
As ovelhas descansam no monte
com orvalho e aurora boreal na lã.

Na praia está a grua
no mesmo lugar e na mesma posição
que na época do faraó Pepi I.
Na água passeiam barbos e xarrocos
pelos bosquezinhos de palmeiras de algas
saudando sem pressa com a cauda
o caranguejo.

E o anarrico – vermelho anilina e verde fel
e violeta como uma mão congelada
e aziagamente negro azulado como gangrena num pé
e com lúpus no estômago e lepra no costado
e com duas cânulas na cabeça –
colou-se com a sua ventosa a uma pedra do fundo,
agarrou-se com os dentes ao planeta Tellus,
e finge que é uma flor tão formosa
como a mais bela no céu e no inferno.

E que acontece com a cria do picão
que é tão minúscula como a mais pequena vírgula do apocalipse?
E que ocorre com a baleia,
esse filho grande e solitário de Deus,
que espirra tão confiada nos lugares desolados?

Ai mãe, quando estamos satisfeitos
de comer, de falar, de nos rirmos e de nos maravilhar-nos,
vai cada um para seu lado:
eu para a minha cama,
onde distraído abro a eclusa intemporal do sonho –
tu para a tua tumba,
onde sussurra a erva familiarmente
com a sua voz de escuridão e eternidade.

Hymne og harmsang, 1961



HYMNUS AMORIS

                        Anna Magdalena e Johan Sebastian Bach
                                               piæ memoriæ

FANTASIA

«Dentro de mil anos,
sim, dentro de milhões de anos
dir-te-ei:
Sabes onde estás?
Está no meu coração.»


FUGA

Sim! responder-te-ei com alegria
dos intemporais campos celestes por onde caminho:
«Estou no teu coração,
e que feliz que sou!

Sou o sal no teu sangue,
o vetusto sabor a mar de que vieste.

Sou a maré eterna
de noite e dia nos teus olhos
que a luz criou
e que voltou a criar a luz
e lhe deu conteúdo.

Sou o caracol do teu ouvido,
a bigorna e o martelo
que bate delicadamente a matéria prima sonora do mundo
dando-lhe sentido.

Sou a brisa
que percorre as coroas dos teus pulmões,
o oxigénio e o dióxido de carbono
que se permutam eternamente
com o verdor doméstico da terra.

Sou a humidade na tua boca,
as papilas gustativas da tua língua,
o ácido clorídrico na retorta do teu estômago,
a força nas tuas entranhas
que extraem a essência do núcleo da terra
e alimentam as miríades de células vitais do
teu corpo.

Sou o profundo mistério da concepção
no teu interior
em cujas trevas a lua
se acende e se apaga invisível.

Sou o jovem fruto solitário
da vetusta árvore do mundo da tua matriz
e sou o manancial de leite
nos teus seios.

Sou o cálcio nos teus ossos,
a flexibilidade nos teus tendões e membros,
o coriáceo do teu cabelo e das tuas unhas.
E sou o iluminado aroma
que emanam os poros da tua pele.

Sou a veemência
nas correntes das tuas artérias
e a mansidão
no delta azul das tuas veias.
Sou a incandescente energia
nas ramificações bruxuleantes dos teus nervos
sim, sou a carga eléctrica da vida
na tua alma.

Sou os temerários dentes no teu sorriso
quando estás contente.
Sou a doçura secreta da ternura na tua tristeza.
Sou o redemoinho de fogo da tua angústia
e o fogo do meu enfurecido amor
fará da tua dor cinzas.»

Hymne og harmsang, 1961



OLÍMPIA

O lavagante já não se deleita
com o coração do marinheiro náufrago da guerra.
Apetecível apresenta-se agora no seu delicado vermelho
sobre o prato da jovem viúva
e em breve adquirirá maneiras mais elegantes
quando se incorporar ao seu metabolismo sublime.

O mugido agónico do boi emudeceu
mas mancha o seu claro sangue
os joviais dentes dela.
Foi teu destino, oh, afortunado,
partilhar o tecido celular com ela
e conservar o calor dos seus sonhos.

As migrações da enguia
que tanto emocionaram os sábios
acabaram nas profundidades sob a sua ágil campânula.
O esturjão não encontrou nunca refúgio mais belo para as suas crias
do que as sadias entranhas dela.
As mudas uvas do Reno e do Ródano
desprenderam um delicioso discurso na sua língua
e o seu novo amante sorriu placidamente.

E no final da série destas oferendas da vida,
a morte fez-se notar discretamente
através do efémero aroma a queijo putrefacto
e o espírito entregou o seu tributo
sob a forma de bênção sacerdotal
que como uma suave aura rodeava
a garrafa de licor dos amantes enfeitada com uma cruz
enquanto as suas bocas se encontravam.

Então um suspiro percorreu a criação
e o peixe voltou às suas águas
e os animais aos seus prados
e os mortos às suas covas nas trevas.

Hymne og harmsang, 1961



AS TREVAS FALAM AO ARBUSTO EM FLOR

Eu sou a treva.
Sentes a minha face sobre a tua?
Sentes a minha negra boca sobre a tua vermelha?

Sim, tu és a treva e assustas-me.
Tu és a noite e a eternidade.
Sinto o tua gélida respiração.
Tu és a morte.
Queres que eu murche,
E tenho tanta vontade de viver e florescer!

Sou a treva.
Amo-te.
Quero que murches.
Que floresças e murches.
Que murches e ressurjas com as tuas flores.
Que murchas e floresças uma e outra vez.

Sou a noite. A morte. A Eternidade.
Amo-te.
Desesperava se não existisses
e não me estivesses esperando aqui
com o ansioso alento das tuas fugazes flores.
Com o vivo tropel dos teus irmãos,
cálidos beijos vermelhos,
na profundidade do meu coração solitário.

Panorama med reghbue, 1972


Versão minha - © Amadeu Baptista



William Heinesen, nasceu em 1900, em Thorshvn, uma das ilhas Faroé e faleceu em 1990. Estudou na Escola Superior de Comércio de Copenhaga. O seu primeiro livro de poesia data de 1921. Foi pintor, músico e poeta. Escreveu romances de carácter épico, assim como numerosas novelas e contos centrados no seu universo insular. Foi membro da Academia Dinamarquesa a partir de 1961.

terça-feira, 28 de maio de 2013

O Bosque Cintilante # 81


Felix Mendelssohn: Canção da Gôndola Veneziana

Religando esse ponto que em segredo
aguarda o leve clarim que vem dos anjos
à forma evanescente que o comanda,
eu sei de que mistério as mágoas se alimentam
e como é triste a lhaneza extrema.
Só por esse sobressalto reconheço
o que em mim dói e se extravia
nos gumes líquidos de Veneza.

O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista




sábado, 25 de maio de 2013

Nuno Dempster, Uma Paisagem na Web

Os livros dos meus amigos meus amigos são:



(...)


Eis o país
de há dois mil e duzentos anos
que não sei se agoniza,

os pequenos países hoje são
paisagens na Web
isentas de sinais,

mas sinto a predação,
ameaça tocada pelo vento sul
que traz a chuva e as más novas
e alaga o susto,
muito depois de Galba ter passado
na serra ali defronte.

(...)


Nuno Dempster
Uma Paisagem na Web
& Etc, 2013