quinta-feira, 6 de junho de 2013

Prémio de Poesia Cidade de Ourense

Notícia do jornal Faro de Vigo, de hoje:

«El escritor portugués Amadeu Baptista ha sido el ganador del XXIX Premio de Poesía Cidade de Ourense por la obra Un pouco acima da miseria. El jurado lo califica como "un libro de excepcional personalidad. Una respiración poética amplia, un trabajo minucioso de lenguaje, que está en la base de una tensión poética intensa". Amadeu Baptista nació en Oporto en 1953. Cuenta con una amplia bibliografía. Colaborador habitual de periódicos, revistas, libros colectivos y antologías en diversos países de Europa y América.»

Para os amigos e visitantes deste blog deixo um poema do original 'Um pouco acima da miséria', que acaba de vencer a edição deste ano do Prémio de Poesia Cidade de Ourense e que conta, desde já, com a publicação da obra a concurso em Espanha:



MURMURAÇÃO DE LEÓN TROTSKY NO SEU LEITO DE MORTE

Natália Sedova, olha-me, peço-te que me olhes fixamente
– de mim não escutarás um único gemido, mas dir-te-ei
que a última flor do terrífico é a beleza, como te disse há muito,
como repetidas vezes te disse e agora repito neste meu último fôlego:
o terrífico é a beleza, tal como tudo é neve em nós,
de vitória em vitória, ou derrota em derrota,
ou um verso aterrador de Pushkin ou Maiakovski.

Não vês a revolução permanente neste trapo vermelho
enrolado à volta da minha cabeça, enquanto ponho
os olhos num infinito não muito distante?

Que te parece este exílio, estes dias luminosos de tequila e mezcal,
estes encontros com Frida, que de tudo fala como se pintasse,
enquanto tu cozinhas deliciosamente e eu escrevo sem parar
como se não haja em nós senão comoção?

Nesta cama, onde já só aguardo a morte,
porque é de morte que estou ferido,
não te parece que tudo em mim potencia a neve e o degelo
em contraponto à dor, esse axioma de múltiplos postulados
que a dialéctica acabará por resolver,
tal como resolverá a luta de classes?

Não te parece que, desde que o mundo é mundo, o mundo
é só mudança e que para a revolução revertem
todos os sacrifícios e todos os sonhos?

Não me viste a conduzir
os exércitos entre Kazen e a Ucrânia
e como, de acordo com Lenine, o encadeamento
das batalhas faz todo o sentido?

Deixa que olhe o tecto desta casa estranha e que veja o que vejo:
com certeza é mágoa o que diviso, mas, ainda assim, deixa
que veja um exército alucinado sempre em marcha, um exército
em busca de futuro, mesmo que não haja futuro, ou não haja
soldados quando a guerra terminar.

Deixa que sinta este arrepio a percorrer-me o corpo
como uma ventania poderosa que varresse a estepe
e nunca mais parasse,
e fizesse de mim um homem retemperado e livre.

Inquieta-te ou não te inquieta o esgar
que me modela o rosto, agora que a morte
penetrou o meu crânio e nada mais poderei fazer
do que sentir estas dores intratáveis e a ligadura
a encher-se de sangue, enquanto tu, Natália Sedova,
pões os olhos em mim e ouves comigo o riso longínquo de Estaline
a celebrar, não a morte de um inimigo de classe,
mas a classe de um inimigo – eu mesmo neste leito,
sem temor, sem pavor pelo fim, apaziguado
pela benignidade revolucionária de quem está a morrer?

Digo que é preciso acautelar as coisas, cada clarão, cada
gesto suspeito, e que não devemos confiar se alguém
se apresentar em nossa casa como sendo um amigo,
um amigo belga que não é belga, mas alguém insidioso
que quer ter uma história para contar, uma história
tremenda, a história do meu assassinato,
e quer frequentar a nossa intimidade para nos matar,
porque no Kremlin governa Estaline e, com ele, está a neve,
a neve implacável que sem tréguas nos persegue
e é um curso sangrento, entre sápatras e sequazes,
um curso de brancura que nos quer eliminar.

Creio na fuga, no exílio permanente.
Talvez a revolução seja isso, ter um inimigo
às costas e nunca lhe ver os olhos,
e ter de dormir com a eficácia de um fugitivo,
juntando as botas a um canto, e os filhos,
e toda a parafernália de pensamentos
que aliviem, ainda que por instantes,
o medo e o paroxismo de ser acossado
por uma mão invisível e omnipotente, uma mão
mais poderosa que a mão do acaso, ou a mão de Deus.

Abro a cigarreira e é neve o que encontro,
a caneta que uso é com neve que a encho,
e, quando escrevo, é neve o que alastra
no papel, neve a expandir-se sobre a terra,
enquanto a minha boca é neve que cospe,
a neve da proscrição, a neve da Sibéria,
da Turquia e da França, neve infinita
como a única amargura de quem não pode permanecer
em qualquer lugar que esteja e, em cada sombra,
apreende uma ameaça, em cada ruído, em cada
estalido das juntas de madeira da cama em que dorme.

O que digo é que uma sombra pode soterrar um homem,
uma sombra entre as sombras pode envenenar
a alma de um homem, e que as sombras são como a neve,
estendem-se à frente dos olhos e é como se a luz
favorecesse a ameaça, e fosse a revolução a  própria ameaça,
e nada mais houvesse que essa ameaça a perseguir-nos a cada instante
e em todos os lugares, de Kronstadt à Cidade do México,
de todos os lugares em que estive até todos os papéis que escrevi,
do mais simples panfleto até à sentença de morte de um desertor
ou de um burguês contra-revolucionário.

Creio na fuga, digo. Na fuga há uma tensão que favorece
o improviso, e a vida é isso mesmo, um improviso perpétuo
para sobreviver: junta-se um fio a outro, e outro a outro,
até que fica pronta a bagagem que essa corda
há-de prender –  nessa mala depomos tudo o que é nosso,
os livros que escrevemos, as mulheres que amamos,
as sombras que a nossa intimidade reconheceu
e a corda do improviso ata a esse passo decisivo,
a fuga que é preciso empreender porque as sombras, tal como a neve,
podem adquirir qualquer forma para quem é ameaçado,
a forma de um punhal, de uma pistola, de um copo
de veneno, de uma picareta de alpinista, de pontas aguçadas,
pronta a ser desferida sobre a nossa cabeça.

Digo que o exílio é como a neve, sempre e sempre
a adensar-se sobre nós, por mais que o fogo abrase,
ou nos incendeiem a casa, ou, no ímpeto da fuga,
passemos de um país a outro, e no novo país a que aportemos
tudo seja mais cálido, mais confiável, mais acolhedor.

Ah, mas o certo é que pomos um pedaço de neve no samovar,
preparamos o chá e a água fervente, o infusor de prata,
e é sempre neve o que bebemos, a neve perpétua
de nos querermos aquecer por dentro, a conhecer
o frio permanente de quem é acossado
e atrás de si pressente a perseguição implacável.

E os nevões sucederam-se, nevava em Alma Ata,
nevava nos contra-fortes dos montes Tien-Shan,
nevava em Prinkipo, a ilha predilecta da minha afeição,
onde ficou perdido o melhor cão que já tive,
nevava na Noruega – assim como nevou em todas
as casas do precário asilo que me foi permitido,
até mesmo aqui em Coyoacán, sobre a minha mesa de trabalho,
nestes lençóis, sobre a colecção de cactos que iniciei
para aquietar a fadiga da perseguição, da angústia, do desgosto.

Ah, Natália Sedova, está a nevar nesta cama e eu sei
que é o sangue que neva da minha cabeça que alaga as almofadas
e inunda o soalho e as tuas mãos, e que Rámon Mercader, a mando de Estaline,
conseguiu o queria, dar-me o golpe que a todos recompensa, por esta neve
infalível que sempre me acompanhou e me há-de levar
ao sepulcro e ao tempo futuro.


© de Amadeu Baptista

terça-feira, 4 de junho de 2013

Jóhann Hjálmarsson



POEMAS DE JÓHANN HJÁLMARSSON

TARDE EM BARCELONA

Lá chegam as sombras
verdade de árvores verdes
e sob as palmeiras
António está a pensar
como as sombras são tristes.

O pão branco na mesa
e o vinho na garrafa
são a carne e o sangue
de António o de Granada

Formigas diligentes
anunciam a mensagem
dos homens que encontraram
na terra de Espanha
semente de esperança

Praça da Catalunha
arrulham as pombas
e esqueço no crepúsculo
que são tristes as sombras

Malbikud hjörtu, 1961


O ÁCER

Caem à terra no bosque as folhas do ácer:
palmas vermelhas de deuses com mensagens do céu.
Um homem com um cajado vai pelo estreito caminho.
Alcança-o a carroça do reino dos mortos
com umas poucas almas rumo ao infinito
lá onde o caminho alarga: já escurece.
O ancião coxeia pelo caminho gelado
detém-se, olha para trás. A árvore
sonha noites de inverno e luz azul de lua.
Transcorreu o tempo; nunca tinha estado aqui:
apenas o fugaz instante. Correm os esquilos
com o seu focinho assustado, pele da veleidade.
O ancião tenta procurar nas suas recordações
a sua memória leva-o muito longe deste bosque:
uma nuvem violeta num silêncio eterno.
Olha para trás. O que era o que viu
e onde estão os pássaros que cantavam outrora?
Procura com o seu cajado na chuva de folhas,
a sua alma sobe à árvore. E fala o ácer
com a voz de uma vida esquecida.

Mig hefur dreymt thetta ádur, 1965


CÂNTICO

No final desta tarde penso de outra maneira
porque em mim entrou o cântico da madrepérola.
O anjo do álcool sussurrou-me ao ouvido
como roca que fiasse em negro alcantilado:
Vives como um meteorito entre as estrelas
sem que possas desfazer-te ou cair no vazio.

Desço para a praia entre as margaridas.
Vejo um raio do céu cair sobre o espelho do mar
o amarelo mundo da areia abre as sua corola de pedras
e com o ruído de remos de um ignoto barco
revela-se-me então a solução do cântico,
a promessa do anjo.

Mig hefur dreymt thetta ádur, 1965



TRÊS FACES

Três faces da noite.
Quero ver-te adormecida
sob as laranjeiras.
Tu és o meu medo
que já não teme nada,
o meu grito que desgasta os troncos.
Eu sou o animal e o suave zéfiro.
Sou tudo o que quer alcançar-te,
e absorver-te e banhar-se na tua seiva,
e morrer uma morte viva na tua carne.
Colho-te e transfiro-te para a minha desesperança
e o meu desejo é um criador de mundos.
A minha primeira face é propriedade tua.
A minha segunda face é propriedade tua.
A minha terceira face é propriedade tua.
A minha falta de rosto é o riso da destruição
que faz em pedaços os sorrisos
e não lhe importa a procriação.
Quero estar a teu lado
para dissolver-me na noite
e para acordar com a manhã
num mundo em luta,
a tua voz
encerrada numa árvore rugosa.
Oh, nascimento e luta, breve vida animal.

Nytt lauf, nytt myrkur, 1967



PRAIA CATALÃ

Esta praia tão extensa
aonde leva?
Ouço os peixes
e a areia que se queixa
sob os meus pés.
Caminho pela margem
e as ondas voam sobre o mar
brancas, de peito azul.
Eu quero caminhar por esta praia
até que anoiteça
e quando a noite encher a terra
com aromas de anis
sentar-me-ei
e descansarei um instante
até que o novo dia
chegue pelo areal.
Praia do meu coração e praia da minha alma.
Alguma coisa no ar diáfano
recorda o nascimento
de um menino, redentor
da nossa desesperança
e da insónia
do pinheiros.

Nytt lauf, nytt myrkur, 1967



ILUSÃO

Aqui estás,
imaginação, ilusão.
Tenho-te não te solto.
És-me fiel
ainda que às vezes te faças
esperar
muito.
Por fim vens
a mim
e os teus pretendentes
perdem-te
e choram
em silêncio
ou com rugidos redobrados.

Tenho-te a meu lado
e no teu sorriso vejo
que não partirás,
soprem como soprarem os ventos,
respirem como respirarem as árvores,
e morram como morram os fogos.
Tu vives nas asas das borboletas
e no meu resplandecente desespero
nas ruas de outro país
e no quarto escuro
da dúvida.

Nytt lauf, nytt myrkur, 1967



SALMO

Há alguma coisa que não cresce
alguma coisa nas árvores e na luz do sol
e em todas as colunatas escuras.

Há alguma coisa em todos os nossos peitos,
que não dominamos,
que não pode crescer.

É algo
que não podemos perder.

É a presença de Deus?

A fé?

Nytt lauf, nytt myrkur, 1967




O RIO

Todo o dia estive a tentar
aproximar-me dos livros,
repousando numa cadeira estofada
do salão claro.
Estão nas prateleiras
em ordenadas filas
belamente encadernados.
À vista estão os nomes
famosos, tentadores.
Mas não me levanto
nem vou à biblioteca
nem acolho um livro na mão.
Há um rio caudaloso
entre eles e eu
que chega até ao jardim
com as suas flores, as suas árvores, o seu sol.

Athvarf í himingeimnum, 1973


FUGA

O encontro com a multidão era demasiado para ele.
Voltar a ver as casas,
os automóveis, sentir as calçadas
e ouvir o estrépito,
rodeado de velocidade,
propósitos, deveres.
Encontrava-se num mundo estranho
onde tudo era demasiado familiar
para poder reconciliar-se
com tudo o que era estranho a si.
Era demasiado para ele
voltar a nascer nesse mesmo mundo.
Deu apenas alguns passos.
E assim começou a fuga.

Athvarf í himingeimnum, 1973

  

PRIMAVERA ISLANDESA

Os dias crescem. Deixou de fazer frio.
O sol e a calma sobem
à montanha coberta de gelo
recordação do inverno;
nas nossas veias derrete-se o passado:
testemunho da noite
e do gelo, esta estação inicial
e interminável. A terra com a sua cruz
que temos feito
com a nossa conveniência
o nosso inferno.

Ákvördunarstadur myrkird, 1985



É A MORTE A ÚNICA SAÍDA (Octavio Paz)

É a morte a única saída?
A meta, além dos mares e das montanhas.
A montanha é o eco da morte, a água é o reflexo
da morte.
E no entanto a morte é brisa, sopro no desfiladeiro,
onda na superfície da água.
É a morte a única saída?
A história tem o rosto da morte,
tudo o que se mostra aos nossos olhos,
tudo o que tocamos, pertence à morte.
No marco miliário está a morte
e na estrema das palavras.
O esvoaçar do mergulhão
no mais alto do páramo
revela-nos algo sobre a morte.
É a morte a única saída?
Nenhum caminho leva longe.
Mas quando nos detemos,
e não podemos continuar
a nossa vontade acompanha a morte
e as duas, incansáveis,
seguem caminho.

Ákvördunarstadur myrkird, 1985



COSTAS

                A vida é sonho (Calderón)

Despertar nesta ânsia:
ver os mares e oceanos,
rochas, algas, areia amarela.
E recordá-lo aqui, na praia branca
junto a outro oceano, outro mar.
A calma da tarde transborda
sobre as mesas, os pratos, as mãos, os olhos.
Há proximidade e distância no ar,
um pouco de impaciência, e sobretudo
saudades de ontem.

Gluggar hafsins, 1989



A REPETIÇÃO

A repetição está no vento cálido
que esta noite não arrasta consigo
senão lembranças, lembranças, lembranças.
O vento é repetição, o canto é repetição.
Recordarás
que esta noite era cálido o vento.
Após muitos anos e muitas repetições
serás mais velho que esta noite
e importar-te-á ainda menos
se a lua andaluza ali em cima
que interrogas
está cheia ou não
ou se é visível.
Agora está no minguante,
essa voz da repetição
por cima de nós
e no mais íntimo de nós
branca de orvalho
como uma cúpula longínqua –
onde não chega o vento cálido.

Gluggar hafsins, 1989


CÂNTICO

No final desta tarde penso de outra maneira
porque em mim entrou o cântico da madrepérola.
O anjo do álcool sussurrou-me ao ouvido
como roca que fiasse em negro alcantilado:
Vives como um meteorito entre as estrelas
sem que possas desfazer-te ou cair no vazio.

Desço para a praia entre as margaridas.
Vejo um raio do céu cair sobre o espelho do mar
o amarelo mundo da areia abre as sua corola de pedras
e com o ruído de remos de um ignoto barco
revela-se-me então a solução do cântico,
a promessa do anjo.


Versão minha - © Amadeu Baptista


Jóhann Hjálmarsson, nasceu em 1939. O seu primeiro livro, de 1956, causou sensação no panorama literário islandês. O seu estilo é muito variado. Os seus versos são umas vezes simples e directos e outras vezes cheios de imagens complexas. Publicou 14 livros de poemas.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

William Heinesen


POEMAS DE WILLIAM HEINESEN


EM CASA NA TERRA

Conheço um país
onde o dia invernoso sobre o mar
é como o crepúsculo entre velhas tumbas.

Aqui, em frente a uma ceia de pão e peixe
há uma velha e magra anciã sem carnes
de mãos venosas e dedos retorcidos
mas com um coração transbordante de formosos sorrisos.

De novo estou em casa.
O leite sabe a feno e a fumo de turfa.
A chaleira borbulha compenetrada sobre o fogo.
Lá fora cantam
incompreensivelmente muitos milhões de toneladas de água.

Lá fora revoluteiam alegres bandos nocturnos de estorninhos invernais.
As ovelhas descansam no monte
com orvalho e aurora boreal na lã.

Na praia está a grua
no mesmo lugar e na mesma posição
que na época do faraó Pepi I.
Na água passeiam barbos e xarrocos
pelos bosquezinhos de palmeiras de algas
saudando sem pressa com a cauda
o caranguejo.

E o anarrico – vermelho anilina e verde fel
e violeta como uma mão congelada
e aziagamente negro azulado como gangrena num pé
e com lúpus no estômago e lepra no costado
e com duas cânulas na cabeça –
colou-se com a sua ventosa a uma pedra do fundo,
agarrou-se com os dentes ao planeta Tellus,
e finge que é uma flor tão formosa
como a mais bela no céu e no inferno.

E que acontece com a cria do picão
que é tão minúscula como a mais pequena vírgula do apocalipse?
E que ocorre com a baleia,
esse filho grande e solitário de Deus,
que espirra tão confiada nos lugares desolados?

Ai mãe, quando estamos satisfeitos
de comer, de falar, de nos rirmos e de nos maravilhar-nos,
vai cada um para seu lado:
eu para a minha cama,
onde distraído abro a eclusa intemporal do sonho –
tu para a tua tumba,
onde sussurra a erva familiarmente
com a sua voz de escuridão e eternidade.

Hymne og harmsang, 1961



HYMNUS AMORIS

                        Anna Magdalena e Johan Sebastian Bach
                                               piæ memoriæ

FANTASIA

«Dentro de mil anos,
sim, dentro de milhões de anos
dir-te-ei:
Sabes onde estás?
Está no meu coração.»


FUGA

Sim! responder-te-ei com alegria
dos intemporais campos celestes por onde caminho:
«Estou no teu coração,
e que feliz que sou!

Sou o sal no teu sangue,
o vetusto sabor a mar de que vieste.

Sou a maré eterna
de noite e dia nos teus olhos
que a luz criou
e que voltou a criar a luz
e lhe deu conteúdo.

Sou o caracol do teu ouvido,
a bigorna e o martelo
que bate delicadamente a matéria prima sonora do mundo
dando-lhe sentido.

Sou a brisa
que percorre as coroas dos teus pulmões,
o oxigénio e o dióxido de carbono
que se permutam eternamente
com o verdor doméstico da terra.

Sou a humidade na tua boca,
as papilas gustativas da tua língua,
o ácido clorídrico na retorta do teu estômago,
a força nas tuas entranhas
que extraem a essência do núcleo da terra
e alimentam as miríades de células vitais do
teu corpo.

Sou o profundo mistério da concepção
no teu interior
em cujas trevas a lua
se acende e se apaga invisível.

Sou o jovem fruto solitário
da vetusta árvore do mundo da tua matriz
e sou o manancial de leite
nos teus seios.

Sou o cálcio nos teus ossos,
a flexibilidade nos teus tendões e membros,
o coriáceo do teu cabelo e das tuas unhas.
E sou o iluminado aroma
que emanam os poros da tua pele.

Sou a veemência
nas correntes das tuas artérias
e a mansidão
no delta azul das tuas veias.
Sou a incandescente energia
nas ramificações bruxuleantes dos teus nervos
sim, sou a carga eléctrica da vida
na tua alma.

Sou os temerários dentes no teu sorriso
quando estás contente.
Sou a doçura secreta da ternura na tua tristeza.
Sou o redemoinho de fogo da tua angústia
e o fogo do meu enfurecido amor
fará da tua dor cinzas.»

Hymne og harmsang, 1961



OLÍMPIA

O lavagante já não se deleita
com o coração do marinheiro náufrago da guerra.
Apetecível apresenta-se agora no seu delicado vermelho
sobre o prato da jovem viúva
e em breve adquirirá maneiras mais elegantes
quando se incorporar ao seu metabolismo sublime.

O mugido agónico do boi emudeceu
mas mancha o seu claro sangue
os joviais dentes dela.
Foi teu destino, oh, afortunado,
partilhar o tecido celular com ela
e conservar o calor dos seus sonhos.

As migrações da enguia
que tanto emocionaram os sábios
acabaram nas profundidades sob a sua ágil campânula.
O esturjão não encontrou nunca refúgio mais belo para as suas crias
do que as sadias entranhas dela.
As mudas uvas do Reno e do Ródano
desprenderam um delicioso discurso na sua língua
e o seu novo amante sorriu placidamente.

E no final da série destas oferendas da vida,
a morte fez-se notar discretamente
através do efémero aroma a queijo putrefacto
e o espírito entregou o seu tributo
sob a forma de bênção sacerdotal
que como uma suave aura rodeava
a garrafa de licor dos amantes enfeitada com uma cruz
enquanto as suas bocas se encontravam.

Então um suspiro percorreu a criação
e o peixe voltou às suas águas
e os animais aos seus prados
e os mortos às suas covas nas trevas.

Hymne og harmsang, 1961



AS TREVAS FALAM AO ARBUSTO EM FLOR

Eu sou a treva.
Sentes a minha face sobre a tua?
Sentes a minha negra boca sobre a tua vermelha?

Sim, tu és a treva e assustas-me.
Tu és a noite e a eternidade.
Sinto o tua gélida respiração.
Tu és a morte.
Queres que eu murche,
E tenho tanta vontade de viver e florescer!

Sou a treva.
Amo-te.
Quero que murches.
Que floresças e murches.
Que murches e ressurjas com as tuas flores.
Que murchas e floresças uma e outra vez.

Sou a noite. A morte. A Eternidade.
Amo-te.
Desesperava se não existisses
e não me estivesses esperando aqui
com o ansioso alento das tuas fugazes flores.
Com o vivo tropel dos teus irmãos,
cálidos beijos vermelhos,
na profundidade do meu coração solitário.

Panorama med reghbue, 1972


Versão minha - © Amadeu Baptista



William Heinesen, nasceu em 1900, em Thorshvn, uma das ilhas Faroé e faleceu em 1990. Estudou na Escola Superior de Comércio de Copenhaga. O seu primeiro livro de poesia data de 1921. Foi pintor, músico e poeta. Escreveu romances de carácter épico, assim como numerosas novelas e contos centrados no seu universo insular. Foi membro da Academia Dinamarquesa a partir de 1961.

terça-feira, 28 de maio de 2013

O Bosque Cintilante # 81


Felix Mendelssohn: Canção da Gôndola Veneziana

Religando esse ponto que em segredo
aguarda o leve clarim que vem dos anjos
à forma evanescente que o comanda,
eu sei de que mistério as mágoas se alimentam
e como é triste a lhaneza extrema.
Só por esse sobressalto reconheço
o que em mim dói e se extravia
nos gumes líquidos de Veneza.

O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista




sábado, 25 de maio de 2013

Nuno Dempster, Uma Paisagem na Web

Os livros dos meus amigos meus amigos são:



(...)


Eis o país
de há dois mil e duzentos anos
que não sei se agoniza,

os pequenos países hoje são
paisagens na Web
isentas de sinais,

mas sinto a predação,
ameaça tocada pelo vento sul
que traz a chuva e as más novas
e alaga o susto,
muito depois de Galba ter passado
na serra ali defronte.

(...)


Nuno Dempster
Uma Paisagem na Web
& Etc, 2013

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Matti Rossi


POEMAS DE MATTI ROSSI


TRAGÉDIA FINLANDESA

Fartou-se, partiu,
                        com os seus pecados, com as suas virtudes, o cão
            uivou muito tempo na tumba, depois morreu,
        como morrem os cães, de fome.

A casa ficou vazia, a mulher
                        tinha partido há muito
            com Fredrikson, os filhos
andavam pelo mundo, um para os Estados Unidos.

A família sofria dos pulmões e era propensa
                        à loucura, uma das suas tias tinha visto
            Jesus Cristo no tecto do armazém de batatas,
desde então esperava a chegada de um noivo.

Um tio foi operário no Cazaquistão,
                        um velho comunista,
            fugiu dos brancos em 1918, intermediou
uma rapariga alemã, construiu uma sauna, pegou-lhe
            fogo em plena bebedeira e morreu.

Os filhos embarcaram, um
                        esfaqueou o maquinista do barco em Estocolmo
            e ainda está na cadeia, outro
perdeu o juízo nos Açores, foi a nado para a Finlândia,
            não chegou ao seu destino.

À filha viram-na pela última vez no centro finlandês de Fitchburg
            com sete filhos; o marido,
            Lobo Caçador, tinha desenterrado o machado de guerra,
            tinha assaltado um comboio de whisky e está agora
                        com Manitu.

As sorveiras estão em flor. Muitas bagas,
                        será um inverno brutal.
As rosas silvestres trepam formando um arco
pelas paredes da casa. A porta está aberta, os maçaricos gritam
                        no pantanal.

Näytelman henkilöt, 1965




– Como um cavalo voador, dizes, sonhadora.
      – E às vezes como um urso. Primeiro metia-me medo,
              sim, sim, tenho muita imaginação,
sentia a tua mão como uma
pata grande e tosca, tratava de imaginar
como seria repousar contra o teu peito peludo.
Esta manhã eras como um cavalo,
e agora mesmo começo a sentir-te
como se fosses um leão.

Cansados, mulher feliz, bem formada
cadela negra, com que
agilidade saltaste para a minha cama, tinhas comido e bebido
acreditavas que ias fazer o teu ninho.
Se soubesses quem eu sou.
Sou uma serpente de sangue turco e amanhã devorar-te-ei.

– Amanhã, devorar-te-ei, murmuro a meia voz.
– Meu amor, respondes.

Leikkeja kahdelle, 1966




Imagina, se um deles ficasse louco agora
e ardêssemos aqui
quando estão a construir um mundo melhor:

como rãs
no barro do terciário
sorrimos
mais além de milhões de anos
                        postos contra a parede
                        em algum bom museu,
                        – Isso é o que faziam antes – diz o guia,

tu sorris agradecido – Conseguiram-no
            de novo,
um gracioso acontecimento assim
no meio da tagarelice.

Leikkeja kahdelle, 1966




O PARQUE

Meu filho, isto é um parque, e aqui na sombra
está o silêncio, é um amigo teu, aprende a conhecê-lo.
Ali está a tristeza, só, com a lua ao ombro,
e ali a alegria, de mão dada com o amor, a dar voltas ao sol.
E a esperança anda por ali devagar luzindo a sua gravidez a caminho
    do jantar.

Meu filho, isto não é um parque, isto é
a zona da euromorte, a segunda, ou a terceira,
só a velocidade a que se morre a diferencia de outros parques,
tudo está calculado em alguns papéis de cinco pontas.

Não é um parque mas um campo de tiro, na erva ferros retorcidos,
cristais, corpos calcinados,
as pedras cheias de cruzes gamadas,
numa árvore um louco dispara a tudo com uma bomba de bicicleta
no lago um gato pendurado com um peso na pata,
sob os olhos salientes outro par de olhos mais malignos.

Hoje meu filho deste os primeiros passos
e caíste de bruços na gravilha. Lembra
este lugar: ruptura, sangue, lágrimas,
o gesto do teu punhinho
contra a chuva que corre ao vento chicoteando
o teu cabelo demasiado longo sobre os olhos.

Hiljaiisuus já matkatoverit, 1980




AMOR NA NEVE

Era uma manhã de domingo de finais do inverno,
o rapaz e eu respirávamos sol congelado
                        resplandecente de cristais de gelo
e soletrávamos um escrito na neve, uma antiga
caligrafia, estranha mas claramente legível:
                        Amo-vos a todos.

Naquela manhã, depois do nevão,
pôde-se ler na límpida neve dos parques de Helsínquia:
                        Amo-os.

Oh amor em declives de montanha, em lagos,
em parques infantis, em muros de pedra cobertos de gelo,
níveo amor para todos, sem consideração a ninguém
                        inesgotável
quando o indulgente inverno cobre os sujos matagais
onde se depositaram as lágrimas e os pecados de todo o mundo.

E ao pé da encosta dos trenós, rodeado por uma multidão de crianças,
                        o escrevedor:
um canzarrão grande e velho, o focinho na neve
a anotar as contas da sua vida canina:
                        Amo-vos a todos.

Bom cão, modesto, sincero:
bom ser humano, a ladrar o seu amor espontâneo
a seres iguais, sem olhar à cor da pele.

Hiljaiisuus já matkatoverit, 1980




NESTE LADO DO CORAÇÃO

Neste lado do coração ainda é noite: beneficia dela.
O menino vem aos teus braços, desenha um pássaro no ar,
o menino e tu começais a chorar quando se vai a voar.
Mas volta, traz outro consigo, lembras-te
aquele que desenhaste uma tarde,
aquele que o tempo afastou. Ris
e o menino ri-se quando voam os pássaros
para este lado do coração, e na tarde alada
distingue-se o aroma de muitos lares.

Neste lado do coração chove, é uma noite vulgar,
os pássaros foram-se, o menino dorme.
Alguém não encontra a sua casa, alguém não regressa,
alguém acaba de partir, a porta fez um estrondo,
o coração abre-se, fecha-se, chuva e mais chuva
e só se ouve um sussurro de palpitações longínquas
quando os pássaros de antanho chegam, se voltam,
voam rápidos para o outro lado do coração.

Amanhece: um espaço iluminado, cheio de solidão.
  Quando o menino acorda desenha um pássaro na tua mão.

Hiljaiisuus já matkatoverit, 1980



EM CASA MAIS DO QUE NUNCA

Quando tiro a venda dos olhos
e não me conheço a mim mesmo nem aos demais
não digas,  – Ele não está hoje em casa
ou, – Está cansado e dorme.
porque eu estou em casa mais do que nunca,
comigo mesmo, na mesa em frente àquele
                                   que era como eu
mas agora é outro, estranho, distante,
com as suas razões para isso.

Sei que o tempo passa e desaparece
e que tudo o que o menino diz é verdade e será verdade,
mas eu estou agora mais em casa do que nunca
e vejo nos olhos dos demais, vejo-me a mim mesmo
no que acabou de me incorporar,
e ele não me coage, parte, eu sei,
mas não se vai em segredo, eu vigio.

Meu amor, eu estou em casa mais do que nunca
mas o outro vai-se, eu sei,
porque o outro destes dois é inutilizável, está partido,
por isso esperamos junto à nossa mesa comum
que alguém se afaste, não eu.

Alguém se afasta, não eu,
quando tiro a venda dos olhos não tentes dizer que me fui
porque eu estou aqui, era apenas um como eu,
e agora já se foi, alguém como eu,
estranho a mim mesmo, infrequente, distante.

 Não me procures, meu amor, estou aqui,
com os olhos abertos, em casa mais do que nunca,
à minha própria mesa, aí, em frente a nós.

Hiljaiisuus já matkatoverit, 1980

Versão minha - © Amadeu Baptista




Matti Rossi, nasceu em Sortavala, em 1934. É licenciado em Letras, bolseiro nos Estados Unidos e no Instituto Shakespeare de Stratford-on-Avon; trabalhou durante cinco anos na secção finlandesa da BBC. Foi director da revista Kulttuurivihkot, entre 1978/79. É um dos poetas mais destacados da poesia política da década de 60, do séc. XX. Agora escreve uma poesia inspirada na lírica mais tradicional, como a Kavala, de que existe uma excelente tradução portuguesa.