quarta-feira, 15 de maio de 2013

Sigbørn Obstfelder



POEMAS DE SIGBØRN OBSTFELDER


VEJO

Vejo o branco céu
vejo as nuvens azul acinzentado
vejo o sol sangrento.

Então é isto que é o mundo.
Então é isto que é o lar dos planetas.

Vejo as casas altas,
vejo as mil janelas,
vejo o distante campanário.

Então é isto que é a terra.
Então é isto que é lar do homem.

As nuvens acinzentadas amontoam-se. O sol desaparece.

Vejo os senhores bem vestidos,
vejo a senhoras sorridentes,
os cavalos inclinados.

Quão pesadas ficaram as nuvens acinzentadas.

Eu vejo e vejo…
Terei chegado a um planeta errado!
Aqui tudo é tão estranho…

Digte, 1893


TORMENTOS

O que quereis de mim, rosas malditas?
Maldita lua, malditas árvores!
Sorrisos femininos por todos os lados!
Sussurros femininos, mãos femininas!

Vagabundeei entre urze e pântanos, –
eu – um deus?
O meu coração sangra, – retorce-se, encolhe,
Ela ondula as suas ancas em suaves mantas, –
ela – uma rameira!


Chorei na terra húmida, –
eu – um deus?
Ela é tão formosa – branca, branda, ardente –
o pescoço branco na almofada branca,
o cabelo castanho ondeia exuberante, ondulante –
Por que tremeis, lírios?

Ela fez deslizar as suas mãos em torno do meu pescoço –
Morte e inferno, por que estais a tremer?

…Tormentos, – tormentos que se acercam furtivamente, –
tormentos venenosos, fatigantes!

…Numa tumba à luz da lua está sentado
no cemitério entre os mortos
com uma sombra longa trémula
um homem enregelado.

Estrelas.

Vós, estrelas –
lá longe, aí onde andais,
há aí paz?
Pureza?

Caminhais tão silenciosas.
É como Deus, que respira,
as estrelas os seus pensamentos.

…As estrelas os seus pensamentos…

Dedos brancos, seios redondos, pupilas brilhantes,
– mas sem espírito algum!

Milhões de esplêndidas flores tem o campo,
milhões de radiosas borboletas,
brilham e morrem, desaparecem.
A brancura de uma mulher amarelece.

Como flores carmesim sem aroma,
os sonhos dos sentidos não têm espírito.
Como estrelas são os olhares de espírito a espírito,
como sóis os sorrisos de alma a alma,
como o calor do mundo é o abraço
entre um homem nobre e uma mulher nobre!

…Já não há lua.
Também as estrelas se apagaram.
As rosas e os lírios dormem.
Olha, o casto resplendor da alba beija,
beija a agulha do campanário.

Amanhecer!
Há na terra entre as mulheres uma
casta?

Digte, 1893


PODE FALAR O ESPELHO?

Pode falar o espelho?

O espelho pode falar!

O espelho olhar-te-á em cada manhã,
                inquisitivo,
olhar-te-á como o olho profundo, inteligente,
                 o teu!
saudar-te-á com o olho azul escuro, cálido.
              És puro?
  És fiel?

Digte, 1893



A ROSA

A rosa!
Eu amo a rosa!

Todos os lábios jovens do mundo
beijam rosas, beijam rosas.

O palpitante sonho da jovem donzela
– ninguém pode conhecê-lo
excepto…
a rosa.

Todas as mulheres do mundo mesclaram a sua respiração
com o aroma das rosas, sussurraram, como lábios trémulos,
as palavras doces, as palavras ardentes que não conhece ninguém,
ninguém excepto a rosa, que é o tremor mais ardente.
                 

Efterladte Arbeider, 1903



ROSAS

Sim, rosas! Murchai!
Murchai!

                                               *

Foi a meio do inverno, em pleno dia. Os repiques dos
sinos da igreja agrupavam-se lá em cima e desapareciam. Ali
em cima, onde o ar é puro.
    Eram cor-de-rosa e vermelho e nevavam pétalas de rosa.

                                   Carmesins da primavera,
                                   louras do Outono,
                                   brancas do inverno,
                                   amarelas do verão.

                                               *

Não! Eu não posso!
Oh – assim como – assim como – quando – –  morre!

                                               *

    Ela tinha os olhos mais doces, sim, os mais sorridentes. Estava muito
longe. Chorava.

                                               *

    Reúnem-se sobre ele, caem, gotejam, gotejam, lançam-se e agrupam-se,
reúnem-se sobre ele para formar um suave – as pétalas brancas, as pétalas vermelhas – um doce beijo de rosa, beijo de pétalas de rosa.
    No rosto, na boca, no pescoço.

                                               *

    Ai, eu não posso, não posso – eu só quero –
    Suavemente queria eu morrer! Queria sentar-me nos joelhos e beijá-la e abraçá-la e morrer como um menino obediente que fica a dormir.
    Nela, que é a morte.

                                               *

    O seu vestido fora tecido de rosas e cosido com caules. A sua respiração era
o aroma das rosas. O seu sorriso era o sorriso das rosas. Mas, os olhos?
    O seu pranto era o pranto das rosas.

                                               *

    Neva. Rosas do sol. Rosas das estrelas, milhões de rosas de meteoros que perderam o rumo. Sobre o coração deposita-se o manto de rosas e o coração aquece e palpita ligeiro.

                                               *

                                   Folhas e folhas –
                                   Palpita. – Palpita
                                   Botão após botão.
                                   Palpita. Palpita.

                                               *

    muitos olhos. Há tantos olhos como rosas. São olhos moribundos.

                                               *

    Não, são dois olhos.

                                               *

                                   São dois. São dois
                            p.     Palpita – Palpita.
                                   São dois. São dois.
pp.          Palpita. Palpita. ~

*
                                 
                                   Magnífico.
                                   Estou cego. Não vejo.

                                               *

                                   Deus.

                                               *

                                   São dois. São dois.
                                   Morre.
                                   São dois. São dois.
                                   Morre.

                                               *

                                   É um.

                                               *

    Ele jaz num mar de rosas. O mundo é – rosas, tudo é rosas, os pensamentos são rosas.
    Escurece. O sol oculta-se. Tudo se faz um. Não há ar nem água nem terra nem gentes. Há apenas um ser humano – e rosas.
    O coração aquieta-se. O coração converte-se numa – rosa – que murcha. E a seiva seca. E as pétalas encolhem.
    Selvaticamente até ao horizonte, rosas, selvaticamente fixa o olhar, selvaticamente, rosas, rosas, (furioso) pétalas de rosa, botões de rosa:/:cálices de rosas:/:aroma de rosas, pranto de rosas, rosas – cores de rosas – (mor.) rosas.

                                               *

                                               Eu?

                                               *
    Selvaticamente fixa os olhos no horizonte olhando para – rosas. E morre.

*      *
    *

Tu?

[Escrito em 1892]


TREMULA O CENTEIO

Que é aquilo que se move ali no centeio?        
                        O centeio treme.
É o vento de este que balança as espigas,
                        O centeio treme.

Que é aquilo que serpenteia ali no centeio?
                        O centeio treme.
É a noite que chega com sombras curvas.
                        O centeio cresce.

Que é aquilo que se levanta ali no centeio?
                        O centeio treme.
É a nossa filha que se desonrou no centeio.
                        O centeio treme.

                                                                      [Escrito em 1899]



Versão minha - © Amadeu Baptista

Sigbørn Obstfelder (1866-1900). Nasceu em Stavanger. Estudou filologia e mais tarde fez-se engenheiro de máquinas. Trabalhou nos Estados Unidos durante algum tempo. Passou os últimos anos da sua vida a vagar de um lugar para outro na Noruega e no continente europeu. É o percursor do modernismo na lírica norueguesa.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Pär Lagerkvist



Poemas de Pär Lagerkvist



A angústia, é minha herança a angústia,
a ferida na minha garganta,
o grito do meu coração no mundo.
Agora as nuvens de espuma petrificam-se
na tosca mão da noite,
agora elevam-se os bosques
e as rígidas alturas
esterilmente até à abóbada
encolhida do céu.
Que duro é tudo,
que rígido, negro e sereno!

Às cegas vou por este escuro espaço
sinto as arestas cortantes das pedras nos meus dedos,
contra os gelados pedaços das nuvens
golpeio-me até que sangram as mãos levantadas ao céu.
Ah, arranco as unhas dos dedos,
lacero as mãos, doloridas
contra montanhas e bosques sombrios,
contra o ferro negro dos céus,
e contra a terra fria!

A angústia, é minha herança a angústia,
a ferida na minha garganta,
o grito do meu coração no mundo.

                Ångest, 1916



Pequena mão, de que não sou dono,
de quem neste largo mundo foste?
Na sombra te encontrei. Não sou o teu dono
Mas de uma pessoa escuto eu o gemido.

Aonde estão os teus olhos? O teu peito?
Quem é o que soluça no escuro?
Pequena mão minha, não chores. No meu calor te fecho.
Tu não estás só no escuro.

Pequena mão minha, os teus olhos eu provavelmente
encontrarei quando clarear a manhã.
Pequena mão minha, que choras, tu és-me bastante,
ainda que nunca, nuca chegue a ser manhã.

Ångest, 1916


É no entardecer quando maior é a beleza.
Todo o amor que abarca o céu
está reunido numa luz de penumbra
sobre o mundo,
sobre as casas da terra.

Tudo é ternura, tudo acariciado por mãos.
O próprio Deus extingue longínquas margens.
Tudo é próximo, tudo é distante.
Tudo foi dado
ao homem de empréstimo.

Tudo é meu e tudo me será tirado,
dentro em pouco tudo me será tirado.
Árvores, nuvens, a terra, o chão onde caminho.
Caminharei –
só, sem deixar marcas.

Kaos, 1919



A minha amada não voltará,
mas o meu amor voltará a mim.
O que vivi não voltará,
mas a minha vida volta a estar em mim.

Den lyckliges, 1921



A vida tem uns olhos tão formosos,
olhos de corça,
tristes, profundos,
que no entanto reflectem o instante do verão,
o mudo olhar que brilha, vigia,
cintila na penumbra das árvores –

O caçador deixa os seus utensílios de caça
na erva fresca da manhã
para seguir o rastro tímido,
seguir uns olhos escuros, brilhantes
na profundidade do bosque
no luminoso.

Beber do mesmo manancial,
profundo e claro,
onde ela bebeu.

Vid lägerld, 1932



Nas vielas da alma,
onde os candeeiros estão longe uns dos outros,
o que dificulta encontrar os números das casas.
Lá procurei o largo tempo.
Em vão.
Talvez procurasse números demasiado altos,
que não existem.
Talvez.
Agora cheguei ao fim do trilho
e olhos com os olhos secos uma noite
que já não me assusta.


Atrás vociferam os que encontraram o que procuravam,
os números que todos havíamos encontrado,
e a gritaria enche os prostíbulos onde o membro viril
                                   cospe os seus humores
e a alma sonda as profundidades,
as definitivas,
no meio do estrépito de dos mictórios e dos baldes
e o cacarejo das canalizações no seu caminho até aos esgotos
na ruela das Almas.

***

Mas a ruela parece-me
o poderoso sexo da vida,
misterioso e oculto.
Como uma amante, disposta a tudo,
nua e estendida na sua cama
para aquele que dela necessite.

Mas com o rosto suspenso nas trevas da noite
sob as estrelas
numa indizível solidão e dor.

Virgem e mãe,
rainha do céu com uma coroa de espinhos estrelados na cabeça,
junto a ti quero velar
esta noite.

Quem te crucificou neste quarto,
para que pudéssemos viver.
Quem cobriu a noite do teu rosto,
para que não nos angustiássemos.
Mater dolorosa.
Doce é o teu regaço,
onde encontramos consolo.
Doce como os prados floridos que um sol ardente aquece.
Avidamente procuramos-te com as mãos.

Mas o que é o teu corpo nu,
que são os teus membros lascivos,
que é o teu sexo aberto de par em par –
perante a terrível nudez do teu rosto,
que tu nos ocultas.

Abandona-te a mim,
a mim que te desejo!
Entrega-te a mim tu mesma,
tal como és!
A mim que anseio a tua nudez
como os animais do deserto anseiam a água.

                                   ***

E como numa visão contemplo o teu rosto…
Gasto e enrugado, marcado por todos os sofrimentos
e todos os vícios.
De nostalgia, luxúria e dor.

Mas completamente imóvel.

À única luz de uma melancolia infinita, indizível,
ela sorri-me.

Como uma mãe terrena.

Vid lägerld, 1932



O BARCO DA VIDA

Em breve vais estar morto e não vais saber que te afastas
deslizando no barco da vida até outras paragens
onde a manhã te espera em escondidas margens.

Não te preocupes. Não temas o momento de zarpar.
Uma mão benigna prepara tranquila as velas do barco
que te vai conduzir do país da noite ao do dia.
Caminha sem medo até ao silêncio da margem,
pelo trilho suave através da erva do ocaso.

Sång och srid, 1940



Quem passou pela frente da janela da minha infância
e deixou o seu bafo no vidro,
quem passou de longe na profunda noite da infância,
que ainda não tinha estrela alguma.

Com o dedo desenhou um sinal no vidro,
no vidro manchado,
com a ponta do dedo,
e seguiu o seu caminho ensimesmado.
Deixou-me abandonado
para sempre.

Como ia eu poder interpretar o sinal,
o sinal desenhado na névoa do seu bafo.
Permaneceu um instante, mas não o bastante para que
                                   eu o pudesse interpretar.
A eternidade das eternidades não teria bastado para
                        o interpretar.

Quando me levantei de manhã o vidro da janela
                        estava translúcido
e eu só via o mundo tal qual é.
Tudo me parecia estranho nele
e atrás do vidro a minha alma transbordava de solidão e angústia.

Quem passou de longe,
de longe na profunda noite da infância
deixando-me abandonado
para sempre.

Aftonland, 1953



Se tu crês em deus e não existe nenhum deus
então a tua fé é um milagre ainda maior.
É de verdade algo inconcebivelmente grande.

Por que jaz lá em baixo nas trevas um ser chamado
                                   para algo que não existe?
Por que são assim as coisas?
Não há ninguém que ouça que alguém chama nas trevas.
                                   Mas por que existe o grito?

Aftonland, 1953


Eu sou a estrela que se reflecte em ti.
A tua alma tem que estar imóvel,
se não eu não posso reflectir-me nela.
A tua alma é o meu lar. Não tenho outro.

Mas como vais poder permanecer imóvel se a minha luz
                                   palpita na tua alma.

Aftonland, 1953


Versão minha - © Amadeu Baptista




Pär Lagerkvist, nasceu na região sueca de Småland, em 1891. Estudou em Upsala. Foi doutorado em História da Arte, escreveu poesia, romance e teatro. Em 1940 foi eleito para a Academia Sueca e em 1951 foi-lhe concedido o prémio Nobel de Literatura. Faleceu em 1974.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

O Bosque Cintilante # 80

Franz Liszt: Consolação

Não se extinguem os sinais da tristeza
para aquele que parte. O coração
talvez exulte com a partida,
mas a tristeza é enorme
para o que não tem regresso
e mesmo se regressa se obstina
em pensar tudo o que perdeu.
Não há consolação para quem ama
e em silêncio se despede
do que não é plausível reconsagrar.


O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista




quarta-feira, 1 de maio de 2013

1º de Maio




a beleza da luta de classes está em frente
a nós, que dobramos as costas sob o fardo
e exultamos se uma palavra ou outra
encontra o súbito alcance de uma bala

é uma beleza impura e circunscrita
à desordenada rebeldia com que vemos
a ideia de justiça a recompor-se
de séculos de opróbrio e tirania

o suor do trabalho é um animal calado,
mas nele subjaz uma harmonia intensa
feita de paióis e amenidades várias
onde o rosto dos homens acaba a reluzir

não há acaso no silêncio vasto
quando o passado é largo e incendiário,
o trilho que alguns de nós passam
com as mãos acima das cabeças

vemos esta beleza com a firmeza
de quem mais não pode fazer que rejubilar
pela extensão da luta e os seus brilhos
no esforço refulgente das cidades


(Inédito) © Poema e foto: Amadeu Baptista

terça-feira, 30 de abril de 2013

Jón úr Vör



POEMAS DE  JÓN ÚR VÖR


PAZ ARMADA

O velho canhão
no musgoso forte
olha o céu
com o seu olho silencioso,
e um pássaro fez
o seu primeiro ninho
e elegeu para ele
o largo tubo.

Stund milli strída, 1942



A MEIO DO INVERNO

Cri que nevavam
rosas vermelhas e brancas
e o ar cheirava suave
a meio do inverno.
Aquela a quem amava
caminhava ao meu encontro.

Stund milli strída, 1942




PARA QUE NASCESTE?

Para que nasceste?
O que se te encomendou?
Arrancas umas pedras da terra
para que cresça a erva
e o baldio da aldeia ri-se de ti
pois a montanha ainda não está nem meio erodida,
rugosos os penhascos, nuas as quebradas.
Nasceste hoje,
mas a tua cova foi cavada ontem.

Thorpid, 1946



TRANQUILA E SILENCIOSA

Tranquila vela a luz
na mão branca do candelabro,
suave e silencioso cruza o sol
as terras em penumbra.

Tanta algazarra
não apagará a miséria do mundo.
Tranquilo e silencioso e na terra
o grão faz-se pão.

Med hljódstaf, 1951



A LUZ DO DIA

A luz do dia canta nos teus cabelos
caminhas pela margem
e até as pedras amaciam
sob os teus pés nus.

O teu silêncio é a pulsação
daqueles pássaros
que perdido o seu rumo
morrem no mar.

Med örvalausum boga, 1951




SOU UM PUNHADO DE TERRA

Oh, aonde estás,
verdade do simples,
clara como o arroio
que nasce de uma fonte.

Oh, aonde está a tua terra,
pura como as lágrimas de uma criança,
clara como os olhos assombrados
que desfrutam do sol pela primeira vez.

Oh, aonde estás,
verdade do simples,
descalço escutarei a tua fria resposta.

Como pássaro só na escuridão,
longe de toda a fé,
sei que dormirei esta noite,
despertarei amanhã?

Mas aonde, oh, aonde.

Eu sou apenas um punhado de terra
e tu o vento.

Med örvalausum boga, 1951


CHINESAS

Recorda
essas pedras minúsculas,
pequena
pupilas polidas pelas ondas
da fria eternidade.

Coloca-as uma a uma
sob a raiz da língua,

até encontrares no fim
aquela
que se derreta nos teus lábios
e se faça poesia.

Maurildaskógur, 1965




GAIVOTA DE INVERNO

O mar guarda o meu canto,
igual aos demais
segredos seus,
num silêncio hermético.

No seu olho vivaz
eu criança, vigilante,
procuro uma
e outra
concha maravilhosa
e frágil.

E vejo ainda
as asas estendidas
da gaivota de inverno
sobre a onda que cai.

Vetrarmávar, 1960



O CAVALO CEGO

Os que ainda tinham olhos
em Hiroshima
viram o cavalo cego,
os flancos chamuscados,
a cauda queimada, sem crinas,
correr ao abandono
pelas ruínas da cidade,
nem a morte
ousava montá-lo.

Maurildaskógur, 1965


CHINESAS

Recorda
essas pedras minúsculas,
pequena
pupilas polidas pelas ondas
da fria eternidade.

Coloca-as uma a uma
sob a raiz da língua,

até encontrares no fim
aquela
que se derreta nos teus lábios
e se faça poesia.

Maurildaskógur, 1965



PISADAS

Outrora as pisadas
eram só palavras
nos versos de outros.

Agora que te espero,
os nervos à escuta,
todos os desenganos se juntam
num mesmo som
quando as lajes da calçada
te distanciam de mim.

Mjallhvítarkistan, 1968



GEADA

A ti,
mulher maravilhosa
com coração
de geada.

O alado corcel
cabisbaixo te aguarda
junto ao rio
com a dor por brida.

Mjallhvítarkistan, 1968



SOMENTE POESIA

A minha vida
não era
senão poesia,

dança ao som maravilhoso
que ninguém ouvia
senão eu,

os meus dias,
os curtos e os compridos,
estrofes e palavras
sem rima.

Gott era d lofa, 1984


Versão minha - © Amadeu Baptista


Jón úr Vör nasceu em 1917 e faleceu em 2000. O seu terceiro livro, Thorpid (A Aldeia),
causou sensação no panorama literário islandês pelo uso do verso livre, algo insólito na lírica da época. Os seus versos cantam, sobretudo, o fazer quotidiano, em tom reflexivoe ponderado, matizado, por vezes, de ironia. Publicou doze colectâneas de poesia.




domingo, 28 de abril de 2013

Alfredo Ferreiro escreve sobre dois dos meus livros

Sempre atento e generoso o meu amigo galego Alfredo Ferreiro escreve sobre dois dos meus livros, tal como a seguir se transcreve, por cortesia do blog http://olevantadordeminas.blogaliza.org/



ventrículo atormentado



A lectura dun novo libro de Amadeu Baptista sempre supón enfrontar unha experiencia que non me deixará impasíbel. Por iso cando comecei a ler O ano da morte de Xosé Saramago (2010) e os niveis da máquina estético-intelectual subían até máximos raramente atinxidos na lectura, nada me resultou estraño.
Posúe este libro un estilo que boga entre a tormenta da imaxe sorprendente e o mar en calma do discurso directo sobre os asuntos vitais máis vulgares. Non oculta, neste sentido, unha marcada ideoloxía naquelas cuestións da rúa que todos pisamos, nunha actitude de outsider tan habitual nel, sen obviar unha crítica mordaz das políticas ultraliberais que o pobo despoxan do que é en xustiza froito do seu suor; hai mesmo unha denuncia dos gobernos que levan a cabo o indigno espolio dunha sociedade non ben acabada de matar:

« A desgraça de um país mede-se na distância que vai das instâncias do poder
à esperança dos seus habitantes, o deserto especializa-se quando a crise
se amplia, chegam os usurpadores e o equilíbrio das emoções descontrola-se…»

«… o Nuno vem de Viseu, onde tão bem notou que é o crucifixo
um punhal que se usa à cintura,
e fazemos uma grande fogueira disto tudo,
lume puxado a tudo o que seja comburente,
com excepção, talvez, de L’Obsservatore Romano
que no Inferno arderá com maior jurisdição».

Ofrece, ademais, poderosas referencias a unha infancia obscura e de difícil asunción que xa percibimos noutras obras do autor, e que resaltan coa dureza daquilo que sempre nos doe e á vez nos impele a realizar un esforzo permanente na procura da felicidade, algo que no poeta se manifesta como unha caza pertinaz da beleza e a verdade, dúas faces da mesma moeda:

«… era eu criança e procurava em vão
a tumba de um irmão,
e uma pedra bastou para me serenar a angústia,
ainda que do meu irmão nunca mais soubesse,
nem de minha mãe,
a quem beijei pela última vez a notar-lhe um ferimento no rosto,
um ferimento que só a terra cicatrizará,
uma terra compacta para tantos cães,
uma cicatriz igual à que tenho na alma,
se alma é o que na minha cicatriz se incrustou».

Mais estas ramas, a crítica política e a áspera lembranza do pasado, son aspectos do poemario que acompañan un tronco principal, unha liña vertebral de contido que fai referencia á poesía mesma, ou mellor á arte escrita en sentido amplo. Esta é a razón pola que con frecuencia aparece a reflexión sobre a propia escrita, e pola que en varias ocasións se citan no poemario José Saramago (xa no título), Herberto Helder e Nuno Dempster. Porque a experiencia da escrita, sendo íntima e estando ligada a experiencias persoais, posúe no ámbito da publicación unha vinculación co alleo, sexa o lector, os outros autores, o mundo editorial ou en xeral o sistema literario.



A pesar de ter un tamaño máis reducido, quero tamén resaltar outra obra do autor, máis recente: Atlas das Circunstâncias (2012), que gañou o Prémio Literário Manuel Maria Barbosa du Bocage en 2009. Utilizando de forma moi libre o soneto, presenta Baptista a figura do poeta como un ser convulso, complexo e paradoxal, facto debido á súa función de espello do mundo, esa realidade que só pode ser representada mediante unha elocuente contradición de imaxes e sons:

« O poeta deseja a clareza e é afoito a perscrutar
o magma das palavras e os seus grumos.
Um enigma, ao fim da tarde, reitera-lhe o poder
indemonstrável das palavras…»

Presenta o libro tintes de gnosticismo laico, cunha perspectiva poética que resalta como instrumento útil para o coñecemento interior, para a perscrutación de todo aquilo que no ollar cotidiano non pode ser revelado.
E, como non podía deixar de ser na obra de Baptista, aparece a infancia retratada como un estadio de alta percepción do mundo nas súas grandezas e nos seus misterios, unha sabedoría natural que non debe ser esquecida para non caermos na soberbia de nos sentir o centro do universo.
Por todo o explicado atrévome a recomendar a lectura destas dúas extraordinarias obras. Mais hei de recoñecer que, se isto non fose unha actitude inxusta, contemplaría a hipótese de impoñer a súa inoculación por decreto poético a toda persoa afeccionada á poesía, convencido de que non habería moitas vacinas máis eficaces contra a falta de sentido artístico. E se cadra unha transfusión de urxencia para aquelas persoas que aseguran non entender o xénero.

Alfredo Ferreiro