sábado, 23 de março de 2013

ÓSCAR LOPES, 1917 - 2013

«Eu sei que não sou Napoleão, nem talvez doido, nem crítico, nem ensaísta, nem mesmo essencialmente professor, linguista ou político, assim como nunca me revejo, num estilo ou numa visão pessoal do mundo, a não ser pelas limitações ou pontos mortos a que se sujeita tudo aquilo a que temos o ensejo e a gana de fazer algum dia. Não confio em qualquer título de auto-reconhecimento, porque tanto as nossas imagens a um espelho polido como as nossas imagens que os olhos alheios nos devolvem estão, não apenas erradas na sua simetria axial, mas medusadas pelo reflexo inverso do nosso próprio olhar que fita, e fixa, essas imagens.
Nunca me senti a fazer crítica: apenas se trata de obedecer a uns impulsos, sempre complicados e em conflito, no sentido de continuar, de algum modo, os movimentos também conflituais de que um texto é feito, ou de que mais evidentemente participa. Não faço linguística: trata-se apenas de, com a mais rigorosa metodologia disponível, reflectir sobre certos gestos do nosso espontâneo modo de falar, gestos que têm que ver com relações especiais de tempo, de atitude e de referência da comunicação social possível. Também não sou político por vocação: apenas nasci num povo em que a luta de classes só não será evidente para uma certa cegueira de espírito, e comungo de uma nação periodicamente renegada por classes dirigentes, que há precisamente seis séculos ardiam em fidelidade dinástica castelhana, há quatro séculos se queriam integrar no grande império pluricontinental dos Habsburgos, e que hoje se pretendem entusiasmados por uma Europa problemática, uma Europa muito diferente daquela que, no Canto III d'Os Lusíadas, avança, em 15 estrofes, desde os Urales até «onde a terra acaba e o mar começa», ao passo que a nova Europa, a que afinal ainda não pertencíamos detém-se no Oder e ainda parece ter a capital militar no Pentágono.»

[excerto da alocução na entrega do Prémio Jacinto do Prado Coelho (1984), atribuída pela Associação de Críticos Literários em Maio de 1985, transcrita e actualizada in Cifras do Tempo, editorial Caminho, 1990]

sexta-feira, 22 de março de 2013

Thorsteinn frá Hamri



POEMAS DE THORSTEINN FRÁ HAMRI



ANIMAL

No teu covil aquieta-se a minha alegria
ainda que caminhe só pelos bosques –,
eu, o animal ferido;

busco o teu encontro às primeiras neves
tal como outrora;
alegre
mostrará o sol as nossas pegadas
tal como junto ao mar na primavera
e deitar-se-á longe –

Sim, é-me grato
ser animal conhecer outro animal
e saber que isso é bom

I svörtum kufli, 1958



FERRO

Esta manhã vi os animais a irem beber
havia fetos nos sulcos e musgo nas palavras
gotejava ferrugenta a chuva dos telhados das casas
como um rumor
ao longe brincava uma criança com chumbo e aço

algo ia acontecer, a aldeia silenciosa,
no pátio homens graves falavam do caminho
em frente havia estranhas pegadas na erva
a terra estava gelada e o musgo bebia água ferrugenta

de pé no portão pensei no que se avizinhava

Tannfé handa nýjum heimi, 1960



MEDO

É este arrepio
o mesmo que nos percorreu
durante mil anos
o espírito dos nossos glaciares
que desejamos fervorosamente poder continuar a chamar assim?

Não, isto é algo diferente
do que antigamente nos fez homens
nos comunicou valor
e vive no nosso inferno e na nossa febre;
deles também queremos continuar a desfrutar.

Não renego o meu medo:
o arrepio da morte e o arrepio da vida
lutam pelas nossas almas, silvam no charco
e exigem soluções;
é a hora de se enfrentarem.

Langnaetti à Kaldadal, 1964



NÃO O CONHEÇO

Tenta entrar no coração da nação
para encontrar a paz e a verdade

e mandar-te-ão ao átrio do sumo sacerdote
junto à fogueira

e lá entre as serviçais ouvirás
muitas negociações culpáveis…

ANIMAL

No teu covil aquieta-se a minha alegria
ainda que caminhe só pelos bosques –,
eu, o animal ferido;

busco o teu encontro às primeiras neves
tal como outrora;
alegre
mostrará o sol as nossas pegadas
tal como junto ao mar na primavera
e deitar-se-á longe –

Sim, é-me grato
ser animal conhecer outro animal
e saber que isso é bom

I svörtum kufli, 1958


FERRO

Esta manhã vi os animais a irem beber
havia fetos nos sulcos e musgo nas palavras
gotejava ferrugenta a chuva dos telhados das casas
como um rumor
ao longe brincava uma criança com chumbo e aço

algo ia acontecer, a aldeia silenciosa,
no pátio homens graves falavam do caminho
em frente havia estranhas pegadas na erva
a terra estava gelada e o musgo bebia água ferrugenta

de pé no portão pensei no que se avizinhava

Tannfé handa nýjum heimi, 1960


MEDO

É este arrepio
o mesmo que nos percorreu
durante mil anos
o espírito dos nossos glaciares
que desejamos fervorosamente poder continuar a chamar assim?

Não, isto é algo diferente
do que antigamente nos fez homens
nos comunicou valor
e vive no nosso inferno e na nossa febre;
deles também queremos continuar a desfrutar.

Não renego o meu medo:
o arrepio da morte e o arrepio da vida
lutam pelas nossas almas, silvam no charco
e exigem soluções;
é a hora de se enfrentarem.

Langnaetti à Kaldadal, 1964


NÃO O CONHEÇO

Tenta entrar no coração da nação
para encontrar a paz e a verdade

e mandar-te-ão ao átrio do sumo sacerdote
junto à fogueira

e lá entre as serviçais ouvirás
muitas negociações culpáveis…

Jórvik, 1967


COLONIZAÇÃO

Por detrás da vegetação
elevam-se as colinas nuas;

fugindo da história e da lei
o homem perdido abre um caminho
e olha a rocha
sem dúvidas e sem medos
limpo de toda a culpa:

Este é o meu lar

ANIMAL

No teu covil aquieta-se a minha alegria
ainda que caminhe só pelos bosques –,
eu, o animal ferido;

busco o teu encontro às primeiras neves
tal como outrora;
alegre
mostrará o sol as nossas pegadas
tal como junto ao mar na primavera
e deitar-se-á longe –

Sim, é-me grato
ser animal conhecer outro animal
e saber que isso é bom

Jórviki, 1967


VÓS

Vós dissestes: Até à última gota…
E vós que caíste após estas palavras
há um século, um ano, uma hora
ainda assim o vosso sangue flui vivo e quente.

Porque o último é o que ri melhor:
quando parece que é demasiado tarde
a superioridade numérica, a debandada, os cádaveres
misturam-se com o sangue dos descendentes
e conduzem à vitória.

E nas fontes que outrora reflectiam
os vossos rostos suados, sangrentos, emagrecidos
também nós procuramos alívio em dias cálidos.

A água é assim fria e clara
a sua superfície harmoniosa…
e ao contemplarmos a sua quietude
vemos que a nossa imagem se envergonha.

Jórvik, 1967


NÓS ASSASSINOS

Contemplamos com as mãos no regaço
todas as nossas horas feitas em pedaços

tentamos logo
recompor as peças
até que nos cortamos com elas;

cortamos outras
olhamos por fim com as mãos na funda
a cena sangrenta

com um olhar
totalmente
indiferente.

Vedrahjálmur, 1972


ANIMAL

A estrela caiu
e fundiu-se ao glaciar;
tudo se fez torrente;
tudo se mudou em noite.
Desdobramento.
Eu sou um animal esfomeado no redemoinho.
Quando descerem as águas
sê tu o meu relvado.

Vedrahjálmur, 1972



QUEDA

Estabeleces-te com as mãos e os pés
no cume do desejo
e procuras uma nuvem
a que te agarrares se a brisa é propícia
e começa então a tremer a terra.

Gritas na tua queda
mas quem escuta o grito
se o derrube o apaga?

E justamente então esconde o cume do desejo
a ansiada nuvem.

Fidrid úr saeng Daladrottningar, 1977


OUVI FALAR OS PÁSSAROS

Ouvi falar as pássaros
sentado na escarpa;
e falavam-me de um mundo
que confinei em palavras fiáveis.

Mas continuo com somas
verídicas e falsas
junto à escarpa dos pássaros
que faz tempo voaram.

Spjótalög á spegil, 1982


MANHÃ

Uma manhã radiante
ia Deus pela rua
e ouvia somente o rumor dos computadores
em silenciosas torres.

Que agradável é a cidade;
Os robots guardaram
os restos das pessoas
em depósitos fechados.

E no entanto Deus não está contente.
Caminha pela cidade
como se desejasse
poder dizer no fim:

Ainda há aqui um coração que pulsa.

Ný ljód, 1985


CHAMA

Hoje vi as palavras
converterem-se em solas
que com ardor insolente
dançavam
sobre gelos
prigosos.

E as minhas águas, oh Deus –
que somente esperavam
um degelo
tranquilo.

Ný ljód, 1985



COMO RECORDAÇÃO

Instante,
refugio-me em ti, instante,
e não me importa em absoluto
não ter paredes nem tecto

como recordação
como recordação…

Mas instante,
tu,
reflexo do dia
ou sombra de antigo refúgio,

estou aqui só?

Ný ljód, 1985


ORAÇÃO

Poema,
sê tu o refúgio das minhas debilidades.

Sê para elas castelo,
forte,
cela de penitência.

Que mane do pântano um arroio que cruze o chão.

Urdargaldur, 1987


O INSTANTE

Certamente
certamente
as horas são breves e fugazes
mas pensemos na sua profundidade
como serenidade
para a água
e o olho

Urdargaldur, 1987


A PRAÇA

A praça toda branca
como uma noite impaciente que lembro agora
de há muito tempo.

À volta, como num nevão,
nas esquinas, e a cair dos telhados,
redemoinhavam-se a meus pés
desconhecidas, não registadas,
provocadoras horas.

Que passavam… Terão aprendido já
o rápido, o tranquilo,
o natural que é
a sua passagem –

pela cena,
pelos diários,
pelas almas?

A praça como sempre.
De momento neve docemente,
noite,
uma agenda encarquilhada
e um homem

Vatns götur og blóds, 1989

 

COLONIZAÇÃO

Por detrás da vegetação
elevam-se as colinas nuas;

fugindo da história e da lei
o homem perdido abre um caminho
e olha a rocha
sem dúvidas e sem medos
limpo de toda a culpa:

Este é o meu lar

ANIMAL

No teu covil aquieta-se a minha alegria
ainda que caminhe só pelos bosques –,
eu, o animal ferido;

busco o teu encontro às primeiras neves
tal como outrora;
alegre
mostrará o sol as nossas pegadas
tal como junto ao mar na primavera
e deitar-se-á longe –

Sim, é-me grato
ser animal conhecer outro animal
e saber que isso é bom

I svörtum kufli, 1958


FERRO

Esta manhã vi os animais a irem beber
havia fetos nos sulcos e musgo nas palavras
gotejava ferrugenta a chuva dos telhados das casas
como um rumor
ao longe brincava uma criança com chumbo e aço

algo ia acontecer, a aldeia silenciosa,
no pátio homens graves falavam do caminho
em frente havia estranhas pegadas na erva
a terra estava gelada e o musgo bebia água ferrugenta

de pé no portão pensei no que se avizinhava

Tannfé handa nýjum heimi, 1960


MEDO

É este arrepio
o mesmo que nos percorreu
durante mil anos
o espírito dos nossos glaciares
que desejamos fervorosamente poder continuar a chamar assim?

Não, isto é algo diferente
do que antigamente nos fez homens
nos comunicou valor
e vive no nosso inferno e na nossa febre;
deles também queremos continuar a desfrutar.

Não renego o meu medo:
o arrepio da morte e o arrepio da vida
lutam pelas nossas almas, silvam no charco
e exigem soluções;
é a hora de se enfrentarem.

Langnaetti à Kaldadal, 1964


NÃO O CONHEÇO

Tenta entrar no coração da nação
para encontrar a paz e a verdade

e mandar-te-ão ao átrio do sumo sacerdote
junto à fogueira

e lá entre as serviçais ouvirás
muitas negociações culpáveis…

Jórvik, 1967


COLONIZAÇÃO

Por detrás da vegetação
elevam-se as colinas nuas;

fugindo da história e da lei
o homem perdido abre um caminho
e olha a rocha
sem dúvidas e sem medos
limpo de toda a culpa:

Este é o meu lar

ANIMAL

No teu covil aquieta-se a minha alegria
ainda que caminhe só pelos bosques –,
eu, o animal ferido;

busco o teu encontro às primeiras neves
tal como outrora;
alegre
mostrará o sol as nossas pegadas
tal como junto ao mar na primavera
e deitar-se-á longe –

Sim, é-me grato
ser animal conhecer outro animal
e saber que isso é bom

Jórviki, 1967


VÓS

Vós dissestes: Até à última gota…
E vós que caíste após estas palavras
há um século, um ano, uma hora
ainda assim o vosso sangue flui vivo e quente.

Porque o último é o que ri melhor:
quando parece que é demasiado tarde
a superioridade numérica, a debandada, os cádaveres
misturam-se com o sangue dos descendentes
e conduzem à vitória.

E nas fontes que outrora reflectiam
os vossos rostos suados, sangrentos, emagrecidos
também nós procuramos alívio em dias cálidos.

A água é assim fria e clara
a sua superfície harmoniosa…
e ao contemplarmos a sua quietude
vemos que a nossa imagem se envergonha.

Jórvik, 1967


NÓS ASSASSINOS

Contemplamos com as mãos no regaço
todas as nossas horas feitas em pedaços

tentamos logo
recompor as peças
até que nos cortamos com elas;

cortamos outras
olhamos por fim com as mãos na funda
a cena sangrenta

com um olhar
totalmente
indiferente.

Vedrahjálmur, 1972


ANIMAL

A estrela caiu
e fundiu-se ao glaciar;
tudo se fez torrente;
tudo se mudou em noite.
Desdobramento.
Eu sou um animal esfomeado no redemoinho.
Quando descerem as águas
sê tu o meu relvado.

Vedrahjálmur, 1972



QUEDA

Estabeleces-te com as mãos e os pés
no cume do desejo
e procuras uma nuvem
a que te agarrares se a brisa é propícia
e começa então a tremer a terra.

Gritas na tua queda
mas quem escuta o grito
se o derrube o apaga?

E justamente então esconde o cume do desejo
a ansiada nuvem.

Fidrid úr saeng Daladrottningar, 1977


OUVI FALAR OS PÁSSAROS

Ouvi falar as pássaros
sentado na escarpa;
e falavam-me de um mundo
que confinei em palavras fiáveis.

Mas continuo com somas
verídicas e falsas
junto à escarpa dos pássaros
que faz tempo voaram.

Spjótalög á spegil, 1982


MANHÃ

Uma manhã radiante
ia Deus pela rua
e ouvia somente o rumor dos computadores
em silenciosas torres.

Que agradável é a cidade;
Os robots guardaram
os restos das pessoas
em depósitos fechados.

E no entanto Deus não está contente.
Caminha pela cidade
como se desejasse
poder dizer no fim:

Ainda há aqui um coração que pulsa.

Ný ljód, 1985


CHAMA

Hoje vi as palavras
converterem-se em solas
que com ardor insolente
dançavam
sobre gelos
prigosos.

E as minhas águas, oh Deus –
que somente esperavam
um degelo
tranquilo.

Ný ljód, 1985



COMO RECORDAÇÃO

Instante,
refugio-me em ti, instante,
e não me importa em absoluto
não ter paredes nem tecto

como recordação
como recordação…

Mas instante,
tu,
reflexo do dia
ou sombra de antigo refúgio,

estou aqui só?

Ný ljód, 1985


ORAÇÃO

Poema,
sê tu o refúgio das minhas debilidades.

Sê para elas castelo,
forte,
cela de penitência.

Que mane do pântano um arroio que cruze o chão.

Urdargaldur, 1987


O INSTANTE

Certamente
certamente
as horas são breves e fugazes
mas pensemos na sua profundidade
como serenidade
para a água
e o olho

Urdargaldur, 1987


A PRAÇA

A praça toda branca
como uma noite impaciente que lembro agora
de há muito tempo.

À volta, como num nevão,
nas esquinas, e a cair dos telhados,
redemoinhavam-se a meus pés
desconhecidas, não registadas,
provocadoras horas.

Que passavam… Terão aprendido já
o rápido, o tranquilo,
o natural que é
a sua passagem –

pela cena,
pelos diários,
pelas almas?

A praça como sempre.
De momento neve docemente,
noite,
uma agenda encarquilhada
e um homem

Vatns götur og blóds, 1989

 

ANIMAL

No teu covil aquieta-se a minha alegria
ainda que caminhe só pelos bosques –,
eu, o animal ferido;

busco o teu encontro às primeiras neves
tal como outrora;
alegre
mostrará o sol as nossas pegadas
tal como junto ao mar na primavera
e deitar-se-á longe –

Sim, é-me grato
ser animal conhecer outro animal
e saber que isso é bom

Jórviki, 1967



VÓS

Vós dissestes: Até à última gota…
E vós que caíste após estas palavras
há um século, um ano, uma hora
ainda assim o vosso sangue flui vivo e quente.

Porque o último é o que ri melhor:
quando parece que é demasiado tarde
a superioridade numérica, a debandada, os cádaveres
misturam-se com o sangue dos descendentes
e conduzem à vitória.

E nas fontes que outrora reflectiam
os vossos rostos suados, sangrentos, emagrecidos
também nós procuramos alívio em dias cálidos.

A água é assim fria e clara
a sua superfície harmoniosa…
e ao contemplarmos a sua quietude
vemos que a nossa imagem se envergonha.

Jórvik, 1967



NÓS ASSASSINOS

Contemplamos com as mãos no regaço
todas as nossas horas feitas em pedaços

tentamos logo
recompor as peças
até que nos cortamos com elas;

cortamos outras
olhamos por fim com as mãos na funda
a cena sangrenta

com um olhar
totalmente
indiferente.

Vedrahjálmur, 1972


ANIMAL

A estrela caiu
e fundiu-se ao glaciar;
tudo se fez torrente;
tudo se mudou em noite.
Desdobramento.
Eu sou um animal esfomeado no redemoinho.
Quando descerem as águas
sê tu o meu relvado.

Vedrahjálmur, 1972



QUEDA

Estabeleces-te com as mãos e os pés
no cume do desejo
e procuras uma nuvem
a que te agarrares se a brisa é propícia
e começa então a tremer a terra.

Gritas na tua queda
mas quem escuta o grito
se o derrube o apaga?

E justamente então esconde o cume do desejo
a ansiada nuvem.

Fidrid úr saeng Daladrottningar, 1977



OUVI FALAR OS PÁSSAROS

Ouvi falar as pássaros
sentado na escarpa;
e falavam-me de um mundo
que confinei em palavras fiáveis.

Mas continuo com somas
verídicas e falsas
junto à escarpa dos pássaros
que faz tempo voaram.

Spjótalög á spegil, 1982



MANHÃ

Uma manhã radiante
ia Deus pela rua
e ouvia somente o rumor dos computadores
em silenciosas torres.

Que agradável é a cidade;
Os robots guardaram
os restos das pessoas
em depósitos fechados.

E no entanto Deus não está contente.
Caminha pela cidade
como se desejasse
poder dizer no fim:

Ainda há aqui um coração que pulsa.

Ný ljód, 1985



CHAMA

Hoje vi as palavras
converterem-se em solas
que com ardor insolente
dançavam
sobre gelos
prigosos.

E as minhas águas, oh Deus –
que somente esperavam
um degelo
tranquilo.

Ný ljód, 1985




COMO RECORDAÇÃO

Instante,
refugio-me em ti, instante,
e não me importa em absoluto
não ter paredes nem tecto

como recordação
como recordação…

Mas instante,
tu,
reflexo do dia
ou sombra de antigo refúgio,

estou aqui só?

Ný ljód, 1985



ORAÇÃO

Poema,
sê tu o refúgio das minhas debilidades.

Sê para elas castelo,
forte,
cela de penitência.

Que mane do pântano um arroio que cruze o chão.

Urdargaldur, 1987



O INSTANTE

Certamente
certamente
as horas são breves e fugazes
mas pensemos na sua profundidade
como serenidade
para a água
e o olho

Urdargaldur, 1987



A PRAÇA

A praça toda branca
como uma noite impaciente que lembro agora
de há muito tempo.

À volta, como num nevão,
nas esquinas, e a cair dos telhados,
redemoinhavam-se a meus pés
desconhecidas, não registadas,
provocadoras horas.

Que passavam… Terão aprendido já
o rápido, o tranquilo,
o natural que é
a sua passagem –

pela cena,
pelos diários,
pelas almas?

A praça como sempre.
De momento neve docemente,
noite,
uma agenda encarquilhada
e um homem

Vatns götur og blóds, 1989


Versão minha - © Amadeu Baptista


Thorsteinn frá Hamri, nasceu em 1938. Publicou inúmeros livros de poesia. É autor de uma poesia concisa, directa e especialmente austera, ainda que critique duramente alguns aspectos da nossa sociedade, como a guerra, o abuso de poder e a contaminação. Descreve a condição humana utilizando metáforas da natureza ou fazendo referência à história. Publicou também romance e contos infanto-juvenis.


quinta-feira, 21 de março de 2013

Dia Mundial da Poesia


A propósito do Dia da Mundial da Poesia, será hoje lançada em três cidades do país, à mesma hora (18.30 h), a antologia ‘Cintilações da Sombra’.

Em Braga, na Livraria Centésima Página, com apresentação do professor José Cândido Martins, da Universidade Católica Portuguesa, com leitura de poemas a cargo da actriz Cristina Cunha.

Em Coimbra, na Casa da Escrita, com apresentação do professor José Carlos Seabra Pereira, da Faculdade de Letras de Coimbra, precedida de um momento musical  cargo do Conservatório de Música de Coimbra.

Em Lisboa, na Livraria Pó dos Livros, com apresentação da escritora Cristina Carvalho,
da poeta e ensaísta Maria João Cantinho e de Victor Oliveira Mateus, poeta e coordenador da antologia.

A antologia divulga poemas originais de Albano Martins, Alice Fergo, Alice Macedo Campos, Amadeu Baptista, Amélia Vieira, Ana Luísa Amaral, Ana Maria Puga, António José Borges, António José Queiroz, António Ramos Rosa, António Salvado, Artur Coimbra, Carlos Afonso, Carlos Vaz, Casimiro de Brito, Cláudio Lima, Daniel Gonçalves, Fernando Pinto do Amaral, Filipa Leal, Gisela Ramos Rosa, Henrique Levy, Hugo Milhanas Machado, Inês Fonseca Santos, Inês Lourenço, Isabel Mendes Ferreira, João Luís Barreto Guimarães, João Rasteiro, João Ricardo Lopes, João Rui de Sousa, Joel Henriques, Jorge Fragoso, José Acácio Almeida, José Emílio-Nelson, José Rui Rocha, Juliana Miranda, Manuel Silva-Terra, Maria Augusta Silva, Maria do Sameiro Barroso, Maria João Cantinho, Maria Quintans, Maria Teresa Dias Furtado, Maria Teresa Horta, Nuno Brito, Nuno Dempster, Paulo José Miranda, Pompeu Miguel Martins, Ricardo Gil Soeiro, Rui Almeida, Ruy Ventura, Teresa Rita Lopes, Tiago Néné, Vergílio Alberto Vieira e Victor Oliveira Mateus.

A autora da capa é a artista plástica Isabel Ferreira Alves.





O poema com que participo nesta recolha, com chancela da Editora Labirinto e do Núcleo de Artes e Letras de Fafe:





«Cumpro a tarefa de comer a maçã...»



Cumpro a tarefa de comer a maçã.
Oxalá tenha bicho, para que, assim,
possa reter o carnal e o vegetal
que há no mundo. Sendo preciso,

a prótese usarei, porque sempre hão-de
faltar os dentes a todos quantos,
dispostos a carregar sobre uma pele aveludada,
não sabem onde encontrar a pedra

no centro de algum fruto. Maçã que seja
a quadratura do círculo a que almejamos
pequena será a boca que ensombra
a claridade adubada que da terra vem.

Maçã, quero dizer, os gomos que o caos
nos dispõe sobre a língua para que desrazoemos
e, por fim, venha a palavra aos lábios
e, com ela, o demónio que ateia a estopa.


 © Amadeu Baptista