segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O Bosque Cintilante # 76

Anton Rubinstein: Melodia em fá

No limiar do regresso há um homem abandonado,
a luz tece a melancolia, arcadas de violoncelo
fixam-se nos seus olhos, as mãos
são o silencioso rumor de uma ave que passa, a forma
volátil de uma sombra que se prende aos cabelos.

A melodia é o silêncio,
todas as coisas ardem iridescentemente
nesse lugar onde a face permanece incólume e ferida
e é quase um barco, uma nave na terra
que voa sobre a música, a infância, a longínqua
ausência que sentimos ouvindo-a.

Um aforismo resplandece no passado, brilha
entre a vegetação, inclina-se e sobe
para o rastro do tempo, o pesado infortúnio
da tristeza, a leve fragrância de uma despedida
que não pertence a ninguém
após a transparência,
a feroz solidão.


O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Eeva Kilpi


POEMAS DE EEVA KILPI


Diz-me se incomodo,
disse ao entrar,
porque me vou imediatamente.

Não apenas incomodas,
respondi,
como pões de pés para o ar toda a minha existência.
Bem-vindo.

                                               Laulu rakkaudesta, 1972


Precisamente quando tinha aprendido a viver sem ele
veio-lhe à cabeça esta ideia:
eu não renuncio a este homem.

E os lençóis rebentaram em flores.
“ Isto é a realidade”, disse
e os sonhos empalideceram.

Tal era pois a força sob os olhares
que durante anos educadamente
nos tínhamos mutuamente lançado.

                                               Laulu rakkuaudesta, 1972



 Mal acabara de pronunciar: “ Agora só faltam os morangos”
já estava a correr para a desprezada horta das traseiras
    da casa
onde recolheu um punhado de pequenos morangos silvestres
antes de ter acabado de comer o yorgute:
acabavam de amadurecer.
Tem cuidado com o que dizes, disse, agora tudo se transforma em realidade.

E ele teve cuidado.

                                               Laulu rakkaudesta, 1972


Dentro de nós há agora uma poderosa carga
de alegria, amor, bondade e força
para partilhar também com outros.                                                                              

Sim, disse ele, tu és o ponto de inflexão na minha vida,
tu abriste os caminhos obstruídos dos meus sentidos.
Pela primeira vez compreendo a minha mãe,
para não falar da minha sogra,
os meus parentes quase os amo.
e o melhor de tudo, a minha mulher já não sabe a madeira:
que festa temos vivido.

Laulu rakkaudesta, 1972


Deixar-te-ias foder por duas mil coroas? perguntou-me
na paragem do autocarro às 0.42
rodeados por ruas vazias e congeladas.
Primeiro neguei com a cabeça, mas logo lhe disse:
Por dinheiro, não, mas se passas o aspirador e areias os pratos…
Então ele, por seu lado, abjurou
e deu a volta abatido por seguir o seu caminho.

Laulu rakkaudesta, 1972

O amante encontrou a origem do cancro
no peito dela:
salvou-lhe a vida.
O marido reabilitou-se,
deixou a bebida,
ficava em casa à noite.
Os filhos começaram a lavar os pratos.
Floresceu a vida familiar.

O mudo herói do leito clandestino anda triste.
Que vida tão ingrata!

Terveisin, 1976


Que alguém envelheça não importa nada
mas como suportar
ver que começa a envelhecer o teu jovem amante?
Calvície. Barriga. Tédio.
Por que não me abandonaria a tempo?
Eu já tinha rugas quando nos conhecemos,
lembrava-lhe a mãe,
proporcionava-lhe uma sensação de triunfo e de assombro
ainda aguentava com uma desgastada assim.
Mas agora estão fundas as rugas
e para isso sim não estou preparada.
Quando penso que poderia ter tido a lembrança
de um homem jovem sem estragar…
E não é só isso.
Todas as noites me tortura a ideia de que ele,
ainda mais deteriorado,
provoque assombro junto à minha tumba
algo distante, abatido,
dissociado, e que ninguém compreenda o que eu
vi uma vez nele.
E talvez eu tão pouco poderia entendê-lo,
ao fim e ao cabo sou um ser humano.
Quando a terra tocar o meu ataúde uma manhã fresca de orvalho,
quando as pás soarem,
quando os jovens estudantes da calça curta
me forem atirando terra…

Tu ris, morte,
mas eu obviamente devolvo-te o sorriso.

Ennen kuolemaa, 1982



Quando alguém já não tem forças para escrever, tem que recordar.
Quando alguém já não tem forças para fotografar,
tem que ver com os olhos da alma.
Quando alguém já não tem forças para ler,
tem que estar cheio de histórias.
Quando alguém já não tem forças para falar,
tem que ecoar.

Quando alguém já não tem força para andar, tem que voar.

E quando chega a hora,
tem que desprender-se das recordações,
dos olhos da alma, deixar de sussurrar,
calar-se e fechar as asas.

Mas aconteça o que acontecer, a história segue, segue
Ennen kuolemaa, 1982



UMA LENDA

Ao entardecer
o Redentor dá uma volta pelos currais,
pelos estábulos, pocilgas, aidos e galinheiros,
quer dar uma vista de olhos ao lugar onde nasceu,
saudar os animais
entre os quais certa vez adormeceu
e teve em cueiros o seu primeiro sonho.
Mas tudo mudou.
Os animais contemplam-no através de grades,
humilhados no seu cativeiro,
com angústia e desespero nos olhos.
Reconhecem-no, gritam-lhe:
Volta a nascer, Redentor,
nasce para nós.
Os homens levaram-te.
Cuidaram-te bem?

Animalia, 1987


As experiências com animais são necessárias, dizeis,
mas eu digo:
Os resultados só demonstram como reagem os animais
à sobredose
de insecticidas, de cosméticos, de medicamentos,
encerrados em jaulas
sem exercício, sem liberdade
e em espantosas condições de vida.
Que demonstra isso?
Que utilidade reporta?
Respondo: só podereis dizer «investigação».
Que não tireis a palavra investigação da boca.
A investigação demonstrou.
E «nós, os investigadores».

Antigamente dizia-se que os animais não sofriam,
agora diz-se que os animais padecem de stress.
Não se pode usar assim o idioma,
para negar os factos.
Os animais sentem medo e desprazer,
pânico,
os animais sentem angústia.
Sentem dor. Sentem-se mal.
Esperam todo o tempo que deixe de doer-lhes,
que alguém chegue e os liberte,
os solte,
os deixe sair para o ar livre,
para a sua toca, o campo, o prado, o bosque.
Mas não aparece nenhum libertador. Chegam outros.
Os animais utilizam todo o seu tempo e toda a sua energia
à procura de uma saída.
Fugir, fugir, fugir, diz o rato em cada movimento.
Os cães caem na depressão.
                    Envergonham-se da conduta do homem.
Ou enfurecem-se, enraivecem-se,
e deita-se a culpa à sua natureza.
Os gatos. Cheios de desespero.
Os coelhos,
cujos olhos se oferecem no altar da beleza feminina.
Mulher, pensas nisso?

Humanidade, desperta!
Torturados, declarai-vos insubmissos!
É a hora!

Animalia, 1987


Bem, se na verdade
queres um confissão,
aqui vai:
tive trinta e seis amantes.
Bem, sim. Tens razão,
são demasiados.
Tivessem-me bastado trinta e cinco.
Mas, querido, o trinta e seis
eras tu.

Animalia, 1987


Versão minha - © Amadeu Baptista



Eeva Kilpi (1928). Nasceu em Hiitola (na Carélia, hoje território russo). Licenciou-se em Letras e trabalhou como professora de inglês. Foi presidente do PEN finlandês. Além de poesia, escreveu numerosos contos e romances.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Sigfús Dadason



Poemas de Sigfús Dadason



A CABEÇA HUMANA É ALGO PESADA

A cabeça humana é algo pesada
e no entanto temos que andar direitos
e o verão compensa-nos de todas as faltas

Deixamos a nossa velha residência
– como jornais na papeleira –
seguimos adiante sem olhar para trás

Ou quebramos de repente o telhado de vidro
que protege os nossos velhos dias?
para isso nos pomos a caminho.

E inclusivamente ainda que caíssemos
o sol converter-nos-ia em matéria prima
e pouco a pouco voltaríamos a ser um todo.

Um rosto conhecido, um som, um vento suave
são o teu tesouro, filho,
novo e excitante.

Ljód, 1947-1951



A qualquer fica bem morrer
sob a luz radiante e contemplar o seu próprio sangue
contemplar como o seu sangue flui e coalha
nuns olhos escuros pouco antes do dia
que se eleva de uns olhos escuros, atrás do muro
de orvalho sedoso, de madrugada numa breve noite de
primavera

morrer distante de uns olhos abertos e tranquilos
e de uns braços ternos, de umas mãos suaves, refrescantes
justamente antes da alba com a luz das suas pesadas cargas,
o odor das ruas quentes, a chuva de água fria
e escutar o automóvel que arranca os pés
que se distanciam com os seus rápidos passos matinais: sentir
que a noite toca o seu fim
talvez haja alguém
presente para ver explodir os olhos
justamente antes da alba.
Isso a qualquer fica bem.

Ljód, 1947-1951



NASCERÁ EM NÓS O DIA UMA VEZ QUEBRADO O SELO

Nascerá em nós o dia uma vez quebrado o selo,
quando fizermos farrapos da nossa própria imagem

quando tivermos comprado com tudo o que temos
o que nunca saberemos o que é

quando tivermos deixado a vida e a morte
no punho fechado do que sempre escapa

quando tivermos aprendido a apreciar totalmente
a suavidade da pedreneira, a trémula dureza da água

Nascerá então em nós o dia
nascerá então em nós o dia
após a grande noite?

Ljód, 1947-1951



PALAVRAS

Palavras
cada vez digo menos palavras
já que há muito que me são antipáticas.
Dizem que são uma marca de nobreza
mas não pensam como as palavras são caras
nem como podem pagá-las.

Em breve escurecerá
do mais não sabemos muito
olhai: formosos rostos
rostos atormentados desfilam
desfilam e desaparecem

e almas hipócritas em toda a parte
ocupam-se em prolongar o dia
(para que não desistamos
de procurar a linguagem quimicamente pura
e a usem em segredo).

Mas estávamos a falar, creio, das palavras
para muitos são seguramente dóceis
colhem pelo caminho ramos de palavras
e falam sem que alguma vez entendam.

De qualquer modo, eu pediria aos homens
que usassem com cuidado as palavras
porque podem explodir
ainda que resulte ainda mais perigoso
que se encharque a pólvora.

Perante este dilema tenho-me sempre sentido aterrado

e na realidade sabemos muito pouco
excepto de que em breve escurecerá

lua nova
novo copo de vinho
novissima verba.


N. do T. ‘Novissima verba’: expressão latina para ‘as últimas palavras’ ou ‘ as palavras mais recentes’

Hendur og ord, 1959






PÕE UMA PISTOLA NA MÃO

Põe uma pistola na mão
Põe uma pistola em cada mão.

Estica o braço
e dispara
como deve ser.

Dispara sem premeditação
e sem hesitação
alguém fará de alvo.

As testemunhas desse assassinato
estavam – depois de tudo –
ausentes ou distraídos.

O juiz, no final,
considerará as pistolas
o assassinato
e as testemunhas do assassinato
como símbolos de uma obra de arte.


Hendur og ord, 1959



AS CIDADES ACOLHERAM-TE SEMPRE COM OS BRAÇOS ABERTOS

As cidades acolheram-te sempre com os braços abertos
amas mães docemente
durante muito tempo chorou
o ferro e a terra fria
abriu-se engoliu-te e devolveu-te inteiro
ao princípio querias-te livre
solto mas logo puseram
os minutos ressonantes uma grilheta nos teus pés.

Preso à velocidade tinhas um desejo
oculto e silencioso: seguir sempre adiante
entregar-te ao prazer desgarrado que sempre perde
o que é e sem olhar atrás transforma
a vida em morte e a morte em vida
e saúda a vitória na derrota e sempre
se distancia.

Companheiros sensíveis os teus olhos
sonolentos uniram a tua metade ao seu mundo
da cidade futura: e mendigos, prostitutas e ratoneiros
névoa e fedores e o aluvião de gente ao entardecer
envolvem-te poderosos libertam-te
atraem-te e concedem-te o perdão e o instinto:
Levanta-te, põe a tua carga ao ombro e olha
a cidade
recebe-te com os seus braços abertos, cálidos e radiantes.

Hendur og ord, 1959



PELOS NOSSOS CORAÇÕES PASSA A LINHA DE FOGO

Pelos nossos corações passa a linha de fogo
mas a batalha tem lugar na nossa ardente cabeça
na metade de cada campo agrupam-se as hostes
e cada casa baixa é uma face destroçada

de esperanças e desesperanças assim é esta primavera
as árvores vivem em luz e ciclones velozes
constantemente forjam a tempestade na brisa da tarde
onde se ocultarão no outono os seus iguais?

Mártires e heróis que no passado os enfrentastes
verdugos e padres vós possuíste
essa fé que desloca montanhas e por isso elevaste-vos
intrépidos com a fé intensa que move as serranias

conta o inumano, contra o incomensurável
que era para vós o pequeno; o vosso exemplo
durará os outonos, os anos e os séculos
mártires e heróis sois Fénix que renasce

a esperança banhada na luz. O rumor suave
do sangue sob a pele indefesa no coração
transparente
dos homens e dos deuses linguagem e código
da eternidade
de uma vida: com espírito de homem e corpo de terra.

Hendur og ord, 1959



RISO

Um riso espontâneo chega-me da noite
um riso claro que morre e se perde no escuro
e que não sei a quem ia dirigido…

… Nem sei quem pôde suscitar esse riso
despreocupado, alegre, claro, cristalino…

E ainda que talvez se sentisse culpado
de só ser capaz de suscitar o riso
de ter tido parte desse riso inesperado
que fugazmente iluminou com um resplendor áureo
tristezas e dores…

Fá ein ljód, 1977


Versão minha - © Amadeu Baptista





Sigfús Dadason (1928-1996), é um dos poetas islandeses mais destacados, tendo alterado profundamente o panorama da poesia islandesa do século XX. Os seus poemas reflectem sobre a vida e a morte, fazendo uma dura crítica ao militarismo e as carências sociais e humanas. Foi também tradutor de poesia, designadamente poesia francesa.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Egito Gonçalves


Um poema de Egito Gonçalves



Notícias do Bloqueio

 
Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.
 
Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.
 
Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.
 
Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...
 
Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.
 
Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.
 
Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.
 
Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.
 
Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
e a esperança reproduz-se


(in O Pêndulo Afectivo - Antologia Poética, 1950-1990, Porto, Afrontamento, 1991)




Egito Gonçalves nasceu em 1922, em Matosinhos, e faleceu, no Porto, a 29 de Janeiro de 2001. Começou a publicar os seus livros de poesia no início da década de 50. O seu nome aparece-nos ligado, a partir dessa altura, a algumas revistas de poesia que fundou e/ou dirigiu: A Serpente (1951), Árvore (1952), Notícias do Bloqueio (1957). Poeta e tradutor, Egito Gonçalves desempenhou ao longo da sua vida um grande papel na animação literária e cultural do Porto, a cidade onde viveu. Foi um dos fundadores do TEP – Teatro Experimental do Porto. Em 1977 foi-lhe atribuído o Prémio de Tradução Calouste Gulbenkian, da Academia das Ciências de Lisboa pela selecção de Poemas da Resistência Chilena e, em 1985, recebeu o Prémio Internacional Nicola Vaptzarov, da União de Escritores Búlgaros. Em 1995 foi galardoado com o Prémio de Poesia do Pen Clube, o Prémio Eça de Queirós e o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritor, com o livro E No entanto Move-se.  Da sua longa obra, destacam-se os seguintes títulos: Um Homem na Neblina (1950); A Viagem com o Teu Rosto (1958); Os Arquivos do Silêncio (1963);Falo da Vertigem (1993); E no Entanto Move-se (1995); O Mapa do Tesouro (1998); A Ferida Amável (2000).

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O Bosque Cintilante # 75

Aram Khatchaturian: Dança do Sabre

Entregamos os vigamentos da casa neste lado
do mundo. Os carros chegam
com as cores intensíssimas, páram na bruma, aguardam
o início do cataclismo, propaga-se o estrondo
para além dos portões onde a vertigem aguarda o fim da finitude,
esse lamento murmurado ao ouvido dos anjos. As horas
passam e nada se vislumbra, o fogo toca
os sentidos de quem passa, pequenos brilhos opacos
vibram na sedimentação, as raízes que o vento
levanta na eternidade, filamentos de sangue
onde as almas afeiçoam as pedras aos gritos inaudíveis,
a memória de um incêndio que transfigura a terra em nomes
sibilinos, sabres
vingadores.

O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Hans Børli



POEMAS DE HANS BØRLI



AÇO

Este arado
é made in Germany.
Aqui está coberto de orvalho
fresco e agradável ao toque
como a madeixa de uma mulher adormecida.

Se o destino o tivesse querido
o aço deste arado
teria ido parar às fábricas da Krupp em Essen.
Então talvez
– fundido como morteiro –
tivesse arado em carne quente.

Agora repousa a terra
arada na tarde primaveril.
E gorjeia a alvéola
bicando vermes entre os sulcos.

E o arado está aqui
enlameado e cândido.
Sabe o que sussurrou a terra
ao acariciar a relha.
Mas não sabe nada
sobre Cherbourg,
Velikie-Luki
nem El-Alamein.

Villfugl, 1947


ERIÓFORO NO PÃNTANO DE LOMTJEN

Se eu, por absurdo que pareça,
me fizesse santo
e entrasse nas moradas dos bem-aventurados,
então diria ao arcanjo:
– Eu vi algo
que é mais branco do que as tuas asas, Gabriel!

Vi florescer o erióforo
nos pântanos de Lomtjen

aqui na minha terra.

Jag vile fange en fufl, 1960


LOUIS ARMSTRONG

Velho, doce Satchmo –
rosto com marcas de rodas na planície,
como terra e fosforescência marinha.
Feridas nos lábios.
Sangue na boquilha de latão. Sempre
ruge a tempestade de sol
na gretada árvore dos teus pulmões. Sempre
foge um corvo com as asas de pomba
da tua garganta esgotada de cantar.

Nobody knows…

Vês todas essas mãos brancas, Satchmo?
Aplaudem.
Mãos que bateram, mãos que enforcaram, mãos
que dividiram uma doce e crescente escuridão
com a cruz em chamas do ódio.
Agora aplaudem.
E tu tocas, velho. Cantas
o Lullaby do Uncle Satchmo. O suor escorre, o peito
arfa. Há um sol cravado
na resplandecente boca da trompete.
Como o pranto numa garganta.

… the trouble I’ve seen

Como me fez envergonhar-me o teu sorriso cheio de cicatrizes
do meu próprio rosto fechado,
da minha genuflexão perante as sombras. Pergunto-te:
De onde tiras a força para
a tua rebelião sem ódio? O teu
resplandecente tom de luz que
ilumina a noite dos negros? Responde-me
como há-de ser a dor maior…
como há-de ser a dor maior
para alimentar uma alegria pura?

E a trompete responde
da distância,
um fumo de prata:
Mississípi.

Ved bälet, 1962


GETSÊMANI

Percorria um triste zumbido
de pena o monte Getsêmani naquela noite…
a noite em que os soldados levaram o filho de Maria
à casa do sumo-sacerdote?
Não,
um pastor de burros que levava os seus animais
pela porta de Shusan à hora terceira,
ouviu o sussurro de um profundo suspiro
de paz no olival.
E no pequeno buraco que os joelhos do Mestre
cavaram na terra macia,
caminhava um escaravelho
com uma carapaça como que de cobre antigo,
com as palpitantes antenas em tensão
para uma fragrância de hibisco.

Uma flauta de pastor no alto da colina
soava solitária e longínqua.

Ved bälet, 1962


ALTAMIRA – OU O MONÓLOGO DO PINTOR RUPESTRE

As planícies são tão imensas,
a gruta tão estreita. A angústia
trespassa como fumo a mente, o coração de estalactite
da morte solta o seu tic-tac nas trevas.
    Quero fixar
o instante perdido da vida numa linha
gravada na pedra das paredes da gruta: um bisonte
com os cornos voltados para o destino,
    um jovem veado
que na madrugada seguiu a sua fêmea, mas agora
é um monte de ossos corroídos e embranquecidos
em torno de uma fogueira de caçadores.
    Quero pintar
com ocre, fuligem e sangue, pintar
a vida que brincava
como uma corçazinha pelas ventosas planícies
antes de se converter em comida, antes que
a beleza se afogasse em estômagos sem fundo.

Venta do norte. Ressoa
em gelos crescentes. Mas os homens estão em festa.
Satisfeitos sorrisos untados de gordura brilham no resplendor
do fogo assobia em volta de pesados espetos,
    as mulheres gritam
com vestígios de sangue dos dedos dos caçadores
sobre os peitos e os músculos – longe, sob a lua
os lobos anunciam o inverno.
    Quero pintar
com ocre, fuligem e sangue, pintar
a corçazinha que morreu a dançar
e morre diariamente
com uma desapiedada pedreneira no coração.

Hver liten, 1964


A FUGA É IMPOSSÍVEL

A fuga é impossível.
Tu és o teu próprio prisioneiro.
Através das portas do corpo só saem
gritos e lágrimas,
mucos e merda.
E sémen,
como uma via láctea de angústia
no universo da morte.

Isfuglen, 1970


ENTREGA A TUA ALMA

Entrega a tua alma ao vento,
deixa que os teus cavalos de trabalho pastem
na terra sem arar
enquanto as aves do céu recolhem
as tuas valiosas sementes. Então
talvez ocorra que
o Poema brote na tua vida
como espinhosas e vermelhas
flores de cardo.

Dagen er et brev, 1981


A MÃO DE DEUS

A minha pequena vida recôndita:
Uma chama de fósforo
que arde assustada
no oco da mão de Deus
durante as ventosas noites do mundo.

Sim, no assustado resplendor de mim mesmo
vi a palma da
mão de Deus.
Era dura e tosca,
gasta
como a mão de um colono
que uma tarde no seu campo
esmaga um grão de cevada para ver
se o miolo é bom.

Frosne tranebœr, 1984


Versão minha - © Amadeu Baptista



Hans Børli (1918-1989) nasceu em Eidskog. Trabalhou como lenhador a maior parte da sua vida. Estreou-se em 1945 e, um ano depois, publicou o romance Han som valte skogen (O que elegeu o bosque).