sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

João Ricardo Lopes


Registo a amabilidade do João Ricardo Lopes, que se quis lembrar de mim dedicando-me o seguinte poema:



OFÍCIO

para Amadeu Baptista

nos livros de poesia que li, da Noruega ao Lesoto
da Bolívia ao Nepal, sobressaem a lápis e a caneta
os versos sublinhados em dias de abundância
- tão pródigos que mal precisei de comer

é o que fica: traços no papel semelhantes a charcos
de água, poças de luz reverberando o belo
ou enchendo de amor as nossas mãos vazias
ou os nossos impolutos e ofuscados olhos de apóstolo

nos livros de poesia que leio, de agora e de sempre
dos vanguardistas, dos clássicos, encontro eu o ofício
mais árdua sobre a verdade mais solitária:
arriscar tudo, ou mais ainda, a troco de nada




Poema: © João Ricardo Lopes; foto acima (Luxemburgo): ©  Amadeu Baptista



João Ricardo Lopes (n. 1977) é pós-graduado em Teoria da Literatura, tendo sido bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian entre 1995 e 1999. Leciona a disciplina de Língua Portuguesa no ensino básico e secundário, tendo publicado cinco livros de poesia e um de crónicas. Leitor ávido de poesia das mais diversas proveniências no mundo, viu alguns dos seus poemas serem traduzidos para inglês, francês, servo-croata e castelhano. É autor do blog DIAS DESIGUAIS, em www.diasdesiguais.blogspot.com.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Uffe Harder




POEMAS DE UFFE HARDER



DESCULPE-ME, QUEM TRABALHA NA SUA FANTASIA?

Desculpe-me, quem trabalha na sua fantasia?
Uma coruja sai-te a voar do olho
Caem-te duas lágrimas dos olhos
Um sentimento estranho apodera-se de mim
O teu nome significa ‘corça’
mas os teu olhos são muito grandes

Hortênsias azuis e vermelhas atrás delas os teus olhos
Onde a felicidade abre caminho tropeçando
Sobre camas de hospital e cadáveres
Através de geadas e bosques

De súbito nos elevaremos pelos ares
Ou correremos em todas as direcções à vez

Udsiter, 1960




EM BICICLETA

Ciclistas apressados por caminhos desertos
fugazes penosamente fugazes evitando
coisas pressentimentos ideias fixas magros como
tubos de aço andaimes silenciosos rodas
sibilantes rádios faces petrificadas capacetes
caras pálidas rumos de rodas
e perdidos já de vista mas possíveis vislumbrados
em alguma parte da alba fria definições
palavras sensações talvez certeza
eternamente evasiva duvidosa certeza
o caminho como uma cinta perante eles cimento
e rasgando o espaço afiadas figuras
sibilantes fracções de pensamento de conhecimento uma palavra
um pressentimento visões uma por uma sempre uma coisa
perdida a favor da seguinte fracção de uma impossível
impossível sempre inacessível totalidade
de frouxas transformações formas infrequentes
mutantes evasivas turvas formas vislumbradas
na neblina matinal na chuva compacta na
bruma no calor tremulante o véu de fumo
as lágrimas a raiva o suor fugazes como reflexos
as chaminés girafas arrastadas pelo vento
desbaratadas assopradas pelos campos
e os pés sujeitos aos pedais
o caminho atrás deles como uma fita

Positiner, 1964



OBJECTO

Um círculo
e outro um pouco maior
e no meio uma asa mas
os lados que se inclinam para fora
também são importantes assim é que,
fundo asa lados e a
borda superior pela que se bebe
um líquido amarelo castanho avermelhado ou esverdeado
quente quase aéreo ou
mais frio mais pesado
nos lados formam-se linhas
rachaduras
todo ele ligeiramente branco
ou de alguma outra cor
está em cima de uma mesa ou transporta-se
pelo ar
Se se retirasse a taça
o chá ficaria a flutuar no espaço
ou melhor permaneceria
como um cone truncado
rodeado de ar por quase
todos os lados.

Sort på hvidt, 1968



TEMPO

O som de uma folha que cai à terra
chocando lentamente com outras folhas
e por fim aterra
como se não quisesse
expirar
mais que relutantemente
Uma concha de caracol
o cheiro a erva
Após isso um novo instante
e outro

Sort på hvidt, 1968



PROFUNDO SILÊNCIO COM NEVE

Golpes na tubagem da água
profundo silêncio com neve
que cai
diante do olho
profunda calma
neve como uma película que vai passando
trasladar os montões de neve na consciência
volta a cobrir de neve rapidamente.

Sort på hvidt, 1968



UMA COMPOSIÇÃO SOBRE ÍCARO

Dédalo, o técnico, construiu o Labirinto para o rei Minos em Creta.

Em vários idiomas as palavras que designam o artístico, engenhoso,
genial derivam do seu nome
e ainda se usam.

Mais tarde encarceraram-no nesse labirinto. Com ele estava
em cativeiro o seu filho Ícaro, um jovem adulto.

Minos, disse Dédalo (segundo o poeta), pode fechar mar e terra.
O céu está sempre aberto, esse será o caminho a tomar.
Minos governa sobre todas as coisas, excepto o ar.

Logo se puseram a trabalhar e Dédalo aconselhou:
     se voares demasiado baixo
a água do mar porá as penas tão pesadas que não poderás
    levantar os braços,
se demasiado alto, o sol derreterá a cera e a plumagem desprender-se-á.
E a rota: Samos, Delos e Paros,
Lebintos, Kalimnos, tão rica em mel.

Após a inquietação inicial
teve que deixar-se fascinar pela
luz, os reflexos do mar e a espuma
que tinha por baixo,
o jogo com os ventos e a possibilidade real
de mudar de altitude, do ar que o banhava,
o suave deslizamento
para cima com um ligeiro adejo,
um labirinto
de cintilações, quedas e elevações,
ligeireza e peso,
o sol a queimar-lhe as costas,
o rumor do sangue a zumbir-lhe nos ouvidos,
o suor a secar ao vento,
a madeixa de cabelo que não pode deixar para trás,
as ilhas que mudam constantemente de sítio,
as brancas montanhas a flutuar no mar,
um remoinho de nuvens, de luz, de água e céu,
o som do bater das asas no ar,
o pulsar do seu coração,

muito mais abaixo, Dédalo, mantendo uma linha recta.

À distância: um par de pontos, dois corpos com asas,
juntos no início, mas logo um deles
ascende numa curva, cada vez mais larga,
até que se precipita perpendicularmente no mar,
durante um instante o outro revoluteia sobre o lugar
e segue o seu voo, em linha recta, e desaparece.
Demasiado pesados e demasiado grandes para serem gaivotas,
e se tivessem sido deuses dificilmente teriam permitido que se
abatesse uma desgraça assim sobre eles
mas, quem sabe?
Assim é que algo indicaria que os que voavam eram seres humanos.

Que se passou pois com ele que não se afogou?

Sort på hvidt, 1968



DAQUI

Daqui
vigiamos
o eczema de violência que cobre o mundo
os movimentos dos exércitos
e a fome
algo do desespero que há no mundo
algo do sofrimento
algo da dor que estruge nos corpos
na carne queimada

Vigiamos
nada mais.

I disse dage, 1971



PALAVRAS

As palavras
não abundam demasiado
nem sequer
nesses lugares onde a qualquer
basta abrir a mão
e colhê-las
com frequência faltam as palavras
quando alguém delas precisa
se as encontra esporadicamente
em pequenos cachos
não estão prontas
quando se vão utilizar
não encaixam bem
onde deveriam encaixar
pode levá-las o vento
da despreocupação
quase parece como se
as palavras estivessem ali
por sua conta
é difícil manejar as palavras
mais difícil prescindir delas.

I disse dage, 1971



CAROÇOS DE FRUTA

Na gaveta
dois caroços
um negro
e outro castanho
que mais?
nada mais sólido
que dois caroços duros
que um dia
desaparecerão
ou atirarás pela janela
após o que
acaso nasça algo
sem relação alguma
contigo

Nu og da, 1978



O TEXTO ESTÁ IMÓVEL

O texto está imóvel
sonhando sob uma árvore
pouco depois
desaparece
metendo-se numa urtiga
afunda-se
na terra
reaparece
numa folha
há que o decifrar.

Nu og da, 1978



O MUNDO, COMO SE

Não é
como se este ano houvesse uma inusual
abundância de trevas?
Amontoam-se como se
houvesse placas de trevas
que se aparafusam umas sob as outras
como se incessantemente chegassem mais trevas
como que extraídas
de longínquos
centro produtores de trevas.

Todas estas trevas têm que significar algo
não deveria haver tantas trevas
de não significar alguma coisa
pelo chão há um rastro
de trevas a treva já
encheu todos os cantos da casa
prevejo tormentas de trevas
furacões de trevas
as trevas tratarão de rasgar as trevas
as novas trevas para haver sítio nas velhas
surgirão torvelinhos de trevas
que esmagarão as trevas
e lançarão avalanches de pedras sobre nós
chegarão rios torrenciais de trevas.

Então começarão a sério.

Até esse momento: mantém-te calmo
caminha como possas
pelos teus passadiços
pelos teus
tranquilos trilhos.

Verden som om, 1979




Versão minha - © Amadeu Baptista



Uffe Harder. Nasceu a 29 de Setembro de 1930 e faleceu a 25 de Abril de 2002. O seu livro de estreia data de 1954. Licenciado em Letras, foi crítico literário e colaborador de programas radiofónicos. Grande especialista de literatura francesa, africana, latino-americana e espanhola.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Velhos

Pus no facebook hoje e volto a pôr aqui:

OS VELHOS DO MEU PAÍS SÃO TRATADOS COMO PRISIONEIROS DE AUSCHIWTZ

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013




José Luís Tavares, poeta convidado



MEDITAÇÃO SOBRE O PAÍS DO BASALTO

É por certo a dor de cada dia
que faz o peso do homem sobre a terra
fá-lo irmão do fogo e das moventes nuvens
sem a apreensão que os maus fados
preconizam

oh quem pudesse de olhar posto
sobre o passado e o futuro dizer
tenho o tamanho do que vivi
para continuar bastam-me
estas mãos estes pés e estes olhos

para a gente que se espraia
sobre o chão da vida
eu tenho apenas estas pobres palavras
é pouco muito pouco
mas é nelas que enredado vivo

com seus ferros e seus gumes
e se não erro certos perfumes
que deixa a gente viva do meu país
caminhando pela vida acima
naturalmente
como quem dá os bons dias

ou ao fim da rua sobre o basalto
escuro faz um pobre desenho a giz
não me perguntem não sei o que diz
mas com altiva doçura transponho-o
de um salto como quem cruza
as fronteiras de um outro país

mas é aqui o meu país
canteiro corrido com ar de petiz
barro vermelho basalto negro
polidos com cuidados de aprendiz
da mansidão que cai sobre estes umbrais

avesso das bravias bravatas
dos que astuciosa e insidiosamente
atiçam o norte contra o sul 
e erguem a língua traiçoeira
como um corrimento fétido e alucinado

mas há o bafo limpo da gente sorridente
de mãos calosas e abraço quente
há as praias de sol silente
morrendo nos batentes do dia
mas a semente da vida planta na cerviz
do habitante erguido sobre a pedra da matriz

(e há sobretudo a promessa que reconhece
no fulgor dos campos entrado outubro)

mesmo quando alguém lhe diz
hoje morreu um homem
de seu nome chamado luiz
não morreu porque quis
mas porque a morte meretriz
o marcara com a sua bissectriz

então a tristeza essa velha actriz
baila sobre os campos do meu país
onde não cresce a flor de lis
mas aprende a gente a ser raiz
sob o vento vício veloz
sulcando o tempo buscando a foz

é isto  sim é isto o meu país
pátria pequena sem cláusulas minuciosas
para a servidão que lhe prometo
honradamente nas palavras
nem virtuoso nem iluminado
mas de face erguida e boné na mão
saudando a gente alevantada do meu país

© de José Luís Tavares







José Luiz Tavares nasceu a 10 de junho de 1967, Cabo Verde. Estudou literatura e filosofia em Lisboa, onde vive. Publicou cinco livros de poesia, tendo recebido vários prémios.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O Bosque Cintilante # 72

COM OS VOTOS DE UM 2013 EXCELENTE




Franz Liszt: Liebstratum

O coração que pulsa no vasto campo de calêndulas.
É pouco mais que um anjo, algo menos que uma lâmina,
figura jacente sobre a terra que está agora ígnea, amarela
e vermelha sob as mãos. Escuta-se
e é a voz perdida, a luz perdida na solenidade da pedra,
a liturgia onde paira o silêncio com a desmesura
de uma violentação, o choque entre duas partes de água e um pó evanescente. Ouvi-la
é como desocultar do voo um instrumento de abandono, rastro
que uma mancha azul cobre de ilegibilidade, certo rumor obscuro,
o brilho de um vidro negro. Ao longe, recorta-se o amor,
mais perto é esse caminho, a ilusão que o álcool
conserva dentro de um nome, a fita fusiforme
que os dedos prendem ao infinito como evocação,
encantamento, o chão onde um nome foi inscrito
e o corvo grita na imensidão da noite.


O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Lêdo Ivo 1924-2012

Acabo de ter notícia da morte de Lêdo Ivo, em Sevilha, no passado dia 23. Tive a felicidade de o conhecer pessoalmente nas Correntes de Escritas, em Fevereiro de 2009. Numa das cartas que teve a amabilidade de me escrever, referiu, apesar da nossa diferença de idades, «sermos amigos de infância».


Em 1995 publiquei no nº 640 do JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias este poema, em sua homenagem:





SOBRE UMA FOTOGRAFIA  DE LÊDO IVO

Tenho agora a imagem de Lêdo
no seu sobretudo galopante
e sei como me fala de uma raposa
de bronze, na estadia precária
desta vida.

Visito-o nas palavras estranhas,
essas mesmas que usa na navalha
diária para escrever
enquanto um manto de escuridão e luz
lhe ensombra e clarifica o rosto.

Ledo o vejo ainda entre cadelas
e putas
a sobrevoar aeroportos
e a perder-se de rua em rua
como um soldado
antes de celebrar o armistício
e desfraldar ao vento
a bandeira da pátria nunca vista.

Ele acompanha-me
e faz-me bem relê-lo,
Lêdo no coração
com a professora de estética
que bem poderia ser a causa próxima de uma paixão
se fosse a outra,
a que tomou café no mesmo café
onde eu escrevo agora
e se não chama Clitemnestra,
mas ocupa secretamente uma parte do meu quotidiano deslumbrado
por aquela saia curta e esse rosto inefável.

Olhe, Lêdo, há muito tempo que a poesia
me deslumbra, sobretudo a sua,
com esse acento trágico e efémero
a desafiar a noite
e a entregá-la ao sono e ao sonho
de ser sobrevivente de um naufrágio
que nunca aconteceu
mas vivemos juntos tantas vezes
que o oceano que nos separa
acaba por unir-nos
no rastro de tanta gente que caminha
connosco sobre as águas.


© de Amadeu Baptista



(Foto de Fevereiro de 2009, na Póvoa de Varzim.
Da esquerda para a direita: Lêdo Ivo, Amadeu Baptista e Eduardo Bettencourt Pinto)
 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O Bosque Cintilante # 71

COM OS VOTOS DE UM EXCELENTE NATAL



Ludwig van Beethoven: Allegro con brio, da Sinfonia No. 5 em dó menor

Quero que tudo seja unívoco e tangível.
Procuro que todas as coisas possuam o rumor da eficácia
e confluam num único momento de plural sinergia
para a exortação, a exaltação, o extremo.

Quero que tudo seja decisivo e incontornável como uma árvore.
Procuro que tudo siga o fluxo da imortalidade
e habite a única vontade possível,
a vontade dos homens.

Quero que tudo seja inexorável e autêntico.
Procuro que tudo se firme na infinidade,
a música e o triunfo,
a rebeldia e a luz.

Quero que tudo seja abrangente e divino.
Procuro que tudo seja simultaneamente plausível
e impossível, mais do que esperança, paixão,
mais que paixão, amor.


O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista