terça-feira, 20 de novembro de 2012

Poesia Incompleta

Lê-se o que se transcreve mais abaixo e o coração dá um salto de contentamento:


«Longe de estarem resolvidas as macacadas burocráticas, e, por isso mesmo, ainda coxa, a Poesia Incompleta reabre, agora na mui nobre e sempre leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, povoação assaz simpática e recheada de índios amantes de poesia.
O correio electrónico está aberto para qualquer pergunta e os envios por correio disponíveis.  

Para os habitantes do Rio, e turistada em busca de cachaça e Castro Alves, a realidade é um nadinha diferente: obedecendo a uma secretíssima combinação, as visitas serão possíveis.

A coisa começa segunda-feira.
Terça, aproveita-se já o feriado para uma pausa metafísica, mas cheia de boas intenções.»

Esteja lá onde estiver a Poesia Incompleta e/ou o Changuito, fica aqui a lembrança de um abraço grato. O endereço do blogue 'Poesia Incompleta', onde poderão encontrar o respectivo contacto, encontra-se na listagem da direita, entre os mais blogues que aqui se frequentam.



segunda-feira, 19 de novembro de 2012

António José Queiroz


António José Queiroz, poeta convidado


Três poemas

Praia da Boa Nova

Mar. Chuva. Ventania.
No denso canavial
(em ligeiro sobressalto)
o doce golpe das palavras,
a desordem dos corpos,
o caos das línguas
na preia-mar das bocas.
Labaredas de fogo
entre enganos e afectos.
No horizonte de neblina,
o voo insondável e branco
de uma gaivota.







Adeus

Penso em ti.
Há uma voz que se repercute
no coração do poema
com a cadência de um látego incansável.
Oiço os acordes obscuros
de uma música descompassada,
o rumor de um mar intranquilo.
Regressa à memória
o desastre de um desejo envelhecido.
Está frio.
Um tímido sol anuncia
o lento suicídio do Inverno.
Penso em ti,
na vertigem súbita das falésias,
no verde e húmido
olhar da despedida.







A divina imperfeição

Caminho sem pressa pelas veredas
de um labirinto que parece não ter fim.
Oiço o som dos meus passos solitários
e sinto as fragrâncias de um jardim que se perdeu.
Entre ser livre ou ser feliz, escolhi
a liberdade de construir outro destino.
Sei agora que a minha vocação 
é o silêncio íntegro das sementes
nos campos tranquilos e lavrados.
É tarde. Do pó vim, ao pó quero regressar,
liberto, enfim, da geometria cruel do labirinto.
Dia após dia, procuro a secreta passagem
para a morada longínqua do mundo inicial.
Se Deus projectou em mim a sua imagem
em mim negou a sua divina perfeição.





Fotos (ilustração dos poemas) Sintra: © de Amadeu Baptista

Poemas: © António José Queiroz


António José Queiroz nasceu em Vila Meã (Amarante), a 4 de Maio de 1954. É doutor em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Fundador e director das revistas literárias Cadernos do Tâmega (1989-1995), Anto (1997-2000) e Saudade (2001-2010), é um dos editores dos cadernos de poesia Pena Ventosa. Publicou dois livros de poesia – Memória do Silêncio (1989) e Os Meninos Outros Poemas (1993) – e colaborou em revistas literárias de Portugal, Espanha, França, Itália e Brasil. Alguns dos seus poemas estão traduzidos em castelhano, francês e italiano. É membro da Associação Portuguesa de Escritores e da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Negrume

Nunca é tarde para receber o que não se espera: razões várias fizeram com que os exemplares que me eram devidos da edição de 'Negrume' no Brasil, que data de 2007  (Lumme Editor, São Paulo, 2007), só esta semana me tivessem chegado à mão. Nem interessa referir a responsabilidade de tal coisa ter acontecido, mas assinalar e celebrar esta publicação aqui no blogue. Assim sendo, deixo aqui a reprodução da capa, o prefácio de autoria de Pedro Sena-Lino, a capa da edição portuguesa (&Etc, 2006) 
e um poema do livro:




DE UMA DUPLA VIOLÊNCIA
Prefácio a Negrume

                i.
                O poema não é da alma, mas da sua geografia.
Se o modernismo algo de território novo trouxe à humanidade foi a consolidação de que o poema é um mapa – do invisível, mas do abraço constituinte entre o desconhecido e o corpo que estruturam (um vário, e não já alma vs. corpo) o homem. Mais: a poesia ainda hoje enfrenta essa luta epistemológica consigo mesma, consequência do modernismo, como geografia do não-visto, pré-ciência, astronomia do corpo. Ninguém duvida hoje, passado o pórtico do século XXI, que o romance psicológico de Dostoievsky e Proust resgatou a psicologia como um dos eixos fundamentais da civilização; mas ainda não é possível nem muito menos claro que a poesia salve o invisível de dentro do homem e do universo como constituinte do que chamamos mundo. Essa luta, imemorial e agora renovada, ainda não terminou.

ii.
Donde o título desta colectânea de Amadeu Baptista (n. Porto, 1953): Negrume – essa é a aparência e mesmo a forma do invisível quando se lhe toca pela primeira vez.
Uma viagem breve pelos títulos dos seus dezasseis livros de poesia publicados até 2005 o demonstram: As Passagens Secretas, O Sossego da Luz, A Sombra Iluminada, Desenho de Luzes, Arte do Regresso, Sal Negro; uma permanência da sombra à volta da fala, e esta princípio genesíaco, dizendo para criar. Outro nome para criar: revelar, fazer a luz sobre o informe:

«Perscruta-o a incendiar o chão em volta
Com intensa brancura e um halo de frescura
exerce pelo fascínio um poder obscuro
para exemplo dos secretos animais
que, tal como tu, crescem sobre o dia
aos gritos para encontrar tudo o que há
na claridade omnipresente. Em chamas (...)».

Um poema defronta o silêncio na fala; bate com as suas sílabas de sombra no universo inteiro, convoca a memória ainda antes de ser corpo, e liga sentidos que qualquer coisa de anterior traz guardado no eixo da sintaxe e da semântica:

«Estou entregue a esta doença incurável, ignoro
o que adio por este estupefaciente, a vida,
a morte, por esta máscara sou talvez
definitivamente alheio à obediência das coisas,
o pássaro efémero. Desconheço
que reciprocidade aqui me recrimina, sombras,
papéis, o exercício de uma pulsão secreta
no perímetro ameaçador do coração e do medo.
A paixão perscruto pela sinuosidade do mundo,
o êxtase, a febre, este inefável despojo
sob a proximidade do perigo, a precaridade
uníssona, a comunicação com os anjos.»

Não é alheia à marca geracional em que Amadeu Baptista se funda o equilíbrio entre um modernismo já vazio de experiências e novidades, e a tentação do real quotidiano e urbano. A geração poética de oitenta (revelados nesses anos, e nascidos entre 1950 e 1960), em Portugal, viu explodir na poesia o estertor da última vanguarda, o experimentalismo, esvaziando à sua volta o modernismo construtor do século. Geração também reflectida pela assunção do romance como linguagem que melhor reflecte o Portugal pós-25 de Abril; que vê a poesia perder o carácter denunciador da situação sócio-política, e que apenas pode voltar a sátira sobre o quotidiano ou sobre o sujeito, num lirismo de destruição cujo exemplo mais marcante é precisamente a poesia de Amadeu Baptista. Outros nomes o acompanham geracionalmente, estes religando auto e hetero-ironia, como José Emílio Nelson, ou sobretudo Jorge de Sousa Braga ou Adília Lopes.

iii.
Este livro inédito age como síntese, mas muito mais como cume de uma obra. Amadeu Baptista não deixa senão que uma dupla violência percorra a estrada dos seus versos, entre a presença ausente de uma luz que entrevê na fala, no falo e no dia como contrário do visível; e uma doença do valor das palavras, do poema e dos símbolos que estruturam o ocidente:

«uma doença intrusa. preterido,
procuras perdurar no papel
ou no mármore. afogas-te
num tumulto e vais de escadaria

em escadaria buscar o teu lugar
no paraíso. a araucária serve
ao teu cansaço como um lugar de repouso
e de passagem, e hesitas,

entre tomar a poção sépia
que te estendem na colher
ou o caminho do abismo,

ali tão perto. uma doença irradiante
inscreve-se na pele como um aviso
que ninguém, nem tu, poderá ler.»

Presenças obsidiantes na sua obra são os caracteres dessa primeira violência, uma espécie de revelação falha(da): os corpos partidos, a gruta sensual, impermanente e assassina do ventre, o sentido para uma memória omnipresentemente destruidora, o caminho fragmentado e sempre verdadeiro ou falso das imagens e sombras que cruzam o quotidiano. Mas também a segunda violência do valor do passado (herança literária, biografia, do poema como lugar da memória), esse chão instável de passar um século, de combater o sem-sentido no sentido: poesia finissecular, que o negrume apenas vigia e prenuncia.

Pedro Sena-Lino








Do capítulo 'As Danações':


uma doença infecta, provocada
por balas tracejantes e episódios
retirados do acaso, ora domésticos,
sublinhados por discussões violentas,

ora fortuitos como um acidente
em que uma parte da nuca bate contra o chão
e o sangue corre, fervente, pelo passeio
em que um menino de bibe e sapatilhas pretas

leva as mãos aos ouvidos para não ter que ver
mais do que vê, insustentadamente.
um pavor de doença, que amplia

a legião de fantasmas que nos segue
e nos piores pesadelos admoesta
o sono leve com que a noite passa.

(in Negrume, Lisboa, & Etc, 2006)




 © Amadeu Baptista (poema e foto)

José Saramago

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Lassi Nummi



O VENTO DOS MONTES FAZ-ME PENSAR EM COISAS ESTRANHAS


Se o meu coração fosse tão velho como o jardim do imperador!

Se o meu coração fosse tão grande como a capital do governo do mandarim!

Então estaríamos sentados todos os dias, ela e eu,
                                   no jardim do meu coração
e cantaríamos loucas canções sobre um amor,
                                   jovem como um rebento de bambu
que a cada despedida do sol volta a nascer,
puro como bambu jovem, flexível como cana de bambu
e velho como o bosque de bambus
ou como o ancião solitário
                                    (ele sim é que é velho!)
que vive com os seus livros num templo em ruínas por detrás de Jiennah Tai,
que chamava velho a um bosque de bambu de dois anos
porque crescia numa terra muito antiga.

Sempre estenderia eu as mãos, de vez em quando assinalava
                                   como é grande o país do meu coração
e gritaria: “ Contempla esta província! Tudo, tudo isto é teu!”.

                                   Vuoripaimen, 1949



HOJE

A árvore tornou-se tão parecida com uma flor
que esquece a sua copa,
que esquece as suas raízes
quando sussurra:
“ Colhe-me, leva-me.
Quero falar
aos teus olhos. Quero encontrar alguém
ou morrer”.

A flor tornou-se igual a uma árvore.
Hoje - o dia como um milénio -
a flor enfloresceu, eleva para a luz
o seu intemporal
olhar:
“ Vem, ampara-te
a mim sussurrante formosura.”

                                   Taivaan ja maan merkit, 1956



COMO UM HOMEM QUE VOLTOU DE UMA GRANDE VIAGEM

Como um homem que voltou de uma grande viagem
que se deitou a dormir vencido pela noite e ao despertar de
    manhã
não reconhece imediatamente o lugar onde foi parar
e meio a dormir, desconcentrado, contempla objectos e cortinas,
    o contorno das portas
a luz mortiça do rectângulo das janelas
e sem contacto com o presente trata de procurar, recordar, e
trata de recordar onde deveria estar, aonde ir, a quem falar
e não ouve as vozes das crianças, partiram,
e procurando às cegas o lugar ao lado onde alguém respira pela
    noite
nota que está vazio
e enquanto rostos, lugares, quartos dão voltas na memória
procura entre eles este lugar, e intuindo apenas
o que procura, a imagem da sua mulher, a dos filhos
– e finalmente, atenazado por uma angústia mais profunda do que nuca
    entre estranhos
levanta a cabeça e contempla de perto este estranho lugar no mundo

assim levantei os olhos e procurei nos teus a nossa juventude comum
e vi a câmara deserta da velhice
cheia da luz severa dos invernos vindouros
que se demorou um instante e depois derreteu
no outono e na primavera,
no tremor da folhagem das primeiras bétulas
o alto silêncio do dia de verão, onde grita o mocho.

                                   Heti, melkein heti, 1980



ESTA COISA INSIGNIFICANTE

Na claridade do meio-dia
volto o meu olhar.
Na obscuridade da meia-noite
alongo a mão,
toco.
Pele contra pele:
aqui começa o homem.

                                   Kaksoiskuva, 1982




Na pele começa:
já não somos jovens.
A luz da cor da esperança, carnaval de desejos
desliza para longe.
O som do coração, forte, arrítmico
sente-se mais intenso do que antes.
Procura alguém que acredite já ter encontrado.
Procura o encontrado que crê já ter perdido.
Os áceres suspiram. Então,
                        como bem te lembras,
é a hora do amanhecer.
No horizonte adensa-se a luz
torna-se por momentos mais intensa.
Agora é a manhã do mundo.

                                   Kaksoiskuva, 1982



VISÃO DA NEVE PURA

Tinha adormecido um instante sem dúvida
à minha mesa: estavas ali
com o teu casaco de inverno, sob o nevão, luminosa, sorridente
como há duas décadas, como
há pouco esta manhã, quando te foste,
ou agora dentro de pouco à tarde quando regressares
não estavas cansada
sorrias-te luminosa
mais jovem? ou como agora, mas
dentro de nós voltava a existir a mesma leveza
que lá, naquele lugar a que quase
chegamos em direcção ao que durante todo o tempo
estivemos a caminho

e no arrojado mar do instante
desejava-te sentia a tua falta
a ti e à tua imagem, esta
familiaridade, eu futuro eu passado, esta
leveza:
imagem após imagem, a realidade com a dupla imagem
da realidade através da que
alguém sorri, és bela, alguém
és tu

                                   Kaksoiskuva, 1982



Durante muito tempo foste para mim
                        céu e terra e mar
Procuram-te todavia as minhas cegas ardentes amargas raízes
                        a ti
apesar de lhes negares
a água.

                                   Kaksoiskuva, 1982



Antes que o grande mar nos leve no seu abraço
quero-te uma vez mais.
Se nos obriga a separarmo-nos, se nos dilacera as células
da alma e do corpo,
quero que cada uma delas
cada cega partícula do corpo, cada
agitado movimento da alma
leve dentro de si este instante, te leve a ti,
imagem, recordação,
o mais belo,
o mais amargo.

                                   Kaksoikuva, 1982



DEPOIS, NAQUELA NOITE

Depois, naquela noite, quando quiseres amar-me à meia-noite,
acorda-me.
Os nossos lençóis estão frescos, brancos
como a neve no crepúsculo da paisagem.
Talvez u tenha esperado, talvez me tenha cansado de esperar, vem.
Não fiques paralisada por teres carregado o mundo como uma árvore negra, mas
vem. Acorda-me. Deixa-me despertar
através da velhice e da morte, e desperta-me tu,
vem como um nevão, funde-nos

com a unidade do mundo.
Que o nosso amor seja dubitativo e tagarela.
Através do mundo existe esse
amor, quando quiseres, desperta,
à meia-noite, quando
o mundo se entrega. Vem.

                                   Kaksoiskuva, 1982

Versão minha - © Amadeu Baptista



Lassi Nummi nasceu em Helsínquia, em 1928. Publicou o seu primeiro livro de poesia em 1949. Foi jornalista e crítico literário. Foi presidente da Associação Finlandesa de Escritores e do Pen Clube. Foi membro da comissão de tradução da Bíblia. Faleceu a 13 de Março deste ano.